| Renata
Pallottini
Entre
a poesia e o teatro
__________________
Voltar
|
Renata
Pallottini
Entre
a poesia e o teatro
Ana Lúcia Vasconcelos
Poeta, ficcionista, dramaturga, e professora de teatro, cinema e televisão,
Renata Pallottini nasceu em 20 de janeiro de 1931 em São Paulo,
formou-se em Direito pela Faculdade São Francisco da USP (SP-Brasil)
entre 1949 e 1953, tendo publicado seus primeiros poemas, nas revistas
da faculdade, ao mesmo tempo em que outro curso na PUC/SP: Filosofia
Pura na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), concluído
em 1951. Em 1952 publicou Acalanto, seu primeiro livro
de poesia. Em 1959 foi para a Espanha (Madri) como bolsista do curso
de Letras da universidade de Madri e do Instituto de Cultura Hispânica
e desde então se apaixonou pela cidade e pelo teatro. Em 1960
teve montada a sua primeira peça: A Lâmpada, com
direção de Teresa Aguiar, em Campinas (SP).
Ainda em 1960 fez cursos livres de teatro na Sorbonne Nouvelle e de
volta ao Brasil em 1961 começou a fazer o Curso de Dramaturgia
na Escola de Arte Dramática-EAD/USP, onde defenderia sua tese
de doutorado. Em 1961 teve encenada sua peça O Crime
da Cabra, sob direção de Carlos Murtinho, sua
estréia no teatro profissional. Em 1964 começou a lecionar
História do Teatro Brasileiro na ECA/USP onde ficaria muitos
anos.
Entre 1969 e 1982 publicou oito peças de teatro, foi roteirista
do programa infantil Vila Sésamo e diretora
da Escola de Arte Dramática da USP entre 1974 e 1976. Nas décadas
de 1970 e 1980 trabalhou como tradutora e roteirista de telenovelas
e séries para a TV, entre as quais Malu Mulher (TV
Globo), a série Cabaré Literário
(TV Cultura); a segunda parte da telenovela Os Imigrantes,
com Wilson Aguiar Filho (TV Bandeirantes); co-roteirista do seriado
de TV, Joana (produção independente).
Em 1988 Renata inicia suas atividades como professora convidada de Dramaturgia
na Escuela Internacional de Cine y TV em San Antonio de Los Baños
(Cuba), e na seqüência leciona teatro, televisão e
cinema na Espanha, Itália. Fez parte da União Brasileira
de Escritores da qual já foi vice-presidente e de outras entidades
ligadas à poesia e literatura e programas de ordem sócio
políticas: foi presidente da Comissão Estadual de Teatro
no período de 1969 a 1970; em 1987 foi Assessora Cultural da
Secretaria de Estado do Menor em São Paulo, criando programas
de interação entre a criança e o teatro.
Poesia,
teatro e prosa
Tem publicada uma considerável obra de poesia, prosa e teatro
entre eles: A Casa (1958-Clube de Poesia, SP); Livro
de Sonetos (1961-Massao Ohno Editor-SP); Faca e a Pedra
(1962); Antologia Poética (1968, Editora Leitura, Rio
de Janeiro); Os Arcos da Memória (1971, Editora
do Escritor, SP); Mate é a cor da Viuvez (contos,
1975); Coração Americano (1976, Editora
Meta, SP); Chão de palavras (Editora Círculo
do Livro, São Paulo, 1977; Noite afora ( São
Paulo, 1978;Cantar Meu Povo Massao Ohno Editor, SP,
1980); Ao Inventor das Aves (1985, J.R. Scortecci,
SP); Esse Vinho Vadio (1988, Massao Ohno Editor-SP)
– poesia Editora do Escritor, SP); Introdução
a Dramaturgia (ensaio, 1983, Editora Brasiliense, SP); Tita
a Poeta (infantil, 1984, Editora Moderna, SP); O Mistério
do Esqueleto (dramaturgia, 1985, Editora Moderna, SP);
A Menina que Queria Ser Anja (1987); Construção
do Personagem (ensaio, 1989, SP) Colônia Cecília
(teatro, 1987, Editora Tchê, RS) A Vida é Sonho-tradução
do clássico de Calderón de la Barca, (1992 Scritta Editorial,
SP).
Os ensaios Introdução à Dramaturgia e
Dramaturgia: Construção do Personagem
tiveram nova edição em 1988/1989 pela Editora Ática.
Entre 1994/1998 a autora publicou dois romances: Nosotros (Brasiliense,
SP) e Ofícios e Amargura (Scipione, SP) e entre 1993/2000
mais dois livros infanto-juvenis: Do Tamanho do Mundo, Sempre
é Tempo e O Livro das Advinhações
(Editora Moderna, SP).
Obra poética é editada pela Editora Hucitec
(São Paulo, 1995). Em 1998 Renata coordena e participa da Anthologie
de la poésie brésilienne, (Editions Chandeigne,
Paris, 1998) que reuniu quatro séculos da nossa história
literária. De 1994 a 2001 publica os romances Nosotros
(Brasiliense, SP) e Ofícios e Amargura (Scipione,
SP); os ensaios: Cacilda Becker (Editora Arte e Ciência,
SP) Dramaturgia de Televisão (Moderna - SP);
participa do Júri do Prêmio Casa de las Américas;
preside o Júri para Roteiros Inéditos do Festival de Cinema
de Havana (Cuba) em 2000 e traduz e adapta para o teatro As
Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino, que estreou
no Centro Cultural Banco do Brasil em 2001 em São Paulo.
No dia 26 junho de 2006, Renata estava particularmente feliz por estar
lançando na Livraria Cultura (SP) seu Teatro Completo
(Editora Perspectiva, SP) alentado volume de 888 páginas
que reúne toda sua obra de teatro: 21 peças, desde sua
estréia em 1965, com prefácio de Mariângela Alves
de Lima que vai dar pistas maravilhosas sobre a teatróloga já
que situa o teatro de Pallottini no cenário do século
XX e em suas próprias especificidades.
Ao longo de sua carreira Renata Pallottini recebeu vários prêmios
entre eles: Pen Clube de Poesia em 1961, (SP); Governador
do Estado e Moliére para peça de teatro em 1965
(SP); Anchieta para original dramático em 1969,
(SP), UCBEU de tradução para teatro em
1971 – Rio; Medalha de Mérito da Câmara Municipal
em 1971 em SP; APCA de tradução para teatro
em 1974 em São Paulo; APCA de Roteiro de TV
em 1977 SP; Medalha do Mérito Literário-Pen
Clube em 1987-SP; 1996 Prêmio de Poesia Cecília Meireles,
concedido pela UBE União Brasileira de Escritores - Rio de Janeiro
RJ; Em 1997 recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura,
concedido pela Câmara Brasileira do Livro.
Para o crítico Wilson Martins, a poesia de Renata Pallotini vincula-se
à terceira geração do Modernismo. “Poeta
independente das escolas transitórias e modas efêmeras,
Renata Pallottini restituiu à poesia brasileira o elemento de
emoção pessoal e literária de que começou
perigosamente a se despojar com João Cabral (...), assim como,
e por isso mesmo, passou a evidenciar uma integração cada
vez mais sensível na vida coletiva, na existência política
do Brasil enquanto nação, pagando o tributo inevitável,
oneroso e paradoxal de restringir o alcance de sua poesia no ato mesmo
de parecer expandi-lo”.
Carlos Drummond de Andrade dedicou a ela um pequeno, mas significativo
poema:
Poesia
de Renata
sob a musica exata
há um tremor humano.
O
verbo conta mais
Do que os jogos verbais
O mundo refletido.
O
tempo, o ser, a morte
O invisível suporte
Do amor, por sobre o caos
Poesia
de Renata
um reflexo de prata
no deserto noturno
Para saber mais sobre a autora além de ler suas obras, evidente,
há um livro lançado recentemente que pode dar luzes sobre
sua considerável produção literária: sua
biografia assinada pela escritora Rita Ribeiro Guimarães, com
introdução de seu aluno e admirador Mauro Alencar, doutor
em teledramaturgia pela USP e pesquisador da Rede Globo: Renata
Pallottini Cumprimenta e Pede Passagem - Coleção
Aplauso Teatro Brasil (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo,
SP-2006).

Conheci Renata Pallottini na década de 1970 quando fazia teatro
em São Paulo além de jornalismo e ela era presidente da
Comissão Estadual de Teatro e íamos-eu e outros componentes
do Teatro Rotunda, que ajudei a criar em Campinas,
a sua casa para simpáticas reuniões. Quando escrevia para
o Suplemento Cultura de O Estado de São
Paulo fiz um perfil dela que saiu publicado em 26 de agosto
de 1979 e que ela adorou segundo me disse. Mais tarde em 1993 quando
fiz mestrado na Unicamp ela foi uma das entrevistadas para a minha tese.
Então aqui vai o perfil e depois a entrevista que a enfoca mais
como educadora e que diga-se, também adorei fazer porque a Renata
é uma pessoa especialíssima-de uma calma, uma sobriedade,
e uma consciência da humildade que os poetas tem que ter perante
sua obra raramente encontráveis.
ALV
A busca das raízes, a paixão pela Espanha e Itália
especialmente Roma terra dos antepassados, a forte ligação
com a Faculdade do Largo de São Francisco, “os arcos”
constantemente na “memória”, a consciência
da necessidade do trabalho urgente e humilde, a disciplina e o equilíbrio,
as emoções nunca exacerbadas, a calma densa, o intimismo
e a participação social na poesia, o amor pelo teatro,
por longas conversas ao pé do fogo, pelos amigos, pelo vinho,
tudo isso compõe a poeta, dramaturga e ficcionista Renata Pallottini.
Em vinte e cinco anos de poesia (até esta data-seu primeiro livro
Acalanto foi publicado em 1952 e o ultimo até
aquela data: Noite Afora publicado em 1978) , Renata
não tinha de fato do que se queixar: vendera 25 mil exemplares
dos seus treze livros publicados até então. Apenas um:
Chão de Palavras, uma seleção
de grande parte de sua obra poética teve uma tiragem inusitada
para o Brasil: 15 mil exemplares. E seu Livro de Sonetos,
de 1961, laureado com o Pen Clube de Poesia, estava, na época,
indo para a terceira edição.
O que isso significa?Um milagre, num país onde corre a lenda
segundo a qual poesia não tem público? Para ela não
há mistério algum. “O que ocorre em geral no Brasil
é que os editores editam e o livreiro esconde no fundo do balcão.
Na verdade aconteceu com Chão de Palavras foi um fato muito simples-o
Circulo do Livro que possui um esquema muito bem montado, se dispôs
a vender o livro. E quem quiser vender poesia no Brasil vende. Basta
que tenha qualidade.”
E qualidade é coisa que não falta á poesia de Renata
Pallottini, considerada uma das mais altas vozes poéticas do
país, que começou a escrever muito cedo, como todas as
crianças que querem se comunicar com o mundo.
“Há um momento na infância em que a criança
se sente muito só, sente dificuldade em se comunicar. Cada criança
que tiver sentido esta reação vai tentar compor seu mundo,
cantando, desenhando, escrevendo, enfim, criando em qualquer área
e aí vai descobrir suas fundações. Começa
escrevendo coisas sem forma, numa tentativa inicial de objetivar sentimentos,
fazer contatos. Leva tempo até se adquirir um tipo de linguagem
em que sinta que pode fazer contato. Até que os textos tenham
alguma qualidade estética.”
Acalanto publicado aos 18 anos foi a primeira tentativa
de “contato” mais concreto de Renata Pallottini. Depois
vieram: O Cais da Serenidade (1953), O Monólogo
Vivo (1956), Antologia Poética em 1958.
E neste mesmo ano A Casa, livro onde, segundo o critico
Adalmir da Cunha Miranda, que assina o prefácio, “a poeta
abandonava o exercício e ingressava no oficio poético.”
Passava do intimismo, que caracterizava seus poemas anteriores, “para
uma área em que as disposições de espirito já
não se consumiam consigo mesma, mas projetavam-se na paisagem,
nos seres e nos acontecimentos envolvendo-os e valorizando-os em instantes
de poesia.” Em outras palavras o critico marcava uma maturação
na poesia de Renata Pallottini. De uma fase de “exposição
de forças” ela passava para outra já com certeza
do que estava fazendo.
“Meu primeiro livro era muito imaturo. Já A Casa
apresentava uma outra vivencia. Um livro novo que tem que corresponder
a um novo período, novas experiências. Às vezes
é um pulo grande de um período em que o poeta está
armazenando material que mais tarde expressará. A poesia é
como uma fruta: se você não comer na hora vai comer tarde.”
Renata confessa ter fases intensas de criação e outras
de amadurecimento: “Esse moinho-o poeta/que em solidão
tritura/e amargo grão esmaga/esse operário/ que em fino
pó transforma/o que lhe dão de carga//...// “eu
que amontôo o grão porque não sei/sepulta-lo na
terra.” (1)
Mas não precisa de ambientes especiais para escrever. Por isso
tem sempre na gaveta do criado mudo uma caneta e um caderno. No meio
da noite, às vezes, anota poemas que já vem prontos. “Já
escrevi à maquina.Não preciso de climas especiais.”
Seria possível dizer que a poesia de Renata evolui de um vocabulário
preciosista, muito voltada para relações atávicas,
de antepassados, de mãe e pai morto, para outra, onde se vê
nítido, a introdução do social, como sente o dramaturgo
Lauro César Muniz?
“Tenho deleite em ficar escrevendo sobre as raízes. Eu
me pergunto sempre de onde vim o que contribuiu para cada pessoa ser
aquilo que é. Sem dúvida, grande parte do que somos vem
de nossos antepassados.” E no caso de Renata Pallottini a poeta
se pergunta o que teria levado aquelas pessoas a enfrentar uma viagem
por mar-afinal um ato de coragem - em fins do século XIX, desligar-se
de sua terra, seus costumes, e vir para uma terra estranha. “Que
motivos tão fortes ocasionaram este transplante de gente?”
Quando esteve pela primeira vez em Roma, terra de seus avós,
Renata teve a sensação de já ter estado la. Aquilo
era o seu chão. Por isso essa pesquisa de raízes a interessa
tanto, já que não é saudosismo, mas a aceitação
da vida, mesmo quando se sofre. Não é culto aos mortos.
É procura, busca. “Afinal quem fez isso que é você?
Como essas coisas se juntaram para formar esta pessoa, com estas idéias,
esses sentimentos, e emoções, essas sensações?
Que mistério é este?”
Por isso quando Renata Pallottini fala de seus antepassados, da Europa,
de Roma, na verdade tem a sensação de estar fazendo esta
viagem ao contrário. Toda esta ligação com este
mundo, é na verdade uma tentativa de compreendê-los, numa
viagem as avessas.
“Vossos nomes, se não o sabeis, antepassados, /estão
gravados entre linho e seda/nos velhos livros deste município.
/ Ali vos encontrei jovens, donzelas, camponesas e quase aristocratas.
//Nestes fragmentos vos revejo, mas/quem me compõe? Quem sou?
/Meus olhos, minha boca,/ em que momento haveis construído a
boca//E as mãos, e o coração e o meu tormento,/minha
mágoa, onde estão nestes guardados/”(2)
Sua paixão por Roma, no entanto não é menor da
que sente pela Espanha onde esteve pela primeira vez em 1969 para um
curso de Literatura, Estética e Estilística, na Universidade
de Madri. Apaixonou-se por Madri, pelo povo. É o lugar para onde,
sempre que pode volta, onde tem amigos e livros editados.
Os poemas sobre a Espanha são sempre apaixonados: “Cidade
do meu alvedrio da minha escolha, da minha liberdade. /Reconstruída
sempre dentro de mim, como um filho, /depois ressuscitada em longas
horas de lembrança. /Cidade minha, companheira minha/ de frio
e de aflição, de maravilha e espanto, /corre nas minhas
veias o vinho de teu sangue, /vinho de obreiro, perfume de árvore
na primavera, /visão da vida reverdecendo... Cidade alta e clara/de
morenas insônias musicais, /taverna da minha embriagues e de um
dia, /de que guardo o ressaibo e a loucura/jamais perdida, jamais reencontrada,/ai
de mim, nunca mais, nunca mais repetida..../Guarda de mim, cidade, a
visão de tua praça:Praça Maior de toda a minha
vida.”(3)
Ou então este quase êxtase estupendo: “Ah. Salamanca.
/O sal/com que amo Espanha.”.
Foi inclusive na Espanha que Renata Pallottini começou a escrever
teatro. Ja havia feito ainda no Brasil algumas adaptações
de contos brasileiros por volta de 1958/1959 que enviou para um concurso
promovido pelo Teatro de Arena em São Paulo. Sua adaptação
de Sarapalha de Guimarães Rosa deu a Renata
o segundo premio. Mas Monólogo Interior, escrito
em Madri, foi de fato sua primeira peça até e que ela
considera seu primeiro exercício. Em seguida vem O Crime
da Cabra montada pela Cia. Nidia Licia e que obteve o Prêmio
Moliére de 1965 e o Prêmio Governador de Estado.
Inspirada no Cerco de Numância de Cervantes escreve
O Escorpião de Numância-a
história de um povo cercado que prefere perecer a ser dominado
por outro, estrangeiro. É sua primeira tentativa de juntar poesia
e teatro que lhe vale o Prêmio Anchieta de 1968.
O tema da justiça que já aparecera em O Crime
da Cabra reaparece sempre no teatro de Renata Pallottini. As
quatro peças curtas: Uaite Cristimas, O Vencedor, O Exercício
de Justiça, e A Lâmpada que compõem
o livro Pequeno Teatro ainda que não tenha,
como diz a própria autora “um fio que as unisse, tem toda
uma preocupação com o destino do homem, sua sobrevivência,
seu caráter, e talvez subjacente uma grande dúvida com
relação ao que se chama justiça”.
Essa duvida é anterior à escolha do Direito, ou é
fruto dos tempos duros em que vivemos-lembrar que estávamos em
ditadura militar-em que a justiça parece ter sido definitivamente
banida do coração do homem?
Renata admite ter tido sempre “uma visão um pouco romântica
da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.” Para ela
a Faculdade das Arcadas era um ninho de poetas, escritores e “até
mesmo” advogados. Fez o curso com muito empenho e a partir daí
veio esta dúvida em relação à justiça:
humana, falível, limitada, dependente de critérios humanos.
“Nem sempre a gente é capaz de administrar bem essa justiça.
Há nuances, coisas difíceis de resolver.” Por exemplo,
de quem é a cabra da sua peça?Do antigo dono, ou do futuro
proprietário cujo dinheiro a própria cabra comera?E ainda;
porque alguns já nascem proprietários e outros não?Se
você herda e o outro não, onde está a justiça
disso?
O largo de São Francisco para Renata Pallottini era: “o
beijo da liberdade, os cafés da madrugada, a aventura, a loucura
inicial, o som da fala ao ouvido de alguns mestres basilares, o duro
ensino tortuoso, a lei imposta e entendida, os novos sons da política”.
Por ser tudo isso, por ter no largo de São Francisco “seus
amigos, seus amores, por ter tudo começado no largo de São
Francisco”, a poeta diz: “Ano após ano caminho/mas
sempre estou rodeando o largo de São Francisco/sonho voltar e
me entendo/no largo de São Francisco”.
Reconhece: “Sempre estive renascendo/sempre estive me fazendo,
amando no espaço livre do largo de São Francisco...”.
Que afinal, “está cada vez mais cercado/agora está
cada vez mais exíguo.” E perplexa a poeta pergunta: “Até
onde o possuiremos/até onde é largo aquilo? Até
onde nada é largo? Até onde vai tudo isso? (4)
Mas o problema da justiça não se limita para Renata Pallottini
apenas à questão da propriedade privada. Essa é
apenas uma das formas com que abordou o tema, tratado sob ângulo
diverso em Exercício da Justiça onde
um criminoso acaba sendo metralhado pela policia no fim de várias
tentativas infrutíferas de sair “do circulo vicioso”
do crime. É a corrupção empurrando a pessoa para
a criminalidade, na qual esta permanece induzida pela própria
policia, que deveria protegê-la.
Apaixonada pela Escola de Direito, Renata Pallottini descobriu, no entanto
que se interessava mais por seus fantasmas que pela própria Escola.
Daí passou a dizer que “escritor é aquele que sabe
descrever seus fantasmas”.Dai que sua peça Enquanto
se Vai Morrer é a história da Faculdade de Direito
em várias épocas: a Revolução de 1932, a
Segunda Guerra, a época dos poetas românticos, a figura
de Júlio Franck, líder maçon, fundador de uma célula
maçônica que por impedimento da Igreja acabou sendo enterrado
na Faculdade. Renata discute na peça problemas da sua geração,
que conseguiram realizar que não conseguiram, e que afinal acabou
resultando em abril de 1964. Ações concomitantes contam
a história das Arcadas, de suas origens até hoje.
Enquanto se Vai Morrer foi vetada pela Censura e Renata
Pallottini reconhece que este fato causou um “vazio enorme”
“uma grande defasagem”. A censura “provoca um vácuo
no autor, fica uma coisa atravessada na garganta”.
Trabalho
humilde
disciplinado
O mergulho nessa realidade, que era a realidade do país nesta
ocasião, a reflexão sobre toda esta problemática,
levaram Renata Pallottini a ser uma pessoa consciente da urgência
do trabalho humilde, disciplinado. Seu dia a dia reflete esta disposição
de espirito. Pouco notívaga: “vivo durante o dia a à
noite gosto de dormir mesmo ”- nunca acorda antes das nove por
achar absurdo.Dispensa boates e reuniões com muita gente onde
as pessoas se comunicam aos berros e de longe.Prefere o aconchego de
pequenas reuniões com amigos.Poucos e bons.”
Pela manhã fica “ciscando” um pouco reunindo material,
organizando coisas para o período de trabalho firme que vai geralmente
das 14hs às 19hs. Depois do almoço- “gosto de almoçar
em casa- não me sinto bem emendando tudo, de manhã até
a tarde”. Lê dois jornais e recebe os telefonemas dos amigos
que sabem que nesta hora está perto do telefone, enfim conhecem
seus hábitos.
Adora café, mas como não pode tomar muitos, a hora do
dia que mais “curte” e para o qual se prepara é a
hora do cafezinho das 16hs.Renata diz que “pára tudo”
e o café é recebido com todas as honras.Jantar sim, Renata
gosta de jantar fora, com os amigos que juntamente com o cinema e o
teatro são as grandes paixões da poeta.Os fins de semana,
Renata Pallottini passa em seu sitio de Atibaia: “uma casa com
lareira e piscina e um cachorro,” um Dobermann que adora e que
tem paixão por ela. “É absolutamente impossível
ter outro, porque ele morreria de ciúme.”
Às vezes Renata vai na sexta feira e fica até segunda,
num fim de semana esticado.Mas mesmo no sitio, onde pretende se instalar
quando parar as aulas na ECA onde lecionava na época Dramaturgia
e na Escola de Arte Dramática onde ensinava Teatro Brasileiro,
Renata trabalha.e muito. O silencio, “as solicitações
menor-poucos sabem o numero do telefone” fazem o trabalho render.
Mas eventualmente Renata Pallottini rompe com essa rotina fértil
de trabalho para ocupar cargos públicos onde se exercita no serviço
à comunidade, embora saiba que este tipo de encargo sacrifique
muito a carreira do artista. Não se arrepende, por exemplo, de
ter sido presidente da Comissão Estadual de Teatro no período
de 1969 a 1970 para onde à convite do (atualmente falecido) Décio
de Almeida Prado, na época critico de teatro do jornal O
Estado de São Paulo, além de integrante da Comissão
juntamente com Sábato Magaldi e Anatol Rosenfeld.
Renata Pallottini entrava para o cargo quando Cacilda Becker o deixava
“esgotada e talvez doente.” Comparando o temperamento das
duas, Décio de Almeida Prado conta que Cacilda sofreu muito com
o cargo, já que seu gênio não admitia eventuais
perdas.Ja Renata, mais calma e comedida, não se perturbava com
uma ou outra batalha perdida. “A comissão”, conta
Décio “se reunia, a havia a votação e ganhasse
quem ganhasse não havia qualquer espécie de competição
ou rancores”.
Décio atribui isso à ausência a de vaidade de Renata
Pallottini, o que fez com que na sua gestão não houvesse
qualquer espécie de choque. Mas sem duvida, tanto a Cacilda quanto
a Renata eram pessoas extremamente dedicadas à causa pública.
Cacilda sofria mais, por causa do seu temperamento.”
Foram anos duros para Renata Pallottini, mas que valeram a pena. Ela
parou seu trabalho de escritora e a poesia para se dedicar integralmente
a CET.Disse adeus ao trabalho literário e divertimentos.Queria
dar um tratamento especial a todo mundo.Tratar as pessoas como gente,
seres humanos que procuravam a comissão não apenas para
pedir verbas, mas para informações, trocar idéias.
Renata Pallottini chegou ao final de sua gestão com um trunfo
conseguido por poucos: sem inimizades. “Isso porque”, segundo
“ela,“ a Comissão era extremamente competente. Nunca
tivemos uma “Comissão como esta, para julgar e deliberar.”
Conta que ela, Décio, Anatol e Sábato faziam longas reuniões
onde debatiam assuntos difíceis, espinhosas como por exemplo
a questão do teatro popular. O teatro feito para o povo ou pelo
povo?E as tentativas que se diziam teatro popular e não atingiam
o povo?E se o povo vai fazer seu próprio teatro, como ajuda-lo
em suas carências e dificuldades?Como fazer se mal tem tempo para
as coisas mais essenciais, se o trabalho pela sobrevivência esgota,
para motivá-lo a estudar teatro?Como criar cultura para o povo,
eis as perguntas que se faziam continuamente.
Por isso durante a sua gestão decidiu-se que todos os segmentos
receberiam auxilio da CET. Não haveria grupos privilegiados:
as subvenções seriam distribuídas de maneira eqüitativa
para o teatro universitário, teatro amador, teatro popular, sem
esquecer os profissionais de teatro.
Renata Pallottini teve àquela altura mais dois convites para
voltar a integrar a Comissão Estadual de Teatro e chegou a participar
de vários encontros dos quais também participou o Décio
de Almeida Prado quando o José Mindlin foi secretário
de Cultura do Estado de São Paulo. Mas acontecimentos imprevistos,
inclusive a morte do jornalista Wladimir Herzog fizeram com que a equipe
se dissolvesse. Renata só ocuparia novamente o cargo, só
com o apoio integral Secretaria. Sem isso acreditava que não
haveria condições desta Comissão de Teatro funcionar
e daí não ter aceitado os convites.
Mas não só de poesia, teatro e cargos públicos
vivia Renata Pallottini. Como a maioria do povo brasileiro ela adora
futebol e é uma corintiana convicta “desde que nasceu”.
No dia da vitória do Corinthians só não foi para
a rua de medo do desvario do povo. Mas ficou seguindo o jogo pela televisão
e desta paixão, surgiram dois poemas e uma peça: O
dia em que o Corinthians foi campeão, editado em pôster
de mil exemplares, coisa pelo menos inusitada na área de poesia
e que ia ser editada pela amiga-Terezinha Pereira, na cadeira de Literatura
Brasileira, na Faculdade de Bouldar no Colorado, Estados Unidos.
“São onze contra onze/e o povo em frente/É o jogo
da bola/e o povo enfrenta. /É a pura compra e venda/e o povo,
crente. /Sem nenhum pão no dente/de bandeira na mão/os
guardas pela frente/o pau quebrando/(e a Fiel comparece) o povo paga
sempre/o povo esquece!//...Coringão, Coringão, vais cobrir
o buraco/ que ficou no bolso/na cabeça/no saco?//Vais me dar
a mulher, o filho, o emprego?/Coringão, é melhor Tver
do quer ser cego:
“....”
“Oh.
Jogo polivalente; /Por que não vales para comprar leite? /Por
que não serves para eleição? /Por que a alegria
do meu povão/não permanece?
“...”
“E a massa marcha pelo Morumbi/acima e abaixo/brandindo os paus
de gol e sua fúria//Há um minuto de espanto no olho do
guarda/ um minuto de espanto no pano da farda/um minuto de espanto no
governador://E se/de/ repente?//E se...?//Mas/passou.”
O poema Corintiano está no livro Noite
Afora e a peça Melodrama ainda inédita
conta a história de uma atriz em decadência pelo alcoolismo
e sua falta de saídas para este impasse. A ação
se passa num bar, com as portas cerradas, para impedir a entrada da
multidão, que la fora, comemora a vitória do Corinthians.
É lógico que Renata Pallottini sabe, entende o caráter
ambíguo do esporte de “massa” brasileiro. Apesar
disso, ela tem pelo futebol a mesma fascinação que experimenta
pelas corridas de touro que aprender a amar na Espanha. Quando viu pela
primeira vez em Sevilha em dias de grande festa, Renata confessa ter
ficado apavorada com a crueldade dó espetáculo. Dai em
diante tentou entender aquilo que fascinava tanto aquela imensa comunidade
de velhos, mulheres e homens que aprendiam a ver touradas muito cedo,
no colo de suas mães.
Já na segunda vez Renata não torcia pelo touro. Começou
a analisar a coragem do toureiro, o fio de linha que separava o seu
peito do chifre do animal. E passou a entender a beleza de tudo aquilo.
O sacrifício do touro, o ritual de tempos imemoriais, não
assumia mais ares terrificantes. Havia alguma coisa inexplicável
que conseguia eletrizar multidões e isso era fascinante.
A mesma coisa se passa com o futebol. Há o elemento de engodo
e alienação, mas ainda é o grande consolo do povo
brasileiro. “O fato de o Corinthians ser campeão não
impede de fazerem a revolução. Talvez impeça a
pessoa de enlouquecer. ”
E por falar em massa, o que significa para a poeta e dramaturga escrever
para um veiculo de comunicação de massa como a televisão?
O mais interessante para Renata neste tipo de trabalho é a repercussão,
a linguagem gostosa, movimentada. “É agradável a
ressonância em grande numero de pessoas. O espectador responde
na hora.A TV é um veiculo poderoso que pega milhões.Para
o escritor é a possibilidade de ser visto em Goiás, em
Porto Alegre e na Amazônia ao mesmo tempo.”
Renata reconhece que é preciso se submeter ao veiculo. É
preciso facilitar, baixar o nível da exigência, coisa que
não estava acostumada a fazer. Simplesmente fazia tudo o que
tinha vontade, sempre buscando a comunicação. Na televisão
é preciso diluir a informação, torna-la leve e
fácil.
Além disso, é um trabalho de equipe. É preciso
se habituar a ver o trabalho reformulado, às vezes na totalidade.
Mas Renata, quando se dispôs a trabalhar em televisão,
preparou-se para isso, esta proposta de trabalho. Discute tudo com certa
humildade porque não se considera uma expert em televisão.
Evidente que tudo isso não acontece absolutamente sem dores.
Há certo conflito. Mas está consciente que não
adianta colocar na televisão arte pura, que não será
vista, e muito menos entendida. “Coisas abstratas talvez possam
ser levadas em estágios mais avançados.”
Aliás este conflito está registrado no poema O
Escravitor que tem como sub titulo esta frase sugestiva: Depois
de escrever um capitulo de telenovela. “Se das palavras
não tirar mérito/farei o que me ordenam/recolherei o dinheiro
que me pagam/e com este dinheiro hei de plantar flores e uma casa de
cachorro. //Mas se das palavras não tirar mérito/terei
perdido a vida e tudo o que amava. /E nunca poderia fazer o poema desejado,
/o poema livre e igual a minha vontade/bonito como um navio.”
(5)
Renata Pallottini já escrevera aquela altura para a TV Globo,
Vila Sésamo para a TV Cultura, alguns teleteatro para a Globo
e Bandeirantes e uma novela: O Julgamento para a TV
Tupi , adaptação de Os Irmãos Karamazov de Dostoievski.
Mas sem duvida, é na poesia que Renata Pallottini se sente melhor.
Ela mesma se diz: “uma poeta que eventualmente escreve teatro.”
É aqui que ele sente em casa, com seus fantasmas, mas com sua
lucidez, com sua percepção acurada especialmente da problemática
feminina. Referindo-se ao poema Lumbra (Monologo Vivo)
o critico Omar Pimentel diz que a poeta “transforma a flor de
sempre num símbolo consciente da condição e do
destino da mulher”.
E como Renata Pallottini vê o movimento feminista no mundo e no
Brasil particularmente?Está engajada em algum tipo de movimento?
Ainda que não esteja engajada em qualquer tipo de movimento organizado
Renata Pallottini está sempre ligada na luta feminina. Acredita
mesmo que seja difícil encontrar soluções equilibradas
de luta, por que na medida em que a mulher foi tanto tempo subjugada,
ela tende a exagerar nas suas posturas e reinvindicações.
Mas está convicta da necessidade da luta para que a mulher possa
ter uma posição digna na sociedade.
O grande equívoco que vê no movimento feminino, e para
o qual acredita, as mulheres devam ficar atentas é a mulher sendo
inimiga de outra mulher em razão de uma rivalidade fomentada
pelos próprios homens e que tem um fundo sexual. “Há
uma jogada feita pelos homens que é a jogada da beleza, que coloca
as mulheres umas contra as outras. É preciso que elas revejam
isso.”
E por falar em mulheres, são duas as personagens principais de
um dos primeiros contos de Renata Pallottini, exatamente aquele que
dá nome ao seu único livro de ficção até
aquela data: Mate é a cor da viuvez: “um
belo e corajoso livro na opinião de Lygia Fagundes Telles, que
“lembra a atmosfera sutil de um Ingmar Bergmann, afeito ao trato
das personagens femininas.”
“As personagens principais são duas mulheres”, escreve
Lygia no prefácio. “E o morto em torno do qual elas tecem
toda uma teia de perplexidade e ironia, medo e ciúme-enfim a
intriga de amor que os separa e une ambíguo e sumoroso como aquele
fruto que elas provam da arvorezinha nascida num tumulo, as mulheres,
esquecia-me de dizer estão num cemitério. O sol. A sede.
Às vezes esse amor transparece na confusão de ambas, amor
que é uma espécie de flor múltipla, escapa por
todos os lados e se reproduz de si mesmo.”
Depois deste livro Renata escreveu mais quatro ou cinco contos que foram
publicados em revistas femininas. Não acreditava, à altura
que deixasse de escrever ficção, mas no momento não
se sentia inclinada para este tipo de literatura.
Ainda que já fosse aquela altura uma poeta bem sucedida Renata
Pallottini não considerava a poesia devesse estar necessariamente
em livros, em geral pouco vendidos e pouco lidos. Há uma série
de outras opções (e os internautas que o digam hoje),
e ela própria já participara aquela altura de um espetáculo
de poesia: Poetas na Praça, juntamente com Eunice
Arruda, Ilka Laurito e Neide Arcanjo sob direção de Elói
Araújo.
Poetas na Praça programado inicialmente para
ficar dois dias acabou ficando um mês no Teatro da Praça
em São Paulo, além de ter viajado por cerca de oito cidades
do Vale do Paraíba. As próprias autoras diziam seus poemas
com absoluto sucesso o que vem provar que poesia não é
tão maldita quanto se diz. A partir deste espetáculo surgiram
outros movimentos de poesia falada, continuando a tradição
iniciada pelo poeta Lindolfo Bell na década de 1950.
E por falar em poesia falada, ou com outro suporte fora o livro naquele
ano de 1979 - data deste perfil, Renata Pallottini era uma das poetas
enfocadas no espetáculo em cartaz no Teatro Brasileiro de Comédia
em São Paulo: Fala Poesia, com direção
de Tereza Aguiar.
Extremamente fiel as suas origens, seus amigos, sua gente Renata Pallottini
vivia àquela altura, há trinta anos no mesmo prédio,
um dos primeiros a ser construídos naquela região fronteiriça
entre a Aclimação e a Liberdade, dois dos mais antigos
bairros de São Paulo.
“A cidade nasceu no Pátio do Colégio para cá”,
diz Renata, olhando da janela do seu escritório, de onde se vê
a Glória, a Rua da Pólvora, os sobrados de sacadas de
madeira que compõem as feições da velha São
Paulo. “Eu me entendo neste bairro. Gosto de descer a rua e andar
por aquelas pequenas lojas. Gosto daquele povo que vive na Liberdade.”
Por isso, ainda que a poeta alerte para a dureza do “oficio de
testemunhar o amargo, ser portador de tristes novas, ser o pulso onde
bate todo o sangue derramado,”, mesmo quando sente o desconforto
de “ ver o mundo terrivelmente aberto em duas metades, ela que
tinha a límpida esperança/ de que a terra era a Terra,
e que o homem, à mesa podia entre dois copos, dizer sua palavra”,
às vezes desespera e pensa que “há um instante em
que o certo é vazar os dois olhos/e recusar-se a visão
do infortúnio.”(6)
No entanto Renata Pallottini não recua não se recusa a
esta visão. Resiste.
Notas
1.
Isso, em Arcos da Memória, pág.58.
2. Município, em Arcos da Memória, pág18.
3. Plaza Maior (Madrid), em Arcos da Memória,
pág. 22
4. No Largo de São Francisco, em Noite Afora,
pág. 72
5. O Escravitor (Depois de escrever um capitulo de telenovela) em Noite
Afora, pág. 17
6. Citação livre de Simposium 5 e Simposium 6 em
Coração Americano
Leia
mais sobre ela em
|