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LABYATHA
a LAGOA da CANOA
passando por TACARATU
José Alexandre Saraiva*
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LABYATHA
a LAGOA da CANOA
passando por TACARATU
José Alexandre Saraiva*
Era pra ser só uma brincadeira. Mas o “era” fez jus
ao significado e ficou para trás!A idéia inicial se resumia
a despretensiosa gravação de duas músicas. Homenagem
surpresa a Hermeto Pascoal e a Sebastião Tapajós, amigos
de casa. Unicamente isso. Artur Cigano e seu filho Marcelinho do Acordeon,
este de vertiginosa habilidade no dedilhar, excepcionais músicos
e parceiros desde o impulso primeiro -, deram o melhor de si na concepção
de arranjos para ambas as composições. Na música
De Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu, por exemplo, Arthur
faz a viagem passar por verdadeiro oásis no deserto. Já
o Marcelinho, além de sua admirável performance nessas duas
faixas, dá vigor coreográfico de acordes ciganos nas músicas
Preito a Beslan - Colos Desertos (1ª versão) e na sua tradução
de Olhos Negros.
O mais tocante: o amiguinho Winícius, filho do Marcelinho, com
apenas cinco anos, foi marcante incentivo à parte. Nos intervalos
das gravações, e até por telefone, ele cantarolava
para mim as músicas compostas para Hermeto e Tião. Deu-se,
porém, que outros músicos de nomeada aderiram ao projeto
embrionário da produção. Como não poderia
ser diferente, foram surgindo novas faixas no CD. Outros amigos, novos
acordes: Derinho Santos, César Matoso, Fábio Hess, Vinícius
Chamorro, Raymundo Rolim, Eliane Bastos, Gedaias Rangel, Maurílio
Ribeiro, Marcinho Cavaco, Ricardo Cabral, Raule, Belém, Selpa,
Tarzan, Tampinha, Alê Maceió, Gerson Bientinez, Zezinho do
Pandeiro, Chiquinho do Nordeste, Cícero José e até
um uirapuru para o mais conhecido dos amazônicos: Sebastião
Tapajós.
E, assim, rascunhos melódicos ganharam adornos e o resultado, além
de surpreendente, foi gratificante. Amigo, como diz o Áureo, a
gente não classifica. É milagre apócrifo comprovado
em vida pelo Criador. Isso, todavia, não tira a tristeza de não
poder ressaltar aqui, em tão breve espaço, os valores desses
músicos talentosos, alguns com experiência além-mar.
O mesmo se diga da frustração por não poder contar
a história de cada música do CD - nenhuma nasceu do acaso.
Uma dessas histórias inspiradoras, porém, urge ser contada.
A motivação, como as coisas mais tocantes da vida, foi casual.
Partiu das mais ricas e genuínas dicas rodoviárias por mim
já obtidas. Tomara que sirvam de explicação para
o título da composição De Labyatha a Lagoa da Canoa,
passando por Tacaratu (faixa 1).
À história
Em tarde de confraternização com amigos, na minha casa em
Curitiba, quando tive a honra de receber a primeira visita de Hermeto
Pascoal, fiz consulta, movido por curiosidade, ao bem andado sanfoneiro
Derinho Santos, meu conterrâneo. Perguntei se seria possível
chegar a Lagoa da Canoa, em Alagoas, terra de Hermeto, saindo de Labyatha
(o nome oficial é Panelas, mas há controvérsias),
no agreste pernambucano, e passando por Tacaratu, reduto de João
Pernambuco e berço de outros grandes músicos. Lá,
nasceu Derinho – sanfoneiro arretado de bom, com destacada presença
nos melhores estúdios de São Paulo e no meio artístico
do Paraná. Reparem na faixa 2 a tamanha criatividade dele ao imitar
na sanfona os pulos do tamanduá. Uma perfeição incrível.
Esclareci ao Derinho que tinha saído de Labyahta muito cedo, na
adolescência, sem noção da malha rodoviária
do estado. Sem titubear, ele soltou essa: “Ôxente, e não
é não? Simples demais, homem!” Ato contínuo,
detalhou o roteiro da viagem, em minúcias cartográficas,
geográficas, históricas e culturais. E haja sanfoneiros,
riachos, sítios e estórias – inclusive do cangaço!Antes,
avisou que traçaria o mapa de forma objetiva, mas sem deixar de
sugerir importantes opções. Afinal, já tinha puxado
o fole em quase todas as cidades do agreste e do sertão.
- Você está mais ou menos no km 115 da BR 104 – disse
ele. Saia pela direita, cruzando o rio Panelas e deixando o povoado de
Pau Ferro e o Riacho do Mel à esquerda. À direita, está
a feira de Cupira, onde poderá comprar umas cocadas pra comer durante
a viagem, que não é tão longa. Mais na frente, escolha
um bom chapéu de couro em Agrestina, à esquerda, após
passar sobre o rio Una. Subindo a serra da Quitéria, logo chegará
a um viaduto na entrada da cidade do maior e melhor São João
do Mundo e que também ostenta a maior e mais famosa feira: Caruaru.
Derinho foi falando: Caruaru, Capital do Agreste, é o santuário
do Mestre Vitalino, da Banda de Pífano, do Coronel Ludugero e Otrope,
de Camarão, do alagoano Jacinto Silva, do Azulão, de três
imortais - Austregésilo de Athayde, que presidiu a casa de Machado
de Assis durante 34 anos, e os irmãos Condé, embaixadores
do “país de Caruaru” -, de Álvaro Lins, de Aurélio
de Limeira Tejo, de Nelson Barbalho, dos bairros Vassoral e Petrópolis,
do Mestre Osvaldo da Madeira, de Newton Thaumathurgo e dos poetas Diniz
Vitorino (nascido na Paraíba de Sivuca), Petrúcio Amorim,
Ivanildo Villanova, Juarez Santiago e Onildo Almeida. Nesse momento, Derinho
convidou-me a sentarmos a uma mesa de canto. E foi esmiuçando:
lá na entrada de Caruaru, no viaduto, tome a pista da BR 232 à
esquerda. À direita, você teria acesso a essa mesma BR, desde
que fosse seguir o caminho para Olinda de Nassau e das estonteantes folias
de carnaval.
É a mesma rodovia que vai para o Recife do Galo da Madrugada -
Capital do Frevo -, em cujo trajeto você poderia chegar à
Bonito de Nelson Ferreira e, depois, passando por Vitória de Santo
Antão, da Pitu e Duda da Pacira, chegaria à Veneza Brasileira,
do Capibaribe e Beberibe, dos canais, das pontes, de Bandeira, de Gilberto
Freyre, do paraibano Suassuna, de Manezinho Araújo – autor
de Cuma é o nome dele -, de Nelson Rodrigues, de Antonio Nóbrega,
de Lenine e de Antonio Maria - criador de Ninguém me Ama. Infelizmente
- lamentou -, sua viagem não irá nessa direção.
Entrará, como disse, à esquerda, pela 232, até chegar
a São Caetano, conhecida como São Caetano da Raposa, terra
da carne de sol. Em São Caetano, pegará a 423 pela esquerda.
Antes, como fazia o saudoso Mersinho, coma uma boa carne de sol ou, se
preferir, relaxe um pouco, saboreando tradicional coxinha.
Você acabou de deixar à direita a BR 232, espinha dorsal
de Pernambuco. Ela levaria você à Serra Talhada de Lampião
e de Zé Dantas, autor do Forró de Caruaru, Xote das Meninas,
Sabiá e A Volta da Asa Branca. Por aí, já no sertão
propriamente dito, você chegaria também a Exu, do Rei do
Baião, e a Tabira, do autor de Serrote Agudo, Zé Marcolino.
Não irá seguir essa rodovia porque a opção
da viagem é pelo agreste e não pelo sertão. Uma pena.
Mas, se tivesse tempo para continuar na 232, passaria pela musical Belo
Jardim, onde, logo à direita, está a cidade Brejo da Madre
de Deus, com seu sítio arqueológico e com o maior teatro
ao ar livre - Nova Jerusalém - no distrito Fazenda Nova. Ali, todo
ano, na Semana Santa, é encenado o mundialmente consagrado Drama
da Paixão de Cristo. Antes da cidade de Serra Talhada – que
também é do Batoré, neto de cangaceiro -, passaria
por Sanharó, Pesqueira, Arcoverde, do Rivaldo Cabral e Lua Calixto,
depois Placas (ou Cruzeiro do Nordeste, onde foi filmado Central do Brasil),
Salgueiro e Ouricuri. Em Ouricuri, deixando à esquerda o caminho
de Petrolina, pegaria à direita a rodovia que tem o nome do hino
nordestino, com letra do cearense Humberto Teixeira: “quando oei
a terra ardendo, qual fogueira de São João, eu preguntei
a Deus do céu por que tamanha judiação…”
Ao seguir a Rodovia Asa Branca, lá na frente chegaria à
cidade natal de Luiz Gonzaga, Exu. Depois à serra do Araripe, relicário
de Seu Lua. Estando ali naquela região, poderia visitar também
Araripina, terra do gesso. Ocorre, como já disse que o seu trajeto
é outro. Se a primeira etapa da viagem, com parada em Tacaratu,
fosse mesmo pelo caminho do sertão – o que seria perfeitamente
possível -, quando estivesse em Placas (Cruzeiro do Nordeste),
era só pegar a estrada à esquerda, passando em Ibimirim.
Aí, seguiria em frente, mantendo-se à esquerda. Floresta
do Navio fica no lado direito. Chegaria a Inajá, deixando à
sua frente a ponte sentido Mata Grande, Alagoas, e seguindo à direita
pela Ribeira do Moxotó, em terras pernambucanas. Passaria no sítio
Traíra, do velho Henrique, depois Tiririca de Zé de Beija,
que serve boa bicada, e Olho D’Água do Bruni, onde, na venda
de Saturnino Basílio, não resistirá ao aroma das
rapaduras. Ao passar o Salgadinho de Tonheiro Brito e Lage, chegaria ao
meu Pindobal, alcançando em seguida a Vila de Caraibeiras, município
de Tacaratu. Para não complicar, vamos deixar essas sugestões
de lado.
Continue na 423, a partir de São Caetano. Pela segunda vez, cruzará
o Rio Una, ao passar por Cachoeirinha - paraíso do queijo, do mel
de uruçu e da manteiga de garrafa. É a terra do couro e
do aço. Possui forte mercado de celas e arreios para cavalos, exportando
para os quatro cantos do mundo. Em seguida, chegará a Lajedo, terra
da legendária égua Dondoca - que nunca perdeu uma corrida
e fez estremecer o cavalo Apagão -, dos Bárbaros da Bossa,
do famoso vaqueiro Cordeiro Weloso, do Heleno dos 8 Baixos, do médico
mais antigo de Pernambuco, o querido Dr. Dourado, de Guilhermino Paulo,
avô de Marco Vinícius Vilaça, imortal da Academia
Brasileira de Letras, Naldo Costa, Wilson Weloso e do Lajeforró.
À sua frente, após a boa de festa Jupi e a charmosa Neves,
está Garanhuns - do Dominguinhos, das vaquejadas, do frio europeu,
dos cafezais do padre, dos festivais de inverno e do Castelo de João
Capão.
Mais adiante, cruzará o famoso Riacho do Navio (“Riacho do
Navio corre pro Pajeú, o Rio Pajeú vai despejar no São
Francisco, o Rio São Francisco vai bater no meio do mar…”).
Passará também por Iati – onde poderá comer
um bode assado no Maria Piroca - e Águas Belas. Em águas
Belas, há muitos anos vivem os índios Funiô, também
conhecidos como Carnijó ou Carijó. Seu dialeto é
o Yathé e se comunicam bem no português. Na seqüência,
vem o Capiá, depois Ouro Branco, à esquerda, com seus currais
de gado. Surgirão três entroncamentos. Fique atento nesse
trecho das alagoas do Xameguinho do Acordeon. Primeiro é o do Carié.
À direita, encontra-se Canapi, à esquerda, Santana do Ipanema.
Depois, vem o trevo Leobino, com Inhapi à direita. O terceiro entroncamento
é o Maria Bode. Aqui, todo cuidado é pouco.
No Maria Bode - preste atenção - entre à direita
e, em seguida, no primeiro trevo - chamado Marcação -, à
esquerda, para Pariconha. Antes de Pariconha, tem a Várzea do Pico
– onde é proibido assoviar - e o povoado. Quixabeira. Ao
assim prosseguir, você deixou Água Branca à direita.
Vão surgir os sítios Figueiredo e Ouricuri dos Caboclos,
depois, um rio. Esse rio deverá ser vencido obrigatoriamente. É
o Moxotó. Ao atravessá-lo, se aprochegue na Ilha Grande,
procure meu amigo sanfoneiro Dário Joaquim e saboreie um bom sarapatel.
Afinal, já estará de volta ao solo de Frei Joaquim do Amor
Divino, de Felipe Camarão, Paulo Freire, do cearense de Araripe
Miguel Arraes de Alencar (“Pela cidade, se conhece o homem que trabalha;
a voz de deus é a voz do Povo, Miguel Arraes vai governar de novo”),
Capiba, Arlindo dos 8 Baixos, do Maracatu da Coroa Imperial, Barbosa Lima
Sobrinho, Aníbal Bruno, João Cabral de Melo Neto, José
Souto Maior Borges, da Lia de Itamaracá (Essa aliança quem
me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá…) e ainda do
Chacrinha, das Terezinhas e do Pedro de Lara.
Agora, é só seguir até a Vila Caraibeiras. Aí
visite sua deslumbrante feira, toda sexta. Depois, à direita, chegará
ao Sítio Pindobal, onde eu nasci. Você ainda não está
na cidade de Tacaratu, mas muito próximo. Para chegar lá,
retorne a Caraibeiras - a Vila mais importante de Tacaratu. Ficou famosa
pela manufatura de redes de balanço e artesanatos em geral. Indo
em frente, chegará à serra do Mata Burro. Na descida dessa
serra, avistará, entre outras belezas da natureza, à direita,
a esplendorosa serra do Giz. Em frente, está Tacaratu, com seus
mangueirais, bananais, coqueirais e cajazeiras. Ainda na descida da serra
do Mata Burro, ficará maravilhado com as matas do Pai João
e seus sagüis travessos. Seguindo em frente, passará por Lagoa
e Fonte Grande – uma mina cobiçada por multinacionais. Jorra
água mineral por entre as pedras da serra do Giz. Apenas uma subidinha
e verá a Igreja Nossa Senhora da Saúde, padroeira da cidade
que respira não apenas esperança e fraternidade, mas também
acordes indeléveis de João Pernambuco, criador de Sons de
Carrilhões e co-autor da música Luar do Sertão (“Não
há, ó gente, não, luar como este do sertão…”).
João Pernambuco nasceu por ali, em Jatobá. Tacaratu também
é reduto de outros músicos respeitados, como Antonio Rêgo
e Armando Rodrigues. A cidade realiza anualmente a maior festa do Sertão
do São Francisco. Os festejos, em homenagem à Nossa Senhora
da Saúde, se estendem durante nove noites, iniciando-se no final
de janeiro e terminando no dia 2 de fevereiro. Vem gente de toda banda.
É como na corrida de jericos de Panelas, no 1º de maio.
Caso eu não esteja lá, diga a quem encontrar na rua o nome
Mestre Lelé Batinga – apelido do meu pai Manoel Heleno dos
Santos. Todo mundo conhece todo mundo. Pergunte ainda pelo Cosme Manga
Rosa, do Olho D’Água do Bruni, pelo Amarelinho, que imitava
pássaros, pelo cego João Piau - nascido no sítio
Umidade -, maior tocador de pé de bode de Tacaratu, que atirava
pedras certeiras com os dedos dos pés. Procure também pelo
Anchieta Dali, pelo Juarez Major, remanescente dos Caçulas do Baião,
e pelo Josildo Sá. Pronto. Você estará em casa. Acaba
de completar a primeira etapa da viagem. Terá direito a soneca
em rede de varanda, novinha em folha, bordada e tecida por dona Ilda.
E quando bem entender que é hora de partir para Lagoa da Canoa
(desde logo, fique sabendo que não vai querer sair nunca mais de
Tacaratu), passe direto - mas com as cautelas necessárias - pelo
Maria Bode. Ao cruzar o Maria Bode, estará na cidade de Delmiro
Gouveia, nas alagoas, onde nasceu o Nouzinho do Xaxado. Lá moram
dois sobrinhos de Lampião. Qualquer aperreio, fale com um deles.
Tome um cafezinho com o sanfoneiro Zequinha do Estreito e aproveite para
conhecer a fabulosa usina hidrelétrica de Xingó. Para tanto,
basta ir em frente. Passe pelo bairro Pedra Velha, onde já fica
autorizado a fazer a barba com o Zinho Barbeiro. Fale de mim pra ele,
que você não pagará nada. Bom, agora é só
cruzar o entroncamento Olho D’água do Casado até chegar
a Piranhas, sertão do vale do São Francisco. Nessa cidade,
a polícia expôs publicamente a cabeça degolada de
Lampião, tão logo confirmada a sua morte num esconderijo
de Angicos. Conta-se também que o seu camarada Corisco, certa feita,
em episódio tido como fúria passional, invadiu Piranhas
e matou um monte de gente. Lá encontra-se rico museu com a história
do cangaço.
- Não é nessa região que existe um cânion?
– indaguei, interrompendo o Derinho.
- E apois! – respondeu. Tem mais de 50 quilômetros de extensão.
Prosseguiu: Na volta de Piranhas, antes do Olho D’Água do
Casado, pegue a esquerda, no sentido Canindé do São Francisco,
fazendo obrigatória visita ao complexo de Xingó. Quando
estiver retornando de Xingó, seguindo sua viagem a Lagoa da Canoa,
pegue à esquerda, no sentido Olho D’Água do Casado.
Dobre à direita, siga em frente, por São José da
Tapera, depois Pão de Açúcar, recanto do seu xará
Saraiva do Sax Soprano, passe pelo Olho D’água das Flores,
em seguida Batalha, Folha Miúda e chegue a Arapiraca - lugar de
fumo roliço de primeira e onde poderá bater um papo com
o Marcos Góis, João do Pife, Afrísio Acácio-
sanfoneiro que ainda usa gibão e chapéu de couro -, Zé
Neto, primo de Hermeto, e Cecílio Barbeiro, afinador e tocador
de sanfona. Aí, pegue à direita e, após passar por
Girau do Pociano, finalmente estará na Lagoa da Canoa de Hermeto
Pascoal, maior novidadeiro de sons do mundo – autor de Chorinho
Pra Ele, Bebê e O ovo. E – acrescentou Derinho - quem diria!
Tudo começou quando, ainda criança, Hermeto escutava batidas
de latas na oficina de seu avô, que era ferreiro!
Muito bem! Volte de Lagoa da Canoa pelo mesmo caminho. Ao chegar a Arapiraca,
você pode retornar a Labyatha por União dos Palmares. É
bem pertinho, ali pelas direitas. Se seguir esse trajeto, mais adiante
dê um jeito e vá até à Palmeiras dos Índios
do prefeito Graciliano Ramos, nascido em Quebrangulo, autor de Vidas Secas
e criador da mais famosa cadela nordestina - Baleia. Faça uma visita
também a Marimbondos, do sanfoneiro Genaro. Fica tudo por aí.Mas,
se a opção for regressar pelo caminho do trajeto inicial,
a fim de rever os Funiô e Garanhuns ou dar uma esticadinha, a partir
desta cidade, até Caetés - terra do Lula -, nesse caso,
evite o Maria Bode. É sempre bom evitar o Maria Bode. Saia, então,
de Arapiraca pelo caminho de Major Isidoro, em direção à
BR 423 ou, mais à esquerda, por Santana do Ipanema, de sua comadre
Eliane, pegando a 423 pela direita do Carié, no sentido de Garanhuns.
Note - ponderou o Derinho -, se você julgar que vai enjoar fazendo
todo esse percurso, desde a partida da sua Labyatha, que também
é da Zefa Bozó, do Sapo Choco, do Zé Piúdo,
do Zé Porquinho, do Pompéia, do Anacleto, do Mandiú,
do Boi Tungão, do Letâncio, do Venta Curta, do Negozé,
do Zé de Loló, Zé Anão, Zé de Sula,
Zé de Preta e da Maria Cachorra, tenho outro plano. O melhor é
sair de Labyatha pela Rua do Xêxo, onde você nasceu pegando
à esquerda a 104. Após vencer, com atenção
redobrada, a perigosíssima serra do Criminoso - deixando, à
direita, a entrada de São Lázaro, depois o Brejo de João
Alves, e, à esquerda, o Timbó e a destilaria Jundiá
-, Coloque no bagageiro mantimentos práticos para a viagem. Providencie
um quite com rapaduras, batidas, mel de engenho e doces de cana no Engenho
Amolar de Dede Vilar, que está logo ali, à direita. Faça
isso. Ao retornar à BR 104, tenha o máximo cuidado com os
cortadores de cana que se espalham pelo acostamento, desde as 4 da manhã.
Eles ganham pelo que produzem. A viagem, então, não será
por Caruaru, mas por Quipapá e União dos Palmares - região
repleta de engenhos de cana. Passará Branquinha e Murici. Ali por
Messias, você sai da 104 e entra na 101, por onde chegará
a Arapiraca. Daí pra frente é muito fácil. Nesse
caso, o ideal é ir de Labyatha a Tacaratu, passando primeiro por
Lagoa da Canoa e não de Labyatha a Lagoa da Canoa, passando primeiro
por Tacaratu.
Você pode ainda se dar o luxo - preferencialmente no primeiro trajeto
proposto para a viagem, ou seja, Labyatha-Tacaratu-Lagoa da Canoa via
Caruaru -, estando em Delmiro Gouveia, de atravessar o Chicão pela
exuberante ponte de Paulo Afonso, mirando lá em baixo o rio São
Francisco, bem estreito e silencioso. Após, vá conhecer
as comportas do complexo da Cachoeira de Paulo Afonso. Rapaz! –
exclamou Derinho. Já que você está ali tão
perto, vá à Usina de Paulo Afonso, na Bahia de Rui Barbosa,
de Jorge Amado, de Itapuan, da Mãe Menininha, do João Ubaldo,
do vatapá e do acarajé, do Noca do Acordeon, dos sanfoneiros
Cicinho Bonfim e Quinca dos 8 Baixos, do Raul Seixas, do Caetano, Gal,
Betânia, Gil, do Assis Valente e do Trio Nordestino!
Não deixe de ir à Paulo Afonso dos meus amigos Dario da
Sanfona, Elias Nogueira e Enok do Acordeon. Desse encontro, no mínimo
vai sair um forrobodó, com Dedé de Colimério no triângulo
e Guaxinim na zabumba. Sabe onde? No posto do Fernando, ali na saída
para Salvador. Leve meu abraço a Luiz Tenório de Brito e
à dona Magali, pais de Luciano Magno. A cidade e sua cachoeira,
como você sabe, foram imortalizadas nos versos da música
de Luiz Gonzaga, que diz: ”Delmiro deu a idéia, Apolônio
aproveitou, Getúlio fez o decreto e Dutra realizou… o Brasil
vai, o Brasil vai…” Aproveite e dê um pulinho ali em
Canindé do São Francisco, passando em Malhada Grande. Corte
aquelas matas baianas até chegar às caatingas de Sergipe.
Volte pelo mesmo caminho, saindo da Bahia para nossas terras pela magnífica
ponte.
Venha, então, pela 423 – aquela rodovia por onde você
veio de São Caetano até o Maria Bode. No entroncamento do
Jardim Cordeiro, quebre à esquerda, atravesse o Moxotó,
beirando o São Francisco, e chegue a Jatobá do João
Pernambuco – um gênio da música, segundo Villa-Lobos.
Coma aí um saboroso pão doce com espinhaço de coco,
regado a suco de imbu. Depois, ao visitar a hidrelétrica Luiz Gonzaga
(Itaparica), chegará ao destino final desse bônus turístico
inesquecível: a nova cidade de Petrolândia! Passará
primeiro pelos vestígios da Petrolândia velha, inundada pelo
Chicão. Anote aí, antes que esqueça: Petrolândia
já teve o melhor conjunto de choro da região, formado, entre
outros, por Coco de Zé de Aninha e Zé Neguinho. Pronto.
Agora, é seguir o caminho lá de casa. Para chegar, suba
a serra de Petrolândia. Passando pelo Barrocão, chegará
a Espinheiro e Folha Branca. A seguir, já na igreja matriz de Tacaratu,
reveja a imagem de Nossa Senhora da Saúde, agradecendo com oração
a proteção recebida na viagem.
E como você gostou desse passeio extra, faça outro, antes
de voltar a Labyatha. Dê uma chegadinha até a cidade natal
de mamãe, em Betânia. Não se arrependerá. Saindo
de Tacaratu, fica a uma distância média de 40 léguas
de carro, ou 30, se a cavalo. Faça o seguinte. Pegue a rodovia
sentido Inajá, terra das melancias. Prossiga. Em Ibimirim, deixe
o caminho de Arco Verde à frente, bem como o famoso açude
Poço da Cruz. Entre à esquerda, pela central sentido Floresta
do Navio. No km 28, terá acesso ao lugar chamado Negrinho das Porteiras.
A partir daí, 6 quilômetros adiante, já tendo passado
pelo riacho de São Braz - que lá frente se abraça
com o Riacho do Navio -, estará em Cacimbinhas. Em seguida, à
direita, chegará a serra Branca e, por fim, a Betânia. Era
por aí que Lampião costumava refugiar-se. Até hoje
a região é repleta de carreiras de cruzes, vestígios
de sepulturas, além de punhais e de muitas cabos de imbuá
perdidos no mato. Você vai ver a cruz do fazendeiro Antonio Venâncio,
que era contra Lampião. Foi assassinado com um rifle surdo. Lá
em Betânia, dirija-se ao sítio Cacimba Velha, onde nasceu
dona Ilda, minha sagrada mamãe. Para tanto, seguirá por
uma estrada de catabil até o sítio Mandacaru – povoado
com um açude grande. Terá à frente o sítio
Jurema e, por fim, Cacimba Velha, onde deverá imediatamente dar
um mergulho profundo e gostoso e, m seguida, comer saborosa coalhada escorrida.
No retorno de Cacimba Velha a Tacaratu, o melhor é trocar o carro
por um bom cavalo-manga larga esquipador, recebendo a torna em bodes.
Na negociação, deverão entrar um cachorrinho vira-latas
caçador de preá e uma peixeira cabo de imbuá–
a preferida de Lampião -, para ficar prevenido na viagem. Siga
pelo Xiquexique, cortando as caatingas enfeitadas de coroas-de-frade,
velame, macambira e quipá - tudo sob os cantos do galo de capina,
da asa branca, da acauã e da siriema. Se o cavalo desembestar e
você cair, não vai encontrar farmácia. Nesse caso,
se ficar machucado, procure um pé de quixabeira ou de bom-nome.
Rape com a sua cabo de imbuá a casca do bom-nome ou da quixabeira,
arranque uma cubaca do ouricurizeiro e beba esse santo remédio
com água fresca daqueles riachos. Se levou algum taio no corpo,
faça o seguinte: corte um pé de pinhão brabo ou pinhão
roxo, lasque a canela dele, tire o miolo e bote em cima do ferimento.
Para não inflamar o taio, rape uma arueira, coloque dentro da cubaca
com água. Se não tiver água por perto, mije na cubaca.
Mexa até ficar tudo vermelho e lave o local. Pronto. No outro dia,
vai estar enxuto, bem sequinho.
Vá indo, quer dizer, você está voltando a cavalo de
Cacimba Velha para Tacaratu. Agora, encontrará o sítio Jacaré,
depois Passagem Funda, em seguida Muquém, e Tabuleiro. Prossiga.
Ao chegar a Realengo, cruze a pista Ibimirim-Floresta do Navio. Logo adiante,
estará na fazenda Pipipan. Nesse trecho, é preciso estar
com os borná cheios de imbu, araticum, araçá, rapadura,
carne de bode seca e farinha de mandioca sertaneja. Na falta de palito
de dente, arranque espinhos do mandacaru. Também é bom pegar
no mato um facheiro seco. Acenda o facheiro - que é primo do mandacaru
-, principalmente se for noite, para alumiar a estrada e espantar onça.
Além dos vagalumes piscando nas arandelas do breu, tem muita onça
vermelha e do lombo preto. De dia, quando você ainda pode ver o
orvalho beijando a flor, essas veredas até que não são
tão perigosas, mas, à noite, a coisa é preta mesmo.
Tem até assombração, viu?
E se tiver necessidade de fazer uma visitinha privada e urgente, cuidado
para não pegar folhas de urtiga e cansanção. Do contrário,
os calombos na bunda irão incomodá-lo. Procure ali folha
de malva branca. É mais confortável. Antes de sair de Pipipan,
dê água ao cavalo. Reforce com capricho os alforjes para
não faltar mantimentos na estrada. Continue em frente. Cuidado
para não enfadar muito seu alazão nos bancos de areia da
Baixa da Faveleira. Se relampear, corra e se abrigue no primeiro rancho.
Evite ficar debaixo de pé de pau grande. Essas árvores atraem
os raios. No antigo Poço de Afonso, hoje Terra Rica, desarreie
o cavalo e se arranche. No romper da aurora, enquanto toma café
torrado no caco e pisado no pilão, com cuscuz, leite e manteiga
de garrafa, dê um borná de milho para o seu amigo e companheiro
de jornada. O cachorro se vira. Continue a viagem. Como poderá
surgir todo tipo de imprevisto, antes dessa partida se garanta com rapa
de juá - é bem melhor que pasta de dente. Na frente, passará
a serra Negra e os o sítio Juazeiro dos Cândidos. Atravesse
a central. À esquerda, está o hotel do Peba. Em seguida,
passará por Olho D’Água do Coxo, sítios Caldeirão,
Araticum, serra da Prensa, Imbuzeirão, serra da Samambaia e Água
Preta. Este local é o preferido das codornas, codornizes, rolinhas,
juritis, bacuraus e gaviões. Também tem coruja, asa branca
e assum preto.
Preciso agora – disse Derinho – lembrar uma estória
contada por meu avô Abílio. Aconteceu nessa serra da Samambaia.
Foi no lugar chamado Apertar da Hora. Em caçada implacável
a Lampião, rei do cangaço, um soldado deparou com um cangaceiro,
que, à toda evidência, era adepto de “orações
fortes”, muito fortes, pois tinha se disfarçado de tronco
de baraúna, com um cupim na parte superior. Ao lado do toco, estava
seu vistoso cachimbo. Percebendo a inusitada “transformação”,
o soldado - que também era ligado às mesmas crendices do
cangaceiro - apenas bateu com a boca do cachimbo no tronco da baraúna,
espalhando as cinzas no camuflado cangaceiro, que se manteve mudo. Com
um sorriso, disse: “Cabra, não vou matar você, não,
viu?. Cumpriu a palavra e foi embora.Quando tiver descido a serra da Samambaia,
onde há fartura de maçaranduba, araçá, pitomba,
araticum e ouricuri, avistará frotas de incansáveis e obedientes
jumentos com cangaias e caçuás. Carregam ouricuri. Outros,
com cambitos, levam lenha para esquentar o forno de torrar farinha.
Daqui a pouco estará no sítio Água Preta. E a seguir,
cuidando para não esbarrar em carrapichos e unhas-de-gato - que
doem que só a bobônica -, chegará às queimadas
do meu tio Manoel Francelino Rodrigues. Depois, Baixa da Quixaba, do Craveiro
do Velho Cajueiro, do Zé Manezinho e de Dudinha Basílio.
O próximo sítio é Lage, onde poderá repousar
na casa do meu avô Abílio Pedrosa – mas isso se a estridente
orquestra de tem-tens deixar você dormir. Cantam a noite inteira
e se escondem de dia. A sinfonia das acauãs começa de tardezinha,
antes do empardecer. Refeito do cansaço, é só seguir
a Tacaratu, tomando, de manhã, um café com bolo de mandioca
e tapioca na casa de minha avó Tonha Batinga, em Pindobal. O caminho
você já conhece. Agora pode ir de carona com o Luizinho.
Deixe o cachorro com Saturnino de Abílio e o cavalo, no cercado
de Antonio Cabra, avô do Luizinho.
Se não conseguir comprar outro carro em Tacaratu, minha tia Alaíde
dará um jeito, nem que seja de jegue, e levará você
até Caruaru, onde encontrará seu amigo de infância
Zé de Arlindo, que entende desses negócios. Era com a tia
Alaíde que eu fazia, quando menino, o trajeto que lhe informo.
Seja como for – prosseguiu -, redobre sempre a atenção
diante da possibilidade de cruzar com animais, principalmente raposa,
veado, onça, gato-do-mato, gambá, mocó, tamanduá
e guará - este é doidinho por melancia. Também fique
atento nos entroncamentos. O Maria Bode, repito, é o mais perigoso.
Você o encontrará no mínimo duas vezes, invariavelmente.
Em resumo, pelo plano “a” do seu passeio (De Labyatha a Lagoa
da Canoa, passando primeiro por Tacaratu, via Caruaru), quando estiver
no Maria Bode, já tendo passado por Lajedo, Garanhuns e Águas
Belas, deve sair desse entroncamento pela direita para ter acesso à
minha cidade. Ao retornar de Tacaratu, agora indo para Lagoa da Canoa,
não entre nem à esquerda nem à direita do Maria Bode,
vá em frente. Mas se você fizer aquela viagem especial que
sugeri até Paulo Afonso e já tendo passado por Lagoa da
Canoa, ao voltar por Tacaratu, pegue o Maria Bode à esquerda.
No roteiro “b” da viagem (De Labyatha a Tacaratu, passando
por Lagoa da Canoa, via Quipapá, sem cruzar o Chicão até
Paulo Afonso), quando estiver retornando da cidade de Hermeto, cruze o
Maria Bode e siga direto a Tacaratu. No regresso de Tacaratu para Labyatha,
conforme já explicado, é para entrar à esquerda desse
entroncamento, se quiser voltar pela 423, passando de novo pelo Riacho
do Navio, que está, como já dito, entre Águas Belas
e a Garanhuns do seu José Domingos de Moraes, filho do Mestre Chicão.
Em Garanhuns, você faz uma opção: seguir à
direita, pelos cajueiros de Canhotinho e dos engenhos de Quipapá,
ou dando um pulinho até Caetés - à esquerda da rodovia.
Depois, volte à 423 e vá até Lajedo.Em Lajedo, deixe
à esquerda a PE 180, que vai para São Bento do Una - do
Alceu Valença e da corrida de galinhas - e Belo Jardim, maior fabricante
de jabá no passado e onde tem água boa e doce do Bituri,
além de muita mariola. Entre à direita na PE 170 e vá
até o entroncamento da PE 158. Siga nela pela esquerda, em direção
a Labyatha, das professoras Natércia, Ana e Inez, do Seu Louro,
do Seu Chiquinho, do Dega, do Seu Outô, do Seu Martins, dos Miranda,
dos Ávila, dos Vilar, da Dora, do Miguel, da Detinha, da Carma,
do Cícero, da Fátima, da Risomar, do Geraldo, da Edileuza,
dos Lucena e da Adalgiza. Ao passar por Queimadas, o mais importante distrito
da insinuante cidade de Jurema, que está logo ali, os portais do
reino encantado da centenária Banda de Música Mariano de
Assis, do maestro Luiz Galvão e dos acordes do Pedrinho Marcolino
se abrirão, em meio a frondosos umbuzeiros e juazeiros.
O primeiro desses encantadores portais é a Vila de Cruzes, da Quiterinha;
o segundo, a Boca da Mata, de onde já poderá avistar inteirinha
a serra da Bica e terá, à esquerda, o Bola de Gregório
Bezerra. Mas à esquerda, está Altinho, de Jorge. Nesse descortinar
frenético de suas raízes, você cruzará o Contador,
de Lula Mimim e Lena, e, à direita, a Pedra do Veado e o Riacho
do Mel. Cruzará, então, o rio Panelas, nascido com o nome
Quipapazinho, já irmanado com o rio Feijão, e, à
frente, o Recifinho - território dos Sinézio de Campos e
do poeta Oliveira de Panelas – o Pavarotti dos Sertões. Encostadinhos
à direita do Recifinho estão os sítios Barroca, Sacada,
Várzea do Ingá e Feijão – parada do sanfoneiro
Amâncio Saraiva e palco de sangrentas batalhas da Guerra dos Cabanos,
ali liderada pelos irmãos Timóteos, nome herdado por uma
serra.
Num tiquinho de tempo, estará de volta ao Rancho Velho de Benedito
Alexandre, com sua cacimba de água cristalina. Um sítio
mais doce do que o de Raul Seixas no sertão de Piritiba. Era ali
que seu Benedito e dona Eliza faziam o melhor queijo de manteiga do agreste.
E quem esquece daquela farofa da rapa de queijo?Irá deleitar-se
comendo pinha e jaca e chupando pitomba, imbu, cana-caiana, cajá,
caju, cambuí e jabuticaba. Assará no lajedo castanhas dos
cajus Abelha e Durinho em banda de lata de querosene furada a prego, sobreposta
a pedaços de pedra e aquecida com fogo dos gravetos de alecrim.
Fará – depois de tanto viajar - a devida releitura analítica
das obras de Oliveira de Panelas e de Raphael de Barros, além das
memórias de Gregório Bezerra, batizado “homem de ferro
e flor” por Ferreira Gullar.
Irá agora rememorar, sob as sombras dos pés de juá
e de mulungu, as estórias contadas pelos antigos sobre Durino,
o Justiceiro, e as façanhas de Zé Venâncio –
o homem que, sozinho, enfrentou, a bala, toda a polícia do agreste
pernambucano. Ele reagiu furiosamente a um tapa na cara que lhe deu um
soldado. Foi morto, segundo a boca do povo, de forma covarde no Riacho
do Mel, crivado de balas disparadas por todos os fuzis, por todas as metralhadoras
e por todos os revólveres da armada. O corpo da indomável
fera ferida virou fiapos.
Derinho sabia mesmo de cor a história de Zé Venâncio:
– Ganhou fama por ter fabricado um revólver, o ZV, no tempo
do Exército. Ficou meio doido porque o tambor não girava.
Era arma de uma bala só. De vez em quando, assustava pessoas na
rua com abordagens abruptas, porém inofensivas. A todos que encontrasse,
lançava esta célebre pergunta sempre de supetão:
“RODA OU NÃO RODA?” Certa feita, um matuto, assustadíssimo,
chamou a polícia. Zé Venâncio foi preso e levou, pela
primeira e última vez na vida, um tapa na venta. Na mesma noite,
não se sabe como, fugiu da cadeia de segurança máxima
- construída no século XIX, durante a Guerra dos Cabanos.
Zé Venâncio apoderou-se de várias armas e munição
- inclusive do seu ZV, que estava apreendido. Ali mesmo, matou o soldado
que fazia plantão. Ato contínuo, deu um tiro no pé
de um preso que tinha matado o próprio filho. Depois, desfechou
tiro certeiro de fuzil no transformador geral da usina elétrica.
A caixa de tensão e o poste de baraúna viraram cacos. Com
outro tiro, acertou a queixada de um jumento, que morreu instantaneamente.
Na escuridão, confundiu o trotar do inocente animal com pisadas
de um dos possíveis inimigos que enfrentaria a partir daquele momento.
Feito isso, embrenhou-se nas matas. A polícia do agreste imediatamente
foi mobilizada, iniciando-se a mais longa e alucinante caçada da
região. Durou dias. Logo ao amanhecer, no primeiro confronto, ocorrido
na periferia da cidade, Zé Venâncio acertou, com o seu ZV,
a testa de outro soldado. Estava a mais de cem metros do local da queda
do caçador.
– A propósito - continuou -, li, no livro Diversos &
Diluídos, como foram os instantes finais de Zé Venâncio.
Antes do abate, ele viu seus algozes refletidos na cristalina água
do riacho, onde, de cócoras, matava a sede. Levantou-se, virou-se
e caminhou destemida e pausadamente em direção ao pelotão,
que estava à sua espreita, a poucos metros de distância.
A ordem era matar e não apenas prender! Um silêncio mortal.
Zé Venâncio parou heroicamente mirando o seu revólver
ZV em região frontal do capacete de um único soldado! Era
a última bala. Fechou o olho esquerdo. Ajustou com precisão
os três pontos básicos da linha de mira: a alça, a
massa e o alvo divisado. Com a mão esquerda, segurou firme o antebraço
direito - que estava seriamente ferido. Assim, pôde dar sustentação
e equilíbrio ao seu derradeiro contato com o gatilho do inesquecível
invento. À sua direita, tremulando, tênue e distante sombra
da imagem da serra da Bica, em cujo sopé morou por toda a vida,
cercado de árvores, lagartixas, camaleões e um curral. Prendeu
a última respiração que lhe restava. As faces, antes
de jambo, agora eram de colorau puro. Com firmeza, puxou o gatilho…
Nada mais viu.
Mas Zé Venâncio continua vendo pedaços de um capacete
voando nas profundezas de eterna escuridão… Também
se deliciará com os incríveis improvisos poéticos
de Mané Bento e João de Dulce, tudo isso regado à
sanfona do Zé Cassuano ou do Rafael acompanhando Brito Lucena no
forró.
Fiz a terceira e última pergunta ao Derinho. Quis saber sobre o
destino dos bodes da torna envolvida na troca do carro em Betânia.
Ele respondeu que poderia deixar por lá mesmo, com seu primo Assis
de Zé Rodrigues. O lucro já estava garantido com a economia
da quilometragem!
– Agora - finalizou Derinho - me conte uma coisa. Qual o significado
de Labyatha?
- Significa lábio grande – respondi. Vem de uma famosa orquídea,
comum nas veredas espinhosas dos brejos da minha região. Pela manhã,
seu perfume, característico e raro, é irresistível.
Está batizada como “Rainha do Nordeste”. Foi descoberta
em 1821 pelo inglês John Lindler e catalogada por ele com o nome
de um amigo, William Cattley. Usualmente, é escrita com “i”
no lugar do “y” e sem o “h” na última sílaba.
Gosta muito de orvalho e altitude acima de 400m. Em Labyatha, a mais comum
é a espécie alba. Tem pétalas brancas, labelo roxo
e detalhes amarelos, inclusive o nectário. A Mohadja e o Lourinho
dominam bem o assunto. Mas, acrescentei, sei que brotam naturalmente e
repousam faceiras entre lajedos e cactus. O acesso é dificílimo.
Mas nunca em vão.
– E as lendas sobre a venerada Serra da Bica? - perguntou Derinho,
mais curioso ainda.
– A mais corrente diz que quando dois guerreiros caetés se
apaixonavam por uma mesma virgem, obrigavam-se a declarar esse amor abertamente.
Havia uma luta de vida ou de morte e o sobrevivente viveria para todo
o sempre com sua amada. Se a índia não gostasse do vencedor,
atordoada atirava-se do alto de enorme pedra. Certa vez, um covarde apaixonado,
temendo a luta com um guerreiro, também enamorado da mesma virgem,
não se declarou. O índio covarde tinha, porém, o
poder da magia e vivia tocaiando o namoro da virgem com o guerreiro. Ao
avistar o rival ajoelhado em juras de amor com a índia, transformou
a virgem na exuberante serra, e o guerreiro, no olho d’água
que está ajoelhado aos seus pés.
E assim nasceu a música De Labyatha a Tacaratu, passando por Lagoa
da Canoa, ou melhor, de Labyatha a Lagoa da Canoa, passando por Tacaratu.
Que tal fazer essa viagem? Uma viagem a que os acordes da música
instrumental nos conduzem, irrelevante se estamos na margem esquerda ou
direita do caminho. Afinal, em qualquer viagem, existe um só caminho,
com duas margens. Quando vamos, a da esquerda é a mesma da direita
quando voltamos. A propósito, vejamos as folhas das árvores.
Para elas, é indiferente o lado em que o vento está.
O Beija-Flor que se vire…
José Alexandre Saraiva
Cedido
gentilmente pela
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