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Leo
Gilson Ribeiro – acreditando na inteligência do homem
Por Ana Lúcia Vasconcelos
E era lá que nos encontrávamos além da Editora Abril naturalmente, e era uma delicia: noites e dias maravilhosos de conversas sobre livros, autores novos e antigos, clássicos e emergentes, tudo regado a bons vinhos e muita afetividade. Lembro-me especialmente e isso me veio logo que soube da sua morte, lendo, aliás, uma matéria no Estadão, publicada no dia 12 de janeiro de 2007 onde surpreendemente sou citada, algumas cenas ocorridas na Casa do Sol e na Editora Abril. Leo um dia veio correndo me encontrar no saguão do sétimo andar - onde funcionava a Veja, naquele prédio da Abril que fica na Marginal Tietê, o primeiro da editora e onde freqüentei muito, eu já na porta do elevador, para me convidar para substituí-lo na cobertura de Artes Plásticas para a referida revista. Registro que fiquei lisonjeada, mas não me senti a altura da coisa e disse: “Leo, mas nunca cobri artes plásticas, não tenho a sua cultura, conhecimento para tal.” Ele: “Mas eu te ensino.” Agradeci e não aceitei, na verdade achei que não tinha competência especifica para a empreitada. Mas na seqüência da minha carreira como gosto muito de artes plásticas, sempre tive muitos amigos artistas plásticos, fiz e faço matérias sobre... Lembrei-me ainda: essas coisas acontecem vocês sabem, sempre que a gente é tomada por um choque deste tipo: um amigo morre, passa para o outro lado e você tem um rápido flashback da nossa vivencia com ele, e é duro, mas as cenas vêm assim todas juntas, numa seqüência ao mesmo tempo doce e amarga, desta vez regada de lágrimas, porque você vê que aqueles tempos não mais voltarão e daí: “que os olhos se enchem d’água....e a vista se atrapalha...”, como agora por exemplo em que escrevo essas linhas. Outra cena que me veio foi de uma certa tarde, final de tarde na verdade em que eu estava sentada no saguão desta vez no térreo da Abril, este mesmo prédio referido, assim meio alheia, esperando acho uma carona do meu namorado e que trabalhava na TV Cultura, logo ali portanto, e o Leo chegou da rua e veio em minha direção fazendo um gesto de quem tira uma foto imaginária, se ajoelhou na minha frente, beijou minha mão, dizendo algo deste tipo: “atriz maravilhosa...” Fiquei super inibida sorri e me levantei dizendo: “Leo não faz isso”.... e ele continuou ajoelhado, fazendo uma cena.... ele adorava teatro também e era dramático e eis aí mais uma coisa que tínhamos em comum. Portanto ele me conheceu como atriz e jornalista e digamos houve muitas outras cenas maravilhosas, muitas conversas e muito humor na nossa relação porque ele era ao mesmo tempo esta pessoa cultíssima, profissional hiper competente e de uma capacidade de trabalho incríveis, mas de um humor também maravilhoso de forma que era um prazer desfrutar da sua convivência e ouvi-lo. Fiz duas entrevistas com o Leo ao longo da minha carreira - esta publicada no Jornal de Hoje (24 de fevereiro e 1980) de Campinas, onde fui editora de Lazer e Cultura, (criado e dirigido pelo famoso José Hamilton Ribeiro), quando ele esteve em Campinas para participar de um Congresso de Literatura Hispano-Americana na Unicamp cujo objetivo era promover uma reflexão critica sobre os problemas desta literatura e sua diversidade lingüística e ficou, lógico, hospedado na casa da Hilda. Leo sempre irreverente e polêmico recusou participar da mesa coordenada pelo crítico e professor da USP, Antonio Candido, sendo que ali estavam experts em literatura de quase todo o mundo - preferiu ficar no plenário de onde desferia suas instigantes intervenções, e justificou tal atitude: “Quando cheguei da Europa e precisei da universidade ela me recusou, agora não preciso mais de nenhuma universidade brasileira”. A segunda entrevista que fiz com ele aconteceu na sua casa em São Paulo e foi publicada na Revista Artes (no. 67 junho/julho e agosto de 1989). Depois disso, muita água rolou debaixo da ponte, muitos novos escritores surgiram, a conjuntura sócio-político-econômica do planeta mudou muito e daí que precisaria de uma nova entrevista para colocar em dia tudo isso, mas agora é tarde. Para atualizar minimamente esta matéria publicada no meu blog em 2004, liguei para ele para conferir alguns dados de ordem pessoal apenas. E fiquei sabendo que continuava com sua máquina elétrica, não tinha endereço eletrônico, quer dizer ainda não entrara na era da informática, e continuava lendo full time, mas agora só o que gostava, podia se dar a este luxo. Conferindo suas atividades atuais me contou que estava preparando dois trabalhos: o primeiro, a convite do Sesc era uma seleção do que considerava o melhor na sua obra ainda não impressa, e o outro: um livro contendo suas Melhores Entrevistas publicadas no Jornal da Tarde e na Veja. Fora isso, levava uma vida simples, e disse que agora, mais maduro, estava relendo o que gostava e só lendo coisas de qualidade. E ainda: disse que como eu sabia, ele gostava muito de mim e eu também disse isso, quer dizer sempre que nos falávamos nos fazíamos declarações de amor e ele me convidou para aparecer na sua casa e eu prometi ir. Pena que não deu tempo... E agora só quando nos encontrarmos novamente na eternidade, onde já o vejo rejuvenescido e feliz, quem sabe, ao lado da Hilda, Cortázar, Borges, Proust, nossa que maravilha! Imagino as conversas que estão rolando nas varandas de lá. Enquanto isso continuo aqui, relembrando a nossa convivência, rara e bonita já que Leo Gilson Ribeiro foi uma das pessoas mais cultas e inteligentes que tive a honra e o prazer de conhecer. Gostaria
de esclarecer que -ainda que essas entrevistas sejam datadas- elas tem
um valor, acredito, inestimável porque mostram pelo menos uma mínima
partícula do seu conhecimento da literatura brasileira, latino
americana e mesmo mundial e sua ligação profunda com os
problema humanos mais prementes do nosso tempo. Mas aqui ele fala especialmente de outros assuntos como o caráter anárquico da literatura e da arte, e o temor que suscita nos governos totalitários sejam da direita ou de esquerda. Denuncia o fascismo de esquerda e principalmente fala da revolução feita por algumas mulheres maravilhosas como Rosa Luxemburgo, Hanna Arendt e Virginia Woolf, em vários setores do conhecimento humano e cita sua passagem pela Veja e seu livro A Noite dos Balões que foi talvez o primeiro do Brasil do gênero inaugurado por Truman Capote-o chamado jornalismo literário e que talvez deva ser adicionado aos de imprescindível leitura para quem quer seguir este caminho.
Leo
Gilson Ribeiro- (Agravelmente surpreso) - Bem, eu não
sabia que esta entrevista ia ser tão pessoal. Mas acontece o seguinte.
Eu tive uma formação estritamente cerebral, num país
como a Alemanha, que Nietzsche classificaria como quase espartanamente
apolínea e aprendi disciplina que os brasileiros dionisíacos
não tem. Eu, digamos assim, me esterelizei um pouco no coração.
Toda minha cabeça funcionava com uma espécie de dona da
verdade, e de elemento que impunha dogmas, axiomas, e teoremas. Através
de sofrimentos pessoais meus senti a comoção da solidariedade
com a miséria coletiva humana não só no sentido social,
político e econômico como também no sentido mais limitado
do diálogo de duas pessoas. Me parece, infelizmente uma imagem
muito triste- mas me parece que a grande maioria de nós está
metida assim em pequenos escaninhos e cada escaninho tem seus rótulos.
E não interessa o nome que a gente dê a essas paixões
que foram eternizadas por Shakespeare. A verdade é que cada um
de nós tem problemas. Ou financeiros ou tragédias pessoais
como um casamento desfeito que abala toda a vida, ou uma irmã retardada
ou uma mãe ou um pai que teve morte longa, dilacerante, agônica.
Então, digamos assim, além de ter tido uma noção
muito grega da imediatez da morte, eu adquiri uma noção
da imediatez da vida. Eu admiti -pode parecer subversivo dizer isso- eu
admiti a falência do intelecto. Leo-Não,
não há ilações políticas. É
mais uma história pessoal, que talvez pari-passu tenha ocorrido
com uma série de mutações políticas no mundo.
Comecei a perceber a falência do intelecto - uma falência
que não é nem de direita, nem de esquerda, nem do meio,
quando através do sofrimento comecei a ler livros do Vivekananda,
que é da Escola Vedântica da Índia e o livro do Bhagavad-Gita.
E como sempre tive afinidade com o espírito oriental, do Extremo
Oriente, comecei a decodificar a vida de uma maneira completamente diferente.
Isso não me esvaziou a mente. Ao contrário me aproximou
muito mais daquela frase lindíssima da Clarice Lispector que afirma
a necessidade de ser ter “uma inteligência sensível
e um coração pensante”. Leo-Eu
acho que os intelectuais brasileiros, muitos deles estão ainda
no ledo engano de que a mente vai solucionar tudo. Voltando aquela dicotomia
de apolíneos e dionisíacos, eles estão levando o
apolíneo a tal exacerbação que vão acabar
como Esparta: não vai haver mais possibilidade de diálogo.
Porque se você exagera no dionisíaco você vai chegar
ao caos, mas se exagera no apolíneo, você chega ao nazismo. Leo-No
mundo? Ah sim, sem dúvida. Nós estamos vivendo politicamente
em termos mundiais claramente o espírito de Munique. Hoje em dia
só os nomes mudaram. O Afeganistão é a Tchecoslováquia
dos anos 30, quando foi invadida por Hitler. Acredito que o Paquistão
ou o Irã terão um papel a desempenhar semelhante ao desempenhado
pela Polônia. No dia em que os poços petrolíferos
forem dominados pela União Soviética no Golfo Pérsico,
haverá a eclosão daquilo que já começou que
é a Terceira Guerra Mundial. Porque o que os chineses vinham denunciando
com um vigor e uma plausibilidade crescentes -que era o expansionismo
do ultimo imperialismo que existe no mundo- que é o imperialismo
real, concreto, que é o soviético, nós estamos vivendo
hoje em dia. Assim como era ignóbil a presença dos Estados
Unidos no Vietnã, é ignóbil a presença dos
russos no Afeganistão. Ainda com a agravante de que os americanos
têm uma poderosa opinião publica tem uma imprensa livre e
como tem, digamos mil questionamentos a respeito de moral, de ética,
antes de serem derrotados militarmente, eles foram derrotados pela própria
consciência. Além disso, não podemos esquecer de um
dado militar. Agora houve a cisão. Os Estados Unidos e a China
estão reconhecendo que, como em 1933 com a ascensão de Hitler,
começou a haver a ameaça mundial de tomada do mundo pelos
totalitários de extrema direita, dos nazistas, hoje há uma
ameaça de tomada do mundo pelos fascistas de esquerda que são
os soviéticos. Leo-Há
dois tipos de marxistas no Brasil. Os analfabetos que eu chamo de pavlovianos,
porque você fala o nome de Marx e eles têm uma reação
semelhante a do cachorro que salivava quando tocava a campainha. Mas existe
uma parcela minoritária da esquerda lúcida brasileira, pós
maoísta que é uma esquerda que segue a linha de Deng Shiao-Ping
que reconhece não só o hegemonismo brutal da União
Soviética, como é uma esquerda válida por que se
auto questiona, se critica, se corrige quando reconhece seus erros. Agora
no mundo ocidental, acredito que a esquerda mais lúcida esteja
mesmo na Itália. Leo-Graças
a sua milenar tradição humanista. Não podemos esquecer
que foi a Itália que acabou com a Idade Média, com o obscurantismo
do não pensar, com o Renascimento italiano. E novamente vem essa
generosa e maravilhosa Itália, um país ao qual dou o mesmo
papel que Atenas teve no seu período de glória, refletindo
sobre o pós marxismo. A Itália é talvez o único
país, pelo menos no Ocidente, no qual o marxismo não se
tornou um dogma, não se cristalizou e não se tornou um cadáver
embalsamado como o de Lênin. Leo-Eu
acredito que isso se deva ao tipo de inteligência passional do italiano.
O italiano tem uma inteligência muito pragmática e constatou
como os chineses que o bolchevismo na prática não pode funcionar,
porque não há questionamento e sem questionamento não
pode haver progresso. Porque se você tem um único partido,
não tem direito à greve, nem a liberdade de imprensa, nem
de reunião, nem de liberdade e emigrar e muito menos de ter contato
com países estrangeiros de acordo com as teses de Lênin,
então evidentemente esta sociedade está necrosada. Leo
- Exatamente eles negam a própria dialética implícita
no ensinamento de Marx. Em primeiro lugar porque o brasileiro é
muito macunaímico, muito preguiçoso. Leo-
Isso porque eles foram a Cuba de olhos vendados. Por que eles não
procuraram o Hubert Mattos que aquela época estava preso? Por que
não foram ver toda aquela marginalidade cubana? Porque só
viram as coisas que lhes foram permitidas ou as quais eles anuíram?
Por que não fizeram como Graham Greene que denunciou que em Cuba
os homossexuais são, ou pelo menos eram levados a campos de concentração
de reorientação sexual? Graham Greene, no Sunday
Times publicou dez artigos sobre a revolução de
Cuba e seus primórdios. Nove totalmente a favor da revolução
de Cuba e o décimo artigo mostrando os erros. Então evidentemente
Graham Greene passou a ser uma bête noir detestada.
Por que você não pode criticar um milímetro dos paraísos
soviéticos? Aliás, é preciso falar também
que houve uma deformação semântica, aquela já
prevista por George Orwell em 1984. Os regimes totalitários
e em parte a publicidade comercial também perverteram semanticamente
certos vocábulos. Por exemplo, uma república totalmente
repressiva como é a Alemanha dominada pelos tanques soviéticos,
além do muro de Berlim, do lado de lá, é chamada
Republica Democrática Alemã. Então que sentido tem
a palavra democrática num país que tem um muro minado, com
cachorros treinados com guardas com metralhadoras e sem direito de migração,
sem direito ao livre pensamento, com partido único, banindo seus
melhores intelectuais quando não os fuzilando, quando não
dispõe de autonomia no xadrez internacional? Então a humanidade
está fadada a desaparecer como espécie se ela mesma se destruir
através daquilo que o Toynbee chamou muito sabiamente de “desafio
da civilização”. O Toynbee tinha um intelecto imensamente
vasto, ele era um homem do Renascimento, que sabia quarenta disciplinas,
ele estudou um sem número de civilizações e tinha
uma formação clássica a ponto de saber o grego antigo
melhor que o inglês. Ele formulou muito melhor do que Splenger o
que é o desafio do nosso tempo. Quando uma civilização
não dá uma resposta eficientemente adequada ao desafio da
sua época, ela perece. Leo-Estamos
fadados a desaparecer se acabarmos com o pluralismo de liberdades. Há
um grande poeta russa, Anna Akhmátova, que tem as obras proibidas
na União Soviética. Há o Boris Pasternack que tem
poemas impublicáveis na União Soviética porque ele
se opunha ao regime. Acontece o seguinte: você empobrece a humanidade
de talentos maravilhosos. Ossip Mandelstam me comove muito e por isso
eu tento penosamente aprender russo porque ele tem um poema deslumbrante
chamado Crepúsculo da Liberdade. Em tom funesto ele fala do fim
do século vinte em que a liberdade se põe como o sol. Então
possivelmente nós vamos enfrentar uma Idade Média cuja duração
não podemos prever. Ou então vamos ter uma espécie
de queda do Império Romano e invasão dos bárbaros,
quer dizer, nós vamos viver eternamente uma revolução
culturalista do tipo maoísta que vai queimar Shakespeare, destruir
as obras de Mozart, as obras de Bach e que de acordo com aquele código
Kruschev, só aquilo que róseo é que vai ser permitido.
Então a literatura é muito perigosa e sempre será
perigosa por isso é que foi banida por Platão da sua Republica
ideal. Leo-Não
apenas os ditadores, nenhum governo gosta. Os democráticos toleram. P.
- Isso porque a arte é subversiva? Leo-
Veja só. Jesus nunca doutrinou sobre sexo. Marx, que eu saiba fez
um filho numa empregada sua e então eu acredito que ele não
tivesse idéias muito ortodoxas em matéria de sexo. Mas enquanto
Jesus, nem Marx falaram de sexo, os governos totalitários têm
falado de sexo. Porque o sexo e a literatura ou a arte em sentido mais
extenso, são um perigo para a permanência de um regime totalitário. Leo-Eu
conheço mulheres que se desencantaram porque as esquerdas que elas
viveram colocaram a mulher na mesma posição de cama, cozinha
e criança. Leo-Pois
esta explosão que está acontecendo no mundo que nós
pensamos que é o caos, não é.É um acerto de
contas. O negro quer o seu quinhão que lhe foi surrupiado, a mulher
quer o seu quinhão, o homossexual, o judeu quer o seu quinhão.
Povos e pessoas pisoteados nos seus direitos humanos de que Carter fala
(na época Jimmy Carter era presidente dos Estados Unidos) tanto
retoricamente, querem readquiri-los. Você tem que ter direito sobre
o seu corpo, a sua mente, sobre seu coração desde que não
infrinja o direito do próximo. E a mulher, por exemplo, já
foi tão importante quando lhe deram uma pena para escrever. Quando
a mulher pode ter acesso ao ensino e a fertilização da sua
mente e não apenas do seu útero o que foi que aconteceu?
Virginia Woolf foi mais revolucionária do que Joyce. Todos pensam
que foi Joyce, mas foi Virginia Woolf. Leo-Virginia
Woolf em The Waves (As Ondas) não só se
antecipou ao Finnegans Wake de Joyce como já propôs
uma obra aberta, já propôs um romance impressionista no sentido
de que a vida é vista por seis pessoas e o mesmo fenômeno
é interpretado por seis pessoas diferentes. É um livro deslumbrante.
A Virginia Woolf é uma das maiores escritoras de todos os tempos,
desde que o homem aprendeu a escrever. Leo-Os
dois grandes livros dela são: To The Light House (Viagem
ao Farol) e The Waves (As Ondas). A Viagem ao Farol foi massacrado
no Brasil por uma tradução nojenta, como de costume. E depois
teve uma tradução deslumbrante do Mrs. Dalloway
feita pelo Mário Quintana. Então veio a Virginia Woolf que
junto com Proust, Kafka e Joyce subverteram a literatura inteiramente.
Depois veio a Rosa Luxemburgo que subverteu o pensamento totalitário.
Ela descobriu que o tal “centralismo democrático” do
Lênin levaria a tirania. Ela disse aquela frase que é batida,
mas que é bom relembrar: “há liberdade quando a liberdade
não viola a liberdade do outro. Ela postula isso, a pluralidade,
a liberdade dos sindicatos, a liberdade de greve, a liberdade de reunião,
a liberdade de comunicação, a liberdade de residência,
a liberdade de debate. Ela postulou em 1821 o que Toynbee estava estudando
como o desafio da nossa civilização. E em terceiro lugar
aparece a maior mente de interpretação política do
nosso século que é Hanna Arendt, questionando maravilhosamente
a primeira ameaça mundial que nós tivemos da Besta Apocalíptica
que foi o nazismo. Infelizmente ela morreu e não pode escrever
sobre a segunda encarnação da Besta que é a União
Soviética. Mas vai aparecer uma mulher eu acredito, que fará
isso. E essas são algumas. Leo
-Quando soltam a mulher ela se revela maravilhosamente fecunda. A própria
Virginia Woolf - olha o contraste inacreditável – convidada
para proferir uma conferência em Cambridge, não teve acesso
à biblioteca por ser mulher e por que o livro era feudo exclusivo
dos homens. Então quando aparecem mulheres como Liv Ulmann e um
diretor como Bergman que coloca uma questão como esta: e se a mulher
for muito mais rica e profunda que o homem? E se os homens forem meros
besouros em torno de uma coisa muito maior que ele? Bergman deve incomodar
muita gente... Leo-Aqui
temos a Clarice Lispector, a Hilda Hilst. A Hilda Hilst inclusive deslocou
a literatura geograficamente porque no Brasil a grande literatura era
um feudo, era um arreglo entre Minas Gerais e o Nordeste, o Nordeste e
o Rio de Janeiro. Os três ocupavam o trono. Ela colocou São
Paulo como matriz literária do Brasil e do dizer em português.
Porque Portugal não tem nenhum autor que chegue aos pés
dela. Então em idioma português a Hilda Hilst é o
maior escritor vivo. Leo-A
obra da Hilda não é engagé ela é
enragé e por isso não pode fazer sucesso
imediato. Se o Brasil até hoje não digeriu plenamente Machado
de Assis, Graciliano Ramos imagina Hilda Hilst? Guimarães Rosa,
Clarice Lispector e Hilda Hilst continuarão não compreendidas
durante decênios até que o Brasil civilizar-se, até
o Brasil educar-se literariamente. Essas pessoas que fizeram autênticas
revoluções ficam marginalizadas. As pessoas ou por comodismo
ou por preguiça ou por burrice ou ignorância acusam esses
escritores de herméticos. Os marxistas pavlovianos vão dizer:
é uma alienada, está falando da angústia e da morte.
Tem que falar da fome do Nordeste. Como se a fome apaziguada eliminasse
a angústia e a morte. Por isso eu contraporia àquele poema
lindíssimo do Mandelstam um outro belíssimo do Shelley que
li na adolescência e só hoje entendo: “os poetas são
os verdadeiros legisladores da humanidade”. Leo-Que
os poetas se antecipavam ao conhecimento da realidade, e que naquele famoso
ônibus que o povo tomava os legisladores também estavam.
E quando ele chegava ao seu destino, via que o artista tinha razão,
e mudava a legislação. É o que está acontecendo.
Nos Estados Unidos os movimentos pelos direitos iguais da mulher, o movimento
do Gay Power, do Black Power nada mais é que uma corporificação
jurídica e concreta de tudo o que os escritores e artistas negros,
homossexuais e mulheres já haviam denunciado há muito tempo.
A Catherine Mac Cullers já tinha se referido naquele livro The
Heart is a Lonely Hunter (O coração é um caçador
solitário) que até do ponto de vista da inteligência
o racismo é um suicídio. Porque se estava dizimando potenciais
Tchecovs, potenciais Dostoievski, potenciais Shakespeares negros. Da mesma
forma a mulher subjugada já tinha sido denunciada. E foi até
por um homem. Quando Flaubert dizia: “Madame Bovary c’est
moi” ele sabia que Madame Bovary tinha que pagar com a vida não
só para poder ter um orgasmo, mas a ilusão de amor lírico
e erótico dentro da sociedade burguesa. Leo
- Eu acredito que a melhor definição que se pode dar aproximadamente
de arte é: arte significa liberação e também
estilização. Se não houver estilização
então qualquer relatório do IBGE sobre a fome no nordeste,
também é arte. O artista seleciona e transforma os aspectos
da realidade, através do seu subjetivismo. Por isso, que não
pode haver uma obra de arte coletiva. Já uma degustação
coletiva pode. Quando disseram pra Ibsen: nós queremos reformas
sociais coletivas ele disse: sim, mas antes esta idéia deve passar
pela mente de cada um. Então o que distingue uma obra de arte de
um documento ou de qualquer outra coisa é - ela não pode
ser propaganda. Quando ela quer mentir para você ela não
é arte. Além disso, a arte nunca está divorciada
da estilização. Você distingue a arte quando ela não
quer te convencer contra a sua própria vontade. Arte é o
terreno mais democrático que existe. Ela te permite retificá-la,
desmistificá-la, desmenti-la e discordar dela. Ela é anti-axiomática.
Ela é por definição a obra aberta. O Marx, por exemplo,
admirava Balzac que era um autor monárquico e super reacionário... Leo-É,
ele tem um ensaio que é muito esquecido pelos marxistas pavlovianos,
não sei se está no Capital (O Capital)
ou no Manifesto (Manifesto Comunista), em que ele diz
que apesar da sociedade grega antiga ter tido a mácula de ter sido
uma sociedade escravocrata, a grandeza da escultura grega superava estes
preconceitos biológicos e era eterna. É até perigoso
ele dizer isso, porque ele postula uma autonomia estética diante
da ética. O Benvenuto Cellini como eu te disse, era assassino,
ladrão e, no entanto era o maior ourives do Renascimento. O Leonardo
da Vinci e Miguelangelo eram homossexuais, no entanto eram os maiores
artistas do Renascimento. Leo-A
arte não exclui a miséria humana como não exclui
a grandeza humana, a arte engloba o ser humano. Não há território
vedado à literatura, nem o ideológico, nem o sexual, nem
o psicológico, nem o social. O artista diz sempre não a
uma realidade imposta de cima e homogeneizante. Ele não se deixa
imbuir de que o coletivo é o nirvana. O artista é sempre
muito subjetivo muito individualista. Leo-
Olha eu leio tanto, que de seis em seis meses tenho que mudar as lentes
dos meus óculos. Leio uma média de cem páginas por
dia. Eu tenho livros extensíssimos para ler porque agora nos Estados
Unidos e em outros paises, talvez para se contrapor ao cinema e a televisão,
estão fazendo livros imensos, e não há necessidade
disso. O Borges pode ser deslumbrante em uma página e meia. O Guimarães
Rosa pode ser transcendente em quatro páginas. Leo-Há
um acordo. Ha reunião de pauta as segundas-feiras da qual eu participo.
Você conhece meu temperamento. Sabe que sou muito independente.
Eu sei que tenho que seguir algumas coisas que o jornal pede que eu faça,
o que de certa forma me lisonjeia, porque o jornal está me atribuindo
competência suficiente para falar sobre aquele assunto. Então
há um acordo entre nós. Alguns livros me são pedidos
e outros eu escolho e imponho, digamos assim. Leo-Eu
só leio em alemão, inglês e italiano. Francês,
quando é o idioma original, porque as traduções são
péssimas. A melhor tradução do mundo é a alemã,
depois vem a inglesa e a italiana. A Espanha traduz meio rigidamente,
Portugal traduz bem às vezes, às vezes mal. E nós
traduzimos mal sempre. Quando se traduz bem é uma exceção.
É quando a tradução foi entregue a um Manuel Bandeira,
a um Carlos Drummond de Andrade a uma Cecília Meirelles a um Mário
Quintana. Aí a tradução é deslumbrante, primorosa. Leo-Eu
leio livros sobre ciência atômica, sobre sócio-biologia,
e biossociologia, sobre lingüística, sobre política
externa. Se dou conta não sei, mas fico fecundado por milhões
de coisas. Leo-A
Veja foi importante porque foi o primeiro órgão
de imprensa no Brasil que profissionalizou a critica literária.
Eu recebia na época um régio salário. Naquele tempo
não havia ainda nem OPEP, nem inflação. Apesar de
eu ter sido contratado como critico literário eu fazia eventualmente
outras coisas em jornalismo, como aquela matéria que me deu o Prêmio
Esso: A Noite dos Balões que
foi aquele massacre de velhinhos em São José dos Campos.
O Mino (Carta) pensou que eu pudesse fazer À Sangue Frio
do Truman Capote e eu cheguei la e era uma tragédia muito mais
século XIX, muito mais Dostoiévski, muito mais Crime
e Castigo, aquilo de matar para roubar. A Esso transgrediu o
regulamento e criou um prêmio especial: era a primeira reportagem
literária do tipo de Truman Capote e Norman Mailer. Leo
- Estes quinze anos de impedimento de diálogo emburreceram o Brasil
e não lhe deu acesso ao que os alemães chamam um pouco pedantemente
de Zeitgeist, quer dizer o espírito de sua época.
A filosofia alemã acha que cada época tem o seu espírito
que a preside. Hoje, a ecologia é uma preocupação
mundial, a explosão demográfica é outra. Cada época
tem seus problemas específicos. E o Brasil ficou divorciado dos
problemas do mundo, como se fosse uma ilha circulando fora do planeta
Terra. Agora o Brasil está se reintegrando. Quando eu cheguei à
Alemanha em 1953 o país estava devastado pela derrota, palavra
que os alemães nunca imprimiram. Eles só dizem colapso,
por que o orgulho alemão não permite a palavra derrota.
Então, naquela época era novidade para a Alemanha tudo que
eu na minha adolescência tinha vivido: o jazz, Frank Sinatra, os
filmes americanos do Oeste. Aqui no Brasil está acontecendo a mesma
coisa. Nós estamos ansiosos para o catch up, quer
dizer, recuperar o tempo perdido. Nós todos somos proustianos no
Brasil, sem querer estamos todos à la
recherche du temps perdu. Só que nós temos a nosso
favor a aceleração produzida pelos meios eletrônicos
da Aldeia Global do Marshall MacLuhan. Leo-Não
só não seria possível como você precisa ficar
atenta agora no jornal (Jornal de Hoje de Campinas (imagina
se tinha isso com o José Hamilton dirigindo a redação
ele que é um dos jornalistas mais liberais e corretos da imprensa
brasileira) para as patrulhas ideológicas que não estão
na cabeça do Cacá Diegues. Nós substituímos
a censura castradora de direita pela censura castradora de esquerda, que
são as patrulhas ideológicas. Como Gramsci ensinou a manipulação
dos meios de comunicação é importantíssima,
porque você deturpa a verdade com meias mentiras e meias verdades.
Hoje, nos jornais, temos a corrida ao telex. Quem chegar primeiro muda
a notícia de acordo com suas idéias. E quando as patrulhas
denigrem um Gilberto Freire ou outra pessoa, pela omissão ou pelo
ataque direto, eles deturpam para o público que não está
sabendo, a imagem real daquelas pessoas. Eu mesmo sou vítima disso.
Eu estou na lista negra, no Index da Santa Inquisição da
esquerda pavloviana. Leo-
De ser agente da CIA, de receber dólares dos Estados Unidos. Só
que os dólares ainda não chegaram. Leo-
O Marx e o Freud como bons judeus, e aqui eu abro um parênteses
para dizer que eu adoro os judeus, tenho verdadeira fascinação
pela inteligência dos judeus -eles supervalorizaram e mitificaram
aspectos da múltipla personalidade humana. Um ficou com a obsessão
econômica, Marx, e outro ficou com a obsessão sexual, Freud.
Hoje em dia surgiram na psicologia nomes como o de Jung, como Melanie
Klein, como Wilhelm Reich, que retificaram o pensamento de Freud, sem
abandonar a postura de Freud. Então quando há liberdade,
a sociologia evoluiu, onde não há liberdade, a política
estagnou. Enquanto o pensamento de Marx estagnou, está no cadáver
embalsamado de Lênin, o tumulo de Freud não está sacralizado.
Por que isso? Porque outros fecundaram o pensamento deles. Leo
- Isso deve ocorrer em qualquer ramo da atividade e do pensamento humano.
É uma condição biológica. Uma pessoa lança
a semente e outras vão fecundá-la e desenvolvê-la.
E como eu acredito na inteligência do homem, seja ele brasileiro
afegão ou russo, ele concluirá que sua sobrevivência
dependerá da defesa da liberdade de escolha, da pluralidade, da
complexidade, da multiplicidade de todos os seres humanos que não
podem ser encaixados dentro de formas como quindins que vão para
o forno. Somos todos diferentes.
Leo
Gilson Ribeiro – Olha, desde 1960. Comecei no Rio de Janeiro,
no Diário de Notícias,
um jornal que não existe mais e o Correio da Manhã.
Então o Mino Carta inventou que eu devia ser jornalista, tinha
gostado muito do meu livro Cronistas do Absurdo e aí
ele me colocou inicialmente no Jornal da Tarde e depois para a Veja
onde fiquei como um dos primeiros fundadores há oito anos. Leo
– Foi meu primeiro livro. Ele falava de Ionesco, talvez pela primeira
vez no Brasil, falava de Brecht, falava de Büchner, de Kafka, um
livro que surpreendentemente, apesar de ser um livro de ensaios chegou
à quarta edição. Leo
– Infelizmente minha vida é em cima de uma máquina
de escrever. Não, não tenho um micro, sacrifiquei as férias
para poder comprar uma máquina elétrica porque a minha coluna
vertebral não rimava com meu salário (risos). Então
uma vez fiz um artigo sobre a Revolução Russa, sobre um
brilhante intérprete norte-americano que teve acesso a muitos arquivos
secretos do tempo de Kruschev e era um livro de mil e tantas páginas
sobre o qual escrevi um artigo de três páginas para o Jornal
da Tarde sobre a verdadeira história bolchevista... Leo
– Quase cinqüenta laudas. Leo
– Variava, às vezes quando o livro exigia eu escrevia 22,27
laudas. Quando era uma matéria menor escrevia 120 linhas. Mas raramente
escrevia menos de 200 linhas para o Caderno de Sábado. As segundas
eu escrevia mais umas 80 linhas para aquela seção chamada
Biblioteca onde enfocava principalmente livros estrangeiros
que não chegaram ao Brasil. Leo
– Arranho o russo, que é uma das paixões da minha
vida. Leo
– Todos os anos tenho que mudar as lentes dos óculos, porque
além de serem livros grandes e eu faço o confronto com a
edição original, vejo se a tradução está
bem feita, depois procuro datas, dados sobre o autor, tenho que me manter
atualizado. Então eu leio, por exemplo, aquela revista alemã,
Der Spiegel, leio L’Express, leio Time,
leio News Week, leio do New York Time
o The Book Review e quando consigo leio o Lire.
Ou seja, fora o material que tenho que ler há toda uma constelação
de livros que é preciso ler, que preciso ler profissionalmente.
E, além disso, há os livros que tenho que lançar
pioneiramente no Brasil. Leo
– E a coisa mais importante free lance que fiz
nos últimos anos é da Goodyear na qual escrevia sobre escritores
brasileiros, de maneira acessível. Você sabe que de house
organ ela virou uma revista de muito prestígio no Brasil?
Começou a ser vendida em banca.E de vez em quando, quando o tempo
é possível, eu escrevo para algumas revistas da Alemanha
e dos Estados Unidos. Leo
– Eu escrevi para aquela The Kennyon Review sobre
literatura americana e difusão no Brasil, já escrevi sobre
Maria Carolina de Jesus numa revista alemã chamada Christ
und Welt (O Cristão e o Mundo) e também
já fiz um perfil para as revistas Lever da Inglaterra.
Traduzo muito teatro: já traduzi Abelardo e Heloisa,
o Peer Gynt, do Ibsen para o Antunes Filho, já
traduzi Caixa de Sombras e Filhos do Silencio
para o Odilon Wagner e a Valéria. E tudo isso não deixa
de ser pequenos free lances. Então você vê que nós
da classe média - isso são dados estatísticos do
DIESE, perdemos 80% do nosso poder aquisitivo. Então eu tenho que
me disciplinar muito, tenho que usar tudo que eu aprendi de disciplina
na Alemanha... Leo
– De 1953 a 1958. Leo
– Não, escrevi no Brasil. Na Alemanha você é
forçado, você tem sua alma mater, há
uma lei não escrita que é o seguinte: se você vai
se laurear por determinada universidade você tem que visitar outras.
E daí eu fui para Heidelberg e lecionei literatura brasileira na
Universidade de Hamburgo. Isso porque, na Alemanha há o que eles
chamam um Weck Student, quer dizer um aluno que paga seus próprios
estudos. Assim eu falava em Hamburgo sobre Cecília Meirelles, Jorge
de Lima, grandes poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade. Eles
traduziam para o alemão, traduziram, por exemplo: Morte no Avião
que foi publicado no mais importante Suplemente Literário da Alemanha
que é o do Jornal Frankfurter Algemeine Zeitung. Leo
– No Brasil fiz até o que se chamava o clássico. Com
18 anos fui embora e fiquei onze anos entre Estados Unidos, Alemanha e
Itália. Nos Estados Unidos fiz o (M.E.) e na Alemanha o PHD para
o qual você precisa escrever uma tese complicadíssima. Leo
– A saudade como permanência de raízes plotinianas
na poesia de Teixeira de Pascoaes que era uma coisa que me animava
muito por eu estar muito enfronhado em Plotino naquela época. Eu
via naquele movimento da presença da saudade na poesia de Teixeira
de Pascoaes uma profunda afinidade com aquela noção do passado,
do vivido anteriormente e consignado pela memória. Foi uma preparação
para depois ler Proust. Leo
– Adoro Proust. Já li nove vezes, quer dizer, são
38 mil páginas – À la Recherche du temps perdue. Leo
– Foi premiado unânimente pela APCA como o Melhor
Ensaio publicado no Brasil em 1988 e eu fiquei muito contente.
É Continente Submerso porque nós somos
um continente submerso. Quer dizer a Europa já está recendendo
a alfazema e procurando no baú sua memória perdida, debruçada
sobre sua própria esclerose. Lá não tem nada comparado
ao que o Brasil e a América Latina apresentam no plano literário.
Ela tem tecnologia, riquezas econômicas. Aliás, nem os Estados
Unidos está numa fase muito boa. O Canadá, você sabe
é um deserto literário. Então a América Latina
é a coisa mais avançada do mundo ocidental porque ela engloba
a reinvidicação política, ela exalta o que o Alejo
Carpentier e Lesama Lima-cubanos chamaram de “realismo mágico
maravilhoso da flora e da fauna, da história trágica da
América Latina”. Além disso, a América Latina
tem uma enorme riqueza de vocabulário apoiada não só
na tradição literária espanhola, sólida-já
que eles têm universidades duzentos anos mais antigas que as nossas
enriquecidas pela cor local dos vocábulos quíchuas ou astecas
ou de outros locais que eles aproveitam. Então você vê
a América Latina, com Borges, na Argentina, com Juan Rulfo, no
México, com Guimarães Rosa no Brasil e com Mário
Vargas Llosa no Peru, revolucionou todo o conceito de literatura porque
ao mesmo tempo em que está presa àquela matriz européia
de Flaubert para cá, ela tem uma outra vivência dos problemas
políticos sociais e ecológicos que se forma agora com todo
seu atraso econômico, sua miséria, sua fome, sua plutocracia.
É uma literatura de imaginação transcendente com
Guimarães Rosa, Cortazar e não precisa dizer com a nossa
querida Hilda Hilst também. De maneira que eu acho que é
uma literatura apesar do boom que houve e que não inclui o Brasil,
ainda insuficientemente conhecida. Leo
– Mesmo na Europa. Na Europa eu acho que foi um fenômeno de
coisas óticas, de preencher uma lacuna que a Europa não
preenche mais e também porque era uma literatura em grande parte
traduzível, pelo menos nos países latinos. Agora, nos países
que não são de língua latina-Alemanha, Inglaterra,
países nórdicos, este boom já houve de uma maneira
amortecida. Agora, os alemães têm o mal gosto de pensar que
literatura hispano americana são os horrores de romances de Isabel
Allende. Leo
– Evidente. O Brasil não divulga nada, não tem institutos
culturais brasileiros de divulgação da literatura, arte,
traduções, conferenciais. Para cocktails existe, mas para
cultura séria, não. Leo
– A literatura vai muito bem. Uma das poucas coisas, aliás,
que anda bem no Brasil. Dentro de um país falimentar, nós
temos uma literatura que nunca deixou de apresentar em cada geração,
dois, três, quatro e cinco importantes nomes. Leo
– Eu acho que apareceram no Brasil, jovens ou iniciantes como o
Vicente Cecin que é um paraense que escreve literatura surrealista
muito boa, muito bem escrita, não exatamente influenciado por ninguém,
ele é apenas levemente surrealista, mas um surrealismo que está
presente em Dona Flor e Seus Dois Maridos, em Macondo,
de Cem Anos de Solidão, é a atmosfera latino americana... Leo
– Exatamente, é um grande painel. E, além disso, eu
gosto muito do João Ubaldo Ribeiro, aquele livro O Povo
Brasileiro eu acho muito engraçado aquilo que ele escreve
que o brasileiro é um povo que macaqueia todo mundo, que aqui é
o país da bagunça mesmo, que não adianta você
botar métodos europeus que não adianta. Agora falando de
coisas de qualidade eu constato que a Hilda Hilst mantém uma qualidade
assombrosa no seu texto, como o Amavisse e também
constato que mantém uma grande uniformidade de qualidade, a Marly
de Oliveira nas suas poesias com exceção do seu último
livro que foi dos melhores que ela escreveu e também do próprio
João Cabral de Mello Neto que continua na mesma linha sem quebrar
a qualidade. Ou seja, não estamos mal. Naturalmente o que está
acontecendo é que a nossa profunda crise econômica, como
ela tem conseqüências psicológicas, ela influi sobre
o que o artista vai escrever. Leo
– Não aí não, porque as editoras estão
oferecendo quase que contratos americanos, eles gostam do rascunho que
você escreveu e te dão uma soma grande em dólares
para você escrever o livro. Isso é bom. Eu por exemplo já
tive quatro editoras querendo lançar meu livro. Isso é bom
porque há uma concorrência. Então esta situação
está realmente mudando. Agora, o calcanhar de Aquiles eterno é
a tradução que é péssima. Leo
– Possivelmente porque não pagam bem e também porque
são pessoas afoitas que dizem que sabem espanhol, inglês,
francês, alemão e não sabem. Então você
na realidade tem no Brasil, uma meia dúzia de ótimos tradutores
e no mínimo dois não são brasileiros. Aprenderam
português como Herbert Caro que traduziu Thomas Mann e que é
alemão e que traduziu Herman Broch e mora no Rio Grande do Sul.
Você tem a Tatiana Belink que é russa e traduz magnificamente
para o português. Depois você tem a Lya Luft que é
bilíngüe que fala otimamente alemão e português
e traduziu Gunther Grass maravilhosamente bem. Depois temos o Jaime Cristaldi
que traduziu o Ernesto Sábato muito bem e tem o Milton Pessoa que
traduz Hemingway e o Remy Borba Filho que traduz muito bem os livros do
Mário Vargas Llosa e a Martha Calderaro que demorou dezoito anos
traduzindo a Yourcenar e o José Paulo Paes que traduz os gregos,
o que é muito pouco. Fora os livros muito importantes que não
são siquer mencionados. Tenho mais de cem. Leo
– Sim porque eles não têm a audácia de saber
que vão perder dinheiro num livro que vai vender pouco, mas que
é importantíssimo. Há um sábio, um estudioso
norte-americano, Boswow que passou anos da vida dele, estudando hebraico,
aramaico, latim, persa, grego antigo, inglês, francês, provençal,
português espanhol e que escreveu um livro fundamental sobre história
e que foi o melhor livro de história daquele ano e inclusive ganhou
o Pullitzer e que era um livro chamado A Cristandade, a Homossexualidade
e a Tolerância Social onde ele mostrava que até
santos, bispos e papas haviam sido homossexuais e, portanto esta atitude
de absoluto preconceito da Igreja Católica era uma coisa da Renascença
para cá, mas que na Idade Média era de certo modo abafado,
tolerado. E no Brasil ficamos privados desse livro, Depois também
um livro importantíssimo daquele matemático russo Leonid
Plyushen, ele escreveu Carnaval da História, onde
relata o que foi o seu julgamento sumário, como dissidente e sua
prisão numa clínica psiquiátrica na qual lhe aplicavam
alucinógenos na jugular e na carótida. E ele sobreviveu
e está na França. Outro livro que foi pouquíssimo
divulgado no Brasil numa edição quase clandestina é
Contra Toda a Esperança daquele poeta cubano que
estava em cadeiras de rodas. Enfim, são livros que por motivos
ideológicos ou eclesiásticos não chegam ao Brasil. Leo
– Existe uma forte censura. Existe aquele livro importantíssimo
de três volumes do Kolakoski que é talvez a maior autoridade
mundial do marxismo e ele estuda as origens, o auge e a decadência
do marxismo. Porque os vários Pcs que o existem no Brasil impedem
que debatamos, por exemplo, o problema do Gorbatchev. Foi preciso uma
editora de bastante peito, chamada Best Seller para lançar no Brasil,
porque parece que havia uma certa dúvida: quanto tempo ele vai
durar no governo. E também porque Fidel Castro não aprova
o Gorbatchev e isso brecava um pouco. Porque o comunismo brasileiro de
modo geral é estalinista, nós estamos quase setenta anos
atrasados até no comunismo... Leo
– Em tudo. Veja no Japão você tem uma máquina
pequenina para controlar o televisor. Agora na parede você pode
tomar a parede inteira se você quiser com a tela. E mais uma coisa
ali na tela tem um bocal que tem um disco, igual ao do telefone e quando
acaba o programa, o filme, o musical seja o que for, sai um número
e você anota o telefone e liga para a emissora diz o número
de cópias que quer daquilo, diz o número da sua conta telefônica
e daí a vinte minutos a fita cai nas suas mãos. (gargalhadas) Leo
– É como eu digo, não estamos com reserva de informática,
estamos com reserva de burrice. O Brasil é uma burrice que vai
do Oiapoque ao Chuí (risos). Leo
– Somos. Existem capitanias de burrice com donatários
importantíssimos e que não largam, são piores que
a Nomenklatura. Somos os marajás da incultura que deixam o Brasil
se atrasar tecnologicamente cada vez mais. E isso não acabou quando
o Sarney saiu. O Sarney, o Jango, o Getúlio Vargas sem dúvida,
os piores desgovernos que tivemos. Porque o Sarney é um político
do interior do Maranhão e com uma cabeça correspondente,
ele quis dirigir uma Nação que está em grande parte
industrializada como se fosse um feudo nordestino. Agora isso só
agrava o problema do feudalismo econômico do próprio Nordeste
onde você está criando crianças sem cérebro
porque estão desnutridas, elas comem farinha com água. E
depois de cinco anos você pode dar quantidades imensas de comida
que não adianta nada. Isso faz parte de um memorando antigo feito
pela UNESCO sobre a infância desvalida, agora vamos ver o que vai
dar porque não é possível também um país
entregar aos grandes proprietários rurais de um lado e de outro
lado, os utopistas cubanos... vai dar uma rumba que ninguém vai
poder dançar (risos). Leo-Houve
um progresso dentro do esgotamento do poder aquisitivo da classe média
porque quando justamente a classe média estava ascendendo, ela
ficou achatada no seu salário. E lógico, toda família
a primeira coisa que corta é o livro, o meu livro eu lamento, está
acho excessivamente caro. Ele começou a R$ 3,50 eu acho triste
porque eu preferia abrir mão de alguns direitos meus e que ele
chegasse a mais gente. Já a editora não fez nenhuma divulgação
do livro, que eu achei singular. Eles publicam o livro e não divulgam... Leo
– Se não fossem meus amigos, jornalistas, críticos
que gostaram e escreveram... Você vê, nunca fui convidado
para ir a TV. É muito estranho porque afinal eles fazem o livro,
gastam um dinheirão, quer dizer seria benéfico para a própria
editora. Agora, hoje, há uma grande curiosidade para a leitura
e hoje as pessoas estão recorrendo a uma espécie de consórcio
individual para poder comprar livros, fazer compra na livraria e pagar
em prestações. Eu comprei a Correspondência
do Flaubert, da Gallimard, que me custou cinco meses de salário.
Agora respondendo a sua pergunta anterior, a presença do escritor
estimula muito a platéia a conhecer a obra, sem dúvida.
E há muitas professoras de nível ginasial, abnegadas que
conseguem incutir em meia dúzia de alunos o gosto pela literatura.
Claro que houve uma explosão, porque apesar de todas as falências
do Brasil, ele já é o terceiro ou quarto produtor de livros
das Américas, quer dizer Estados Unidos, México e Argentina.
Agora realmente o mercado de livros ampliou-se mil por cento. Você
vê muitas pessoas percorrendo sebos e não são apenas
bibliófilos. São pessoas que querem os livros, não
importa se é velho. E agora tem uma novidade: Os editores não
têm mandado livros para nós, os críticos. As editoras
têm uma cota para divulgação. E como vou saber da
existência do livro? Tenho que ir as livrarias e comprar. Leo
– Olha pode parecer que eu esteja falando em causa própria,
mas o Caderno de Sábado do Jornal da Tarde, dirigido
pelo Cleber de Almeida com muita competência já ganhou dois
prêmios da Câmara Brasileira de Livros e um prêmio da
APCA como melhor orgão de divulgação do Brasil. É
superior, dizem eles, ao Jornal Idéias do Jornal do Brasil. Então
existiu o Leia, mas o Leia era mais
informativo, o Nicolau, o 34 que é
uma revista de literatura e não podemos esquecer o Suplemento
Literário de Minas Gerais que continua sendo muito importante.
Eles não são suficientes porque nós não temos,
por exemplo, uma revista exclusivamente de livros como a França
tem o Lire. O Lire está ligado a um programa de
mais de uma hora que fala só de livros. Então ele convida
o autor, o crítico ou ele mesmo fala sobre o livro. A nossa televisão
divulga muito timidamente o livro. O Mauricio Kubrusly de vez em quando
faz isso e a Márcia Carpentier recebe alguns escritores, fala de
livros. Mas enfim vejo esta questão com uma certa esperança. Leo
– As editoras americanas, só das universidades, fizeram ano
passado, publicidade no valor de 2 bilhões de dólares e
nós não fizemos nada. Cada editora devia ter uma percentagem
de publicidade paga nos veículos. E agora houve aquele projeto
do Jece Valadão e do Jorge Cunha Lima o ticket cultural
que dará acesso a espetáculos. Eu já sugeri ao Jornal
da Tarde que assim como eles fornecem cupom que dá desconto de
30% aos espetáculos de teatro, que fizessem o mesmo com livros.
A Grande São Paulo tem 13 milhões de habitantes ou mais.
Se calcularmos que no ano 2000 serão 30 milhões, que é
a segunda cidade do mundo, depois da Cidade do México, como não
temos aquela padaria espiritual que não fecha, como em Nova York? Leo
– Dia e noite, até quatro, cinco da manhã. Muitas
vezes você não está com vontade de ver televisão,
porque os programas são ruins, você pega seu carro vai para
a rua, para as livrarias. O acesso ao livro do ponto de vista comercial
é muito restrito aqui no Brasil, é quase horário
bancário se a gente exagerar um pouco. Durante o dia, todo mundo
está trabalhando e de domingo? Ninguém pode comprar livro?
Restaurante, teatros, ficam abertos até tarde da noite, porque
não livrarias? Depois era preciso tornar mais ágil o tal
do reembolso postal. Você pede o livro e paga quando ele chegar
só que é um pouco moroso o trabalho, porque o livro não
chega ao destinatário com grande velocidade. Por exemplo, se é
um livro que vem do estrangeiro você tem que ir a uma repartição
e esperar horas na fila para recolher seu colie postaux.
Tudo precisaria ser agilizado. Leo
– Eles entregam na sua casa e no período de 24 horas. Isso
não ocorre aqui porque o Brasil ainda é lusitanamente burocrático,
ficou na era colonial a era da desconfiança em que os dízimos
de ouro não chegavam à Coroa. É o país dos
certificados, dos carimbos. O brasileiro parte da desconfiança.
Agora não podemos esquecer que a Editora Abril tem o Círculo
do Livro que já tem um milhão de sócios e eles atingem
muita gente porque o livro fica barateado com edições grandes
e chega a um número bastante amplo de pessoas perdidas em aldeias
no Tocantins, Goiás onde não há livrarias. Eu insisto
nisso há mais de vinte anos: deveria haver um plano estadual ou
municipal para que cada livraria tivesse uma verba para comprar seu imóvel,
porque muitas livrarias desaparecem porque o aluguel sobe tanto. Então
a empresa estadual ou municipal teria uma verba da Educação.
Há lugares no Brasil em que não há uma livraria. Leo – Ah, a biblioteca é um negócio muito sério. Você vê a Biblioteca Mário de Andrade, de São Paulo, capital, está numa situação calamitosa. O acervo há oito anos não é atualizado, as portas estão seguras com pilhas de jornais, os livros raros não tem ar condicionado, muitos deles estão apodrecendo. Seria preciso fazer um outro edifício grande e climatizado ao lado da biblioteca que é da década de 40 para a década de 90. O Centro Cultural São Paulo foi planejado para ser uma segunda Mário de Andrade e acabou sendo fragmentado em pequenos teatros, ou seja, teve sua intenção desvirtuada.
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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