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Desconhecidos peça de Dionísio Neto:
uma peça dentro da peça

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Desconhecidos peça de Dionísio Neto:
uma peça dentro da peça

Nelson de Sá


Costumo enquadrar Dionísio Neto com Mark Ravenhill, de “Shopping and Fucking”, ou Martin McDonagh, de “The Beauty Queen of Leenane”, naqueles meados dos anos 90 de redescoberta da dramaturgia por EUA e Europa e também por aqui. “Opus Profundum” e “Perpétua” eram peças que contavam histórias, como aquelas duas inglesas e outras.Mais até, que paravam tudo, cortavam a linha da narrativa, para anunciar uma história, que então contavam. Era, paradoxalmente, um tapa na cara da não-linearidade, uma das normas então do modernismo ou pós-modernismo tornado canônico. Eram assim também os diálogos de Quentin Tarantino, nos seus primeiros roteiros para cinema, e os primeiros contos de Irvine Welsh.

Agora, passado tanto tempo, Dionísio ou seu personagem em Desconhecidos, em cartaz no SESC Consolação, até ameaça contar uma “história” e pergunta se a personagem de Simona Queiroz não quer ouvir. Mas ela não demonstra o menor interesse. Ele mesmo pouco se importa e a peça segue sem história-dentro-da-história, ao menos como narração. Esse aparente abandono de certo vício metalinguístico não é obviamente a única diferença, na dramaturgia de Dionísio. Como ele já havia evidenciado em “Os Dois Lados da Rua Augusta”, intervenção urbana que realizou também com Ivan Feijó no ano passado, a ironia cortante e tantas vezes arrogante de antes deu lugar ao humor mais desabrido, popular.

E muitas vezes voltado contra si mesmo. Em Desconhecidos, como indica o humor retratado por Lenise Pinheiro ele chega a contar piadas, em diálogo com o público, como um stand-up que expõe a cena teatral do eixo Rio - São Paulo, mas, em especial, que expõe a si mesmo, até fisicamente, seus erros, fracassos, meias certezas. Disse que não havia história-dentro-da-história, mas Desconhecidos é integralmente, na verdade, uma peça-dentro-da-peça-dentro-da-peça. É introduzida aparentemente pelo próprio autor, que depois ressurge como um ator de televisão casado com uma atriz de teatro, passando-se por fim à cena teatral de um assassino e sua vítima.Com direito, ainda, ao delírio do assassino e a introdução de um último e mais arquetípico personagem.

No amontoado cênico resultante, um porto seguro, de empatia crescente ao longo da apresentação, é Simona Queiroz. Nas encenações de Ivan Feijó e nas personagens criadas por Dionísio, no que acompanhei até hoje, as atrizes ou suas personagens surgem sempre tocantes, belas, avassaladoras, mas também frágeis e quebradiças. Como em Chico Buarque, por vezes.

Nelson de Sá escreve neste blog
http://cacilda.folha.blog.uol.com.br/

Ficha Técnica

Desconhecidos
Autor- Dionísio Neto

Direção- Ivan Feijó

Elenco- Dionísio Neto
Apresentando Simona Queiroz

Quarta a sexta feira as 21 h
Teatro SESC- Consolação – Terceiro Andar

Até 27 de junho



 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

Web designer-Edson Souza