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Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um otimista incurável
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Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde um otimista incurável
Ana Lúcia Vasconcelos
Alceu Amoroso
Lima, o Tristão de Athayde, pseudônimo que adotou a certa
altura de sua carreira de critico para justamente resguardar sua independência,
um dos mais brilhantes humanistas que o Brasil já produziu, nasceu
no Rio de Janeiro, nas Laranjeiras no dia 11 de dezembro de 1898. Morreu
segundo disse aos amigos “de tristeza”, no dia 14 de agosto
de 1983, aos 90, dois anos depois da morte de sua mulher Maria Tereza
Faria com quem vivera 63 anos. Autor de mais de oitenta livros em diversas
áreas do conhecimento humano: pedagogia, história, filosofia,
economia e sociologia pode ser lida em detalhes neste link da Academia
Brasileira de Letras uma das inúmeras entidades a que pertenceu
durante sua vida
Esta entrevista realizada pouco depois de sua participação
no programa Vox Populi (produzido pela RTC durante anos, uma espécie
de embrião do atual Roda Viva) em 1981, foi com certeza uma das
últimas que Alceu Amoroso Lima concedeu em sua vida. Acontece que
Tristão de Athayde estava na minha lista de entrevistados para
um livro de perfis de escritores, pensadores, poetas, dramaturgos que
projeto publicar a algum tempo (na verdade republicar entrevistas e perfis
meus publicados nos vários veículos em que trabalhei, em
São Paulo e Campinas).
A chance surgiu quando soube que ele estava na casa de sua filha em Campinas,
descansando, se recuperando da morte da mulher. Consegui, depois de vários
dias de conversações com a filha, a promessa de duas entrevistas.
Em geral faço de duas a tres entrevistas para fazer um perfil,
com intervalos entre elas. Assim, me encontrei com Alceu Amoroso Lima
pela primeira vez no dia 10 de novembro de 1981 e a nossa conversa (não
gravada) durou cerca de hora e meia.
Ele me recebeu na casa de sua filha Silvia Afonso Ferreira, próxima
à Hípica de Campinas, no jardim interno. Ficamos sentados
num sofá de vime de dois lugares defronte a um imenso gramado,
uns chorões ao fundo. A segunda entrevista aconteceu no dia 12
de dezembro do mesmo ano na mesma casa e desta vez gravei a conversa que
durou mais de duas horas.
Não consegui articular mais que um terço das perguntas que
havia preparado: ele estava com quase 88 anos e queixava-se de estar cansado.
Triste ele me disse: “a minha infelicidade agora é ter perdido
minha mulher”. Mas apesar de tudo confessou-se um otimista incurável
e citou a frase de uma mística inglesa com quem ele concordava
plenamente: “não me permito deixar de ser otimista. As coisas
estão bem sempre, apesar de tudo”.
Acho que de certa forma pressenti sua morte próxima. Interessante
notar que a entrevista trata basicamente de sua conversão ao catolicismo.
Diga-se que não houve qualquer premeditação de minha
parte-apenas foram as primeiras perguntas que formulei, sobre sua vida.
E incrível coincidência: sua conversão ocorreu no
dia 15 de agosto de 1928 e sua morte exatamente no dia 14 de agosto de
1983. Não sei por que estranhas razões esta entrevista foi
sucessivamente recusada por diversos editores de vários jornais
e revistas de São Paulo. Agora, 21 anos depois de sua morte, ela
finalmente está sendo publicada. Foi uma das mais belas experiências
que tive na vida: conversar com este homem maravilhoso, culto, inteligente,
que sempre teve um vida privilegiada em termos econômico-financeiros,
mas de uma humildade, e de uma simplicidade realmente marcantes.
Suicídio
em Veneza?
era a Belle Épòque
Comecei
perguntando sobre o seu quase suicídio em Veneza, fato absolutamente
estranho-voce leitor que conheceu, por leitura, esta figura maravilhosa,
imaginaria o Tristão de Athayde pensando em se matar?- a que ele
se referira no programa Vox Populi já citado. (Infelizmente não
consegui saber a data exata porque não obtive resposta da TV Cultura
sobre isso). Abundante, fértil, se expressando com uma fluidez
maravilhosa, Alceu me contou nada menos que sua vida até aquela
data, quando uma noite em Veneza teve uma visão da cidade em toda
sua duplicidade: metade sombra, metade luz. Aquelas águas paradas,
cheias de história-dizem, ele me conta, que ali eram jogados os
inimigos do Doge - e ele estava no hotel que fica defronte ao palácio.
E de repente a história, a vida tudo pesou nos ombros de Alceu
ainda muito jovem, cheio de energia, de cultura, de amor da família,
da mãe, das irmãs, do pai (comerciante muitíssimo
bem sucedido no Rio de Janeiro) e afinal, ele que tinha tudo, se perguntava
sobre o sentido da vida.
E pensou: por que não se atirar na água e morrer? Mas hoje,
recordando aquele pensamento louco, sorri e justifica: afinal era a Belle
Épòque, havia uma quase moda de suicídio por amor
e ele lia muitos romances também. Daí que esta idéia
tinha muito de romanesco, de aventura e ele a abandonou rapidamente. Mas
deste questionamento profundo surgiu pelo menos uma mudança na
sua vida que ele considera fundamental.
Àquela altura estava a ponto de ir para a Alemanha onde estudaria
na Universidade de Heildelberg. Era recém formado bacharel em Direito,
depois de ter feito o secundário num dos colégios mais rigorosos
da época: o Ginásio Nacional, atual Colégio Dom Pedro
II. E foi exatamente sua formação demasiado positivista,
resultado de duas escolas onde se cultuava acima de tudo a ciência,
não a arte, ou as letras, que ocasionou esta dúvida: para
que viver?Afinal qual o sentido disso tudo, da vida? E optou não
mais por Heildelberg, mas por cursos de Letras na Sorbonne. E rumou para
Paris, onde sem saber, veria o rebentar da Primeira Guerra Mundial.
Viu
nascer um século
e morrer uma civilização
É
preciso explicar que era 1914 e Alceu estava, como fazia todos os anos
juntamente com a mãe e as irmãs passando uma temporada na
Europa. “Naquele tempo ir para a Europa era um bom negócio.
O cruzeiro valia mais que o dólar. Eu digo sempre que vi nascer
um século e morrer uma civilização”, diz referindo-se
a um fato engraçado que ficou para sempre marcado na sua memória.
Na virada do século - XIX para o XX, seu pai disse, mostrando um
crucifixo: olha, está nascendo um século. E Alceu virou-se
ingenuamente para procurar este tal século que seu pai dizia estar
nascendo. Afinal a frase soou algo estranha para um menino de cinco anos.
Já o fim de uma época, uma Belle Épòque, que
ele viu morrer não foi tão tranqüila e inocente. Até
hoje ele guarda frases e pessoas que viu naquela Paris em pânico
que fugia da guerra para o interior do país. Mulheres e homens
estarrecidos com o que viam. Recordando aquele trágico ano, portanto,
de 1914, Alceu Amoroso Lima vê uma semelhança com os dias
em que vivemos quando estamos também na iminência de uma
Terceira Guerra (olha só o que a gente falava em 81 e ele nem viveu
o que estamos vivendo, de fato coisas bem mais terríveis, que fazem
aqueles, ficarem até bons tempos) e há segundo ele uma quase
euforia no ar, uma irresponsabilidade, as pessoas se referem com absoluta
naturalidade às armas mais terrificantes.
Recorda a frase de um jornalista da época que poderia ser dita
hoje com total propriedade: “Esta guerra há de ser necessariamente
muito rápida, tal é o poder das armas que serão usadas”.
Nos dias, meses que precederam a guerra, ele conta, que havia uma grande
euforia e ele especialmente vivia a felicidade de ter vinte anos e estar
apaixonado (namorava uma jovem argentina que como ele, passava as férias
em Paris) .E as manchetes mais assustadoras dos jornais parisienses não
afetavam os jovens que todas as noites se reuniam para conversar e dançar
tango.
“Mesmo depois da mobilização”, ele conta, “nós
continuávamos a nos divertir. Era como se nada estivesse acontecendo.
Até me lembro de uma noite em que a concièrge reclamou das
nossas reuniões. Provavelmente tinha algum parente no front e a
nossa alegria incomodava”.Mas esta alegria não duraria muito.
Os acontecimentos se precipitaram e a família Amoroso Lima teve
que se mudar rapidamente do hotel onde estava hospedada: o Majestic, que
seria depois, na Segunda Guerra Mundial , a sede da Gestapo em Paris.
Alceu seguiu de trem, um dia depois da mãe e das irmãs,
em direção a Bordeaux. Com ele, na cabine, iam duas jovens
e um senhor, o pai delas. Ao cruzarem um trem de feridos as moças
começaram a chorar. Alceu deitado no chão do trem que ia
lotado, nunca esqueceu a frase que o senhor articulou pálido: “ce
sera comme 1870”. Era o fim de uma civilização e o
jovem Alceu Amoroso Lima sentia seu impacto na carne. Quem sabe a vontade
do suicídio não teria sido uma premonição
do que viria?
A
conversão lenta
P.
- Para começar, gostaria que o senhor contasse como se deu a sua
conversão ao catolicismo?
Alceu Amoroso Lima-São Paulo diz que há dois tipos de conversão,
para simplificar: a conversão lenta e a conversão violenta.
Há uma conversão como a de São Paulo: violenta que
passa de uma pessoa que é conscientemente perseguidora do Cristo,
negadora de todas as verdades judeu-cristãs e que os gregos chamam
de metanoia. E há uma conversão lenta, a transformação
de um estilo de vida, de uma concepção, para outro estilo
de vida, outra forma de concepção. A minha conversão
foi evidentemente lenta. Eu nunca tive uma educação relogiosa
muito profunda, a minha família era religiosa, mas de uma religiosidade
bastante superficial. Posso dizer que até vinte anos o problema
religioso não me interessou. Por isso costumo dividir minha vida
em tres etapas: a etapa literária, a etapa de idéias e a
etapa de fatos, acontecimentos. A etapa literária vai até
os vinte e poucos anos: só a literatura e a estética me
interessavam. Aí a Guerra de 14 foi um problema mundial que afetou
profundamente a mim e a minha geração de um modo muito radical,
porque a gente vivia mesmo a Belle Épòque no sentido de
gozar a vida, gozar a vida esteticamente, ideologicamente, filosoficamente,
no sentido de preocupação de idéias, não no
sentido de ir fundo dos problemas. A guerra provocou realmente uma ruptura.
Eu estava em Paris e diante daqueles fatos trágicos, de vida ou
de morte, da morte de uma civilização de um país,
de uma geração, da minha geração que eu julgava
isenta de ter que fazer opções tão dramáticas.
Voltei pra o Brasil, fui me ajustando até encontrar uma pessoa
que foi o Jackson de Figueiredo, que promoveu a minha conversão.
Neste sentido a verdade contida na essência do cristianismo de que
a Verdade é uma pessoa: Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida, diz
o Cristo, ou seja, este sentido personalista de que há na Terra
alguém que representa o Caminho e a Verdade na sua integridade,
para mim começou a se apresentar.
Precisamos
nos abrir
para a hora da graça
P.
- E como o senhor conheceu o Jackson de Figueiredo, enfim, eram
amigos? Conte tudo.
Alceu-Ele chegou no Rio em 1918 precisamente com este fato: a guerra.
O mundo tinha passado por quatro anos em que havia ocorrido uma transformação
e a cada dia se revelavam para nós brasileiros duas coisas: de
um lado a necessidade de encarar a morte como sendo um elemento capital
da vida. E de outro a urgência de olhar o nosso tempo, o nosso país.
O problema universal de atender ou não o apelo de Deus, de saber
de Deus e da verdade, e por outro lado a Pátria. E Jackson de Figueiredo
de certo modo representava tudo, por que ele foi nacionalista integrado,
violento e ao mesmo tempo convertido igualmente violento. Ele era de tal
modo anarquista, rebelde que, quando menino, os seminaristas não
podiam passar em frente da sua casa em Aracajú que ele atirava
pedras, fazia o diabo. Ele era terrível. Então, sendo essa
pessoa que representava para mim realmente como que a encarnação
da transmissão da graça de Deus, porque só se converte
pela graça de Deus-não é uma formação
individual. Este é realmente o grande mistério: a graça
é gratuita, ela vem ou não vem e a gente não pode
se queixar. Agora é preciso fazer um estudo para nos abrirmos para
a hora da graça, que ninguém sabe quando é. Não
sabemos a hora da morte, a hora de Deus, nem a hora da graça. A
hora de Deus é aquela em que os fenômenos da nossa ação
se equivalem com a Providencia Divina. A hora da graça é
aquela em que o nosso eu, nossa disponibilidade se coloca abertamente
para o olhar de Deus, para o apelo de Deus...
P. - Foi então que o senhor se encontrou com o
Jackson...
Alceu-Pois é, aí me encontrei diante deste rapaz, deste
Jackson, recém chegado ao Rio e parece que tinha um pouco a influencia
de um filósofo espiritualista: Farias de Brito, quer era seu concunhado.
Imediatamente nós divergimos: ele era um autoritário e eu
um liberal. Ele começou a me atacar através de artigos,
ele antimodernista, eu modernista. Ele pela autoridade, eu pela liberdade,
eu defendendo e ele atacando o João Ribeiro que era um grande humanista
sergipano. Depois de vários ataques pelos jornais, um dia ele me
escreveu uma carta que eu respondi. Na segunda carta nós verificamos
o seguinte: vamos deixar a política de lado e passar a discutir
coisas mais sérias, vamos ao cerne dos problemas. Então,
durante cinco anos, de 24 a 28 trocamos cartas-as deles estão publicadas
com atenuações, porque ele era muito violento. E ele tem
um livro sobre este problema religioso que, mesmo as pessoas não
religiosas deveriam ler porque é um livro patético. Ele
expõe a sua visão, dos fins últimos do homem e que
é uma visão de uma pessoa que passa do anarquismo para o
cristianismo. Então tivemos este longo debate: eu dizendo que achava
que a verdade estava justamente no máximo, na procura da verdade.
E ele, defendendo a existência de uma verdade e a nossa incapacidade
de penetrar nesta verdade e então esgotando os limites da razão,
para nos entregarmos voluntariamente à revelação
da fé.
P. - E qual foi a campainha de disparo para esta mudança
de visão de mundo?
Alceu-Em primeiro lugar havia este fato: eu ter visto como se operou a
mudança numa pessoa da minha geração. E ao mesmo
tempo, eu vinha sentindo um esgotamento da razão. Sentia que a
razão não esgotava a lógica, a matemática,
muito menos a quantidade, muito menos a pura evolução dos
acontecimentos. Então eu senti que havia dentro de mim uma descrença
na razão. Tanto que passei um período que me interessei
enormemente pela loucura, considerei a loucura um caminho para se chegar
ao conhecimento da verdade. E reuni uma biblioteca inteira sobre a loucura
e sobre os povos primitivos, os índios. Escrevi até um livro
sobre isso: uma tese A Economia Pré-Politica. Então esta
decepção com a razão me preparou de certa forma para
esgotar os caminhos lógicos para articular a verdade, para aceitar
a existência do mistério. Através da sombra da razão
chegar à luz da fé. Através da complicação
da inteligência, chegar à simplicidade da humildade, à
sabedoria do povo que intui a verdade. Então foi o encontro do
homem que tinha passado pela experiência da metanoia, a transmutação
violenta. Eu, de temperamento completamente diverso, um temperamento puramente
estético, calmo, com horror à violência, educado na
ironia francesa, no ceticismo e que um dia, me senti capaz de aceitar
com humildade uma revelação como sendo a luz que vem no
fim do túnel. Foi então que no dia 15 de agosto de 1928-
meses antes, ele sentiu a minha preparação e me encaminhou
para o padre Leonel Franca com quem eu tive tres meses de conversa de
caráter teológico, eu passei da descrença da Verdade
para a crença da Verdade. E a crença na Verdade, não
através da razão, da inteligência, mas através
da intuição, do sentimento. Por exclusão eu cheguei
a uma coisa mais simples, que inclusive, une o sábio ao ignorante,
o homem rico, poderoso, ao pobre, que diante disso se curva à bondade,
à caridade, à fraternidade, ao equilíbrio que eu
considero a essência do cristianismo.

A
Verdade
é
uma responsabilidade
P.
- O senhor afirma em artigo do livro A Experiência Reacionária
que se preocupa mais com as eras futuras. Poderia explicar, por que isso?
Alceu-Exatamente, me preocupo mais com o futuro do que
com o passado. É interessante que quando me converti, me preocupava
mais com a estabilidade das coisas, porque tinha passado minha mocidade
na remanescencia das coisas, o movimento das classes sociais, o movimento
do próprio diálogo dos homens que nos leva realmente ao
futuro da humanidade, no sentido da vida. Cada acontecimento da vida vai
em relação a uma definição final que é
o que a Igreja Católica chama de Juízo Final, parusia, que
é a volta do Cristo, a revelação total da Verdade.
Sinto que a procura de Deus e de todas as lutas humanas, o debate entre
o Bem e o Mal, entre o ódio e o amor, tudo isso é uma convergência
que vai no sentido do futuro. Para mim, a minha conversão não
foi um descanso num porto seguro. Ao contrário, foi uma partida
para um debate com as águas do oceano, um debate com as tempestades,
um debate comigo mesmo, uma entrada na ação, para uma pessoa
como eu, que tinha sido até então um sibarita, no sentido
de gozar a vida, sobretudo no sentido das idéias. Enfim, foi a
descoberta da responsabilidade das idéias. A Igreja realmente é
alguma coisa em marcha, este é o sentido da Fé. A fé
não é um descanso, a Verdade não é um prêmio
de loteria que o sujeito ganha e pronto, passa a viver em água
fresca e sombra. Não, a Verdade é uma responsabilidade.
Então o futuro me pareceu muito mais interessante. E isso não
quer dizer um desligamento do passado. O passado passa a ser presença
no futuro.O futuro é uma antecipação que nós
temos que viver numa utopia. Veja, os dois mais sutis teólogos
brasileiros que são os irmãos Boff. Um deles passa seis
meses ensinando teologia na Universidade do Rio de Janeiro e seis meses
entre os índios. Ou seja, procurando o sentido da verdade mais
elaborada e a verdade do homem primitivo. Este contato com o que há
de mais avançado, e o que há de mais primitivo é
que eu acho apaixonante dentro da Igreja. O cristianismo é uma
passagem de uma promessa do Messias para a realização dessa
promessa através da vivencia no tempo e uma revelação
do que é realmente o sentido da vida e que o Cristo é o
sentido do amor, da amizade, da fraternidade. Então o cristianismo
é o sentido de que se encontrou alguma coisa, mas que este encontro
não é um descanso, mas uma responsabilidade nova.
P. - Gostaria que o senhor dissesse sua posição
em relação a este problema tão discutido que é
a castidade. O Fernando Gabeira, por exemplo, que tem sido uma pessoa
que tem assumido publicamente como uma pessoa religiosa, disse recentemente
que discordava da postura da Igreja no que concerne a esta questão
do sexo. Como o senhor vê esta problemática toda da castidade,
do confinamento em conventos, sendo que o sexo é uma coisa natural?
Alceu-Acho esta vocação a coisa mais pura
do mundo. A vocação de que se realmente possa haver santificação
através da renuncia daquilo que é a coisa mais natural do
mundo que é o sexo. O sexo é ao mesmo tempo a base da vida,
e sendo ele o mais importante dos sentidos humanos, é também
a possibilidade de desencadeamento de dois caminhos: o caminho do Bem
e o caminho do Mal. O poder, por exemplo-é muito justo que haja
uma autoridade, mas o poder é uma coisa perigosa. Pois bem, o sexo
é mais perigoso ainda. Ainda outro dia recebi uma carta de um rapaz
católico que me perguntava sobre a indissolubilidade do casamento.
Veja bem: quando a Igreja diz que a monogamia é um bem, ela diz
também que quando não há amor numa família,
não pode haver paz, felicidade.Quando faltam, no sacramento do
matrimônio algumas condições para este sacramento
ele pode ser anulado, abolido. Portanto a indissolubilidade é relativa.
Não quer dizer que não possa haver separação,
quando por motivos os mais diversos, houver mudanças das circunstâncias
que levaram à coabitação. Falando agora de conventos,
eu, por exemplo, tenho uma filha que é abadessa de uma ordem de
religiosas aqui de São Paulo, que é a pessoa mais alegre
do mundo. Ela é beneditina, foi ela quem falou ao Papa quando ele
esteve aqui no Brasil. (Esclareça-se que foi a primeira vez que
o Papa João Paulo II veio ao Brasil.) Realmente é uma opção
muito séria, muito grave.
P. - Além da crítica literária o
senhor se aprofundou no estudo da economia, sociologia, filosofia. Fale
um pouco das suas tendências profissionais.
Alceu-Eu realmente nunca cheguei a compreender a profissionalização.
Sou um individuo que tende ao amadorismo e não ao profissionalismo.Eu
tinha até um amigo meu americano que me dizia: doutor Alceu, porque
o senhor em vez de publicar tantos livros, não faz como eu. Ele
de cinco em cinco anos publicava uma nova edição de um Tratado
de Direito Internacional. Eu dizia: cada um com sua vocação.
Como não sou poeta, comecei com a crítica literária
onde procurava a beleza nos textos dos outros. E da literatura tive que
passar para a economia, a sociologia. Dava aulas, um tempo fui advogado,
tentei a diplomacia e durante algum tempo fiquei na direção
de uma companhia que meu pai tinha fundado. Mas a maior parte do tempo
em dediquei ao ensino do qual gostava muito. Lecionei na Universidade
Católica, na Universidade Federal e no Centro dom Vidal. No Centro
Dom Vidal eu fundei a Coligação Catolica Brasileira, composta
do Instituto Católico de Estudos Superiores, que foi o gérmen
da Universidade Católica, de uma Associação Operária
e de uma Associação das Bibliotecas Católicas, uma
série de coisas que saíram do Centro dom Vidal. O Instituto
Católico de Estudos Superiores foi criado em 1932 justamente com
o desdobramento do Centro Dom Vidal. Aliás, este Centro, fundado
pelo Jackson Figueiredo era dedicado a conferencias de cunho amadorístico.
Quando assumi, depois da morte dele, criei todos estes desdobramentos.
Eu sentia a necessidade de formalizar certas especializações.
Uma associação para os juristas, outra para médicos,
etc., e uma Escola Católica de Estudos Superiores. Em 1941 nasceram
as primeiras faculdades católicas. Em 41 nasceu a Faculdade Católica
do Rio de Janeiro e depois vieram as de Porto Alegre, de Belo Horizonte,
de São Paulo. Todas nasceram do Centro Dom Vidal. Até então
não havia cursos superiores. Havia uma cadeira de Literatura que
eu assumi, uma de Sociologia, uma de Matemática, uma de Biologia.
Os dominicanos estavam presentes Centro Dom Vidal. Foi com eles que conseguimos
fundar este Instituto Católico de Estudos Superiores. Os dominicanos
franceses ensinavam Filosofia e Teologia, e os brasileiros ensinavam Literatura,
Sociologia e Biologia.
Mosaico
de pequenas virtudes
P.
- A história comprova que a Igreja sempre esteve atrelada ao poder.
Atualmente e desde o golpe de 64 a Igreja brasileira tem sido oposição
ao sistema, ao estado totalitário. A que o senhor atribui isso?
Alceu-Sim esteve sempre atrelada ao poder. Agora está desatrelada.
Agora, não tenhamos a ilusão de que vamos modificar o mundo
de um momento para outro. Estamos diante de pessoas que querem modificar
o mundo violentamente e através do poder. Não devemos ter
ilusão, inda mais num país como o nosso que vive realmente
no Terceiro Mundo, não vamos viver com o desejo de ser uma grande
potencia, inda mais num país como o nosso que vive realmente no
Terceiro Mundo.Não vamos viver com o desejo de ser uma grande potencia
que fica mínimo diante da onipotência de potencias como os
Estados Unidos e a Rússia. É preciso ter consciência
que conseguiremos alguma coisa pedra a pedra, sem a ilusão de mudanças
rápidas. É viver no presente com a experiência do
passado, mas focando no futuro. Esta visão do futuro representa
uma tentativa de melhoria. Há os pessimistas, aliás, o terrorismo
é a expressão do pessimismo máximo. Nós estamos
realmente num momento dramático, passional em que temos de arrancar
de todo o nosso sofrimento, a capacidade de reagir dentro das nossas possibilidades.Conhecer
nossos limites, ser limitado sem ser medíocre ser equilibrado sem
ser conformista, sem ser morno. Deus vomita os mornos. É prova
maior de liberdade sofrer uma derrota que alcançar uma vitória
através de compromissos Devemos ter o amor da dignidade, da honra,
para saber que vivemos num mundo em que o bem e o mal estão confundidos
em nossas próprias almas. Ficarmos convencidos que nós não
somos deuses, não somos anjos, somos seres humanos. Nós
temos a responsabilidade de saber discernir o que é bom e o que
é mal, sem chegar ao farisaísmo. Saber que vivemos sempre
situações mistas. O que é a democracia? É
a confiança no povo. Mas quando o povo ama as ditaduras? Veja as
fotografias do Irã (Isso era manchete no mundo inteiro, naquele
ano de 81), o Komeini julga que é santo e as pessoas tem um olhar
de ódio. Cada um de nós deve ter dentro de si o amor à
perfeição. É neste sentido que a Igreja representa
realmente um equilíbrio entre a ciência e a ignorância,
que é a sabedoria. A sabedoria que está para lá da
ignorância e para lá da ciência. Cada um de nós
deve ter o amor da perfeição. Saber que devemos querer o
máximo, mas saber que o máximo nunca atingiremos. A santidade
é um mosaico de pequenas virtudes. Os grandes gestos são
raros. No mais, a vida é feita de pequenos gestos anônimos.
Temos que adquirir o sentido de sermos o menos imperfeito possível.
Isto já é uma grande conquista.
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