| Nelson
Rodrigues o Eterno Retorno
Diálogos com Antunes Filho, Amália Zeitel e José
Ferro
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Antunes Filho revolucionando o teatro brasileiro
com Macunaíma e Nelson Rodrigues o Eterno Retorno
Ana
Lúcia Vasconcelos
Os críticos de teatro de São Paulo já estão
eufóricos com a noticia da montagem de Senhora dos Afogados
de Nelson Rodrigues com adaptação e direção
de Antunes Filho com o Grupo de Teatro Macunaíma para este ano
de 2008. Consideram o evento uma injeção de ânimo
para os que consideraram a temporada teatral de 2007 meio “morna”
com raros destaques. Mas as atividades do diretor e seu grupo CPT como
sempre estão intensas, especialmente neste ano em que comemoram
vinte anos de vida. Em janeiro de 2008 Antunes foi com A Pedra
do Reino, adaptação de duas obras de Ariano Suassuna
Romance D'a Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta
e a História d´O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão
- Ao Sol da Onça Caetana, montada em 2006, do SESC Anchieta
para a unidade de Santana. Aliás, este era um sonho antigo do diretor:
montar no teatro a obra do autor nordestino a que ele se refere nesta
entrevista e que se tornou realidade depois de vinte anos. No dia 15 de
fevereiro de 2008, estreou no mesmo SESC Consolação o segundo
texto criado pelo círculo de dramaturgia do Centro de Pesquisa
Teatral (CPT) de Antunes Filho: O Céu Cinco Minutos Antes
da Tempestade, da mineira Silvia Gomez, do mesmo grupo que apresentara
em 2004 o belo espetáculo Canto de Gregório.
Como na experiência anterior, Antunes participou do processo, ajudando
a burilar o texto, sugerindo cortes e caminhos, mas a direção
foi de Eric Lenate, outra jovem cria do CPT. E no dia 19 de janeiro estreou
no SESC Consolação a nona edição do Prêt-à-Porter
que marca o décimo aniversário do projeto, iniciado em 1998
como síntese da metodologia de interpretação desenvolvida
por ele.
Daí que a republicação dessas matérias que
falam da primeira montagem do Nelson Rodrigues pelo Antunes Filho no teatro,
pode ser esclarecedora do seu método de trabalho e da sua opção
pelo polêmico autor que revolucionou a dramaturgia brasileira. Escrevi
esta matéria- na verdade duas entrevistas: uma com o Antunes e
outra com dois de seus principais assessores Amália Zeitel, a época
mestra em teatro pela USP, e o ator, jornalista e assistente de direção
José Ferro, no final do ano de 1981 durante a temporada de
Nelson Rodrigues o Eterno Retorno, no Theatro São Pedro,
em São Paulo, sucesso de público e critica, para o Suplemento
Cultura de O Estado de São Paulo,
mas ela só foi publicada anos depois no Suplemento de Cultura
do Correio Popular de Campinas no dia 10 de
julho de 1983 e em 17 de julho de 1983 respectivamente.
Como
estou contando um pouco da história das entrevistas ou perfis que
estou republicando, por serem momentos importantes da cultura brasileira,
quero registrar o que aconteceu quando, depois de ter combinado a entrevista
com o Antunes e confirmado minha ida ao teatro para ver a peça
fiz uma coisa que nunca fiz na minha vida: cheguei atrasada no teatro.
Daí que quando finalmente entrei no saguão o Antunes estava
aflito me esperando e disse: mas a peça já começou!
E eu ali me desculpando, mas tudo isso rolando assim: enquanto ele falava
isso, ele me conduzia para a escadaria que levava para o balcão
e dizia para os funcionários do teatro: “arrumem um bom lugar
para a Ana Lúcia”. E eu fui subindo meio de costas, olhando
para ele, que apontava a mão na minha direção e repetia
esta frase: e afinal cheguei lá em cima... E os funcionários
também olhando a cena, e eu subindo e ele la embaixo e ninguém
fazia nada...quer dizer ninguém se abalava para me arranjar um
bom lugar.
E eu pensava: não precisa, eu mesmo me arranjo... Quer dizer, arranjo
um bom lugar. Mas eis que quando me viro, para finalmente entrar no teatro
vejo o Antunes lá em cima também. Imagino que subiu a escada
de quatro em quatro degraus porque a cena se passou conforme descrevi
e foi uma coisa super espontânea e só me dei conta depois
de um tempo. Porque uma coisa é certa: se você juntar uma
atriz ou não e um diretor ele faz uma cena mesmo, inda mais se
estivermos falando de Antunes Filho. E afinal ele me arranjou um lugar,
eu sentei e entrei em estado de graça, porque a peça era
deslumbrante como diria Hilda Hilst, em preto e branco, o palco nu, algumas
cadeiras, e três mesas, e um bando de atores maravilhosos.

Diretor de muitos sucessos: A Megera Domada, A Cozinha, Peer Gyint,
Em Família, Corpo a Corpo, Black Out, Quem Tem Medo de Virginia
Woolf, Antígone, Medéa, Prêt-a-Porter, Canto de Gregório,
A Pedra do Reino, entre dezenas de outras, Antunes Filho, 77
anos, fizera há cinco anos (em relação ao ano desta
entrevista) uma opção fundamental em sua carreira. Com a
montagem de Macunaíma, de Mário de Andrade,
em 1978, adaptação do Grupo Pau-Brasil
e Jacques Thieriot, direção de arte, cenografia e figurinos
de Naum Alves de Souza, rapsódia e direção musical
de Murilo Alvarenga, produção Grupo Pau Brasil com: Ângela
de Castro, Beto Ronchezel, Carlos Augusto Carvalho, Clarita Sampaio, Deivi
Rose, Guilherme Marback, Ilona Filet, Isa Kopelman, Jair Assumpção,
João Roberto Bonifácio, Luiz Henrique, Manfredo Bahia, Mirtes
Mesquita, Nazeli Bandeira, Salma Buzzar, Theodora Ribeiro, Whalmyr Barros,
Walter Portella, Wanda Kosmos, ele não apenas revolucionou sua
vida, mas foi aclamado por críticos da Europa e Estados Unidos
como criador de uma “nova onda” no teatro internacional.
Se em Macunaíma ele havia feito uma sondagem da
mitologia do homem rural brasileiro, em Nelson Rodrigues o Eterno
Retorno, Antunes e seu grupo perscrutaram as profundezas abissais
da alma, não apenas do homem urbano brasileiro, mas universal,
cósmico. Recusando a posição de ser apenas um diretor
que sabe fazer direitinho um espetáculo em quarenta dias, ele optou
por formar um grupo de atores dispostos não apenas a atuar, mas
estudar teatro.
E partiu para a ousadia total. Fez testes com mais de dois mil atores
para chegar a um primeiro grupo que montou Macunaíma
que fez absoluto sucesso no Brasil e no exterior. Na seqüência
optou pela montagem do segundo espetáculo que constituiria o repertório
do grupo. Houve uma debandada da maioria do elenco. Antunes fez novos
testes. E formou o Grupo de Teatro Macunaíma que
montou Nelson Rodrigues O Eterno Retorno e remontou Macunaíma.
O Eterno Retorno demorou um ano e meio para ser preparado.
Apresentado em 1981 no Brasil fez uma estréia internacional em
Berlim em 1982 e percorreu a Europa toda.
P.
- Macunaíma de Mário de Andrade foi um mergulho
na alma brasileira. Eterno Retorno seria a continuação
desta busca de entendimento da alma, não apenas brasileira, mas
humana, universal, cósmica, através da obra de Nelson Rodrigues,
impregnada de personagens míticos?Como surgiu a idéia deste
espetáculo?
Antunes
Filho - Até fins de 1963 os diretores, meus colegas, estavam
trabalhando numa dinâmica artística e cultural muito interessante.
Até fins de 1963, quer dizer até o Ato de Exceção.
Depois houve a debandada forçada ou optada. Dali começou
a correr um período em que a maioria dos artistas se refugiou nos
bares, descontente com a situação. Muitos se isolaram, outros
partiram para a televisão. Atravessamos uma fase, um período
muito negro, em termos de arte e cultura. E quem ficou, digamos assim,
ficou à deriva. Ficamos perdidos, fazendo televisão ou um
teatrinho de quarenta dias, que era um teatro de sobrevivência,
simplesmente. Mas nem por isso deixamos de fazer este teatro com amor.
Mesmo quando fazemos teatro por obrigação, fazemos com amor,
porque gostamos muito de teatro. Macunaíma foi
para mim um ponto de decisão. Ou eu reencontraria a fé plena
na arte, no teatro, ou então aboliria para sempre o teatro e iria
vender prego, qualquer coisa do gênero. Ou seria cara de pau mesmo
e partiria para um teatro dos quarenta dias, o super mercado. Então
o que eu consegui com Macunaíma foi convencer
a garotada tentar um espetáculo que tivesse um sentido, que devolvesse
a fé outra vez, na arte, num país que passava por um estado
de exceção, devido a Censura. E Macunaíma
deu certo. Macunaíma foi antes de tudo um ato
de fé. Já que os autores mais interessantes estavam proibidos,
as peça mais interessantes estavam proibidas, Mário de Andrade
e Macunaíma foi uma opção. Então
se buscou fazer este romance Macunaíma e através
de Macunaíma, se entender a gênese, o caráter
do homem do homem brasileiro.
P.
- E afinal Macunaíma foi um enorme sucesso?
Antunes - Foi. Deu tudo certo. Foi um sucesso extraordinário
aqui no Brasil e maior ainda no exterior. A critica la fora, tanto dos
Estados Unidos como da Europa jamais considerou Macunaíma
um espetáculo folclórico. Eles viram em Macunaíma
uma nova onda. Muitas pessoas da Broadway acharam que era uma lufada de
ar, era oxigênio que entrava na cidade. E isso acontecia em Macunaíma:
havia uma inovação não apenas em relação
ao Brasil, mas também no exterior: era uma nova onda, uma nouvelle
vague.
P. - Uma nova nouvelle vague?
Antunes - Uma nova nouvelle vague. Uma new nouvelle vague...
E tanto isso é verdade que tivemos muitos convites para fazer Macunaíma
na época: continuamos a receber até hoje convites para fazer
Macunaíma e estamos recusando todos, deixando
tudo para o ano que vem.
P. - É preciso esclarecer que o grupo que faz
atualmente o espetáculo Nelson Rodrigues O Eterno Retorno
não é o mesmo que fez Macunaíma.
Aquele grupo que se chamava Pau Brasil o que é
feito dele?
Antunes
- Bem, aquele grupo está espalhado por aí fazendo vários
trabalhos em teatro. Dispersou-se. No grupo atual que se chama Grupo
de Teatro Macunaíma que fez Eterno Retorno
e agora ensaia Romeu e Julieta e A Pedra do Reino,
do Suassuna, continuam alguns remanescentes daquele primeiro. Aconteceu
o seguinte: aquele grupo queria prosseguir fazendo Macunaíma.
E eu queria fazer outros trabalhos. Abrimos então um novo curso,
nos moldes daquele que chamou gente para fazer Macunaíma,
e de inicio eu pensava fazer o Guimarães Rosa que é um autor
que eu admiro muito. Porque eu não estava procurando peças
tradicionais. Eu queria novela, ou o grande escritor para que eu pudesse
me colocar em situação nova. Eu quero estar sempre em situação
nova e o romance, o poema não sendo teatro, me solicitam coisas
que eu não sei resolver aprioristicamente. Procuro estabelecer
às vezes até uma certa confusão.
P.
- A sabedoria da insegurança?
Antunes - É eu procuro uma certa insegurança
para tentar quebrar aquilo que sei permanentemente, para tentar alguma
coisa nova.É tirar de dentro de mim , isto eu sempre procurei fazer,
você pode achar que um salto no escuro que eu dou, mas é
isso, eu me coloco em situação sempre a cada espetáculo
que eu faça.E nem sei se vai dar certo.Macunaíma
por exemplo eu não dormia um mês antes da estréia.Não
dormia mais.Pensava sempre que não ia dar certo.
P.
- Mas não havia la no fundo uma intuição que a coisa
ia funcionar?
Antunes - Sim, alguma luz me dizia que sim. Mas eu não
tive certeza até o final, até a estréia. Como também
este espetáculo do Nelson Rodrigues que eu não sabia o que
ia dar. Então se colocar em situação é isso:
porque se eu levo tempo para fazer um espetáculo, não e
verdade? Não é uma análise do texto, não é
nada disso, é para derrubar tudo o que eu sei o dejá
vu. É para tentar esquecer tudo o que eu sei. Eu sempre
procuro ensaiar de uma maneira diferente. Nunca aposto num texto ou numa
idéia que quero fazer de uma maneira já convencional comigo
mesmo, um caminho já rastreado. Procuro sempre criar dificuldades
para mim mesmo. Gosto de trabalhar com espaços diferentes, trabalhar
sem nada. É uma espécie de estimulo para fazer emergir aquilo
que não está nem no meu consciente nem no subconsciente.
Que está muito mais abaixo. Porque a verdade é esta: eu
sei facilmente fazer uma peça. Sou capaz de montar num dia uma
peça convencional. Mas isso não me interessa. O meu papel
eu acho, não é mais fazer um espetáculo. É
dar uma resposta a mim mesmo, aos outros seres humanos e principalmente
como ser social, eu tenho este compromisso com o povo brasileiro: abrir
trilhas que nem sei que trilhas são essas, elaboradas no campo
da arte. Quando se pensou em fazer o Nelson Rodrigues se pensou nisso.
Era uma continuação da busca inicial, do entendimento, do
caráter, da alma do homem, dos medos, do caráter como medo,
não é? Como anelo, e como objetivo e como estrutura, como
embasamento.
P.
- Como se deu a junção Nelson Rodrigues-Mircea
Eliade que afinal resultou neste Eterno Retorno?
Antunes - Bem, a junção Mircea Eliade foi
casual. Primeiro quando fazíamos Macunaíma
no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, um dia, na volta do
almoço eu vi um livro Ferreiros e Alquimistas,
do Mircea. Me interessei....
P.
- Dizem que o acaso não existe. Ao contrário há uma
razão nas coincidências...
Antunes - Exatamente, havia uma razão nesta coincidência.
E eu comprei este livro, comecei a ler e gostei. Mas deixei de lado. Depois,
quando se apresentou a opção de fazer o Nelson Rodrigues,
depois de termos desistido de fazer Guimarães Rosa, Oswald de Andrade,
depois da sugestão do Jacó Guinsburg de se fazer alguma
coisa urbana e não mais uma coisa rural, cheguei a conclusão
que seria muito bom. Porque era difícil para mim sair daquelas
imagens de Macunaíma que eram muito fortes.Teria
que me libertar daquilo tudo.E era uma situação nova, fazer
um Nelson Rodrigues, que é um autor que admiro muito, já
era uma situação nova que poderia ser bom, para sair do
campo, da mata, da Amazônia, e tentar a radiografia da cidade.Eu
falei,ninguém melhor que o Nelson Rodrigues.Mas todas as vezes
que eu tinha feito o Nelson Rodrigues: Bonitinha Mais Ordinária,
Vestido de Noiva, na televisão que foi bom, A Falecida
já tinha feito na Escola de Arte Dramática, sempre eu procurava
entrar no Nelson Rodrigues por aspectos sociológicos que não
me convenciam.E por outro lado quando eu ia ver o Nelson Rodrigues por
ai em outros espetáculos , filmes, ficavam muito no contingente.E
não era por ali.Foi então que eu me voltei para o Mircea
Eliade, Jung e vi que ali estava a solução do Nelson Rodrigues.Era
uma força de terra, uma força quase que ancestral, quase
que cósmica que tem o Nelson Rodrigues.
P.
- Você disse a pouco que considerava o fato do Nelson Rodrigues
ser nordestino, fundamental para ele ter feito a obra que fez. Gostaria
que explicasse isso.
Antunes - Eu acho isso, que se ele não tivesse
nascido la no Nordeste, embora tivesse vivido desde a infância no
Rio de Janeiro, se ele fosse simplesmente carioca ou simplesmente paulista,
jamais escreveria esta obra deste jeito. Só uma pessoa la de cima,
não sei com que raio de convívio, com que raio de cheiro,
com que raio de terra, poderia fazer esta obra que eu sinto que tem até
o homem das cavernas. Tem o primeiro homem, tem o segundo, tem o terceiro
homem. Tem a Idade Heróica, tem a Idade dos Homens. Eu sinto que
é uma força que é muito mais o inconsciente pessoal
que está na obra do Nelson Rodrigues na linha do Freud que me arrepia,
e que tem me preocupado muito. Esta força que nós trazemos
este potencial que a gente traz, desta energia cósmica que todos
nós somos (risadas). Não entrei em nenhuma seita não,
não entrei em nenhuma religião. Continuo materialista histórico,
mas com uma visão mais ampla da problemática do destino
humano e dos destinos da humanidade. Então o carioquismo do Nelson
Rodrigues é contingente, é tudo contingente. O imanente
é uma outra coisa que tem dentro dele. É uma coisa muito
forte. É uma força que eu procuro entender dentro de mim
que força é essa.
P.-
Apesar de ter revolucionado a dramaturgia brasileira, Nelson Rodrigues
era uma pessoa extremamente controvertida não é? A ponto
de ele mesmo dizer ser um reacionário. Enfim, por atitudes que
se chocavam, pelo menos na superfície com a sua obra, ele foi amado
e execrado a um só tempo. Muitos o consideravam um moralista. Ainda
que a resposta a esta pergunta esteja no seu espetáculo, fale sobre
isso.
Antunes - Veja só. Um crítico já
disse que o Nelson Rodrigues é um rio e que se esse rio transborda
e inunda e extermina as plantações em torno, o gado, não
posso dizer que o rio é imoral ou amoral. Eu não tenho critério
moral para este rio. É uma força cega da na natureza e não
há nada a fazer. É uma força da natureza. É
isso que eu considero o Nelson: uma força que ele tem que ele traz
dentro dos escritos, uma força brutal de alta carga e que provoca
muito a minha mente. É este estimulo do Nelson, assistindo o espetáculo
você vê, eu fui cair em Vico, Jean Baptista Vico, que eu gosto
muito. Então através da palavra do Nelson, através
dos “áureos passos” e das dignidades do Vico que foi
até a Bíblia de uma certa juventude ai depois de 1968, e
que tem uma interpretação da história muito furada,
mas absolutamente genial, nós chegamos aos ideogramas, a escrita
egípcia.Enfim chegamos a isso porque ele fala do nascimento da
poesia, do nascimento da palavra do homem.O homem em busca da denominação,
este ato maravilhoso, quase que divino.É a função
da poesia:denominar as coisas.E eu acho que o Nelson é antes de
tudo um poeta, por este poder de síntese que ele tem.Ele é
tão preciso com a palavra que a simples leitura sua já me
comove.Para mim a própria linguagem dele é ancestral.Ele
consegue dar uma aura naquilo, tem um poder de observação
tão grande que eu o considero um poeta só por isso.Eu não
teria medo algum de fazer este espetáculo-que faço com um
palco nu, vinte cadeiras e três mesas- numa caverna ou no alto de
uma montanha,ou no meio de um prado, tamanha é a força que
tem nos personagens de Nelson Rodrigues.

P. - Você acredita com o Nelson Rodrigues e o Mircea
Eliade que os nossos atos cotidianos têm relação com
os ciclos vitais da humanidade? Como se coloca diante da vida e da morte?
Acredita na transcendência, na eternidade?
Antunes - Eu acredito em energia sabe? Acredito que sejamos
energia cósmica que depois se transformam em células e outras
coisas permanentemente. Transformações infinitas. Se a humanidade
é cíclica ou não, também não me preocupa.
É apenas uma interpretação do Mircea e que também
a gente encontra no Nelson Rodrigues e isso não quer dizer que
o próprio Nelson acreditasse nela. É uma idéia como
outra qualquer. Inclusive isso de encarnação, reencarnação
é uma idéia encantadora. Mas o homem pode ser cósmico
sem precisar reencarnar nunca mais. Ele pode ser mil coisas ou pode ser
a mesma coisa. O que importa é que nós somos energia cósmica,
e muito poderosa e que ela está em permanente transmutação.
Esta energia vai se alterando, vai se modificando. É quase o processo
da fotossíntese. Agora, dizer dos meus sonhos, dos meus pesadelos,
das minhas ansiedades tudo isso considero menor. O fundamental é
que comecei a entender o significado de ser cósmico e em conseqüência
passei a aceitar a morte. O que não quer dizer que eu não
dê um grande grito de pavor quando ela chegar. Mas ainda estou em
transito, estou me iniciando ainda. (rindo).
P.-Você reclamou a falta de publico no espetáculo.
Como se explica que o publico não venha ver o maior dramaturgo
nacional dirigido pelo mais inovador diretor brasileiro, num espetáculo
que teve a maior unanimidade de critica dos últimos tempos?
Antunes - Bem em parte a culpa é nossa mesmo.
Nós somos pobres e não pudemos fazer a promoção
do espetáculo. Quer dizer, nós somos culpados porque somos
pobres. Se fossemos ricos não teríamos culpa alguma. Você
vê o seguinte; a critica a este espetáculo foi unânime.
Foi mil vezes melhor que a critica de Macunaíma.
Então eu esperava isso: sendo a critica tão maravilhosa,
unânime eu esperava que logo no segundo dia, já viesse todo
mundo correndo. Mas existe uma coisa terrível que é o preconceito.
Há um preconceito contra o Nelson Rodrigues. Não por aquilo
que ele é como autor de teatro, mas por tudo aquilo que fizeram
do Nelson Rodrigues. Se você me disser vamos ver um filme do Nelson
Rodrigues ou uma peça de teatro, eu também não vou.
Eu tenho medo de ir. Eu preciso estar convencido que deva ir. E acho que
o publico está nesta mesma fase, de se convencer para ir ver o
Nelson. Eles acham que vão ver o que já viram. Mas a surpresa
é a seguinte: quando apresentamos O Eterno Retorno,
era incrível a reação da platéia. Algumas
pessoas vêm falar comigo e dizem: puxa, eu nunca imaginei que o
Nelson Rodrigues fosse isso. Então há uma coisa importante
acontecendo: as pessoas estão descobrindo o Nelson Rodrigues. É
preciso dar um tempo para que o público venha ver e tenha uma visão
correta e afinal decida derrubar o preconceito.
P. - Á saída do teatro, conversando com
Paulo Autran, Karin Rodrigues e Everton de Castro chegamos a um consenso:
seus atores são maravilhosos mas também são trabalhados
de uma forma inusitada.Qual é o segredo?
Antunes - O que eu quero dos meus atores?O que eu quero
desses jovens? Formá-los. Quero que eles aprendam logo, dou os
livros todos. Tem livro que a gente vai procurar junto. Porque quero que
haja uma troca e eles cresçam. Eu os faço, mas eles me fazem.
Amanhã eu os faço e eles me fazem novamente. Porque no fundo
o que quero são companheiros artistas. Porque você vê
como está estagnada a arte brasileira: o cinema, o teatro, as artes
plásticas. Lógico que tudo isso é resultado deste
estado de exceção em que vivemos. Daí que é
preciso ter muito fôlego neste momento para poder sobreviver e tentar
colocar alguma coisa para os outros. Então eu quero que os meus
atores com o tempo cresçam e que eles sejam artistas. Eu odeio
atores, quero que eles sejam artistas, quero quer eles encaminhem novas
propostas de arte. Porque a arte como você sabe, é uma forma
de conhecimento, talvez a mais avançada forma de conhecimento que
tem a humanidade. Talvez seja por isso que ninguém pode prescindir
desta porcaria chamada arte. Mas o que sabe o povo brasileiro acerca disso?Nada.
A maioria pensa que arte é fazer micagem, desenhar qualquer coisa.
Não, é um processo maluco de conhecimento. a vanguarda espiritual
de um povo está sempre nos seus artistas,esta é que é
a verdade.São eles que estão encaminhando a sociedade para
soluções.São eles os bens imateriais que logo se
tornarão bens materiais. É isso que precisa ser visto, porque
até agora há um certo desprezo pela arte.Acabou este tempo.Você
vê o nosso grupo.Ficávamos das oito da manhã as dez
da noite no teatro.O artista hoje em dia tem que levantar cedo,tem que
cuidar da saúde, tem que comer muito bem e pensar muito bem.
P.- E durante a montagem do espetáculo? Como era
a rotina de vocês?
Antunes - Olha a verdade é a seguinte: a gente
passou meses e meses sem querer sair la fora, de tão bom que era
aqui dentro, tão maravilhoso. Então a gente praticamente
se fechou no teatro. Só na fizemos comunidade porque a gente não
acredita mais nisso, não é? Foi uma coisa que trouxe algum
desencanto em algumas áreas (risadas). Mas o nosso convívio
é muito salutar. Tem regra no jogo. Tem algumas regras, não
é, para que fique sociável. Só para você ter
uma idéia, nós fizemos dois mil testes. Contava muito o
talento, mas o caráter era fundamental para se trabalhar. Então
foi maravilhoso durante muito tempo. Depois na época da estréia
começa a ficar um pouco chato, porque começa a se fazer
técnica,começa a entrar gente no teatro, vem o homem da
venda, vem o homem dos refletores, o homem da bilheteria,começam
a chegar as encomendas, os cartazes, a gente fica meio perturbado, neste
período.Então você veja: o pessoal trabalhava doze
horas, treze horas por dia.È importante dizer também que
ninguém explorava ninguém, porque aqui não tem empresário.Eles
formaram uma cooperativa e são os donos de tudo que tem aqui. Eu
só tenho uma percentagem da bilheteria. Agora uma coisa que eu
exploro deles é o Zeit Geist. Isso eu exploro mesmo, a espiritualidade
deles, a sensibilidade deles eu exploro assim como eles me exploram, É
uma troca e todos sabem disso. Estamos aqui trocando experiência,
ter mais conhecimento da matéria. Mas sinto também um carinho
muito grande deles para comigo. Mesmo que a gente brigue um dia, eu sei
que não vou perder este carinho. Mas gostaria que a gente ficasse
sempre junto, não fossemos apenas companheiros de viagem.
P. - Você acha que isso pode acontecer?Este grupo
permanecer junto?
Antunes-Acho sim, que eles podem se tornar uma dos mais
importantes grupos. Eles têm consciência disso. É verdade
que eles são precários ainda, a maioria está apenas
começando, mas a consciência que eles têm dos problemas
é muito grande. Falta ainda a técnica para resolver os problemas
que nós, com mais idade já temos. E de vez em quando eu
dou o instrumento para ajudar. Mas eles também têm que descobrir
por si, porque é importante também esta caminhada solitária.
Cada artista tem que ser uma impressão digital. Um não pode
ser igual ao outro. Porque quanto mais individual ele for, quanto mais
especial ele for, mais coletivo ele se tornará. Mais importante
à coletividade ele será.
P.- Sei que o grupo está remontando Macunaíma.
Isso significa que quando vocês viajarem, ano que vem para a Europa,
vai levar dois espetáculos? Há um roteiro para esta viagem
ao exterior, já preparado?
Antunes-A coisa é a seguinte: nós tivemos
muitos convites para apresentar Macunaíma a principio.
Todo mundo quer Macunaíma. Podemos ficar um ano
em cartaz com Macunaíma, não só
na Alemanha, mas na Europa inteira. E ganhando muito dinheiro, porque
a gente lota tranquilamente Macunaíma na Europa.
Alemanha então é uma loucura. A gente vai la e lota qualquer
teatro. Ficamos um mês la e onde a gente ia era um sucesso. Na França
deram um circo para gente, enquanto companhias profissionais tinham pequenas
salas e lotava diariamente. Então Macunaíma
teve uma repercussão muito grande. E para este espetáculo
aqui - O Eterno Retorno, já temos muitos convites
para a Europa, vamos fazer uma grande turnê ano que vem. A rigor,
este ano, nós deveríamos estar na Europa, a gente precisava
estar em Köhl agora, tínhamos compromisso na Holanda. Mas
adiamos tudo para o ano que vem. Mais ainda este ano tem dois festivais
que a gente não pode deixar de fazer. Um deles é o Festival
de Caracas.
P.- Vocês ficam o ano de 1982 inteiro na Europa?
Antunes-Não, a gente volta para fazer no Brasil.
Porque você não sabe o que significou Macunaíma
por estes lugares que nunca vai uma peça, aonde as pessoas não
vêm teatro há anos. Sabe o que eles viam? Peças papa-níqueis,
gente ilustre da televisão que já faz televisão para
ganhar dinheiro e ainda vai fazer teatro para ganhar dinheiro. Se pelo
menos não acendessem uma vela para Deus e outra para o diabo...
É incrível que alguns companheiros nossos façam isso.
P.- Há uma discussão sobre função
e objetivo da arte sobre a qual já se falou e escreveu muitíssimo
que é a questão da arte pela arte versus arte engajada.Qual
é a sua opinião sobre isso?
Antunes - Veja bem. A gente não pode fazer modismos.
A inovação pela inovação é apenas oportunismo
safado. Mas se você começar a trabalhar com as formas e ficar
nisso, ai vira arte pela arte, forma pela forma. Mas eu não estou
mais discutindo isso, embora ache que a linguagem é uma coisa a
ser discutida sempre. A literatura se resolve com a própria literatura.
É quase metalinguagem. Mas eu não estou falando disso. Estou
falando das formas para se discutir a linguagem do teatro, o sentido e
o destino do teatro. Mas na verdade, quando eu fiz Macunaíma
e depois Nelson Rodrigues O Eterno Retorno estou discutindo
conceitos, eqüidistâncias, essências da realidade brasileira.
Cada conteúdo tem sua forma adequada. Se eu altero a forma e não
acerto o conteúdo estou alterando na verdade o conteúdo.
Então, é preciso estudar muito, estudar muita técnica,
conhecer forma. Porque se você tem uma bela idéia na cabeça,
mas não for preciso na forma, aquele conteúdo passa a ser
justamente o contrário daquilo que você imaginou. Quanto
à arte engajada acho eu, todos nós temos uma ideologia e
esta ideologia deve transparecer naquilo que pensamos e fazemos. Você
não precisa dizer o que pensa na obra de arte. Ela é aquilo
que você pensa, ela transparece. Mesmo quando se diz que não
se tem ideologia alguma você está servindo a uma ideologia.
É preciso tomar muito cuidado. Você sempre está a
serviço de um lado ou de outro. A tua omissão é dinâmica,
é computada. Mas a arte didática não existe. Teatro
didático é apenas uma técnica educacional. Não
é arte. Então como há professores nas escolas, há
diretores de teatro professores. Bem vindos os professores, mas eu, por
exemplo, não sou bom professor. Acho que posso dar mais como artista.
Eu quero dar minha contribuição social através do
meu trabalho. Se não conseguir abrir novos caminhos a precariedade
é minha. Mas estou cheio de vontade de dar uma contribuição
rica ao homem. Cada um sabe do seu caminho e eu sei do meu. Claro que
tenho a minha ideologia e ela está nos meus espetáculos.
Se ela não transparece ou o leitor não é bom, ou
eu que não sou bom. Agora dogma eu não dou para ninguém.
Eu gosto da dialética, gosto de discutir as coisas. Meu processo
de entendimento das coisas é sempre o diálogo e nunca uma
fórmula. Eu não tenho fórmulas. Vivo inquieto e sou
inquieto. Não tenho chaves, não tenho soluções.
Procuro analisar e fazer o que minha pobre cabeça consegue fazer.
Só isso.
Amália
Zeitel e José Ferro falam sobre os
objetivos e método de trabalho
ALV
Juntando o mito do Eterno Retorno estudado por Mircea Eliade, a teoria
dos arquétipos de Jung e quatro peças de Nelson Rodrigues:
Beijo no Asfalto, Os Sete Gatinhos, Toda Nudez Será Castigada
e Álbum de Família, o Grupo de Teatro Macunaíma
trabalhou durante dezoito meses sob orientação de Antunes
Filho para compor o espetáculo que seguramente ficará na
história do teatro brasileiro como um dos mais importantes de todos
os tempos.
“O “extraordinário em Nelson Rodrigues”, escreve
Valderez Cardoso Gomes num dos textos editado pelo grupo,“ foi sua
maneira impar de retratar o Brasil, sem deixar de desvendar o Universo.
A essência dos seus escritos é sempre a mesma: o enfoque
obsessivo do ser humano além das máscaras sociais, até
atingir suas paixões primitivas, seus impulsos genuínos,
geradores de seus projetos quiméricos, seus sonhos e visões
fantasmagóricas expressos em seu comportamento original.”.
Segundo Valderez a ousadia de Nelson Rodrigues foi devassar “o ultimo
dos seres humanos, radiografar a sociedade de seu tempo e mostrar a vida
como ela é, acima dos conceitos do bem e do mal e da moral convencional
de seu tempo. Por ser dupla a dimensão contida em toda a sua obra:
essencialmente carioca, suburbana, brasileira e ao mesmo tempo primitiva,
universal, cosmogônica, somente o enfoque mítico justificaria
a sua abordagem, pois suas peças por suas características
autenticamente nacionais, humanas, e cósmicas, reproduzem em si
a Comédia Humana Mítica Brasileira.”
Nesta entrevista Amália Zeitel mestra em teatro pela USP e José
Ferro, ator e jornalista, falam sobre os objetivos e o método de
trabalho do grupo durante a montagem do espetáculo.
P.
- A montagem de Nelson Rodrigues O Eterno Retorno
foi uma tentativa de lançar uma nova luz sobre a obra de Nelson
Rodrigues?
Amália Zeitel - O que nos conhecemos do Antunes
hoje é que ele vê o Nelson Rodrigues de uma maneira especial.
Então ele quis trazer para o palco um Nelson diferente, inclusive
reabilitar a imagem do Nelson - o Nelson poeta, o Nelson grande dramaturgo.
Acho que a palavra é esta: a nossa proposta foi ressuscitar o Nelson
Rodrigues. Porque o Nelson Rodrigues é a - histórico, a
– político.
P.
- Por que a opção por quatro peças e não uma
como se usa convencionalmente?
Amália - Quando você faz uma peça
de um autor se tem uma visão muito limitada e dentro de uma especificidade.
Mesmo que você veja ali os arquétipos, mesmo que você
veja o inconsciente coletivo sempre se tem um “individual”,
um pequeno mundo, um “microcosmo”. Já quando se analisa
a obra de um autor você tem a dimensão deste autor muito
magnificada. E se passa a perceber a obra dele com uma outra grandeza.
Pode-se extrair as estruturas fundamentais porque são obsessões
que se repetem e se começa a perceber que subjacente a obra é
como se houvesse um pólo de imantação: o autor vai
para aquilo .Você tem como que um “imã que atrai a
limalha de ferro ”, aliás a frase não é minha
e do Morón.
P. - A imagem é ótima...
Amália - Inclusive isso é inconsciente
porque ele obedece a seus impulsos. Nelson, não tenho duvidas,
é um intuitivo.
P.
- Beijo no Asfalto, Os Sete Gatinhos, Toda Nudez será castigada
e Álbum de Família. Qual é o fio que une
estas quatro peças e que determinou a escolha para compor este
espetáculo?
Amália - Bem, antes de qualquer coisa eu quero
dizer que foram lidas as dezessete peças do Nelson Rodrigues que
afinal parece que são dezenove sendo que ele mesmo fala em vinte.
De inicio se pesquisou as que tinham preferência do elenco, mas
em função também de alguns pressupostos que seriam
necessários: a funcionalidade do espetáculo, aqueles que
expressassem melhor o mundo do Nelson Rodrigues. Apesar de se ter partido
já de algumas coisas conhecidas, se foi descobrindo no decorrer
do trabalho. Havia dois princípios básicos: do arquétipo
ou inconsciente coletivo do Jung e o Mito do Eterno Retorno do Mircea
Eliade. Porque o Mircea Eliade descreve um tipo de comportamento do homem
arcaico, do homem primitivo, que vivia em contato mais direto com a natureza
e cujo sistema de vida era cíclico. Quer dizer, eles não
estavam fazendo uma história que se renovava, mas estavam repetindo
padrões, modelos. Repetiam o mesmo gesto primeiro do herói
ou do seu deus: o casamento, a colheita, a erogamia, ou seja, união
do Céu com a Terra, as orgias que precediam as colheitas. E neste
aspecto a gente percebe uma coerência muito grande no Nelson porque
ele é um repetitivo. É como se tivessem inventado para estudar
no Nelson Rodrigues. E a partir disso a gente pode dizer que o homem do
Nelson Rodrigues é a histórico. Você não vê
nos personagens do Nelson uma atuação histórica,
social e política. Você vê o arquétipo, o comportamento
mítico. Embora se veja uma pobreza social, por exemplo: um funcionário
com um misero salário que prostitui as filhas na peça Os
Sete Gatinhos, peça que na verdade não
quer dizer nada disso-é uma metáfora.A prostituição
é uma maneira de vender o corpo.Eu me pergunto qual é o
ser humano que em nome de um ideal não vende a alma todos os dias?
A gente vive fazendo barganhas.
P.
- E quais seriam digamos as grandes obsessões que se repetem
na obra de Nelson Rodrigues. Você falou a pouco do papel desempenhado
pelas orgias, pelo caos que leva a mudanças na vida dos personagens.
Fale sobre isso.
Amália - Eu diria que em geral seus personagens
não têm a casca da civilização, ou melhor,
quando eles tem é o extremo neurótico, é o contraponto
do homem paixão, o contraponto do trágico. O Nelson mostra
um homem incapaz de fazer uma síntese, incapaz de ter bom senso,
incapaz de ter equilíbrio. Em suma: seus personagens estão
sempre na turbulência de suas paixões, ou no extremo oposto
quando então é um homem castrado, impotente que afinal
é um comportamento de defesa na medida em que ele tem pavor do
seu lado obscuro, sombrio. Uma outra constante na obra do Nelson: acaba
acontecendo sempre um caos, uma orgia, que termina por transformar tudo.
Veja o papel do canalha na obra do Nelson Rodrigues. Ele tem uma galeria
de pulhas, de canalhas. O que o canalha faz? Ele manobra. Em
Toda Nudez Será Castigada, o canalha faz o irmão
casar com uma prostituta para se vingar dela através das tias
carolas que a tratam mal. Há ainda uma morte ou mortes nas peças
do Nelson, que são o preço da renovação.
Da morte vem a vida. O castigo para ele é a própria vida:
o purgatório da vida. Isso porque o Nelson acredita na ressurreição.
Se observarmos bem a obra do Nelson há sempre uma mulher grávida
que ia fazer um aborto e acaba não fazendo porque alguém
morreu. Veja o Beijo no Asfalto: quem se lembra que
a mulher ia fazer um aborto? E no Álbum de Família?
Senhorinha vai embora com o filho enquanto o pai morre. É o ciclo
da vida que tem que continuar. E nos Sete Gatinhos?
O pai de Silene morre e o Bibelot que é o pai da criança
morre também. O Nelson mata sistematicamente os pais. Ele realiza
o Édipo na sua obra. Na peça Toda Nudez Será
Castigada o filho vai embora com o ladrão boliviano.
E o ladrão boliviano tem 33 anos e é lindo. Agora interessante
que seja homossexual e ai temos um filão maravilhoso na obra
do Nelson.
P.
- O incesto parece ser uma outra constante na obra do Nelson não?O
que vocês estudaram sobre isso?
Amália-Me parece que o Nelson é ele próprio um
demiurgo. Porque ele faz homem com homem, mulher com mulher, pai com
filho, filho com mãe. Acredito que há coisas intuitivas
de incesto nele, mas é quase como fusões hermafroditas
ou homofroditas. Ele coloca várias configurações
que o ser humano poderia ter na sua aspiração de absoluto.
Eu sendo meio homem, meio mulher como serei?É o Edmundo querendo
entrar no útero da Senhorinha, ou as duas meninas que querem
ser enterradas juntas no Álbum de Família.
Elas se propondo amar até a morte. A psicanálise diz que
isso é patologia, mas a gente sabe que não é. Sob
este prisma pode-se abolir toda a visão superficial que em geral
se tem sobre a obra do Nelson Rodrigues.
P.
- Talvez por isso ele tenha sido tão odiado não?Por
ter sido tão cru, tão violento?
Amália - Acredito inclusive que o ódio
que as pessoas tinham pelo Nelson se deva ao fato de ele ter tocado
na ferida. Porque afinal vendo deste prisma não se pode falar
de moralismo, nem de pornografia na sua obra. É por isso que
se fala em arquétipos. E outra chave para se entender o Nelson
Rodrigues é o fato de ele ser um cristão, dele acreditar
na ressurreição, na vida eterna. Enfim, o Nelson Rodrigues
dá ao homem a prerrogativa de ser como ele é: torto. O
auto-regular-se é para ele uma sabedoria que o homem ainda não
tem. Não obstante ele dá aos seus personagens o privilégio
de fazer isso. Através do caos, as mudanças se processam.
P.
- As peças evidentemente não estão integradas.
Que critérios vocês usaram para os cortes?
Amália - Depois do vasto estudo que nós
fizemos, escolhidas as peças elas foram montadas integralmente
de inicio. Foram marcadas, estudadas, decoradas, representadas, vividas
integralmente. Avaliou-se um problema de tédio dramático
ou um momento sem grande importância, uma informação
redundante, ou seja, houve saltos no sentido de espicaçar o espectador.
Fazê-lo ficar atento porque não se repete duas vezes a
mesma coisa. Enfim, ficou a linguagem dele, mas enxuta.
P.
- E a música. Como se chegou a esta trilha sonora?
Amália - A música surgiu. O Antunes logo
no começo já sabia que a peça teria tango, e valsa.
Mas houve também uma musica composta especialmente que é
o Panis Angelicus que entra na cena da primeira comunhão
da menina. A musica numa série de momentos é um comentário
kitch. O kitch desperta emoções antigas. Ele mexe com
o inconsciente coletivo, ele mexe com o arquétipo.
P.
- Sei que o Antunes testou cerca de dois mil atores. Afinal
como se chegou a este grupo? Que critérios determinaram a seleção?
Amália-A seleção foi feita em
função do trabalho da pessoa no palco e também
da adaptação ao trabalho de cooperativa. Porque você
vê este tipo de trabalho exige uma convivência mutua que
se prolonga e onde não se pode ter muitas veleidades, muita brejeirice
para não interferir nos objetivos que a gente quer atingir.Enfim,
o objetivo primordial é o trabalho.Passou muita gente talentosa
por aqui e não ficou.
P.
- Sei que vocês trabalharam arduamente no período da montagem.
Como era o processo de trabalho de vocês, a rotina diária,
tudo isso?
Amália - Todos os dias quando o Antunes chegava
não se partia direto para o trabalho. Formava-se um grupo e se
discutiam coisas. E ele sempre tinha uma coisa para propor: coisas novas
ou coisas vistas nos dias anteriores. Era sempre um trabalho de resposta,
de motivação em função do que havia sido
feito. Caminhávamos por etapas. Antunes nunca jogou tudo de uma
vez. E acima de tudo ele fez um trabalho de artesão com os atores.
Nunca foi autômato, mecânico. Tudo era elaborado, pensado.
É a postura do jogo de Diderot, postura de você estar atuando
com o controle do personagem. Foi só na ultima semana que o Antunes
propôs que os atores trabalhassem com a emoção.
E nos últimos dias, mais exatamente ele pediu que se jogasse
a totalidade das emoções. Em geral de manhã tínhamos
aula de yoga, tai chi, de fonoaudiologia, de preparo de voz, de canto,
de dança. Mas as aulas de canto e dança, por exemplo,
não eram em função do que se devia cantar no palco.
Era um preparo muito grande mesmo. Porque você só viu tango
e valsa, mas todos os atores estudaram instrumentos: os homens trombone
e violino e as mulheres flauta, porque na peça A Falecida
que não entrou,tinha um Exército da Salvação
que tocava e cantava. Então, de manhã tínhamos
aulas com diversos professores e a tarde era do Antunes. Ele foi o grande
professor.
José
Ferro-Tudo o que fizemos foi uma tentativa de chegar ao universo
da coisa para se criar de dentro, com conhecimento. Em geral a gente
trabalhou assim de uma maneira dinâmica. Porque neste processo
que é de aprendizado, que é um processo de troca de experiência
não tem muita coisa demarcada. Acho que é este o elo que
liga a gente, “esta força jovem” que existe e que
é uma espécie de idealismo para se conseguir concretizar
um trabalho que saia fora dos moldes da convenção teatral.
P.-
Esta seria então a grande diferença entre os trabalhos
que se fazem convencionalmente em teatro quando se montam peças
em dois meses? Aqui vocês têm um trabalho de formação,
de embasamento, uma escola de teatro?
José Ferro - Com a única diferença:
numa escola convencional de teatro em geral se procura encontrar determinados
caracteres de algum exercício que seja mais ou menos modelo para
a coisa. Então por exemplo, se a pessoa vai dar uma aula de voz
ela ensina uma entonação. E com a gente a coisa é
diferente. As aulas não são resultado de um modelo pré-estabelecido.
Eles são resultado de uma noção geral que as pessoas
tem e este modelo é procurado por cada um, sob orientação
de pessoas mais experientes.Então nesta medida é possível
que cada um descubra como organicizar todo este conhecimento,como tornar
este conhecimento seu de tal forma que possa fluir.Elimina-se o mecanicismo
na medida em que tudo aquilo passa a fazer parte de cada um.
Amália-Este tipo de trabalho buscou de cada
um a sua substância. Foi realmente produtivo no sentido de não
ter havido nunca um padrão geral para as coisas. Embora houvesse
métodos, idéias, filosofias, estudos de autores e toda
a experiência de vida do Antunes como diretor, como criador que
ele é, na verdade houve isso: todo mundo trouxe aquilo que tinha
dentro de si. O trabalho foi orgânico, não foi mecânico.
Havia uma proposta geral, mas cada um trazia substância, sua colaboração.
Inclusive um das características do trabalho foi justamente o
habito das reuniões diárias. Cada um tinha que falar.
A colaboração de cada um era levada em conta e era importante.
Através deste método de trabalho as pessoas foram aprendendo
a desenvolver um sentido critico. Cada cena era analisada e criticada
pelo grupo. Formou-se então um consenso de analise, de reflexão
estética, de avaliação de um trabalho de teatro,
tanto na teoria, como na prática. Porque é preciso que
se diga, tudo era realizado no palco. O palco era subsidio para o teórico
e vice-versa. Então o que houve foi um trabalho nuclear, sempre
entrosado e integrado. E uma outra diferença da escola padrão:
todo este trabalho foi canalizado numa montagem. Então na medida
em que ele se canalizou numa montagem. Então na medida em que
ele se canalizou numa montagem ele teve muita abertura e muita especificidade.
José
Ferro-Além de ter sido um trabalho objetivado numa montagem
teve uma preocupação fundamental que foi a formação
do artista. Apesar de ter sido canalizado nesta montagem, permitiu que
as pessoas ficassem aptas para realizar outros trabalhos que o grupo
quisesse criar. Ou seja, foi um trabalho nos dois níveis.
Amália-O
Antunes procurou atores basicamente. Mas na medida em que o trabalho
é cooperativado, as pessoas atuam também em outras áreas
de acordo com seus talentos. Nunca um ator é só ator.
O José Ferro, por exemplo, é jornalista. Ele escreveu
grande parte das apostilas que eram usadas internamente. Mas algumas
foram publicadas por serem bem representativas do trabalho quer era
realizado de filosofia, etc. A Valderez Cardoso Gomes que assina grande
parte dos estudos que foram feitos sobre este espetáculo Nelson
Rodrigues O Eterno Retorno é outra moça que acompanhou
o trabalho desde o inicio e coordenou as pesquisas, estudou Jung, Mircea,
e colaborou muito, fez seminários. Embora as leituras fossem
feitas por todos, a centralização, a coordenação
e redação das apostilas ficou por conta da Valderez que
é professora de Línguas. E assim ocorreu com outras pessoas.
Alguns revelaram maior talento na sonoplastia além de serem atores.
E acabaram ficando nesta ou naquela área. Inclusive porque quando
o elenco viajar não vai se poder levar pessoas extras. Os atores
fazem tudo. Até a contra regragem é feita pelos atores.
No momento existe um diretor de palco, um diretor de cena. Possivelmente
ele viaja porque Macunaíma tem uma contra regragem
enorme e não dá realmente tempo para o ator fazer todo
o trabalho dentro e fora. Ele não tem capacidade de ubiqüidade,
quer dizer não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Então
existe sim uma coisa econômica: alem do trabalho no palco todos
fazem um trabalho fora do palco. A cooperativa é administrada
por elementos do elenco-tem uma diretoria que se reúne que toma
decisões, talvez para uma coisa mais técnica de contabilidade
se chame uma pessoa de fora, mas todo o trabalho de produção,
de divulgação é tudo feito aqui mesmo, por nós.
P.
- E você como chegou ao grupo? Sei que foi presidente da Comissão
Estadual de Teatro em varias gestões. Conte.
Amália - Bem, eu fui presidente da Comissão
Estadual de Teatro na administração do Max Feffer, segunda
metade e um período da administração Cunha Bueno.
Mas eu não só gosto de cargos administrativos, sabe, eu
preciso trabalhar de outro jeito também. Eu fiz teatro na ECA
e defendi uma tese de mestrado sobre o Beckett: foi uma psicanálise
de uma obra do Beckett. Aqui no grupo foi o seguinte: eu me ofereci
para ser assistente de direção do Antunes, cargo afinal
que virou adjunto de direção, porque alem de assistência
eu participava de todas as coisas. Li tudo o que o pessoal leu, ainda
que um pouco atrasada porque só cheguei em agosto, escrevi apostilas.Só
não subi no palco.De resto fiz de tudo um pouco.
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