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__________________ Augusto de Campos: “a poesia que faço é a do artesão” __________________ Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um otimista incurável __________________ Jose Aloise Bahia - colecionando arte e promovendo cultura __________________ Leo Gilson Ribeiro – acreditando na inteligência do homem __________________ Joaquim Brasil Fontes: traduzindo o mundo grego e falando de metamorfoses __________________ Bárbara Lia __________________ Entrevista com Renata Pallottini __________________ Entrevista com Jorge Pinheiro*
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No caminho com Michel Sleiman Bárbara Lia
P.- Tua família foi viver no Líbano quando você era menino. Como foi iniciar sua educação no país de seus ancestrais? E quando a poesia começou a ser parte da tua vida? Michel Sleiman- Tenho um capítulo importante da infância e dos primeiros anos da adolescência no país dos meus pais. Fui pra lá um mês antes de completar os seis anos de idade para viver com meus avós maternos em Beirute, onde acabei ficando sete anos, dos quais cinco frequentei uma escola primária, de freiras francesas. Estudei o árabe e o francês em período integral, até que estourou a guerra civil de 1975. Em 1976 voltei. Cumpri um rito de passagem que parece um tanto comum nas famílias libanesas da primeira geração aqui no Brasil: mandar os filhos ao país dos pais, pelo menos um deles; no meu caso fui eu, o mais velho dentre os quatro irmãos. Mas isso tudo não foi planejado para ser como foi: era para ser um ano - aproveitaria para curar uma bronquite asmática que me castigava na fria Santa Rosa, Rio Grande do Sul e acabaram se tornando sete: fui me adaptando bem, aparentemente, me dava bem na escola, não dava muito trabalho aos meus avós e tios etc. E o sétimo ano não era para ser o de retorno, mas a guerra acabou fazendo urgente o retorno naquele ano de 1976, creio que eu outubro. O aeroporto bombardeado de Beirute estava fechado. A fronteira com a Síria era controlada por milícias islâmicas. E minha carteira de identidade libanesa estampava meu estatuto civil de cristão ortodoxo, um “rumi”. Me lembro que às 4h da manhã meu tio paterno Jurius, do vale do Bekae, me colocou no táxi de um tal Ahmad, amigo dele, com a recomendação de cruzar a fronteira da Síria em segurança até o aeroporto de Damasco, onde eu embarcaria em avião da KLM. Fechei os olhos, e o Ahmad me declarou às milícias como um filho seu que dormia. "O nome dele é Muhammad", ele disse, e passamos. No aeroporto, despediu-se de mim na descida do carro. Me dirigi até o balcão da KLM. No avião, depois em Amsterdã, onde fiquei algumas horas para fazer a conexão, me virei no francês. Havia um senhor no vôo, acho que amigo do meu pai. Lembro que ele me acompanhou aqui e ali. Lembro ele de meias pretas, tirou os sapatos, chulezinho familiar. Lembro também que as aeromoças holandesas eram muito altas, muito brancas e cheiravam a leite e talco de maquiagem. A chegada ao Rio foi assustadora no Galeão, à porta da aeronave, descendo as escadas, um calor! era um bafo quente de cortar a respiração. Senti tristeza e desolação por alguns minutos. Depois em Campinas, o dia era úmido. Meu tio Elias me esperava no Viracopos e eu achei que ele fosse o meu pai; são muito parecidos os dois e fácil de serem confundidos. Completando a tua pergunta, esse tempo eu passei sem meus pais e irmãos, portanto. Mas era para falar do tempo durante e acabei falando do start e do end. E era para falar de poesia. Mas tudo bem. Acho que isso tudo que disse é um mote para a poesia. Poesia como supra-sumo da vida, e os momentos tópicos da vida são também pura poesia. A lembrança como um ideário, um metapoema. Acho que a poesia começou nesses momentos tópicos, em suma.
P. - Você dedicou teu livro A Arte do Zajal “Para o Éden de Haroldo de Campos”. Além de Haroldo, quais poetas brasileiros mais te encantam? M.S. - A minha poesia se divide em antes e depois do encontro com Haroldo de Campos em persona. Com ele, tudo ficou mais complexo. No mesmo tempo, cresci e passei a exercer o poema maior do homem que trabalha e projeta coisas para frente. Confirmei poesia e tradução, e estas juntas na crítica, e a crítica passou a ser para mim um ato de poesia. Não prefiro uma à outra; simplesmente são extensões uma da outra. O livro Éden do Haroldo de Campos, ao qual dedico meu Arte do Zajal, contém o poema que nos uniu- O Cântico dos Cânticos. Quando contatei o poeta ele me pediu “algo” para ver, e eu levei um dos Cantos que traduzi a partir da versão árabe, que é por sua vez versão a partir do grego, que é por sua vez versão a partir do hebraico, que por sua vez é, polemicamente, versão-criação de alguma outra língua... Foi interessante cruzar o árabe e o hebraico dos poemas que tínhamos nas mãos na língua portuguesa das nossas criações. Aprendi, por exemplo, que a tradução no final das contas é um modo de poetar, que encontra eco entre seus agentes, como a Lua que manda luz para a Terra, que manda luz para a Lua, e essa luz enfim sequer é desta ou daquela, mas do Sol. Aprendi também que a língua da tradução é uma constelação de poemas da qual o tradutor pega algumas estrelas e engasta criteriosamente no poemário seu da vida inteira, lembrando aqui o belo título do Manuel Bandeira: Estrela da Manhã, Estrela da Tarde, Estrela da Vida Inteira. P.- Ontem quando fui ao correio enviar um livro a funcionária do correio comentou que adorava ler. Ela perguntou: Conhece Gibran? Quando ela citou Gibran, lembrei as belas poesias lidas naquele Diwan que organizamos em 2006, os belos poemas de Adonis, Darwich, Nizar Qabbani. Não existe nenhuma publicação de um poeta como Mahmoud Darwich aqui no Brasil. Alguma explicação para esta ausência da poesia árabe nas prateleiras? M.S. Há um par de anos, escrevi uma resenha sobre um livro em prosa de um poeta árabe que estava em visita ao Brasil.Eu disse indignado que aquela publicação era um contrasenso típico do mercado editorial brasileiro. Reconheço que aquela minha afirmação parece antipática, afinal publicar um livro de um autor árabe deveria ser motivo de saudação num mercado, como você diz, tão carente de títulos dessa procedência. Mas veja, o contrasenso era uma editora chamar para o Brasil um poeta importante e publicar dele não um livro de poemas, mas uma espécie de relato de viagens, por acaso uma obra menor na história do poeta. O livro veio, o autor veio, e ambos se foram. O que ficou na nossa história literária foi a crônica de uma sombra que passou. Nenhum leitor brasileiro hoje, ou de amanhã, tem como consultar um exemplar da obra em nome da qual se chamou o seu autor para estar entre nós. Como explicar isso? De diversos modos que eu sou incapaz de fazer aqui e agora. Mas fica o sintoma, que tem em si um paradoxo. Não lemos poemas porque não publicamos livros de poemas. E não os publicamos porque não os lemos. Esta situação encontra similitude em outras localidades, mas no Brasil é patética. Mas o Brasil, em contrapartida, me parece um país poético, facilmente “poetizável”. Não falo em tom de ironia, de verdade que não. Nossa alma e nossa língua são maiores que o juízo que temos de nós. O problema do Brasil é que a toda hora impomos ao país e à nossa gente um modelo de cultura que não é nosso, que não se ajusta a nós. Dentro desse modelo está o de leitores e cultivadores da dita “poesia”. Na verdade, o gosto nacional passa ao largo da poesia culta, erudita, que fazemos, nós, uma centena ou algo mais de poetas que puxamos uma tradição de extração livresca. O poema parece ao brasileiro médio uma instituição forânea, tem meneios de dama que a um plebeu passam batidos. O brasileiro a que me refiro gosta e aprecia a poesia; sabe-a de ouvir nas muitas linguagens que nos traduzem: a dança, a poesia oral, o nosso jeito de tomar café e de subir escadas. Aviso também: não faço coro ao mito do homem poeta por natureza. Mas nele localizo um alvo: quando um agente da cultura, um editor, pensa na poesia não vê nela um ponto catalisador do que se acredita ser a identidade nacional. Meu editor sabe disso, ele, um homem culto, sabe que o gosto médio do seu freguês não é o que escrevo como poeta ou como tradutor de poemas. P.- Conte sua experiência como editor da Revista Tiraz - revista do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Árabe da USP. P.-Gostaria que falasse ainda da sua atuação no Instituto de Cultura Árabe-ICARABE. M.S. No Instituto da Cultura Árabe, do qual sou presidente desde novembro de 2008, coordeno um grupo de diretores da mais alta competência na área cultural quando o assunto é o mundo árabe e o Brasil por ele tocado. O trabalho ali é mais complexo do que na Tiraz, porque as ações do Instituto reverberam muito, e excessivamente por vezes, conforme o “tempo” ou o “clima” dos fatos mundiais, aos quais somos chamados a responder. A demanda por explicar o mundo árabe é constante no nosso país. Sempre foi, mas após o sinal do petróleo, o dito Oriente Médio passou a um dos focos de atenção mais perceptíveis. O século XX foi a estação de desmembramento das terras do antigo Islã, dirigido pelos otomanos. Não bastasse a frágil construção do sentido nacional nesses países, forjado a partir de um projeto, por baixo, muito mal estudado e implementado pela França e Inglaterra nesse período, no século XXI, esse mundo fracionado agora é alvo evidente de demonização. O cinema norte-americano, ícone maior da alta e média cultura dos EUA, tem um papel crucial nesse processo e o fez à moda da escansão da sicuta, pingando-o gota a gota, de película em película, como de resto esse fez com os russos nos tempos da guerra fria. Por outro lado, as forças de reação do mundo árabe têm encontrado na politização das religiões uma força catalisadora aparentemente capaz de libertar as massas dos efeitos externos vindos de um “Ocidente corrupto e corrompedor”, tornado também, e por sua vez, demoníaco. As forças vitais, contudo, nos dois polos, parecem estar prontas para derruir o muro que se insiste em impor na linha ficticiamente divisória entre ambos. As ações da cultura são essas forças. E são essas mesmas que o Instituto da Cultura Árabe persegue e busca implementar nas diversas ações que lhe são cabíveis na nossa sociedade. P.- Um livro de poesias de Michel Sleiman: Notícias, título, previsão para publicação... Conte tudo! E como você encara as afirmações que nós poetas sempre ouvimos: Poesia não vende. / Ninguém lê poesia.
M.S - Títulos não faltam; e não faltam poemas organizados em livros. Mas isto não basta. Publicar um livro é, entre outras coisas, uma ação política, comercial e pessoal. A primeira é esta, a da ordem pessoal. O livro requer mover uma energia que convença o autor a sair de si, primeiramente. O próximo passo é o reflexo deste: convencer o editor e manter-se convencido à medida que o tempo passa e o livro não sai, enquanto as finanças das editoras e as oscilações do mercado financeiro acenam para recessão da economia, e enquanto, claro, menos se vendem livros, menos o editor recebe pelos livros em consignação nas livrarias. Não esqueçamos de que falamos de livros de poemas, que os editores são unânimes em afirmar só os poetas lêem. E eles têm razão: nós escrevemos para um leitor com entendimento da história do poema. A outra ação é a comercial. Editar para vender onde, se os livreiros não expõem livros de poemas? Agora vale a ironia: afinal são livros volumosos, enchem prateleiras, bla-bla-bla. É conversa, sabemos. Mas caberá a mim e a você o papel de ser “promoter” das editoras junto às livrarias? Isto é demais, não? A terceira ação para um livro de poemas ser editado é política porque implica tomada de posição diante o que se quer para a nação como um todo. Que projeto cultural tem o Brasil, seus dirigentes e seus cidadãos? Não quero ser eu a dizer que não têm projeto algum. Não direi. Não direi mesmo que não há um projeto cultural para este querido país. Bom, já disse. Há, contudo, os projetos dos poetas que levantam bandeiras. Esses para os quais eu tiro o chapéu. Agentes de si mesmos, contudo, não repercutem suas ações salvo em torno do próprio umbigo. E o fazem bem, mas não são editores. Portanto, continuamos sem projeto cultural. Sem política editorial. Sem poemas. Não sem poesia. Esta existe e vai bem, obrigado, porque ela existe como ação política de quem escreve e perscruta o mundo. E ainda que tal poesia não fale a língua nacional, é ainda a língua de muitos: assim tem sido a história milenar desde a invenção da escrita. Tenho um livro a sair pela Ateliê, chama-se Ínula Niúla, que o poeta meu amigo Horácio Costa faz preceder com um texto seu de apresentação. E estou trabalhando em várias frentes de tradução de poemas árabes antigos, contemporâneos, além do sempre inspirador Alcorão, mãe-das-linguagens. Finalmente dei uma versão que me agradou muito do longo Poema dos Árabes, de A-Chánfara, do século VI ou VII, e estou terminando a tradução, com transliteração da recitação solene, do segundo capítulo do Alcorão, a chamada Sura da Vaca, cujos primeiros 143 versículos publiquei em Tiraz 5, do ano passado. E estou engrossando uma antologia da poesia árabe em perspectiva histórica das suas formas-poemas. Tudo virá a seu tempo. Michel Sleiman por Michel Sleiman Gostaria que os brasileiros de origem disso e daquilo não fôssemos tanto, até extinguir-se, brasileiros árabes, brasileiros judeus, brasileiros negros. Isto é uma coisa ruim, e um retrocesso, uma abdicação do que temos sido ao longo da nossa história. Gostaria de lutar por um país mais justo e democrático, pra valer: que tivéssemos condições similares para fazer cultura, sendo agentes e esperando menos das ações que vêm de cima, não por não querê-las, mas porque em geral tais ações subtraem nossa capacidade de agir por nós e, com isso, de decidir por nós, de lutar por nós e por sonhar por nós. Michel Sleiman nasceu em 1963 em Santa Rosa, RS. Participou de livros coletivos de poemas, mas ainda não publicou um livro individual. Tem dois livros de crítica e tradução da poesia árabe-andalusina: A Poesia Árabe-Andaluza (Coleção Signos, da Perspectiva, 2000) e A Arte do Zajal (Coleção Estudos Árabes, da Ateliê, 2007). Dirige a Revista Tiraz de Estudos Árabes e das Culturas do Oriente Médio e preside o Instituto da Cultura Árabe, em São Paulo, onde é professor doutor de Língua e Literatura Árabe da USP Leia mais sobre o livro neste link Para saber mais sobre Michel Sleiman: Bárbara Lia é poeta e escritora. Vive em Curitiba. Livros publicados: O sorriso de Leonardo (Kafka ed. - 2.004), Noir (ed. do autor – 2.006), O sal das rosas (Lumme editor- 2.007), A última chuva (ME - Alternativas – MG – 2.007). Solidão Calcinada (Secretaria da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná - 2008) romance finalista do Prêmio Nacional do SESC 2005.
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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