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Nova revista CONCERTO ganha seção com conteúdo da revista inglesa “Gramophone”

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LABYATHA a LAGOA da CANOA
passando por TACARATU

José Alexandre Saraiva*

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LABYATHA a LAGOA da CANOA
passando por TACARATU


José Alexandre Saraiva*



Era pra ser só uma brincadeira. Mas o “era” fez jus ao significado e ficou para trás!A idéia inicial se resumia a despretensiosa gravação de duas músicas. Homenagem surpresa a Hermeto Pascoal e a Sebastião Tapajós, amigos de casa. Unicamente isso. Artur Cigano e seu filho Marcelinho do Acordeon, este de vertiginosa habilidade no dedilhar, excepcionais músicos e parceiros desde o impulso primeiro -, deram o melhor de si na concepção de arranjos para ambas as composições. Na música De Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu, por exemplo, Arthur faz a viagem passar por verdadeiro oásis no deserto. Já o Marcelinho, além de sua admirável performance nessas duas faixas, dá vigor coreográfico de acordes ciganos nas músicas Preito a Beslan - Colos Desertos (1ª versão) e na sua tradução de Olhos Negros.

O mais tocante: o amiguinho Winícius, filho do Marcelinho, com apenas cinco anos, foi marcante incentivo à parte. Nos intervalos das gravações, e até por telefone, ele cantarolava para mim as músicas compostas para Hermeto e Tião. Deu-se, porém, que outros músicos de nomeada aderiram ao projeto embrionário da produção. Como não poderia ser diferente, foram surgindo novas faixas no CD. Outros amigos, novos acordes: Derinho Santos, César Matoso, Fábio Hess, Vinícius Chamorro, Raymundo Rolim, Eliane Bastos, Gedaias Rangel, Maurílio Ribeiro, Marcinho Cavaco, Ricardo Cabral, Raule, Belém, Selpa, Tarzan, Tampinha, Alê Maceió, Gerson Bientinez, Zezinho do Pandeiro, Chiquinho do Nordeste, Cícero José e até um uirapuru para o mais conhecido dos amazônicos: Sebastião Tapajós.

E, assim, rascunhos melódicos ganharam adornos e o resultado, além de surpreendente, foi gratificante. Amigo, como diz o Áureo, a gente não classifica. É milagre apócrifo comprovado em vida pelo Criador. Isso, todavia, não tira a tristeza de não poder ressaltar aqui, em tão breve espaço, os valores desses músicos talentosos, alguns com experiência além-mar. O mesmo se diga da frustração por não poder contar a história de cada música do CD - nenhuma nasceu do acaso. Uma dessas histórias inspiradoras, porém, urge ser contada. A motivação, como as coisas mais tocantes da vida, foi casual. Partiu das mais ricas e genuínas dicas rodoviárias por mim já obtidas. Tomara que sirvam de explicação para o título da composição De Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu (faixa 1).



À história



Em tarde de confraternização com amigos, na minha casa em Curitiba, quando tive a honra de receber a primeira visita de Hermeto Pascoal, fiz consulta, movido por curiosidade, ao bem andado sanfoneiro Derinho Santos, meu conterrâneo. Perguntei se seria possível chegar a Lagoa da Canoa, em Alagoas, terra de Hermeto, saindo de Labyatha (o nome oficial é Panelas, mas há controvérsias), no agreste pernambucano, e passando por Tacaratu, reduto de João Pernambuco e berço de outros grandes músicos. Lá, nasceu Derinho – sanfoneiro arretado de bom, com destacada presença nos melhores estúdios de São Paulo e no meio artístico do Paraná. Reparem na faixa 2 a tamanha criatividade dele ao imitar na sanfona os pulos do tamanduá. Uma perfeição incrível. Esclareci ao Derinho que tinha saído de Labyahta muito cedo, na adolescência, sem noção da malha rodoviária do estado. Sem titubear, ele soltou essa: “Ôxente, e não é não? Simples demais, homem!” Ato contínuo, detalhou o roteiro da viagem, em minúcias cartográficas, geográficas, históricas e culturais. E haja sanfoneiros, riachos, sítios e estórias – inclusive do cangaço!Antes, avisou que traçaria o mapa de forma objetiva, mas sem deixar de sugerir importantes opções. Afinal, já tinha puxado o fole em quase todas as cidades do agreste e do sertão.
- Você está mais ou menos no km 115 da BR 104 – disse ele. Saia pela direita, cruzando o rio Panelas e deixando o povoado de Pau Ferro e o Riacho do Mel à esquerda. À direita, está a feira de Cupira, onde poderá comprar umas cocadas pra comer durante a viagem, que não é tão longa. Mais na frente, escolha um bom chapéu de couro em Agrestina, à esquerda, após passar sobre o rio Una. Subindo a serra da Quitéria, logo chegará a um viaduto na entrada da cidade do maior e melhor São João do Mundo e que também ostenta a maior e mais famosa feira: Caruaru.

Derinho foi falando: Caruaru, Capital do Agreste, é o santuário do Mestre Vitalino, da Banda de Pífano, do Coronel Ludugero e Otrope, de Camarão, do alagoano Jacinto Silva, do Azulão, de três imortais - Austregésilo de Athayde, que presidiu a casa de Machado de Assis durante 34 anos, e os irmãos Condé, embaixadores do “país de Caruaru” -, de Álvaro Lins, de Aurélio de Limeira Tejo, de Nelson Barbalho, dos bairros Vassoral e Petrópolis, do Mestre Osvaldo da Madeira, de Newton Thaumathurgo e dos poetas Diniz Vitorino (nascido na Paraíba de Sivuca), Petrúcio Amorim, Ivanildo Villanova, Juarez Santiago e Onildo Almeida. Nesse momento, Derinho convidou-me a sentarmos a uma mesa de canto. E foi esmiuçando: lá na entrada de Caruaru, no viaduto, tome a pista da BR 232 à esquerda. À direita, você teria acesso a essa mesma BR, desde que fosse seguir o caminho para Olinda de Nassau e das estonteantes folias de carnaval.

É a mesma rodovia que vai para o Recife do Galo da Madrugada - Capital do Frevo -, em cujo trajeto você poderia chegar à Bonito de Nelson Ferreira e, depois, passando por Vitória de Santo Antão, da Pitu e Duda da Pacira, chegaria à Veneza Brasileira, do Capibaribe e Beberibe, dos canais, das pontes, de Bandeira, de Gilberto Freyre, do paraibano Suassuna, de Manezinho Araújo – autor de Cuma é o nome dele -, de Nelson Rodrigues, de Antonio Nóbrega, de Lenine e de Antonio Maria - criador de Ninguém me Ama. Infelizmente - lamentou -, sua viagem não irá nessa direção. Entrará, como disse, à esquerda, pela 232, até chegar a São Caetano, conhecida como São Caetano da Raposa, terra da carne de sol. Em São Caetano, pegará a 423 pela esquerda. Antes, como fazia o saudoso Mersinho, coma uma boa carne de sol ou, se preferir, relaxe um pouco, saboreando tradicional coxinha.

Você acabou de deixar à direita a BR 232, espinha dorsal de Pernambuco. Ela levaria você à Serra Talhada de Lampião e de Zé Dantas, autor do Forró de Caruaru, Xote das Meninas, Sabiá e A Volta da Asa Branca. Por aí, já no sertão propriamente dito, você chegaria também a Exu, do Rei do Baião, e a Tabira, do autor de Serrote Agudo, Zé Marcolino. Não irá seguir essa rodovia porque a opção da viagem é pelo agreste e não pelo sertão. Uma pena. Mas, se tivesse tempo para continuar na 232, passaria pela musical Belo Jardim, onde, logo à direita, está a cidade Brejo da Madre de Deus, com seu sítio arqueológico e com o maior teatro ao ar livre - Nova Jerusalém - no distrito Fazenda Nova. Ali, todo ano, na Semana Santa, é encenado o mundialmente consagrado Drama da Paixão de Cristo. Antes da cidade de Serra Talhada – que também é do Batoré, neto de cangaceiro -, passaria por Sanharó, Pesqueira, Arcoverde, do Rivaldo Cabral e Lua Calixto, depois Placas (ou Cruzeiro do Nordeste, onde foi filmado Central do Brasil), Salgueiro e Ouricuri. Em Ouricuri, deixando à esquerda o caminho de Petrolina, pegaria à direita a rodovia que tem o nome do hino nordestino, com letra do cearense Humberto Teixeira: “quando oei a terra ardendo, qual fogueira de São João, eu preguntei a Deus do céu por que tamanha judiação…”

Ao seguir a Rodovia Asa Branca, lá na frente chegaria à cidade natal de Luiz Gonzaga, Exu. Depois à serra do Araripe, relicário de Seu Lua. Estando ali naquela região, poderia visitar também Araripina, terra do gesso. Ocorre, como já disse que o seu trajeto é outro. Se a primeira etapa da viagem, com parada em Tacaratu, fosse mesmo pelo caminho do sertão – o que seria perfeitamente possível -, quando estivesse em Placas (Cruzeiro do Nordeste), era só pegar a estrada à esquerda, passando em Ibimirim. Aí, seguiria em frente, mantendo-se à esquerda. Floresta do Navio fica no lado direito. Chegaria a Inajá, deixando à sua frente a ponte sentido Mata Grande, Alagoas, e seguindo à direita pela Ribeira do Moxotó, em terras pernambucanas. Passaria no sítio Traíra, do velho Henrique, depois Tiririca de Zé de Beija, que serve boa bicada, e Olho D’Água do Bruni, onde, na venda de Saturnino Basílio, não resistirá ao aroma das rapaduras. Ao passar o Salgadinho de Tonheiro Brito e Lage, chegaria ao meu Pindobal, alcançando em seguida a Vila de Caraibeiras, município de Tacaratu. Para não complicar, vamos deixar essas sugestões de lado.

Continue na 423, a partir de São Caetano. Pela segunda vez, cruzará o Rio Una, ao passar por Cachoeirinha - paraíso do queijo, do mel de uruçu e da manteiga de garrafa. É a terra do couro e do aço. Possui forte mercado de celas e arreios para cavalos, exportando para os quatro cantos do mundo. Em seguida, chegará a Lajedo, terra da legendária égua Dondoca - que nunca perdeu uma corrida e fez estremecer o cavalo Apagão -, dos Bárbaros da Bossa, do famoso vaqueiro Cordeiro Weloso, do Heleno dos 8 Baixos, do médico mais antigo de Pernambuco, o querido Dr. Dourado, de Guilhermino Paulo, avô de Marco Vinícius Vilaça, imortal da Academia Brasileira de Letras, Naldo Costa, Wilson Weloso e do Lajeforró. À sua frente, após a boa de festa Jupi e a charmosa Neves, está Garanhuns - do Dominguinhos, das vaquejadas, do frio europeu, dos cafezais do padre, dos festivais de inverno e do Castelo de João Capão.

Mais adiante, cruzará o famoso Riacho do Navio (“Riacho do Navio corre pro Pajeú, o Rio Pajeú vai despejar no São Francisco, o Rio São Francisco vai bater no meio do mar…”). Passará também por Iati – onde poderá comer um bode assado no Maria Piroca - e Águas Belas. Em águas Belas, há muitos anos vivem os índios Funiô, também conhecidos como Carnijó ou Carijó. Seu dialeto é o Yathé e se comunicam bem no português. Na seqüência, vem o Capiá, depois Ouro Branco, à esquerda, com seus currais de gado. Surgirão três entroncamentos. Fique atento nesse trecho das alagoas do Xameguinho do Acordeon. Primeiro é o do Carié. À direita, encontra-se Canapi, à esquerda, Santana do Ipanema. Depois, vem o trevo Leobino, com Inhapi à direita. O terceiro entroncamento é o Maria Bode. Aqui, todo cuidado é pouco.

No Maria Bode - preste atenção - entre à direita e, em seguida, no primeiro trevo - chamado Marcação -, à esquerda, para Pariconha. Antes de Pariconha, tem a Várzea do Pico – onde é proibido assoviar - e o povoado. Quixabeira. Ao assim prosseguir, você deixou Água Branca à direita. Vão surgir os sítios Figueiredo e Ouricuri dos Caboclos, depois, um rio. Esse rio deverá ser vencido obrigatoriamente. É o Moxotó. Ao atravessá-lo, se aprochegue na Ilha Grande, procure meu amigo sanfoneiro Dário Joaquim e saboreie um bom sarapatel. Afinal, já estará de volta ao solo de Frei Joaquim do Amor Divino, de Felipe Camarão, Paulo Freire, do cearense de Araripe Miguel Arraes de Alencar (“Pela cidade, se conhece o homem que trabalha; a voz de deus é a voz do Povo, Miguel Arraes vai governar de novo”), Capiba, Arlindo dos 8 Baixos, do Maracatu da Coroa Imperial, Barbosa Lima Sobrinho, Aníbal Bruno, João Cabral de Melo Neto, José Souto Maior Borges, da Lia de Itamaracá (Essa aliança quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá…) e ainda do Chacrinha, das Terezinhas e do Pedro de Lara.

Agora, é só seguir até a Vila Caraibeiras. Aí visite sua deslumbrante feira, toda sexta. Depois, à direita, chegará ao Sítio Pindobal, onde eu nasci. Você ainda não está na cidade de Tacaratu, mas muito próximo. Para chegar lá, retorne a Caraibeiras - a Vila mais importante de Tacaratu. Ficou famosa pela manufatura de redes de balanço e artesanatos em geral. Indo em frente, chegará à serra do Mata Burro. Na descida dessa serra, avistará, entre outras belezas da natureza, à direita, a esplendorosa serra do Giz. Em frente, está Tacaratu, com seus mangueirais, bananais, coqueirais e cajazeiras. Ainda na descida da serra do Mata Burro, ficará maravilhado com as matas do Pai João e seus sagüis travessos. Seguindo em frente, passará por Lagoa e Fonte Grande – uma mina cobiçada por multinacionais. Jorra água mineral por entre as pedras da serra do Giz. Apenas uma subidinha e verá a Igreja Nossa Senhora da Saúde, padroeira da cidade que respira não apenas esperança e fraternidade, mas também acordes indeléveis de João Pernambuco, criador de Sons de Carrilhões e co-autor da música Luar do Sertão (“Não há, ó gente, não, luar como este do sertão…”). João Pernambuco nasceu por ali, em Jatobá. Tacaratu também é reduto de outros músicos respeitados, como Antonio Rêgo e Armando Rodrigues. A cidade realiza anualmente a maior festa do Sertão do São Francisco. Os festejos, em homenagem à Nossa Senhora da Saúde, se estendem durante nove noites, iniciando-se no final de janeiro e terminando no dia 2 de fevereiro. Vem gente de toda banda. É como na corrida de jericos de Panelas, no 1º de maio.

Caso eu não esteja lá, diga a quem encontrar na rua o nome Mestre Lelé Batinga – apelido do meu pai Manoel Heleno dos Santos. Todo mundo conhece todo mundo. Pergunte ainda pelo Cosme Manga Rosa, do Olho D’Água do Bruni, pelo Amarelinho, que imitava pássaros, pelo cego João Piau - nascido no sítio Umidade -, maior tocador de pé de bode de Tacaratu, que atirava pedras certeiras com os dedos dos pés. Procure também pelo Anchieta Dali, pelo Juarez Major, remanescente dos Caçulas do Baião, e pelo Josildo Sá. Pronto. Você estará em casa. Acaba de completar a primeira etapa da viagem. Terá direito a soneca em rede de varanda, novinha em folha, bordada e tecida por dona Ilda. E quando bem entender que é hora de partir para Lagoa da Canoa (desde logo, fique sabendo que não vai querer sair nunca mais de Tacaratu), passe direto - mas com as cautelas necessárias - pelo Maria Bode. Ao cruzar o Maria Bode, estará na cidade de Delmiro Gouveia, nas alagoas, onde nasceu o Nouzinho do Xaxado. Lá moram dois sobrinhos de Lampião. Qualquer aperreio, fale com um deles. Tome um cafezinho com o sanfoneiro Zequinha do Estreito e aproveite para conhecer a fabulosa usina hidrelétrica de Xingó. Para tanto, basta ir em frente. Passe pelo bairro Pedra Velha, onde já fica autorizado a fazer a barba com o Zinho Barbeiro. Fale de mim pra ele, que você não pagará nada. Bom, agora é só cruzar o entroncamento Olho D’água do Casado até chegar a Piranhas, sertão do vale do São Francisco. Nessa cidade, a polícia expôs publicamente a cabeça degolada de Lampião, tão logo confirmada a sua morte num esconderijo de Angicos. Conta-se também que o seu camarada Corisco, certa feita, em episódio tido como fúria passional, invadiu Piranhas e matou um monte de gente. Lá encontra-se rico museu com a história do cangaço.

- Não é nessa região que existe um cânion? – indaguei, interrompendo o Derinho.

- E apois! – respondeu. Tem mais de 50 quilômetros de extensão.

Prosseguiu: Na volta de Piranhas, antes do Olho D’Água do Casado, pegue a esquerda, no sentido Canindé do São Francisco, fazendo obrigatória visita ao complexo de Xingó. Quando estiver retornando de Xingó, seguindo sua viagem a Lagoa da Canoa, pegue à esquerda, no sentido Olho D’Água do Casado. Dobre à direita, siga em frente, por São José da Tapera, depois Pão de Açúcar, recanto do seu xará Saraiva do Sax Soprano, passe pelo Olho D’água das Flores, em seguida Batalha, Folha Miúda e chegue a Arapiraca - lugar de fumo roliço de primeira e onde poderá bater um papo com o Marcos Góis, João do Pife, Afrísio Acácio- sanfoneiro que ainda usa gibão e chapéu de couro -, Zé Neto, primo de Hermeto, e Cecílio Barbeiro, afinador e tocador de sanfona. Aí, pegue à direita e, após passar por Girau do Pociano, finalmente estará na Lagoa da Canoa de Hermeto Pascoal, maior novidadeiro de sons do mundo – autor de Chorinho Pra Ele, Bebê e O ovo. E – acrescentou Derinho - quem diria! Tudo começou quando, ainda criança, Hermeto escutava batidas de latas na oficina de seu avô, que era ferreiro!
Muito bem! Volte de Lagoa da Canoa pelo mesmo caminho. Ao chegar a Arapiraca, você pode retornar a Labyatha por União dos Palmares. É bem pertinho, ali pelas direitas. Se seguir esse trajeto, mais adiante dê um jeito e vá até à Palmeiras dos Índios do prefeito Graciliano Ramos, nascido em Quebrangulo, autor de Vidas Secas e criador da mais famosa cadela nordestina - Baleia. Faça uma visita também a Marimbondos, do sanfoneiro Genaro. Fica tudo por aí.Mas, se a opção for regressar pelo caminho do trajeto inicial, a fim de rever os Funiô e Garanhuns ou dar uma esticadinha, a partir desta cidade, até Caetés - terra do Lula -, nesse caso, evite o Maria Bode. É sempre bom evitar o Maria Bode. Saia, então, de Arapiraca pelo caminho de Major Isidoro, em direção à BR 423 ou, mais à esquerda, por Santana do Ipanema, de sua comadre Eliane, pegando a 423 pela direita do Carié, no sentido de Garanhuns.
Note - ponderou o Derinho -, se você julgar que vai enjoar fazendo todo esse percurso, desde a partida da sua Labyatha, que também é da Zefa Bozó, do Sapo Choco, do Zé Piúdo, do Zé Porquinho, do Pompéia, do Anacleto, do Mandiú, do Boi Tungão, do Letâncio, do Venta Curta, do Negozé, do Zé de Loló, Zé Anão, Zé de Sula, Zé de Preta e da Maria Cachorra, tenho outro plano. O melhor é sair de Labyatha pela Rua do Xêxo, onde você nasceu pegando à esquerda a 104. Após vencer, com atenção redobrada, a perigosíssima serra do Criminoso - deixando, à direita, a entrada de São Lázaro, depois o Brejo de João Alves, e, à esquerda, o Timbó e a destilaria Jundiá -, Coloque no bagageiro mantimentos práticos para a viagem. Providencie um quite com rapaduras, batidas, mel de engenho e doces de cana no Engenho Amolar de Dede Vilar, que está logo ali, à direita. Faça isso. Ao retornar à BR 104, tenha o máximo cuidado com os cortadores de cana que se espalham pelo acostamento, desde as 4 da manhã. Eles ganham pelo que produzem. A viagem, então, não será por Caruaru, mas por Quipapá e União dos Palmares - região repleta de engenhos de cana. Passará Branquinha e Murici. Ali por Messias, você sai da 104 e entra na 101, por onde chegará a Arapiraca. Daí pra frente é muito fácil. Nesse caso, o ideal é ir de Labyatha a Tacaratu, passando primeiro por Lagoa da Canoa e não de Labyatha a Lagoa da Canoa, passando primeiro por Tacaratu.
Você pode ainda se dar o luxo - preferencialmente no primeiro trajeto proposto para a viagem, ou seja, Labyatha-Tacaratu-Lagoa da Canoa via Caruaru -, estando em Delmiro Gouveia, de atravessar o Chicão pela exuberante ponte de Paulo Afonso, mirando lá em baixo o rio São Francisco, bem estreito e silencioso. Após, vá conhecer as comportas do complexo da Cachoeira de Paulo Afonso. Rapaz! – exclamou Derinho. Já que você está ali tão perto, vá à Usina de Paulo Afonso, na Bahia de Rui Barbosa, de Jorge Amado, de Itapuan, da Mãe Menininha, do João Ubaldo, do vatapá e do acarajé, do Noca do Acordeon, dos sanfoneiros Cicinho Bonfim e Quinca dos 8 Baixos, do Raul Seixas, do Caetano, Gal, Betânia, Gil, do Assis Valente e do Trio Nordestino!

Não deixe de ir à Paulo Afonso dos meus amigos Dario da Sanfona, Elias Nogueira e Enok do Acordeon. Desse encontro, no mínimo vai sair um forrobodó, com Dedé de Colimério no triângulo e Guaxinim na zabumba. Sabe onde? No posto do Fernando, ali na saída para Salvador. Leve meu abraço a Luiz Tenório de Brito e à dona Magali, pais de Luciano Magno. A cidade e sua cachoeira, como você sabe, foram imortalizadas nos versos da música de Luiz Gonzaga, que diz: ”Delmiro deu a idéia, Apolônio aproveitou, Getúlio fez o decreto e Dutra realizou… o Brasil vai, o Brasil vai…” Aproveite e dê um pulinho ali em Canindé do São Francisco, passando em Malhada Grande. Corte aquelas matas baianas até chegar às caatingas de Sergipe. Volte pelo mesmo caminho, saindo da Bahia para nossas terras pela magnífica ponte.

Venha, então, pela 423 – aquela rodovia por onde você veio de São Caetano até o Maria Bode. No entroncamento do Jardim Cordeiro, quebre à esquerda, atravesse o Moxotó, beirando o São Francisco, e chegue a Jatobá do João Pernambuco – um gênio da música, segundo Villa-Lobos. Coma aí um saboroso pão doce com espinhaço de coco, regado a suco de imbu. Depois, ao visitar a hidrelétrica Luiz Gonzaga (Itaparica), chegará ao destino final desse bônus turístico inesquecível: a nova cidade de Petrolândia! Passará primeiro pelos vestígios da Petrolândia velha, inundada pelo Chicão. Anote aí, antes que esqueça: Petrolândia já teve o melhor conjunto de choro da região, formado, entre outros, por Coco de Zé de Aninha e Zé Neguinho. Pronto. Agora, é seguir o caminho lá de casa. Para chegar, suba a serra de Petrolândia. Passando pelo Barrocão, chegará a Espinheiro e Folha Branca. A seguir, já na igreja matriz de Tacaratu, reveja a imagem de Nossa Senhora da Saúde, agradecendo com oração a proteção recebida na viagem.

E como você gostou desse passeio extra, faça outro, antes de voltar a Labyatha. Dê uma chegadinha até a cidade natal de mamãe, em Betânia. Não se arrependerá. Saindo de Tacaratu, fica a uma distância média de 40 léguas de carro, ou 30, se a cavalo. Faça o seguinte. Pegue a rodovia sentido Inajá, terra das melancias. Prossiga. Em Ibimirim, deixe o caminho de Arco Verde à frente, bem como o famoso açude Poço da Cruz. Entre à esquerda, pela central sentido Floresta do Navio. No km 28, terá acesso ao lugar chamado Negrinho das Porteiras. A partir daí, 6 quilômetros adiante, já tendo passado pelo riacho de São Braz - que lá frente se abraça com o Riacho do Navio -, estará em Cacimbinhas. Em seguida, à direita, chegará a serra Branca e, por fim, a Betânia. Era por aí que Lampião costumava refugiar-se. Até hoje a região é repleta de carreiras de cruzes, vestígios de sepulturas, além de punhais e de muitas cabos de imbuá perdidos no mato. Você vai ver a cruz do fazendeiro Antonio Venâncio, que era contra Lampião. Foi assassinado com um rifle surdo. Lá em Betânia, dirija-se ao sítio Cacimba Velha, onde nasceu dona Ilda, minha sagrada mamãe. Para tanto, seguirá por uma estrada de catabil até o sítio Mandacaru – povoado com um açude grande. Terá à frente o sítio Jurema e, por fim, Cacimba Velha, onde deverá imediatamente dar um mergulho profundo e gostoso e, m seguida, comer saborosa coalhada escorrida.

No retorno de Cacimba Velha a Tacaratu, o melhor é trocar o carro por um bom cavalo-manga larga esquipador, recebendo a torna em bodes. Na negociação, deverão entrar um cachorrinho vira-latas caçador de preá e uma peixeira cabo de imbuá– a preferida de Lampião -, para ficar prevenido na viagem. Siga pelo Xiquexique, cortando as caatingas enfeitadas de coroas-de-frade, velame, macambira e quipá - tudo sob os cantos do galo de capina, da asa branca, da acauã e da siriema. Se o cavalo desembestar e você cair, não vai encontrar farmácia. Nesse caso, se ficar machucado, procure um pé de quixabeira ou de bom-nome. Rape com a sua cabo de imbuá a casca do bom-nome ou da quixabeira, arranque uma cubaca do ouricurizeiro e beba esse santo remédio com água fresca daqueles riachos. Se levou algum taio no corpo, faça o seguinte: corte um pé de pinhão brabo ou pinhão roxo, lasque a canela dele, tire o miolo e bote em cima do ferimento. Para não inflamar o taio, rape uma arueira, coloque dentro da cubaca com água. Se não tiver água por perto, mije na cubaca. Mexa até ficar tudo vermelho e lave o local. Pronto. No outro dia, vai estar enxuto, bem sequinho.
Vá indo, quer dizer, você está voltando a cavalo de Cacimba Velha para Tacaratu. Agora, encontrará o sítio Jacaré, depois Passagem Funda, em seguida Muquém, e Tabuleiro. Prossiga. Ao chegar a Realengo, cruze a pista Ibimirim-Floresta do Navio. Logo adiante, estará na fazenda Pipipan. Nesse trecho, é preciso estar com os borná cheios de imbu, araticum, araçá, rapadura, carne de bode seca e farinha de mandioca sertaneja. Na falta de palito de dente, arranque espinhos do mandacaru. Também é bom pegar no mato um facheiro seco. Acenda o facheiro - que é primo do mandacaru -, principalmente se for noite, para alumiar a estrada e espantar onça. Além dos vagalumes piscando nas arandelas do breu, tem muita onça vermelha e do lombo preto. De dia, quando você ainda pode ver o orvalho beijando a flor, essas veredas até que não são tão perigosas, mas, à noite, a coisa é preta mesmo. Tem até assombração, viu?
E se tiver necessidade de fazer uma visitinha privada e urgente, cuidado para não pegar folhas de urtiga e cansanção. Do contrário, os calombos na bunda irão incomodá-lo. Procure ali folha de malva branca. É mais confortável. Antes de sair de Pipipan, dê água ao cavalo. Reforce com capricho os alforjes para não faltar mantimentos na estrada. Continue em frente. Cuidado para não enfadar muito seu alazão nos bancos de areia da Baixa da Faveleira. Se relampear, corra e se abrigue no primeiro rancho. Evite ficar debaixo de pé de pau grande. Essas árvores atraem os raios. No antigo Poço de Afonso, hoje Terra Rica, desarreie o cavalo e se arranche. No romper da aurora, enquanto toma café torrado no caco e pisado no pilão, com cuscuz, leite e manteiga de garrafa, dê um borná de milho para o seu amigo e companheiro de jornada. O cachorro se vira. Continue a viagem. Como poderá surgir todo tipo de imprevisto, antes dessa partida se garanta com rapa de juá - é bem melhor que pasta de dente. Na frente, passará a serra Negra e os o sítio Juazeiro dos Cândidos. Atravesse a central. À esquerda, está o hotel do Peba. Em seguida, passará por Olho D’Água do Coxo, sítios Caldeirão, Araticum, serra da Prensa, Imbuzeirão, serra da Samambaia e Água Preta. Este local é o preferido das codornas, codornizes, rolinhas, juritis, bacuraus e gaviões. Também tem coruja, asa branca e assum preto.

Preciso agora – disse Derinho – lembrar uma estória contada por meu avô Abílio. Aconteceu nessa serra da Samambaia. Foi no lugar chamado Apertar da Hora. Em caçada implacável a Lampião, rei do cangaço, um soldado deparou com um cangaceiro, que, à toda evidência, era adepto de “orações fortes”, muito fortes, pois tinha se disfarçado de tronco de baraúna, com um cupim na parte superior. Ao lado do toco, estava seu vistoso cachimbo. Percebendo a inusitada “transformação”, o soldado - que também era ligado às mesmas crendices do cangaceiro - apenas bateu com a boca do cachimbo no tronco da baraúna, espalhando as cinzas no camuflado cangaceiro, que se manteve mudo. Com um sorriso, disse: “Cabra, não vou matar você, não, viu?. Cumpriu a palavra e foi embora.Quando tiver descido a serra da Samambaia, onde há fartura de maçaranduba, araçá, pitomba, araticum e ouricuri, avistará frotas de incansáveis e obedientes jumentos com cangaias e caçuás. Carregam ouricuri. Outros, com cambitos, levam lenha para esquentar o forno de torrar farinha.

Daqui a pouco estará no sítio Água Preta. E a seguir, cuidando para não esbarrar em carrapichos e unhas-de-gato - que doem que só a bobônica -, chegará às queimadas do meu tio Manoel Francelino Rodrigues. Depois, Baixa da Quixaba, do Craveiro do Velho Cajueiro, do Zé Manezinho e de Dudinha Basílio. O próximo sítio é Lage, onde poderá repousar na casa do meu avô Abílio Pedrosa – mas isso se a estridente orquestra de tem-tens deixar você dormir. Cantam a noite inteira e se escondem de dia. A sinfonia das acauãs começa de tardezinha, antes do empardecer. Refeito do cansaço, é só seguir a Tacaratu, tomando, de manhã, um café com bolo de mandioca e tapioca na casa de minha avó Tonha Batinga, em Pindobal. O caminho você já conhece. Agora pode ir de carona com o Luizinho. Deixe o cachorro com Saturnino de Abílio e o cavalo, no cercado de Antonio Cabra, avô do Luizinho.

Se não conseguir comprar outro carro em Tacaratu, minha tia Alaíde dará um jeito, nem que seja de jegue, e levará você até Caruaru, onde encontrará seu amigo de infância Zé de Arlindo, que entende desses negócios. Era com a tia Alaíde que eu fazia, quando menino, o trajeto que lhe informo. Seja como for – prosseguiu -, redobre sempre a atenção diante da possibilidade de cruzar com animais, principalmente raposa, veado, onça, gato-do-mato, gambá, mocó, tamanduá e guará - este é doidinho por melancia. Também fique atento nos entroncamentos. O Maria Bode, repito, é o mais perigoso. Você o encontrará no mínimo duas vezes, invariavelmente. Em resumo, pelo plano “a” do seu passeio (De Labyatha a Lagoa da Canoa, passando primeiro por Tacaratu, via Caruaru), quando estiver no Maria Bode, já tendo passado por Lajedo, Garanhuns e Águas Belas, deve sair desse entroncamento pela direita para ter acesso à minha cidade. Ao retornar de Tacaratu, agora indo para Lagoa da Canoa, não entre nem à esquerda nem à direita do Maria Bode, vá em frente. Mas se você fizer aquela viagem especial que sugeri até Paulo Afonso e já tendo passado por Lagoa da Canoa, ao voltar por Tacaratu, pegue o Maria Bode à esquerda.

No roteiro “b” da viagem (De Labyatha a Tacaratu, passando por Lagoa da Canoa, via Quipapá, sem cruzar o Chicão até Paulo Afonso), quando estiver retornando da cidade de Hermeto, cruze o Maria Bode e siga direto a Tacaratu. No regresso de Tacaratu para Labyatha, conforme já explicado, é para entrar à esquerda desse entroncamento, se quiser voltar pela 423, passando de novo pelo Riacho do Navio, que está, como já dito, entre Águas Belas e a Garanhuns do seu José Domingos de Moraes, filho do Mestre Chicão. Em Garanhuns, você faz uma opção: seguir à direita, pelos cajueiros de Canhotinho e dos engenhos de Quipapá, ou dando um pulinho até Caetés - à esquerda da rodovia. Depois, volte à 423 e vá até Lajedo.Em Lajedo, deixe à esquerda a PE 180, que vai para São Bento do Una - do Alceu Valença e da corrida de galinhas - e Belo Jardim, maior fabricante de jabá no passado e onde tem água boa e doce do Bituri, além de muita mariola. Entre à direita na PE 170 e vá até o entroncamento da PE 158. Siga nela pela esquerda, em direção a Labyatha, das professoras Natércia, Ana e Inez, do Seu Louro, do Seu Chiquinho, do Dega, do Seu Outô, do Seu Martins, dos Miranda, dos Ávila, dos Vilar, da Dora, do Miguel, da Detinha, da Carma, do Cícero, da Fátima, da Risomar, do Geraldo, da Edileuza, dos Lucena e da Adalgiza. Ao passar por Queimadas, o mais importante distrito da insinuante cidade de Jurema, que está logo ali, os portais do reino encantado da centenária Banda de Música Mariano de Assis, do maestro Luiz Galvão e dos acordes do Pedrinho Marcolino se abrirão, em meio a frondosos umbuzeiros e juazeiros.
O primeiro desses encantadores portais é a Vila de Cruzes, da Quiterinha; o segundo, a Boca da Mata, de onde já poderá avistar inteirinha a serra da Bica e terá, à esquerda, o Bola de Gregório Bezerra. Mas à esquerda, está Altinho, de Jorge. Nesse descortinar frenético de suas raízes, você cruzará o Contador, de Lula Mimim e Lena, e, à direita, a Pedra do Veado e o Riacho do Mel. Cruzará, então, o rio Panelas, nascido com o nome Quipapazinho, já irmanado com o rio Feijão, e, à frente, o Recifinho - território dos Sinézio de Campos e do poeta Oliveira de Panelas – o Pavarotti dos Sertões. Encostadinhos à direita do Recifinho estão os sítios Barroca, Sacada, Várzea do Ingá e Feijão – parada do sanfoneiro Amâncio Saraiva e palco de sangrentas batalhas da Guerra dos Cabanos, ali liderada pelos irmãos Timóteos, nome herdado por uma serra.

Num tiquinho de tempo, estará de volta ao Rancho Velho de Benedito Alexandre, com sua cacimba de água cristalina. Um sítio mais doce do que o de Raul Seixas no sertão de Piritiba. Era ali que seu Benedito e dona Eliza faziam o melhor queijo de manteiga do agreste. E quem esquece daquela farofa da rapa de queijo?Irá deleitar-se comendo pinha e jaca e chupando pitomba, imbu, cana-caiana, cajá, caju, cambuí e jabuticaba. Assará no lajedo castanhas dos cajus Abelha e Durinho em banda de lata de querosene furada a prego, sobreposta a pedaços de pedra e aquecida com fogo dos gravetos de alecrim. Fará – depois de tanto viajar - a devida releitura analítica das obras de Oliveira de Panelas e de Raphael de Barros, além das memórias de Gregório Bezerra, batizado “homem de ferro e flor” por Ferreira Gullar.

Irá agora rememorar, sob as sombras dos pés de juá e de mulungu, as estórias contadas pelos antigos sobre Durino, o Justiceiro, e as façanhas de Zé Venâncio – o homem que, sozinho, enfrentou, a bala, toda a polícia do agreste pernambucano. Ele reagiu furiosamente a um tapa na cara que lhe deu um soldado. Foi morto, segundo a boca do povo, de forma covarde no Riacho do Mel, crivado de balas disparadas por todos os fuzis, por todas as metralhadoras e por todos os revólveres da armada. O corpo da indomável fera ferida virou fiapos.

Derinho sabia mesmo de cor a história de Zé Venâncio:

– Ganhou fama por ter fabricado um revólver, o ZV, no tempo do Exército. Ficou meio doido porque o tambor não girava. Era arma de uma bala só. De vez em quando, assustava pessoas na rua com abordagens abruptas, porém inofensivas. A todos que encontrasse, lançava esta célebre pergunta sempre de supetão: “RODA OU NÃO RODA?” Certa feita, um matuto, assustadíssimo, chamou a polícia. Zé Venâncio foi preso e levou, pela primeira e última vez na vida, um tapa na venta. Na mesma noite, não se sabe como, fugiu da cadeia de segurança máxima - construída no século XIX, durante a Guerra dos Cabanos. Zé Venâncio apoderou-se de várias armas e munição - inclusive do seu ZV, que estava apreendido. Ali mesmo, matou o soldado que fazia plantão. Ato contínuo, deu um tiro no pé de um preso que tinha matado o próprio filho. Depois, desfechou tiro certeiro de fuzil no transformador geral da usina elétrica. A caixa de tensão e o poste de baraúna viraram cacos. Com outro tiro, acertou a queixada de um jumento, que morreu instantaneamente. Na escuridão, confundiu o trotar do inocente animal com pisadas de um dos possíveis inimigos que enfrentaria a partir daquele momento. Feito isso, embrenhou-se nas matas. A polícia do agreste imediatamente foi mobilizada, iniciando-se a mais longa e alucinante caçada da região. Durou dias. Logo ao amanhecer, no primeiro confronto, ocorrido na periferia da cidade, Zé Venâncio acertou, com o seu ZV, a testa de outro soldado. Estava a mais de cem metros do local da queda do caçador.

– A propósito - continuou -, li, no livro Diversos & Diluídos, como foram os instantes finais de Zé Venâncio.

Antes do abate, ele viu seus algozes refletidos na cristalina água do riacho, onde, de cócoras, matava a sede. Levantou-se, virou-se e caminhou destemida e pausadamente em direção ao pelotão, que estava à sua espreita, a poucos metros de distância. A ordem era matar e não apenas prender! Um silêncio mortal. Zé Venâncio parou heroicamente mirando o seu revólver ZV em região frontal do capacete de um único soldado! Era a última bala. Fechou o olho esquerdo. Ajustou com precisão os três pontos básicos da linha de mira: a alça, a massa e o alvo divisado. Com a mão esquerda, segurou firme o antebraço direito - que estava seriamente ferido. Assim, pôde dar sustentação e equilíbrio ao seu derradeiro contato com o gatilho do inesquecível invento. À sua direita, tremulando, tênue e distante sombra da imagem da serra da Bica, em cujo sopé morou por toda a vida, cercado de árvores, lagartixas, camaleões e um curral. Prendeu a última respiração que lhe restava. As faces, antes de jambo, agora eram de colorau puro. Com firmeza, puxou o gatilho… Nada mais viu.

Mas Zé Venâncio continua vendo pedaços de um capacete voando nas profundezas de eterna escuridão… Também se deliciará com os incríveis improvisos poéticos de Mané Bento e João de Dulce, tudo isso regado à sanfona do Zé Cassuano ou do Rafael acompanhando Brito Lucena no forró.

Fiz a terceira e última pergunta ao Derinho. Quis saber sobre o destino dos bodes da torna envolvida na troca do carro em Betânia. Ele respondeu que poderia deixar por lá mesmo, com seu primo Assis de Zé Rodrigues. O lucro já estava garantido com a economia da quilometragem!

– Agora - finalizou Derinho - me conte uma coisa. Qual o significado de Labyatha?

- Significa lábio grande – respondi. Vem de uma famosa orquídea, comum nas veredas espinhosas dos brejos da minha região. Pela manhã, seu perfume, característico e raro, é irresistível. Está batizada como “Rainha do Nordeste”. Foi descoberta em 1821 pelo inglês John Lindler e catalogada por ele com o nome de um amigo, William Cattley. Usualmente, é escrita com “i” no lugar do “y” e sem o “h” na última sílaba. Gosta muito de orvalho e altitude acima de 400m. Em Labyatha, a mais comum é a espécie alba. Tem pétalas brancas, labelo roxo e detalhes amarelos, inclusive o nectário. A Mohadja e o Lourinho dominam bem o assunto. Mas, acrescentei, sei que brotam naturalmente e repousam faceiras entre lajedos e cactus. O acesso é dificílimo. Mas nunca em vão.

– E as lendas sobre a venerada Serra da Bica? - perguntou Derinho, mais curioso ainda.

– A mais corrente diz que quando dois guerreiros caetés se apaixonavam por uma mesma virgem, obrigavam-se a declarar esse amor abertamente. Havia uma luta de vida ou de morte e o sobrevivente viveria para todo o sempre com sua amada. Se a índia não gostasse do vencedor, atordoada atirava-se do alto de enorme pedra. Certa vez, um covarde apaixonado, temendo a luta com um guerreiro, também enamorado da mesma virgem, não se declarou. O índio covarde tinha, porém, o poder da magia e vivia tocaiando o namoro da virgem com o guerreiro. Ao avistar o rival ajoelhado em juras de amor com a índia, transformou a virgem na exuberante serra, e o guerreiro, no olho d’água que está ajoelhado aos seus pés.

E assim nasceu a música De Labyatha a Tacaratu, passando por Lagoa da Canoa, ou melhor, de Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu. Que tal fazer essa viagem? Uma viagem a que os acordes da música instrumental nos conduzem, irrelevante se estamos na margem esquerda ou direita do caminho. Afinal, em qualquer viagem, existe um só caminho, com duas margens. Quando vamos, a da esquerda é a mesma da direita quando voltamos. A propósito, vejamos as folhas das árvores. Para elas, é indiferente o lado em que o vento está.

O Beija-Flor que se vire…

José Alexandre Saraiva

Cedido gentilmente pela


 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

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