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Erudita
Entrevistas
Almeida Prado
musica acima das referencias
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Almeida
Prado
musica acima das referencias
Ana Lúcia Vasconcelos

Pianista, compositor de musica erudita contemporânea, José
Antonio de Almeida Prado, 63, é doutor em Musica pela Unicamp,
onde lecionou até o ano de 2000. Titular da cadeira número
15 da Academia Brasileira de Musica e membro da Foundation Nadia e Lili
Boulanger, na França, ganhou entre outros o prêmio Carlos
Gomes pelo conjunto de sua obra que soma mais de quatrocentas composições.
Na musica ele começou cedo: aos nove compôs sua primeira
peça, tendo sido aluno de Dinorah de Carvalho, Camargo Guarnieri
e Osvaldo Lacerda no Brasil. Viajou para Santiago de Compostela aos 24
anos e aos 26 foi para Paris onde estudou com os grandes compositores
e professores de musica erudita contemporânea: Messiaen e Nadia
Boulanger durante cinco anos.
De volta ao Brasil dirigiu o Conservatório de Musica de Cubatão,
sendo que em 1974 foi convidado a lecionar na Universidade de Campinas-Unicamp,
onde foi professor de composição até 2000. “Imagine
você sair de Paris para dar aulas em uma escola que ficava em cima
de um supermercado, numa das cidades mais poluídas do mundo. É
como se formar na universidade e então ser diretor de uma tribo
em Angola! Se você não tem formação de missionário,
você entra em crise. Porque tudo o que você aprendeu não
representa nada. Foi inútil! Mas, nessa decepção,
eu promovi uma reforma no conservatório. Convenci o prefeito a
construir um prédio, implantei métodos didáticos
e preparei as professoras. Após um ano, deixei Cubatão,
com um sentimento maravilhoso de missão cumprida, e fui convidado
para a Unicamp.”
A esta altura, segundo conta, começou a desenvolver uma técnica
em que tentava misturar elementos tonais, seriais e o que chamou de “transtonal”,
que é, segundo diz, “ a utilização consciente
dos harmônicos superiores e inferiores de uma fundamental, mesmo
que artificialmente, já que os harmônicos inferiores são
muito contestáveis”. Na seqüência recebeu uma
encomenda da prefeitura de São Paulo para compor a trilha sonora
do Planetário do Ibirapuera. “Comprei, então, um livro
chamado Atlas Celeste, de Ronaldo Mourão, que ilustra o céu
do Brasil e suas constelações em todos os meses do ano.
Criei um acorde para cada estrela e fiz os acordes se seguirem como indica
a linha imaginária que une as estrelas de uma constelação
naquele livro.”
“Em Cartas Celestes, usei pela primeira vez o “transtonalismo”
em 1981, retomei estes acordes e compus mais cinco Cartas Celestes. Ao
longo deste trabalho, fui me cansando daquele material sempre atonal e,
aos poucos, fui introduzindo elementos tonais nas peças. Ao final
delas, eu já me dava liberdade de encaixar um minueto à
forma, pois eu já estava muito seguro e muito amadurecido neste
processo. Essas peças foram gravadas, venderam muito bem e eu fiz
meu doutorado sobre elas. As Cartas Celestes acabaram por se tornar um
marco na música do Brasil. Até Messiaen e Boulanger diziam
que era uma coisa nova. E elas estavam em sintonia com o espectralismo,
de Murail e Grisey, embora eu não conhecesse o que eles faziam
e nem eles o que eu fazia.”
“Ai
então eu me tornei um compositor rotulado de ‘transtonal’
quando isso não me interessava mais. E já na última
das seis Cartas Celestes, comecei a compor num estilo
que eu classifico como pós-moderno, por ter como característica
revisitar texturas e mecanismos do repertório do passado, tomando
elementos dele e adaptando à minha linguagem, ou ainda fazendo
colagem mesmo. Eu queria sair daquela atmosfera cósmica e mística.
Eu queria estar com os pés no chão.”
Sua obra vasta publicada pela Tonos Verlag de Darmstadt
(Alemanha), percorre uma variedade de formas musicais, dos estudos as
sinfonias passando pelos oratórios e missas, sonatas, mas sempre
dando preferência a obras para piano e percussão.Entre as
mais de quatrocentas composições algumas merecem citação
especial: Pequenos Funerais Cantantes, composta a partir
de um poema da Hilda Hilst, Cartas Celestes, que hoje
conta com 14 volumes e é considerada uma de suas obras mais importantes,
ao lado de centenas de outras entre elas:Lettres de Jerusalém-
considerada pelo critico Claver Filho “uma das mais impressionantes
da musica brasileira do século XX”, Missa da Paz,
Villegagnon ou Les Îles Fortunèes, Momentos
de Cubatão, Rosário de Medjugorje, As 14
Palavras de Cristo na Cruz, Amavisse, também
sobre poemas de Hilda Hilst, entre centenas de outras.
Duas de suas composições: Sinfonia dos Orixás-composta
para comemorar os dez anos da Orquestra Sinfônica de Campinas e
Missa de São Nicolau tiveram estréia na
Suíça. Sinfonia dos Orixás estreou
em outubro de 1987 no Grande Theâtre de Genebra e Missa
de São Nicolau foi apresentada na Igreja Villars-sur-Glâne
e na Catedral e São Nicolau em Fribourg. Esta obra, dedicada ao
Coro da Matriz de Villars e ao seu diretor George Rubaty, foi inspirada,
segundo o compositor “num sentimento romântico e descritivo
de emoção religiosa”.
O critico do jornal La Liberté, Bernard Sansonnens
considerou esta missa uma obra prima que ficará nos anais da história
do condado e da musica. “Isso porque, podem-se contar nos dedos
das mãos a criação de missas para coro, orquestra
e solistas na produção musical do século XX.”
Almeida Prado considera esta sua melhor obra, a mais densa, a mais longa
que escreveu e que depois da sua morte, será o seu testamento.
“Ela acumula todas as minhas experiências anteriores de composição.”
A
obra sendo estudada
A esta altura, muitos musicistas têm se debruçado sobre sua
obra para estudá-la (até agora são vinte e sete teses
de mestrado e doutorado) entre outros, a pianista Adriana Lopes que escolheu
para seu mestrado os 16 Poesilúdios, inédita
tanto nos palcos quanto em gravações e que ela interpretou
em estréia mundial quando defendeu sua tese de mestrado na Unicamp
no dia 10 novembro de 2002. Adriana conta que quando foi pesquisar a obra
do compositor, cujas partituras estão sendo catalogadas no Centro
de Documentação de Música Contemporânea (CDMC)
do Instituto de Artes, observou que a obra de Almeida Prado era comumente
dividida em sete fases. “A obra de Beethoven é dividida em
três fases. Achei sete um exagero, mesmo considerando a diversificação
do século XX”, diz Adriana Lopes.
Daí
que ela optou por dividi-la em três fases, acrescentando uma quarta
a pedido do próprio Almeida Prado: a primeira corresponde ao estudo
do folclore com Camargo Guarnieri, sob a estética de Mário
de Andrade, resgatando a brasilidade com temas na sua maioria nordestinos.
A segunda fase surge quando se senta com Gilberto Mendes para ouvir Schoenberg,
Stockhausen, Messiaen, Stravinsky, e parte para a França a fim
de descobrir algo que não conhecia além-mar. E a terceira
e quarta fases, já de volta ao Brasil, têm várias
tendências que correm paralelas: a astrológica, ecológica,
brasileira, mística e livre. Na quarta, que se chamou de pós-moderna,
acontece uma auto-releitura e uma mesclagem das diversas tendências
dentro de uma mesma obra, que se inicia com os Poesilúdios.
Para que pudesse conceber uma interpretação embasada dos
Poesilúdios, Adriana afirma que contou com o apoio
do pianista Maurícy Martin, atual coordenador do Departamento de
Música do Instituto de Arte da Unicamp e com a orientação
da professora Maria Lúcia Pascoal que participou “de todos
os passos do trabalho”.
O
CD que acompanhou a dissertação de mestrado da pianista
foi gravado na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, sendo que
a verba da Fapesp permitiu a produção de 40 cópias.
Adriana pretende ainda um possível lançamento comercial
do CD, que pode trazer um livreto contendo análises de cada peça.
E para que seu trabalho não fique numa prateleira e ninguém
o veja, a pianista vem interpretando e analisando as peças para
professores de piano e alunos em várias cidades.
Esta divulgação também contribuiu para a lembrança
dos 60 anos do compositor Almeida Prado, completados em 2003 (ele nasceu
em 8 de fevereiro de 1943) e comemorado no dia 5 de outubro, com um concerto
da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, no Teatro
Sérgio Cardoso (região central de São Paulo), com
a estréia do Concerto para Oboé e Orquestra de Cordas, com
solo de Alexandre Ficarelli e regência do maestro Wagner Polistchuk,
titular da Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina.
Ao longo de sua carreira Almeida Prado, teve várias de suas obras
executadas por importantes nomes da música brasileira, como Eleazar
de Carvalho, Camargo Guarnieri e, mais recentemente, John Neschling (à
frente da Osesp) e Antônio Menezes, que estreou sua Sonata
para Cello e Piano. Obteve ainda alguns dos mais importantes
prêmios no Brasil e no exterior: Prêmio APCA de Melhor Obra
de 1967 com Paixão Segundo São Marcos,
peça para coro, orgão e piano e cravo e atores; Prêmio
Lili Boulanger com Sinfonia no. 1, Prêmio Fontainaibleau
do Primeiro Concurso de Minas Gerais do Coral Ars Nova com a cantata sacra
Jesus de Nazaré.
Entre suas obras mais recentes ele cita: Variações
Sinfônicas para orquestra composta oficialmente para o
Festival de Campos do Jordão em novembro de 2005; Hiléia,
Um Mural da Amazônia que deve estrear no próximo
ano nos Estados Unidos e vai marcar o lançamento de uma nova campanha
internacional pela preservação da Amazônia, sendo
que a renda do concerto será destinada a instituições
ligadas a programas ecológicos na região.
E atualmente ele prepara, a convite do governo do Rio de Janeiro, uma
obra para piano e orquestra para comemorar o Bicentenário daquela
cidade e a chegada de Dom João VI e que deve estrear neste ano
de 2008- baseada em algumas gravuras de Debret a obra terá o título:
Gravuras Sonoras. Além desta atuação
e da criação de novas obras Almeida Prado dedica-se a cursos
em diversos centros culturais de São Paulo (entre eles a Casa do
Saber) onde mora atualmente não apenas para músicos como
para apreciadores de musica em geral. Além disso, faz um programa
de grande sucesso na FM Cultura, o Caleidoscópio.
Nesta entrevista publicada com cortes na revista Artes (SP) de novembro
/ dezembro de 1988 e janeiro de 1989, Almeida Prado fala da sua infância,
seus professores, sua vocação, seu processo criativo, sua
religiosidade, suas influencias. Para atualizá-la falei com ele
ao telefone e decidimos publica-la como está - já que é
um documento importante de determinada fase de sua vida. Ha disponível,
para quem quiser saber mais sobre sua vida e fértil e inovadora
obra, muitas outras matérias aqui na internet.
ALV.
- Tive a impressão, lendo o seu Memorial-resumo de sua obra e vida
até o ano de 1989 elaborado para sua livre docência, que
você teve uma infância feliz. Você foi uma criança
feliz?
Almeida Prado - Era feliz e não era, porque eu
era o ultimo filho, eu nasci meu irmão mais velho tinha 18 anos,
e minha irmã mais próxima tinha cinco anos mais que eu.
Meu irmão que nasceu depois de mim, morreu então eu fiquei
o ultimo super mimado e super carente. Porque parece que há uma
alquimia quando você é muito minado fica também carente
porque não tem proporção. Eu só vim a perceber
isso agora com a psicanálise que o fato de me mimarem muito as
proporções eram desengonçadas. Então não
tinha aquele carinho justo na hora certa: não era nada ou era demais.
Então ficam aqueles buracos.
ALV-E
depois você estudava...
A.P. - A musica era tudo para mim...
ALV-E o Almeida prado, o sobrenome ajuda ou atrapalha?
A.P. - É aristocracia rural, família de
quatrocentos anos como eles falam. Ajuda para a vaidade de você
chegar num banco e assinar um cheque e as pessoas perguntarem: ah você
é Almeida Prado, parente de fulano, mil fazendas e você diz:
não, não tenho, sou dos pobres...
ALV-O que, aliás, ninguém acredita...
AP-Ninguém acredita. Mas é bom para empréstimos
porque você é riquíssimo... (risos)
ALV-Sei que você começou a ouvir musica
erudita muito cedo. Sua irmã estudando piano, Mozart, Beethoven.
Você diria que foi ai que começou a despontar a vocação
para o piano, as composições, etc?
AP - Eu acho que o dom a gente recebe de Deus e só
cresce se você rega. Não adianta você ter um dom de
físico, de químico ou de bailarino se desde criança
não te colocam numa escola, não fazem florescer este dom.
Tenho a impressão que quando Deus escolhe alguém para uma
missão ele já coloca os pais certos, a cidade, latitude,
a longitude, o clima, tudo já concorre para que aquela pessoa dê
naquilo.
ALV-Voce começou com quantos anos? Tenho a informação
que aos nove compôs Adeus...
AP - Com menos, com sete. Então eu tinha que ter
uma irmã que tocava como uma louca para eu ficar ouvindo.
ALV-Como você sentiu que era um compositor? Começou
a estudar piano com quantos anos?
AP - Senti que era um compositor porque para mim quando
eu ia estudar a musica alheia queria mudar o texto, queria brincar. Aí
as pessoas não deixavam, diziam que eu estava brincando com o Beethoven.
Então como eu não podia brincar com o Beethoven eu começava
a brincar fora do Beethoven. Então eu lia uma história de
criança sobre o Saci, João e Maria, etc. Eu ia para o piano
e fazia a história na musica.
ALV-Então surgiram suas primeiras composições:
Adeus, Os duendes na floresta, Dança Espanhola, Procissão
do Senhor Morto, O Saci, O gato no telhado. Se hoje você
analisar essas musicas com o olhar critico de um professor, como as definiria?
Elas apresentam alguma novidade?
AP-Elas não apresentam novidades porque são
reminiscências de Villa Lobos ou do que eu ouvia. Mas se chegasse
uma criança como essas musicas eu diria: este cara é um
gênio (risadas).Bem você vê que eu não tenho
modéstia...mas duas delas estão publicadas agora na Alemanha
num álbum que eu fiz para minhas filhas: O Saci
e O gato no telhado.
ALV-Voce começou a fazer sucesso muito cedo. Ao lado das
obras do Bach, Mozart nos concertos que dava em Santos, você tocava
suas próprias composições. Como fica na cabeça
de uma criança o sucesso?
AP-Eu adorava o sucesso, porque era o único momento
em que eu era aceito, porque eu era uma criança magrinha, feiinha,
e não podia rivalizar com os colegas que eram jogadores de futebol,
eram atletas, másculos. E para mim a masculinidade sempre foi outra
coisa-a retidão, a integridade. Eu já estava todo mergulhado
em Deus e me lembro que tinha sete anos e queria ser santo. Não
sabia o que era isso, mas ficava quieto e queria pensar em Deus. Aí
eu ia para debaixo de uma árvore e ficava alguns minutos ou mesmo
meia hora tentando rezar completamente vazio, quer dizer que fazia a oração
mais zen sem saber o que era... Ou seja, meu discurso não tinha
nada a ver com o dos meus colegas. E eu não tinha culpa de ser
assim como eles não tinham obrigação de me aceitar:
um animal raro no zoológico deles. Então caçoavam
me humilhavam e a única revanche que eu tinha era minha genialidade.
E na hora em que eu ia aos nove anos tocar na televisão nenhum
deles ia e a professora dizia: ah José Antonio vi você e
tal e todos ficavam com inveja... Era a única hora em que eu tinha
um pouco o troco... Enfim eu não tinha o clichê necessário
para viver naquela tribo.
ALV – E sua família como reagia? Porque
eram pessoas de cultura, havia musicistas.
AP - Sim eles aceitavam porque me ouviam tocar e sabiam
que eu era uma pessoa rara.Mas de qualquer forma eles queriam que eu levasse
uma vida segundo os clichês deles e eu era obrigado a passar por
humilhações e provações. E assim fui ido até
a adolescência.
ALV - E esta questão da religiosidade. Parece
que sempre foi inerente. Não tem nada a ver com influencias da
família ou tem?
AP – Também, porque eu tenho uma irmã
freira que me marcou muito. Enfim ter uma irmã que entrou para
o convento, aquela coisa austera, nunca mais vê-la em casa. Eu achava
bonito.
ALV - E como ficaram as figuras dos maestros Camargo
Guarnieri, Taberin, Caldeira Filho e evidentemente Dinorah de Carvalho,
os professores com que você estudou até os 23 anos?
AP - Bom eles eram os melhores da época. Mas quem
me pegou desde criança foi a Dinorah de Carvalho a quem devo tudo
e foi uma mãe para mim. Ao mesmo tempo em que foi boa, ela tinha
a síndrome da não maternidade e tratava as “crionças”
que estudavam la como seus filhos. Então era uma fábrica
de crianças-prodígio. Todos tocavam com orquestra aos oito,
nove anos.
ALV-Voce se lembra de algumas dessas crianças?
AP – Ah. Flávio Varani, grande pianista
que mora nos Estados Unidos e Maria Regina Luponi, professores da Academia
de Viena. Ela dava para o aluno a Dinorah, a síndrome de Peter
Pan, quer dizer não se podia ficar adulto para não perder
a magia. E isso, este lado maléfico que era inconsciente foi muito
prejudicial acho que para todos que estudaram la.
ALV-Como foi sua primeira experiência no exterior:
o curso de musica em Santiago de Compostela na Espanha que você
fez aos 24 anos? Conte as seqüências disso, as repercussões
na sua carreira.
AP-Foi muito interessante porque eu vi que sabia mais
do que imaginava e muito menos também. Por exemplo, eu tinha coisas
da minha formação de compositor muito mais avançadas
que os colegas americanos e tinha falhas enormes também que é
essa coisa cultural brasileira e que me faziam ver que eu ainda não
estava no ponto.E esta desigualdade eu só vim a sanar dois anos
depois com a Nadia Boulanger e o Messiaen.
ALV-Você diria que seu vivencia-aprendizado com
Gilberto Mendes com quem analisou Schoenberg, Berg, Webern. Stockhausen,
Boulez, Messiaen, Villa Lobos, Stravinsky foram decisivos para sua opção
pela musica serial ou isso já era anterior?
AP – Bem, Guarnieri foi meu professor cinco anos
e ele me deu o artesanato sonoro nacionalista de acordo com a ótica
pós Mario de Andrade. Mas ele era totalmente avesso a qualquer
caminho dodecafônico, serial, atonal. Ele era conta. Agora, aos
vinte anos eu tinha necessidade de conhecer o outro lado e não
compor uma musica de 1890.
ALV - Você já tinha vontade de partir para
o atonalismo?
AP - Pelo menos saber o que era... Quer dizer não
é dogma de fé. Tudo é som. Aí me irritava
que eu tivesse que fazer o discurso caipira na minha musica quando eu
era um homem urbano. Eu era um homem sofisticado, já, gostava de
Hilda Hilst, gostava de ler Valery, gostava de ler São João
da Cruz e de repente tinha que fazer nhém nhém, nhém
...(imita toada caipira) quer dizer em nome do quê?(risadas) eu
não nasci em Jaú, no Cariri, nunca plantei feijão,
um homem altamente sofisticado, urbano de família snob... Sou um
homem litorâneo de Santos, que ouvia Elvis Presley, rock, não
ouvia viola ao luar (gargalhadas). Lógico que eu tinha colegas
que nasceram no sertão e vivenciaram tudo isso.
ALV – Evidente, não fazia parte do seu mundo.
AP - Então eu conheci o Gilberto Mendes, um homem
urbano com cabeça aberta e indiretamente foi ele meu professor,
porque ele não sendo, foi me dando subsídios. Ele dava livros
que eu lia, ouvíamos discos, discutíamos e era um aprendizado.
Eu devo isso a ele.
ALV-Ou seja, Guarnieri te deu a base acadêmica,
ensinou a desenhar...
AP-O Guarnieri me ensinou a desenhar aquele homem de
cachimbo na boca ao por do sol... E que também é muito bonito
e bom, e o Gilberto Mendes me ensinou a fazer o abstrato. E ai na Europa
eu fiz a síntese, porque estando longe do Brasil não tinha
mais nada a ver com o Brasil, estava em Paris. Agora interessante que
foi la que comecei a usar de maneira nova todos os recursos do folclore,
da flora e da fauna, da Amazônia, porque eu estava longe.
ALV - Você podia abstrair, estava distanciado...
AP - Foi ai que a minha obra começou a fica com
dimensão universal e brasileira, porque eu tinha as ferramentas
apuradas para eu poder fazer o que quisesse, desde as Cartas Celestes,
cósmica, que tem de repente no Cosmos um ritmo de baião,
porque eu quis-c´est un caprice, eu posso, eu posso tudo. Na hora
em que você pode tudo, você se liberta.
ALV-Voce tem muitas composições sacras.
A primeira foi Missa da Paz, depois veio Paixão
Segundo São Marcos.
AP-Eu fui um dos primeiros compositores a fazer no Brasil
missa em português, porque o Concilio tinha liberado o texto e foi
uma experiência interessante. Mas eu acho que minha obra é
mística mesmo sem usar o texto sacro, ela busca dar a quem a ouve,
um estado de contemplação. A minha musica tende a fazer
você entrar num clima. Os melhores momentos da minha musica são
momentos estáticos de paz são grandes porções,
grandes praias. Ela é new wave antes da new wave. Eu já
fazia musica minimalista antes...
ALV-do Philip Glass...
AP - Antes do Philip Glass eu já fazia muita
coisa que agora o pessoal está fazendo. Sabe você é
profeta, como eu acho que a Hilda (Hilst) antes de muita gente em Qadós,
ela já estava aprontando. Só que nunca santo de casa faz
milagre. Você precisa morrer e ai dez anos depois uma louca da USP
faz uma tese sobre a tua obra e ai fala: nossa na página 14 do
primeiro volume de Cartas Celestes o Almeida Prado usou
um acorde que agora no século XXI está usando. Quer dizer
você já estava careca de saber disso (risadas) e ninguém
falava nada.
ALV-Por que isso? As pessoas nunca são compreendidas,
estão muito além do seu tempo?
AP - Não é nada de esnobismo não
é isso. Simplesmente você intui um outro tempo. E esta outra
dimensão que você intui e que é Deus que te dá
essa intuição, e que nem você às vezes sabe.
ALV-Voce disse que ter musicado o poema da Hilda Hilst:
Pequenos Funerais Cantantes foi responsável por
uma guinada de 180 graus na sua carreira. Conte esta história.
AP - Foi um divisor de águas. E foi também
um caso de destino. Eu tinha lido no jornal esta série de poemas
da Hilda: Um Corpo de Terra e era o texto que eu precisava
para fazer uma musica para o Concurso...
ALV - Concurso da Guanabara...
AP - Eu li aquele texto... “chagas de sol, rosácea
ardente, aqueles rios de sangue”.. E ai a musica veio absolutamente
genial-quadrinhas pequeninas e densas e para a musica não tem melhor...
“porta de fogo, caminho ígneo”. Você já
sente tudo, porque quando tem muito blá blá blá já
vira ópera. Eu fiz numa semana esta musica e mandei e ai ela foi
classificada e quando eu no Rio ouvi o coral cantando aquela coisa eu
disse: que obra genial.
ALV-Voce já estava distanciado, não havia
mais vaidade?
AP - Não, porque uma coisa existe em mim: a total
lucidez quando eu gosto do meu trabalho. E não é sempre
que isso acontece. Algumas obras me dão esta sensação:
ela é maior que eu. Eu me ajoelho diante dela. É um filho
que você gerou, ficou rei e você beija a mão do filho.
É uma humildade porque é óbvio que não é
obra tua você foi instrumento. E aí foi um escândalo
porque os grandes compositores da época perderam e eu ganhei. Eu
era desconhecido, tinha 26 anos. Era um dinheiro incrível, 25 milhões,
eu me dei uma bolsa e fui para a Europa. E depois la consegui outras e
acabei ficando cinco anos em Paris. Eu tenho uma gratidão muito
grande pelo governador Abreu Sodré que me arranjou uma bolsa de
um ano. Foram os melhores anos da minha formação.
ALV-Mas você já tinha afinidades com a França
porque a cada quatro palavras em português diz duas em francês...
AP - Eu tinha pelo seguinte: a formação
da musica erudita brasileira é francesa, não é americana.
É Villa Lobos, que tem influencia de Debussy e Ravel, é
Guarnieri que estudou na França com a Nadia, então na verdade
eu fui buscar meus avós musicais, culturais...
ALV - Bom pelo que você conta o exame do Conservatório
de Paris foi uma verdadeira tortura.
AP-Eu não passei no exame, não passei...
ALV-Mas depois foi chamado...
AP-Porque eu não estava preparado, não
tinha metier para isso, mas fiquei tão deprimido que o Messiaen-porque
eu coloquei no exame na prova de escuta os Funerais Cantantes
e na prova de metier não passei, mas ele viu que dentro daquela
coisa que eu errei, ele viu que tinha alguém ali. Ele tem o faro
como eu tenho hoje com meus alunos da Unicamp (na época ele ainda
lecionava na Unicamp). Não interessa que o cara errou tudo, mas
ele tem a chama. E o que acertou tudo não vai dar em nada. Aí
ele mandou um aluno na minha casa dizer: si te plais, mon jeune homme
Messiaen implora que você vá à classe dele como ouvinte
e você terá as mesmas aulas que ele dá para os outros.
Eu comecei a freqüentar, ele adorava o que eu compunha, sempre. E
ele me disse para eu não fazer o tal exame porque ia ter que estudar
coisas sem interesse para o meu trabalho, totalmente vanguarda. E, além
disso, eu estava estudando com a Nadia...
ALV – Paralelo você estudava com a Nadia
Boulanger?
AP - Com a Nadia que não gostava de Messiaen...
ALV - Mas parece que você compunha ferozmente.
AP-Eu estudava como um louco, não tinha tempo
para nada.
ALV-Ela era genial? Você até compôs
uma obra Portrait de Nadia Boulanger. E Lili Boulanger
como era?
AP-Era irmã dela que morreu tuberculosa aos vinte
anos que era um gênio na composição. A Nadia sabia
que ela não era um gênio, era Salieri, ela sabia, tinha cultura,
então deixou de compor. Ela dizia: minha irmã disse o que
eu não posso dizer. Quando a irmã morreu ela renunciou a
fazer musica e passou a ensinar.
ALV - Mas distinguia, sabia ver a genialidade do outro?
AP - Fazia o outro compor genialmente.
ALV-A edição das suas obras na
Tonos Verlag de Darmstadt foi importante na sua carreira internacional,
porque possibilitava a divulgação de sua obra.A partir daí
ela foi mais executada?
AP-Eu acho que a Tonos apareceu através
de um amigo meu que era o Manuel Massarani que era adido cultural da embaixada
do Brasil em Genebra, um rapaz muito importante na minha vida. Ele era
attaché cultural da delegação do Brasil na ONU -
e de muita gente importante no Brasil e que as pessoas se esquecem de
nomear. A Anna Stela Schic me disse: você tem que conhecer o Massarani
porque ele pode te ajudar a fazer uma carreira na Suíça.
Aí peguei o trem, modestamente, liguei da estação
para a embaixada falei com ele e acabei hospedado em sua casa quinze dias.
Neste tempo aconteceram coisas incríveis: ele marcou um recital
meu no Conservatório de Genebra, recebi quatro encomendas de obras
dos melhores grupos da cidade, ele ligou para Darmstadt falou com o Koenig
que era editor, fui la, assinei um contrato, ganhei um dinheiro adiantado.
Quando
cheguei a Paris já tinha obra tocada, tudo já marcado para
dois anos de atividade na Suíça. Porque era um homem que
fazia tudo na hora. E ele fazia isso para pintores, marcava exposições,
tudo. É uma pena que ele não esteja mais la, voltou para
o Brasil e depois aconteceu que a Suíça ficou sendo mais
do que França onde tudo acontece com minhas obras.
ALV-E o Oratório Villegagnon ou Les Îles
Fortunées que você escreveu para o Quarto Centenário
da morte de Nicolas de Villegagnon e que te possibilitou o ficar mais
um ano em Paris?
AP - Foi isso que me fez ficar mais um ano, foi isso
que me fez ficar mais conhecido em Paris, eu fui tocado em Provins, em
Chartres, é uma obra muito interessante, foi um boom que me aconteceu.
ALV-Voce voltaria a morar lá em Paris ou na Suíça?
AP-Eu tenho vontade de passar este ano um tempo lá
(lembrar que estávamos no ano de 1989). Tenho um convite do João
Carlos Martins para gravar uma musica minha em Los Angeles, e ir para
os Estados Unidos com ele para a gravação. Tenho vontade
de voltar a Suíça para continuar meu trabalho, da minha
missa que foi um sucesso. Agora em Paris não tenho mais contato.
Mas sempre acontece isso: há um lugar onde você é
mais tocado. É este ou aquele a não ser Stravinsky, Messiaen
que são tocados no mundo todo. Já está ótimo
que haja um lugar onde você é amado, respeitado. Mas eu tenho
vontade de ir para a Suíça, e Israel também me atrai
muito... É uma coisa absolutamente mística, musical, é
uma cidade carrefour, é a Bizâncio tudo acontece la,a paz
a guerra. Outro dia eu estava em oração e às vezes
tenho uma locução interior (termo místico usado para
designar contatos com o Alto) e Nossa Senhora me disse que meu tempo no
Brasil estava terminando e que eu tinha que ir para outro lugar. Porque
quando fui para a Europa, ano passado, que fui para ficar um longo tempo.
Mas fui parar em Medjugorje e tive que voltar para dar inicio a todo este
movimento, as imagens que eu trouxe (de Nossa Senhora Rainha da Paz que
aparece a cinco videntes desde 1981) e daí que precisava estar
aqui.Agora as coisas estão indo, andando sem mim e sinto que fechei
um capitulo aqui e tem que abrir outro em outro lugar.É isso, nós
somos peregrinos.
ALV-Esta coisa de Israel não será seu lado
judaico, quero dizer esta atração pela terra dos seus antepassados?
AP - Gozado, quando eu era criança eu tinha uma
coisa com Israel uma intuição que um dia eu iria morar la.
E quando estava na Europa eu tinha uma coisa com Israel, que era a coisa
do Cristo, o grande judeu, Nossa Senhora a grande judia. Olha só
que interessante aos dez anos eu profetizei - o repórter me perguntou:
“o que você vai ser quando crescer?” “Quando crescer
eu vou estudar em Paris”. Olha, eu tinha dez anos, o que eu sabia?E
fui e foi em Paris que eu comecei. Minha filha Maria Constanza diz: eu
vou para Nova York e eu a vejo assim: uma mulher linda, com cabelos com
laço marrom, de vermelho tocando no Lincoln Center, um concerto
de Beethoven com orquestra.
ALV-Quando voltou de Paris você foi dirigir o Conservatório
de Musica de Cubatão. Em seguida foi convidado para a Unicamp.
Conte esta história.
AP - Foi uma volta maravilhosa até porque eu voltei
como estrela, ganhava bem, eu gostava do Conservatório, mas ai
veio um convite do Rogério Cerqueira Leite, do Benito Juarez (que
foi maestro da Orquestra Sinfônica de Campinas durante anos) e do
Raul do Valle para eu ir para a Unicamp. Aí fui almoçar
com o Rogério e foi um almoço histórico, muito interessante
e muito rápido. Eu cheguei às 11 horas, ele me deu um cafezinho
e me disse: soube que você é um grande compositor e em seguida
me convidou para almoçar. No almoço ele disse: escuta aqui,
você quer trabalhar na Unicamp? Nós vamos fundar um departamento
de musica. Eu disse não, estou ganhando muito bem, 2.500,00 cruzeiros,
pago 400 de aluguel, andava de táxi, ia para Cubatão de
táxi. Ele me disse: mas estou te oferecendo 13. 500,00. Aí
me lembro que caiu o garfo e a faca (risos).
ALV-Treze...
AP-Treze mil e quinhentos cruzeiros novos... Quer dizer
de dois para treze. Aí parou tudo e perguntei: tem telefone aqui
para ligar para Cubatão porque me exonero já. Não,
porque ai já é uma coisa absurda. Mas daí eu disse:
você está brincando? Ele: não, é o que vou
te oferecer, MS 4.Sim, mas quando? Ele: já agora. Só que
você vai fazer o seguinte: você já está ganhando
a partir de hoje, você leva o curriculum, etc. Mas vai deixar o
dinheiro no banco e vai para a Europa, só volta em fevereiro.
ALV - Mas era bom demais...
AP-Sim foi de bandeja. Me deu viagem para a Europa e
em fevereiro de 1975 eu tinha no banco uns 90 milhões(lembrar que
eram cruzeiros novos).Ai aluguei apartamento, comprei móveis, piano,
tudo.Então a Unicamp foi um dom que Deus me deu, um presente.
ALV-Então você começou uma nova fase
na sua carreira. Aliás, você já disse gostar muito
da Unicamp, inclusive compôs uma sinfonia em homenagem a ela.
AP-Foi aí que comecei a florescer porque antes
da Europa eu considero um aprendizado imaturo. Na Europa foi um grande
aprendizado ainda mais apoiado em Messiaen e Nadia e quando eu cheguei
ao Brasil e fiz aquela obra Momentos de Cubatão e Ilhas.
Foi quando eu dei o grande divisor da minha obra e comecei aquilo que
eu realmente queria. Aí compus as Cartas Celestes
e fiquei o Almeida Prado com estilo próprio, com discurso pessoal.
ALV-São os Episódios de Animais,
Ilhas, Exoflora, enfim você era um brasileiro compondo
musicas que falavam da realidade do seu país?
AP - Tudo isso, que já considero do mesmo nível
dos que eu faço hoje
ALV-E por que acredita ser Cartas Celestes sua obra mais
sólida e importante?
AP - Eu acho a obra mais importante para piano da literatura
mundial, não só nacional. É uma das mais importantes
porque é a obra mais longa para piano que existe, nem Messiaen
tem uma obra assim, feita com o mesmo material. Na verdade ela é
um grande afresco, um grande mural cósmico que mudou muita coisa
no discurso do piano e influenciou muito a musica brasileira, todos os
compositores jovens foram beber la. Todos os que compõem para piano
foram beber nas Cartas Celestes. Como também as Cartas Celestes
tem influencia de Messiaen, Debussy, Villa Lobos, mas enfim ela é
uma coisa nova. Ela é o Qadós da Hilda (hoje Kadosh da Hilda
Hilst).
ALV-Ela foi executada no mundo inteiro, você me
disse.
AP – Foi sim, foi gravada pelo Ney Salgado, Fernando
Lopes, Roberto Szidon, japoneses, enfim foi executada no mundo inteiro.
ALV-Gostaria que falasse agora da sua fase na Unicamp.
Parece-me que você considera sua obra composta neste período
sua melhor obra?
AP - Foram treze anos, a porção mais importante
da minha vida: dos 32 aos 45 anos. Eu compus a minha melhor obra e isso
que te disse outro dia: se eu morresse agora, eu já fiz uma obra.
Eu ainda posso compor mais, mas se eu morresse neste instante eu acho
que não deixei descumprida a obra. Ela fechou. Então talvez
eu faça uma outra obra, mas esta fechou. Tem as Cartas
Celestes, A Sinfonia dos Orixás, a Sinfonia Unicamp,
tem a Missa de São Nicolau que é maravilhosa.
ALV - Que segundo me contou foi estreada em Villars-sur
Glâne, na Suíça. Conte em detalhes.
AP - Foi impressionante. Você não pode imaginar
a minha emoção-eu na igreja de Villars-sur Glâne,
nevando fora, Deus preparou o cenário teatral para mim...
ALV-Era véspera de Natal.
AP-Eu chegando e o maestro dizendo: não você
não vem ver o ensaio hoje, vem na véspera para ser uma surpresa
e tal. Mas como eu estava morando na casa de uns amigos, que ficava justamente
atrás da igreja de repente comecei a ouvir uns sons, eu nunca tinha
ouvido...
ALV-Mas como? Você compôs?
AP-Sim, mas uma coisa é você compor e outra
é ouvir com coral, etc. Subi as escadas do Coro, ninguém
sabia que eu estava lá e então eu ouvi uma coisa e falei:
eu fiz isso e ai eu chorava aos prantos, de adoração, de
gratidão, porque era uma coisa tão linda, porque eu pensava
era nível de Beethoven, de Mahler...
ALV-É porque você é modesto...
AP-Não, você fica modesto diante de uma
obra que realmente é maravilhosa. Ela ultrapassa... Mas aquela
emoção não foi repetida porque depois eu ouvi novamente
com pessoas ao lado, então você tem que ter atitudes, mas
ouvir virginalmente... Eles diziam: quel merveille, eles elogiavam sem
saber que eu estava la, tudo foi espontâneo, tudo autêntico.
Porque se soubessem que o compositor estava la já seria diferente.
ALV-Isso foi onde? Na catedral?
AP-Foi numa igreja pequena, século IX. Mas na
catedral foi uma emoção diferente, dia de Natal, missa de
dez horas, pontifical com bispo, cardeal, e ai eu fiquei anônimo
no meio da massa humana e aquela musica era a catedral, aquela musica
era de Deus, não era mais minha.
ALV-Gostaria que falasse um pouco da Sinfonia dos Orixás
sua ultima obra grande não é?
AP-Eu estava na Suíça como você viu,
eu estava la para a première mundial. Porque é o seguinte:
o Benito me encomendou uma obra para comemorar os dez anos da Orquestra
Sinfônica de Campinas. Resolvi então usar algum clichê
brasileiro usando afro, e fiz uma obra em que cada movimento era um orixá,
um simbolismo. Eu não sou crente do candomblé, mas respeito.
Então não era uma obra de alguém que crê em
candomblé. Eu faço candomblé como podia fazer Zeus,
Apolo, etc. e ficou muito bonito, muito colorido. E o Oscar Arrais que
é um grande coreógrafo que era na altura diretor do Ballet
de Genebra um dia estava conversando com o maestro – veja de novo
o destino-ele disse: “O que eu poderia fazer para a nova temporada-Lago
do Cisne eu não agüento mais, Ofélia, Sacre du Printemps-
ele queria uma coisa diferente- As Bachianas já era. Aí
ele viu o disco sinfonia dos Orixás na mesa do maestro e perguntou
- Almeida Prado quem é? Vamos ouvir isso ai.” E aí
começaram aquelas coisas, os tambores, aquele som, ele ficou louco.
Falou: é esse ballet. Endoideceu, ligou para a Unicamp, mandou
telegrama, porque quando as pessoas querem te encontrar... Finalmente
ligou para o meu editor que mandou material. Enfim foi posto na temporada
oficial do melhor teatro de ballet da Europa - o Grand Theâtre de
Genève junto com Bela Bartók.
ALV-Sei
que você esteve em Medjugorje, ex-Iugoslávia, atual Bósnia-Herzegovina
onde se registram aparições da Virgem Maria desde 1981 e
sei também que o que te aconteceu la ocasionou grandes mudanças
na sua vida. Poderia me contar a viagem, a experiência, tudo?
AP- Pois então entre a Missa, a estréia
da Missa, que era em dezembro de 1987, e o ballet em outubro, eu não
tinha o que fazer na Europa. Estava com dinheiro, mas ai me lembrei de
Medjugorje, que eu relutava em ir, eu tinha medo..
ALV-Por que, você sendo tão religioso?
AP-Das exigências de Jesus, porque eu não
estava vivendo uma vida de acordo, estava vivendo de um jeito oba
oba e eu sabia que isso não ia me levar a lugar algum.
E via Deus como um grande caçador me espreitando, sabe como uma
daquelas redes que se caçam os leões? Porque Deus é
um grande caçador, ele te caça, ele te quer, malgrè,
eu ia para cá ele para lá. Eu sabia que se chegasse la e
ele me pedisse para renunciar a tudo, todas as ilusões... Mas ai
mais uma vez arranjei desculpas, eu não posso gastar dinheiro,
se eu tivesse dois mil francos, pensei, eu ia. No dia seguinte fui ao
banco e la havia dois mil francos a mais na minha conta já dos
direitos autorais do ballet. Ai eu pensei: é um insulto a Providencia
de Deus eu não ir. Então arrumei uma maleta e fui para a
estação de trem, peguei o trem para Berna, fui à
embaixada carimbei o passaporte, em geral isso leva um mês, eu consegui
em dois minutos. Fui para o aeroporto peguei o avião, fui a Zagreb,
peguei o trem até Mostar e cheguei as 10 h da noite e havia um
homem me esperando na estação... Ele perguntou: vai para
Medjugorje? Quer dizer-São Gabriel (o arcanjo das comunicações)
ou São Miguel, um anjo de Deus ali, vestido de chofer de táxi!
Ele levou de táxi até la. Eu pensava ou este homem vai me
matar ou então é verdade. Ele me levou na casa de uma senhora
que só falava croata. Eu dizia: sleep, dormire, recostare, dormitatum,
falava em grego, a mulher nada (risadas). Ai eu disse: Nossa Senhora,
já que me trouxe aqui, arranje pelo menos uma língua celta,
que é pelo menos mais perto do francês que esse horror de
w com z cortado de baixo para cima (o croata) não dá...
Aí eu ouvi: mais non, parce que je... Ai fiquei mais aliviado-era
alguém falando francês. Era a tal canadense...
ALV
- A jornalista canadense que se converteu e está la escrevendo?
AP - A Lise Leclerc que vai a Medjugorje duas vezes por
ano, uma mulher rica e importante. Ela ficou trabalhando para Nossa Senhora.
Aí eu disse: s´il vou plait madame...e finalmente me alojaram
eu estava quebrado.Aí tudo bem dormi de roupa não havia
chauffage e me acordaram as quatro da manhã para eu assistir a
missa na capela das aparições - fazia menos dez graus, gelo
no caminho.Aí começou todo o trabalho eu senti necessidade
de e confessar, de procurar soltar e as coisas que foram dando certo até
que durante uma aparição senti a presença de Maria
chegando perto de mim e eu estava no céu- me veio uma certeza que
Deus me ama, como eu sou, e que Deus não é um tirano que
o céu é uma jubilação, não dá
para entender, foram minutos que para mim pareceram anos. E naquele minuto
eu tudo entendi, eu tudo perdoei. E fiquei tão perturbado que comecei
a trabalhar este dom e então comecei a rezar. Ia para a colina
e ficava quatro horas em oração, ia para o quarto rezar,
ia andar.
ALV-E aquelas locuções interiores de que
me falou? Quando aconteceram?
AP - Ah foi depois- ouvi a voz de Maria na cruz azul
que fica na colina – que ela havia me levado la para me entregar
a Jesus e que era irreversível, que ela com muito custo tinha conseguido
me levar e que tinha lutado muito com Satanás e que eu não
ia mais decepciona-la.Não vem a frase, vem uma intuição.Aí
, dias depois, fui rezar numa cruz que é uma cruz de madeira, como
tem em Campos de Jordão e ai Jesus falou: “Dá- me
tua vida”.Aí fiquei em pânico, pensei que ia morrer.E
eu disse: “toma Jesus tudo é teu”.Eu senti uma alegria
uma jubilação, fiquei inebriado, como se tivesse tomado
cinco garrafas de vinho. Fiquei rejuvenescido. Mas eu não podia
por uma tenda e ficar la e eu tive que voltar, trabalhar, etc. Fui para
Fribourg e levei uma vida entre o retiro e a solidão, aquela neve
e comecei a escrever o Rosário de Medjugorje e
fiquei esperando a Missa de São Nicolau, a estréia
da minha Missa. Mas então começou a dar errado e voltei
com a imagem que ela abençoou e começou todo um movimento
aqui no Brasil. Fui para Belém do Pará e a coisa está
crescendo, a divulgação das mensagens, das aparições...
ALV-Quer dizer que nesta hora ninguém sabe quem
você é, compositor famoso, etc?
AP-Ninguém sabe meu RG. Ali eu sou apenas o homem
que foi para Medjugorje e que põe as mãos e pede: que Jesus
te salve. Nesta hora eu sou instrumento de Cristo e eu tive que me acostumar
com isso.
ALV-E quais as obras que você compôs depois
desta experiência?
AP-O Rosário de Medjugorje, três canções
baseadas num poema do pai de um amigo meu: Notre Dame de la Route-Eric
Tillo. Vou ler para você: “Notre Dame, Vierge pure, vous etiez...
Você era apenas uma medalha que eu carregava. Toda leve, rápida,
doce, terna nos passos pesados do teu filho e eu te carregava como medalha
alegremente Eis que graça florida, que você vai à
minha frente rápida, sobre as pedras. E meu coração
te vê e escuta teus passos rápidos entre as pedras com o
bastão. De seus pés, misturados na poeira, cintilando como
um mistério no ar morno e palpitante. O seu manto é como
um pano é um céu azul e flutua resplandecente entre as nuvens
brancas e nos seus cabelos dourados, onde os trigos são olhados,
a lua fina faz um desenho como um diadema de prata. Ando muito tempo em
silencio e a noite cai e as árvores em cadencia balançam
com o vento. Você não escuta Maria, meus passos que estão
sendo ralentados? Maria, ó santa Maria escuta, eu estou te seguindo
eu não agüento mais andar. Ai você veio: ela parou e
na escura sombra fria e nua você me pegou pela mão e na sua
plenitude, sem medo nem cansaço. Enfim, divino privilegio, no meio
dos seus braços de neve, o seu amor me faz subir. E o coração
palpitando, eu escuto Nossa Senhora do Caminho, o vosso coração
batendo e cantando”.
ALV-Ah
que lindo... Nossa Senhora o carrega nos braços... Ele ouve seu
coração batendo... Belíssimo!
AP – Sim ele está andando com a medalha
e de repente vê a Virgem andando na sua frente e ele a segue, mas
está cansado a certa altura... Cansado de andar.... E de repente
ele não a ouve mais... Porque justamente ela o carregou nos braços.
Ele era um grande poeta suíço. E depois, eu compus ja aqui
no Brasil Nove Louvores Sonoros e O Jardim Final
que é uma lembrança de tudo aquilo que eu passei - uma espécie
de psicanálise musicada sobre tudo o que passei toda essa experiência
mística.
ALV-Voce considera sua obra suficientemente divulgada
e conhecida ou gostaria de vê-la mais tocada e mais conhecida? Sei
que você diz não conseguir fazer coisas simples?
AP - Gostaria de ser mais tocado, lógico, mas
eu tenho a impressão que faço uma obra tecnicamente muito
difícil. Eu não consigo ser simples. Mas eu já me
conformei, não estou mais preocupado.
ALV--Agora gostaria que você dissesse de forma
"simples" o que e atonalismo. E transtonalismo.
AP- (vai ao piano e faz acordes maravilhosos, transtonais).
ALV-Vamos traduzir isso em palavras. Compare o tonalismo
e atonalismo. AP-O atonalismo é o uso e todo o espectro harmônico
das ressonâncias cromáticas. Quer dizer no atonalismo, você
pulveriza a limitação de um modo (vai ao piano e faz um
modo maior). Agora você tem isso (faz um modo menor) e isso ocorre
porque a terça diminuiu. Mas ouvindo uma musica tonal você
sente que ela tem um clichê de começo, meio e fim, que são
as cadencias (ilustra novamente no piano).
ALV-Vamos comparar com a literatura, para eu entender
melhor a coisa. Você diria que o Ulysses de Joyce é atonal?
AP-É como escrever assim: “Maria acordou
e estava muito feliz. Foi à cozinha e encontrou seu gato dormindo
e disse: ó gato, você está dormindo”. Na literatura
é aquilo que está previsto e pode ser genial. Agora a musica
atonal: Maria acordou gato falou ó gato, ontem eu estava passando...
Aquela coisa estilhaçada, delirante, é o Kadosh
da Hilda, em que você entra no futuro, no passado. Então
Ulisses de Joyce é atonal. Dostoievski é
tonal, Hilda Hilst é atonal, Lygia Fagundes Telles é tonal.
E na pintura seria o abstrato. É quando você perde as referencias.
É o universo acima das referencias.
ALV
- Os tempos estão misturados, não há linearidade?
AP - Não tem linear. Na musica atonal você
instintivamente coloca harmonia, porque os têm arquétipos
herdados. Agora a música atonal não. O que não quer
dizer que não se possa fazer musica tonal hoje em dia, apenas que
o discurso sonoro foi levado a um outro tipo. Mas agora (notar que ele
falava isso em 1989) o tonal está voltando-o próprio Stockhausen
é tonal.
Obras
principais
Música orquestral: Cidade de São Paulo
(1981); Sinfonia dos Orixás (1985-86); Sinfonia Apocalipse (1987);
Variações concertantes para marimba, vibrafone e cordas
(1984); Concert Fribourgeois (1985) e Concerto para piano e orquestra
(1983);
Música
coral: Ritual para a Sexta-feira Santa para coro e orquestra
(1966); Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São
Marcos (1967); Pequenos funerais cantantes para coro, solistas, orquestra
(1969); Carta de Patmo para coro, solista e orquestra (1971); Thèrèse
ou l’Amour de Dieu para coro e orquestra (1986); Cantata Bárbara
Heliodora para solistas, coro misto e orquestra de câmara (1987);
Cantata Adonay Roi Loeçar para solistas, coro e orquestra de câmara;
Música
instrumental: Sonata para violoncelo (1980); 3 Sonatas para violino
e piano; Sonata para viola e piano (1983); Réquiem para a paz (1985);
Sonata para flauta e piano (1986); Trio marítimo para violino,
viola e piano (1983); Livro mágico de Xangô para violino
e violoncelo (1984);
Música
para piano: Cartas celestes (1974); 9 Sonatas; Noturnos; Prelúdios;
Variações; 6 Momentos; Ilhas; Rios; Itinerário idílico
e amoroso ou Livro de Helenice (1976); 3 Croquis de Israel (1989); Rosário
de Medjugorje (1987); 15 Flashes de Jerusalém (1989).
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