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de Loyola Brandão
um escritor urbano
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de Campos: “a poesia que faço é a do artesão”
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Alceu
Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um otimista incurável
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Jose
Aloise Bahia - colecionando arte e promovendo cultura
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Leo
Gilson Ribeiro – acreditando na inteligência do homem
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Joaquim
Brasil Fontes: traduzindo o mundo grego e falando de metamorfoses
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No
caminho com Neuza Pinheiro
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Jiddu
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Entrevista
com Renata Pallottini
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Entrevista com Jorge Pinheiro*
Omar de L. Barros Filho*
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Joaquim
Brasil Fontes: traduzindo o mundo grego e falando de metamorfoses
Por
Ana Lúcia Vasconcelos
Livre docente da Faculdade de Educação da Unicamp, com formação
em Filosofia e Literatura Clássica Francesa, apaixonado pelos autores
gregos, latinos e franceses entre eles Lautréamont e Mallarmé,
o filosofo e ensaísta Joaquim Brasil Fontes tem oito livros publicados:
Fragmentos dos fragmentos da lírica de Safo. Florianópolis,
Noa Noa, 1990; Eros, tecelão de mitos. São Paulo: Estação
Liberdade, 1991; * (2a. edição: São Paulo: Iluminuras,
2003); Variações sobre a lírica de Safo: São
Paulo: Estação Liberdade, 1992; A Musa adolescente. São
Paulo: Iluminuras, 1998; As Obrigatórias metáforas. (Apontamentos
sobre literatura e ensino) São Paulo: Iluminuras, 1999; O Livro
dos simulacros. Florianópolis: Clavicórdio, 2000; Poética
do fragmento. Belém: Instituto de Artes do Pará, 2000; Safo
de Lesbos. Poemas e fragmentos. Trad. de Joaquim Brasil Fontes. São
Paulo: Iluminuras, 2003. E para serem publicados agora em março
de 2007: Os Anos de exílio do jovem Mallarmé. São
Paulo: Ateliê, 2007; Eurípides, Sêneca, Racine. Hipólito
e Fedra. Trad. introd. e notas de Joaquim Brasil Fontes. São Paulo:
Iluminuras, 2007.
A primeira entrevista que fiz com Joaquim Brasil Fontes aconteceu na seqüência
da publicação de seu livro Variações sobre
a Lírica de Safa-Texto Grego e Variações Livres,
lançada na II Bienal Internacional o Livro em 1992 em São
Paulo e editada pela Estação Liberdade com uma tiragem limitada:
50 livros em papel couchê e mais 1.500 em papel pólen com
belíssimas gravuras da artista plástica Fúlvia Gonçalves.
Diga-se que este foi o segundo livro de Joaquim Brasil Fontes sobre a
poeta grega Safo que segundo consta teria vivido na ilha de Lebos no século
VI a.C. O primeiro foi Eros, Tecelão de Mitos e a matéria
foi publicada em novembro do mesmo ano no Jornal de Domingo de Campinas,atualmente
extinto, quando eu era sua orientanda de mestrado na Unicamp.
E então ele falou dos seus trabalhos, como começou a estudar
a obra de Safo de Lesbos, sua forma de abordagem dos temas que tem muito
da linguagem do cineasta Fellini, seu amor pela Grécia, pelo idioma
grego, pela arte persa e outras preferências em matéria de
arte.
Agora quando o contatei para fazermos uma nova entrevista, desta vez falando
dos seus novos livros e trabalhos ocorridos neste período de mais
de vinte anos, ele decidiu responder novamente as minhas perguntas da
primeira de forma completamente nova ao mesmo tempo em que me contou dos
seus trabalhos posteriores aos dois primeiros livros citados: A Musa Adolescente
(Iluminuras, 1998, SP) seus estudos sobre Mallarmé, seus cursos,
viagens e sobre a pesquisa mais recente cujo tema é a metamorfose.
Dono de uma cultura e simpatias invejáveis, Joaquim Brasil Fontes
tem também um humor maravilhoso que, aliás, é sua
marca registrada. Apesar de se confessar um apaixonado por Campinas, Joaquim
Brasil Fontes é mineiro. “Eu gosto muito de Campinas, mas
minha paisagem são as montanhas. Acho que Minas deixou uma marca
muito grande.
Um escritor entre ruínas de textos, de dados...
P - Joaquim, o Benedito Nunes inicia o prefácio
do seu livro Eros-Tecelão de Mitos-A Poesia de Safo de Lesbos,
dizendo que ele é uma “singular e ousada abordagem; uma flânerie
benjaminiana por entre os versos e os vestígios da vida de Safo.
Ou uma forma episodia e fragmentada que disfarça a hermenêutica
que lhe é implícita”. Para começar do começo
vamos traduzir o que é isso-flânerie benjaminiana? Flânerie
é um passeio, um sobrevôo, benjamiana, naturalmente é
à maneira de Walter Benjamim. Explique isso, por favor.
Joaquim Brasil Fontes - Ana, é difícil
falar dos nossos próprios escritos, porque não é
nada fácil focalizá-los de fora, como crítico –
benévolo ou impiedoso. E é quase impossível reconstituir
a vivência do ato de escrever, conectado sempre a tantas variáveis,
como leituras passadas e presentes, gosto e desgosto, e – sobretudo
– o corpo e o inconsciente. Mas tenho a impressão de que,
durante a redação de Eros, tecelão de mitos, eu me
constituí, como escritor, entre ruínas – de textos,
de dados, de informações sempre parciais –; de ruínas
que era preciso “colocar em movimento” na linguagem para provocar
e ao mesmo tempo adiar os inevitáveis instantes em que tudo parecia
desmoronar no vazio. Creio que, nesse sentido, o professor Benedito usa
o termo flânerie como metáfora e descrição
de um processo de escrita que pode parecer ao leitor leve o/ou erudito,
mas deriva de uma da angústia provocada por uma intensa circulação
no espaço de uma cultura em que os signos se anunciam perpetuamente,
despontam e voltam a se apagar. É um processo que o leitor pode
acompanhar...
P - Tem que aceitar a flânerie?
Joaquim – Não a minha flânerie, pois
o leitor é sempre livre: circula nos textos à sua maneira,
reinventa percursos e até abre outros, ignorados pelo autor.
P
- E como foi que você se interessou pela poesia de Safo, desde quando,
como foi a paixão, etc. Conte tudo.
Joaquim - Isso vem de longe, mas por caminhos tortos:
quase criança e já adolescendo estudei as línguas
e as literaturas clássicas sob a supervisão de minha avó
paterna, uma erudita greco-romana. Mais tarde, “trabalhei”
a língua grega com uma professora particular, enquanto completava,
trabalhando ao mesmo num estabelecimento bancário, graduações
em Filosofia e Literatura Francesa. Na época, líamos os
pré-socráticos em grego... Optei, na vida profissional,
pela literatura e acabei me doutorando na França, com tese sobre
Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont (autor que reaparece no Eros...,
no jogo que ali se instala entre “antigos” e “modernos”).
Foi no início dos anos 1980 que voltei com seriedade à língua
grega, formulando um projeto de tradução do Livro XII da
Antologia Palatina, coletânea de poemas eróticos publicada
durante a Idade Média bizantina, de temática pederástica
(lembrando evidentemente que, no contexto da cultura grega, a palavra
“pederastia” tem uma conotação positiva, significando,
“o amor, a atração pelos rapazes”, e se inscreve
no quadro mais amplo de uma “paidéia”). O Livro XII
da Antologia Palatina é um conjunto de poemas curtos, de epigramas
de diversos poetas, que viveram entre o período arcaico, antes
de Cristo, e o chamado período helenístico, situado já
muitos séculos depois do nascimento de Cristo.
P - De grandes poetas, famosos?
Joaquim
- Famosos poetas, poetas menores, alguns anônimos, todos colecionados
por outro poeta, Straton de Sardes, uma personagem fascinante que aparece
episodicamente nas Memórias de Adriano, da Marguerite Yourcenar
e sobre o qual quase nada sabemos, além do nome e do local em que
nasceu ou viveu: Sardes, situada na Ásia Menor, a atual Turquia.
Esse projeto não foi realmente concluído, mas Straton de
Sardes reaparece, sob a forma de obsessão não resolvida,
em outro livro meu, uma “espécie de romance”, publicado
em 1998: A Musa Adolescente, título que é, exatamente, uma
das traduções possíveis para Mousa Paikíke,
o título grego do Livro XII da Antologia Palatina... Eu tinha me
deixado fascinar por essa erótica pederástica, quando topei
com uma edição bilíngüe, antiquada, dos poemas
de Safo, que, de certa forma, abriu minha sensibilidade para outras figurações
de Eros...
P - A erótica feminina...
Joaquim
- Exatamente. Mergulhei em Safo ao voltar de uma estadia de dois anos
na Europa. Em 1984 já eu estava inteiramente tomado, estudando,
recolhendo textos e fragmentos, coletando dados e críticas, totalmente
obcecado pelo tema. Em 1987 comecei a esboçar meu estudo sobre
a poeta, enquanto, ao mesmo tempo, traduzia, retraduzia, tentando recompor,
não apenas sentidos, mas sonoridades. E imagens.
P - Você tem uma bibliografia imensa...
Joaquim
- Não apenas sobre os “antigos”; sobre os “modernos”
também: anos de leitura, talvez. Mas o processo de escrita se fez
num lance: uns oito meses.
P - Mas aí veio como um jorro, depois de tanto
tempo recolhendo informações?
Joaquim
- Oito meses cortados por um intervalo de dois meses de silêncio,
dos quais mal me recordo. Pronto, o texto foi apresentado como tese de
Livre Docência.
P - E como você chegou a este tipo de abordagem,
enfim, como se definiu por este método que o Benedito Nunes fazendo
uma analogia com Memórias Póstumas de Brás Cubas,
de Machado de Assis chama de “sem gravata nem suspensórios”,
citando justamente um pequeno trecho da obra na epígrafe?
Joaquim - Essa epígrafe do professor Benedito
Nunes lembra o universo machadiano, que lembra um pouco o de Benjamin,
e faz parte do jogo de metáforas do prefácio: flânerie,
perdição, o método como percurso. Quanto a mim, li
Machado – que admiro muito – depois de Baudelaire e Racine,
pois tive uma formação literária muito francesa.
P - O que eu entendi desta fala foi que afinal você
usa um método que não é o método acadêmico?
Joaquim
- Você se lembra do étimo dessa palavra: “meta –
hodós”, em que “hodós” significa “caminho”.
Alguém já disse que método é o caminho –
depois de percorrido.
P - Se a gente estivesse falando de musica poderíamos
dizer que seu texto é atonal?
Joaquim - Não sei... Na abertura de Eros, se pensarmos em termos
musicais, teríamos talvez Debussy: imagens de Safo que procedem
de Baudelaire e mergulham nas correntezas da belle époque, do fim
do século XIX. Mas, falando francamente, não sei se metáforas
musicais são capazes de “dar conta” de uma texto escrito,
embora o capítulo que chamei de “Exercícios Espirituais”
seja todo fundado no...
P - Loyola...
Joaquim - Em Santo Ignácio de Loyola, com fundo
de música barroca. De certa forma, porém, pode-se dizer
que o livro, pouco antes do fecho, assume-se atonal: é um momento
de perdição, de angústia provocada pelo fragmento,
no qual o sujeito, o contexto e o sentido se perdem, vacilam. É
verdade que, logo em seguida vêm as “Variações
sobre a Lírica de Safo”, outra metáfora musical, que
vale o que vale: da ablação do sujeito à sua multiplicação.
P - Sem sair do prefácio eu leio o Benedito Nunes
te chamar de scholar...
Joaquim - O professor Nunes, sempre gentil, exagera...
A palavra scholar leva a pensar em Oxford, Unicamp, Nouvelle Sorbonne,
lugares por onde já passei, ocasionalmente, mas me sentindo como
se estivesse do “outro lado”. Sou apenas um diletante passeando
entre ruínas arqueológicas.
P - Sei que você sabe latim e grego além
de francês que você domina como sua segunda língua,
além de outros idiomas. Você diria que ainda se fazem scholars
como antigamente? Ou seja, hoje é comum em plena era da informática,
pessoas saberem grego e latim? E mais, como foi que isso te aconteceu
de aprender grego e latim?
Joaquim - Meu grego, meu latim vêm de minha avó,
que me lia os clássicos no original. O latim e o grego me fascinam
tanto quanto o francês. Paul Veyne conta que, andando certa vez
pelas colinas da Provença, encontrou um pedaço de ânfora
antiga: foi, para ele, como se tivesse topado com um fragmento de meteorito,
caído de um mundo estranho. Assim são os antigos, e os franceses
(Baudelaire, Racine, até mesmo Sartre), para mim: “estranhos
porque me fazem sair de mim mesmo”.
P - Como foi que te ocorreu estudar a obra de Safo de
Lesbos a partir da literatura moderna: começando pelas Lesbianas
de Baudelaire e passando pelo salto de Lêucate, descrita na Carta
XV de Ovídio, para terminar na personagem dramática que
mostra os sintomas clássicos da paixão. Você começou
pela tradução dos poemas e então passou para a interpretação
da vida e obra? Conte isso.
Joaquim - Comecei pela tradução, na qual
já comecei a captar uma imagem de Safo que logo se desdobrou, revelando-se
múltipla, dramática e ao mesmo tempo ficcional. O “salto
de Lêucade”, por exemplo, é uma imagem teatral: a amorosa
a pique sobre o mar, prestes a se jogar nele. Existe, evidentemente, a
imagem da “lésbica”, retrabalhada em profundidade pela
literatura erótica da segunda metade do século XIX. Ora
os antigos a diziam bela, kalé, ora pequena, baixinha, escura.
Feia, em suma. Há uma pletora de “imagens de Safo”;
convivi com elas, deixei que aparecesem e se retraíssem, e voltassem
de novo à tona. No fundo, todas estão presentes no livro
– onipresentes. São figuras culturais, é impossível
anular qualquer uma delas: a Safo perversa, a dos scholars, a dos diletantes,
a dos poetas, a dos tradutores da belle époque, a Safo grotesca
de Daumier; e, é claro, a Safo Kitsch saltando, por amor desenganado,
no vazio. E a Safo do Luiz Mott, que procede de Jamil Almansur Haddad.
P - E esta pesquisa foi feita onde? Você já
estava aqui no Brasil a esta altura, não é?
Joaquim - Ela foi feita basicamente aqui. A maior parte
dos livros eu comprei porque não havia nas bibliotecas; quanto
à internet, ainda pertencia ao futuro quando este livro foi escrito.
Houve empréstimos feitos a bibliotecas norte-americanas e européias,
e houve amigos devotados que copiavam livros e artigos para mim, “no
estrangeiro”. O texto de um autor antigo, fundamental para o meu
livro – Máximo de Tiro – só existia em edição
do século XVIII e chegou a mim, xerocado, por intermédio
de uma amiga que trabalhava na biblioteca do Congresso, em Wasghinton.
P - Ou seja, a duras penas. As pessoas de fora nem imaginam,
o trabalho...
Joaquim – Não, não imaginam o trabalho
que era fazer este tipo de pesquisa no Brasil, há vinte anos atrás.
Deve-se levar em conta, também, que muito da dificuldade do trabalho
provém do fato de eu ter trabalhado longe dos grandes universidades,
não como scholar, mas como simples diletante.
P - Voltando então a Safo: você diz a certa
altura que a paixão amorosa no contexto mítico é
uma doença, fatalidade provocadora de sintomas no corpo enfermo.
E cita Safo dizendo que o amor é doce amargo e que na lírica
arcaica era comum apresentar o amor em contexto de oposições,
quente, frio, bom, mau. E que Safo de Lesbos conseguiu reunir os contrários
e mantê-los suspensos no mesmo ato. “Eros, aquilo contra o
que nada podem as máquinas, a techné construtora de armas”,
como você diz. Você também acredita que o amor seja
uma doença, uma fatalidade, doce amargo, doador de sofrimentos?
Joaquim - Este conceito de amor como doença é
uma constante na literatura grega e latina, sobretudo no período
helenístico. Num famoso poema de Safo, o amoroso é alguém
que desfalece, desmorona literalmente diante da pessoa amada, perdendo,
voz e visão, todas as suas forças. Trabalhei muito esta
imagem, tentando mostrar que em Safo não existe uma interioridade
passional que se expresse por meio de sintomas, no corpo; nela, não
há interior e exterior, mas um todo – quando o amoroso se
desagrega, é o mundo que se desfaz. Ora, essa imagem vai se transformar
num topos, num lugar-comum da poesia greco-latina, que insiste, entretanto,
na dualidade, falando sempre de “sintomas”. O contexto se
torna, pois, nosológico: o amor é uma doença. Mas
eu tentei também enfocar o Eros moderno, e o fiz principalmente
por intermédio do Barthes de Fragmentos de um Discurso Amoroso,
e de poetas como Baudelaire, Rimbaud, Apollinaire, Eliot, Ungaretti, Lorca.
P - Você diria como Píndaro que você
cita: “Eros, monstro que rasteja e não cai na armadilha dos
homens”?
Joaquim - Se for feliz, não é amor.
P – Você diz que o universo de Safo ignora
os símbolos e cita a poeta: “uma luz espalha-se sobre as
águas e os prados. Será a claridade da lua? Ou será
o brilho da beleza da amiga?” Uma outra: “Agora! Vinde a mim,
Khárites delicadas e vós Musas de lindos cabelos... Khárites
sagradas de braços de rosas vinde, ó filhas de Zeus”.
Foi isso que te atraiu na obra de Safo, o fato de seus versos serem: “semelhantes
a bordados oferecidos pelas mulheres à Afrodite, peças de
mil cores brilhantes, dons preciosos vindos de longe, de um país
oriental...” poema sendo uma “fita cintilante”, como
você constata?
Joaquim - Essa observação é de um
estudioso francês, André Bonnard, que não é
exatamente um scholar, embora muito erudito. Não sei se esta Safo
é uma invenção dele, se é minha: uma poeta
que usa a palavra num horizonte no qual ainda não se deu a cisão
entre mundo e verbo; um universo no qual a palavra poética instaura
o mundo. A poesia é como a fita de mil cores que Afrodite entrega
a Hera no momento em que essa se dispõe a seduzir Zeus...
P - Onde está esta fita?
Joaquim - No seio de Afrodite, que está sempre
fechado para quem não acredita nela. A poesia é um pouco
esta fita.
P - Fale um pouco mais sobre este segundo livro Variações
sobre a Lírica de Safo, que, aliás, tem belíssimas
ilustrações de Fúlvia Gonçalves. Qual seria
a grande novidade dele?
Joaquim - Variações sobre a Lírica
de Safo é uma retomada dos fragmentos de Safo que aparecem em Eros,
com algumas experiências adicionais: inclusão de expressões
gregas transliteradas, algo como uma tentativa de fazer um “ready-made”
gráfico.
P - Você coloca o grego em caracteres latinos e
apesar de eu não entender grego- infelizmente, porque acho o idioma
deslumbrante, o som é maravilhoso.
Joaquim - Exatamente. Phainomai significa em grego “brilhar”.
Phainóles é um manto de cor brilhante, branco ou púrpura.
Phainindia, por sua vez, é um jogo em que alguém, fingindo
lançar a bola para uma pessoa, joga-a para outra. Não é
essa uma boa metáfora para a tradução, se você
admitir que você é a pessoa que recebe – ou não
– a bola que outra lhe atira? O que importa é o jogo, a astúcia
do ato de lançar-não-lançando, o gesto de receber
ou de aceitar as mãos vazias, a delicadeza...
P - Os poemas são de uma delicadeza...
Joaquim - Exatamente; essa delicadeza eu tentei trazer
para o português, perdendo evidentemente outras coisas. Seria possível,
por exemplo, eriçar o texto de palavras novas, e eu conhecemos
algumas traduções assim muito boas. O que eu quis trazer
para o português foi a cândida pureza deste universo onde
a palavra perversão não tem trânsito. A voz de Safo
é a voz de uma grande amorosa, para além das divisões,
o que inclui a divisão dos sexos. Ela canta sob o império
de Eros, que domina deuses, homens e animais – indistintamente.
A entrevista continua... em outro tempo
P - Joaquim é incrível que desde que minha
filha mora no Cambuí sempre que vou lá, te encontro no Café
des Arts, na Rua Sampaio Ferraz, e a coisa é mais interessante
porque a gente se encontra aparentemente ao acaso. Está certo que
ela mora do lado do Café e em frente ao teu prédio, mas
mesmo assim você não acha quase que chocante porque afinal
Campinas já é uma cidade grande? Seria aquela sincronicidade
de que Jung fala?E para completar-eu estava querendo te ligar para acertarmos
a continuação desta entrevista e te encontro sábado
–(dia 27 de janeiro de 2007) no Café onde entrei para comprar
pão veja você. O nosso destino é nos encontramos nos
cafés da vida? O que, aliás, diga-se eu adoro, viu. Sempre
que te encontro fico super feliz. Eu sempre fico besta, como diria Hilda
Hilst e penso: nossa como este cara é culto... Aliás, é
interessante dizer que justamente neste Café que agora está
mais incrementado-eu parava sempre que ia para a tua casa para nossos
encontros sobre a tese.
Joaquim - É no Café des Arts que costumo
receber meus orientandos, amigos, pessoas interessadas em discutir um
projeto novo comigo, a turma do jornal...
P – Bem, queria continuar aquela nossa entrevista
publicada no jornal de Domingo em novembro de 1992 e te perguntaria então:
o teu livro A Musa Adolescente (Iluminuras, 1998, SP) foi o primeiro livro
publicado na seqüência? Enfim, sei que o Benedito Nunes o considera
um romance, mas você não diria isso. Em que gênero
você o coloca?
Joaquim - Você deve ter notado que já interferi
loucamente naquela entrevista de 1992, e assim ela ganhou um toque de
acronia... ou de transcronia? Ficou muito bagunçado? Agora, sobre
A Musa Adolescente: o professor Nunes, que escreveu o prefácio
ao livro, o chama de romance, o que me deixa bem vaidoso, pois desde menino
eu quis escrever um romance. Mas esse livro tem muito de teatro também,
e alguns leitores chamaram minha atenção para isso. Outros
perceberam um movimento cinematográfico nos deslocamentos do narrador
e houve aqueles que me perguntaram: mas o teu Straton de Sardes não
é “inspirado” numa tela de Arcimboldo? Eu detesto,
aliás, esse conceito de “inspiração”.
Há poesia no livro; não minha é, claro, que não
sou poeta: o ponto de partida da Musa... está na tradução
daqueles epigramas gregos de que lhe falei na velha entrevista de 1992:
a erótica pederástica da Antologia Palatina. Straton de
Sardes, o poeta que organizou aquela recolha de versos como que se destacou
inesperadamente do seu contexto, e um dia eu o vi, numa tarde de maio,
escrevendo diante de um espelho: ele envergava, na ocasião, uma
máscara de teatro, extraordinariamente móvel e brilhante:
o nariz e as orelhas eram fragmentos de aço ligados às maçãs
do rosto feitas de pederneira – pedra que provoca faíscas
quando ferida por certos metais; e quando Straton levantava o rosto pensativo
do papel, tinha-se a impressão de que uma rápida centelha
estava prestes a atear fogo ao maço de torcidas que figurava os
bigodes da máscara; e que eles, inflamados, acenderiam o queixo
lamparina e as velas de cera enroladas no alto, à maneira de fronte
enrugada e convexa. Calor, calor e brilho... O livro todo se fez assim,
com imagens que, se você me permitir, eu chamarei de fulgurantes,
no sentido latino da palavra: elas me atingiam como relâmpagos.
Muitas delas talvez tenham brotado do inconsciente. Williald, que joue
le rôle, desculpe... que faz o papel de amante da mãe do
narrador na primeira parte do livro, deriva do compositor setecentista
Glück, mas tal como foi descrito pelo poeta romântico Hoffman
num dos seus livros sobre música. Não que eu tenha pretendido
fazer no livro joguinhos intertextuais, de pura forma: muitas dessas figuras
me surgiram mesmo assim, de memórias textuais e pictóricas,
de um passado de leituras e contemplação de imagens, e foram
se misturando a memórias “verdadeiras” do meu passado.
Pois minha intenção inicial era recuperar o meu passado
“real” e compreendê-lo por intermédio da linguagem,
tá? Ora, essa intenção foi inteiramente atropelada
por aquelas imagens que caíam do alto, às vezes como estrelas,
às vezes como sementinhas venenosas que estragavam as águas
límpidas onde batiam, ricocheteando: águas da memória...
Sem que eu me desse conta, me vi crescendo em Esmirna, Turquia, na belle
époque, à sombra de uma avó que não me lia
os clássicos, mas tentava transcrever os sermões que seu
genro pronunciava numa igreja evangélica daquela estranha cidade
asiática que se encontrava, sem saber, na iminência de uma
catástrofe. A avó transcrevia os sermões e os fechava
numa caixinha de cristal verde, que retinia ritmando o tempo que passávamos
(que as personagens passavam) em nosso (deles) jardim. Um jardim que é
uma síntese de vários outros: o jardim de A Porta Estreita,
de Gide, o jardim de um romance de Durrell, todos os jardins, menos o
do Éden. Ah, e menos o jardim da casa da minha infância,
em Minas. O segundo capítulo do livro deveria, em princípio,
conter os textos guardados pela avó do narrador naquela caixinha,
mas o que o leitor encontra são recordações, totalmente
retrabalhadas na pauta da loucura, dos meus tempos de estudante universitário
na PUC de Campinas, além de fragmentos da vida de Straton de Sardes,
lembranças de Florianópolis, recortes de jornais, falsas
novelas fantásticas... e o que mais?
P - Queria falar sobre ele: você me deu o livro,
eu li, mas achei como posso dizer muito cifrado, muito parece para um
grupo iniciado, porque afinal segundo me disse, ele pretendia ser um diário
seu, uma narrativa da sua infância, e vida, mas ele parece tão
hermético. Quer dizer ali o leitor vê toda uma narrativa
delirante, o diário não tem datas, ou melhor, a data são
moedas para Caronte. Afinal qual a chave que abre este livro?
Joaquim - Não há cifras em A Musa Adolescente,
só imagens. Na primeira parte, há um momento em que uma
personagem explica à avó do narrador, que está tentando
desesperadamente transcrever (isto é, fixá-los na escrita)
os sermões pronunciados pelo genro na igreja de Esmirna: “Não
corrija as imagens dos sermões de Gérard; deixa-as em liberdade!”
Engraçado: estou reabrindo esse livro pela primeira vez, desde
o dia do seu lançamento: tenho agora a impressão de que
cada uma de suas partes... Não, não vou tentar explicar
este livro: ou você assume que é um livro de imagens, ou
ele não acontece. E, sobretudo, não pense pelo amor de Deus,
que é uma “roman à clé”: as personagens
dos assim chamados romances com chave são como os nomes-capa da
alquimia: na maioria dos casos é impossível destrinçar
seu verdadeiro significado. Quando a operação que se descreve
é reconhecível, as substâncias usadas podem ser deduzidas;
mas como raramente eram utilizadas puras, a identificação
torna-se espinhosa. Além disso, há uma dificuldade suplementar:
muitos nomes eram usados pelos alquimistas para se referirem a um mesmo
sólido ou líquido: o mercúrio é o “orvalho
celeste”, mas é também o “azoto”, que
é o au-zaüq, nome árabe do mercúrio. Não
é?
P - E depois dele, sei que trabalhou sobre Mallarmé,
deu cursos, escreveu artigos orientou, está orientando teses sobre
o autor e escreveu um livro que vai ser publicado logo mais pela Ateliê,
editora de São Paulo.Gostaria que falasse desse período,
desta pesquisa..
Joaquim - Mallarmé foi um presente que ganhei
de uma de minhas orientandas, Eveline Borges, uma cenógrafa. Ela
defendeu na Unicamp um doutorado muito interessante sobre A Tarde de um
Fauno, que culminou com o grande Antônio Nóbrega representando
o papel-título. O Nóbrega criou um fauno diferente do de
Nijinsky, violento, nordestino, maravilhoso. Ariano Suassuna fez parte
da banca. Por causa dessa pesquisa, voltei a Mallarmé, que eu já
havia estudado longamente, é claro. Mas desta vez procurei a correspondência
do poeta, que li com paixão, descobrindo a figura de um jovem poeta
franzino, neurótico e tristíssimo que mergulha, com a mulher,
na província francesa, trabalha como professor de liceu em Tournon,
Besançon e Avignon, antes de ganhar Paris. Aquilo foi uma espécie
de descida aos infernos, não em estilo épico – homérico
ou virgiliano –, mas melancólico e cinzento: ao contrário
de Enéias, que desce ao mundo dos mortos protegido por um talismã,
o ramo de ouro, Mallarmé faz a sua catábase, a sua descida,
com as mãos vazias. E, ao contrário de Orfeu, ele desce
sem saber o que está procurando. Mas volta do mundo subterrâneo,
do Inferno, talvez também sem saber disso, com um ramo de ouro:
a sua poética. Reli todo Mallarmé, traduzi muitos de seus
poemas. Promovi alguns ciclos de conferências sobre ele em Belém
do Pará (Instituto de Artes do Pará) e na Universidade Federal
de Florianópolis. Passei três, quatro anos mergulhado numa
“poética do vazio”, do não-sentido – o
contrário, por assim dizer, de Safo de Lesbos. O resultado final
é uma livrinho que deve sair em março pela Ateliê,
Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé, com prefácio
de Pedro Meira Monteiro, da Universidade de Princeton. Ah... Outro resultado
do meu encontro com Mallarmé foram as maravilhosas imagens que
a artista plástica Fúlvia Gonçalves produziu a partir
das minhas traduções do poeta. Parece que serão expostas,
em breve, na Galeria de Artes do IA da Unicamp.
P - Você me disse que tem um aluno que está
trabalhando na tradução do único livro de Mallarmé
que ainda não foi traduzido para o português: Divagations?
Poderia falar sobre isso?
Joaquim - Divagations é um livro complexo, que
contém textos de gêneros diferentes e inclui passagens “rabiscadas
no teatro”, poemas em prosa, reflexões sobre a escrita, reflexões
sobre contemporâneos, prefácios... Esses textos abarcam praticamente
toda a carreira de Mallarmé, da juventude à maturidade –
o estilo varia, transforma-se e se metamorfoseia de forma fantástica.
Às vezes, o tradutor roda dois, três dias em torno de uma
frase que se recusa à significação. É um texto
hermético, difícil – esse, sim, enigmático
pra valer. Acho que nossa bibliografia sobre Mallarmé será
enriquecida por essa tradução, que está sendo feita
por um jovem especialista em língua francesa, Fernando Scheibe,
de Florianópolis.
P - Nos últimos anos, segundo me contou está
trabalhando sobre o tema da metamorfose a partir de dois pontos: Ovídio,
poeta latino que viveu entre o 1º. século a.C. ao 1º.
a.C. e que escreveu quinze livros (quinze capítulos na verdade
que são chamados livros) sobre as transformações
que o universo teria passado desde o inicio até aquele momento
e o escritor francês Lautréamont, passando por outros autores
que trataram do assunto como Sartre, Kafka, entre outros. Gostaria que
falasse sobre isso e por que optou por este tema.
Joaquim -. Antes de falar sobre Ovídio, quero
lembrar que estarei publicando, também em março, minhas
traduções de três versões do mito de Fedra:
a de Eurípides, a de Sêneca, a de Jean Racine. Na verdade
são três versões de um mito que gira em torno da paixão
de Fedra por seu enteado Hipólito. Hipólito é o nome
da tragédia de Eurípides, representada pela primeira vez
no século V antes de Cristo, e que conta essa louca paixão.
Fedra é o título da tragédia de Sêneca, com
o mesmo tema, escrita sob o reinado de Nero. E Fedra é também
o título da tragédia francesa de Jean Racine, escrita no
século XVII, com o mesmo tema. Os três textos dialogam uns
com os outros, na medida em que Sêneca se inspira em Eurípides
e Racine parte, na sua versão, de Eurípides e Sêneca.
O livro que vou publicar proximamente pela Iluminuras contém as
três tragédias (Hipólito, de Eurípides; Fedra,
de Sêneca, Fedra, de Racine). É uma edição
com os textos originais (grego, latim, francês) e minha tradução.
Contém também, na abertura, um ensaio meu, relativamente
longo (100 páginas), em que discuto o tema, suas variações,
etc. - um livrão de umas 500 páginas, resultado de uma pesquisa
que iniciei há anos e foi financiada pelo CNPq.
Para simplificar, eu e meu editor decidimos colocar na capa, em primeiro
lugar, o nome dos autores das tragédias (Eurípides, Sêneca,
Racine) e em seguida um título (HIPÓLITO E FEDRA) que englobasse
as três tragédias. Em baixo, a indicação de
que a Introdução, a tradução e as notas são
de Joaquim Brasil Fontes.
Quanto
a Ovídio, me lembro, de repente, de que ele está presente
na abertura de A Musa Adolescente... Ele está comigo, portanto,
há muito tempo, sem que eu me desse conta disso. Agora, retomando
a ponta deixada por meus antigos estudos sobre Lautréamont, um
mestre das metamorfoses, estou tentando articular meus delírios
antigos com os de Ovídio, um poeta latino, deslumbrante, irônico,
às vezes cruel nas suas descrições da violência
amorosa, pelo menos
P - E finalmente você falou ainda que está
mudando completamente, como assim? Está passando por uma metamorfose
e modificando até a sua história?Você estaria porventura
delirando? Aliás, disse uma frase outro dia que adorei: “o
delírio é que nos salva da realidade, é que nos permite
sobreviver ao sistema que ai está”. Também acho isso,
precisamos de uma boa dose de loucura para irmos vem frente. Mas aquela
loucura saudável, se é que isso existe?
Joaquim - O delírio ajuda bastante. Ah, antes
que me esqueça: vou te mandar um exemplar de O Livro dos Simulacros,
que está esgotado.
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