| Ignácio
de Loyola Brandão
um escritor urbano
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Augusto
de Campos: “a poesia que faço é a do artesão”
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Alceu
Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um otimista incurável
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Jose
Aloise Bahia - colecionando arte e promovendo cultura
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Leo
Gilson Ribeiro – acreditando na inteligência do homem
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Joaquim
Brasil Fontes: traduzindo o mundo grego e falando de metamorfoses
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No
caminho com Neuza Pinheiro
Bárbara
Lia
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Jiddu
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Entrevista
com Renata Pallottini
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Entrevista com Jorge Pinheiro*
Omar de L. Barros Filho*
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NO CAMINHO COM NEUZA PINHEIRO
Bárbara
Lia
1.
Nuvem vermelha no céu
na terra silêncio
uma ave voava
e o rádio anunciava a Ave-Maria
e dava uma saudade
uma tristeza estranha
uma vontade de chorar...
e a noite descia tranqüila
e a noite envolvia Londrina.
Olha quanta luz no céu
olha um avião voando sozinho
sobre o Perobal
e a sanfona tocava
uma valsa triste
e a cabocla de flor no cabelo
cantava pra lua...
Bárbara Lia-Arrigo Barnabé nesta canção
Londrina faz a gente voltar a ser menina. Londrina. O que contém
a água de Londrina? Quem dela bebe verte esta luz sublime, de poesia
e música. Como explicar tantos talentos? Pinduca, Bortolotto, Garcia
Lopes, Neuza Pinheiro, Itamar Assumpção? Poetas tão
especiais como o Marcos Losnak e o Maurício Arruda Mendonça
e mais tanta Arte que não consigo lembrar... O que Londrina representa
para Neuza Pinheiro?
Neuza Pinheiro- Londrina ainda tem cheiro de água
e sertão, cheiro de peito de mãe. Tem o Lago, as árvores,
muito passarinho. Passa aquela sensação de que você
nunca mais vai sentir frio nem fome, que vai ter colo e acolhimento. Ilusão.
Somos um bando de expatriados com medo que escureça. É assim
Bárbara bela, lá e além. Mas vale uma investigação
líquido-gozosa, um mergulho no Igapó, algumas escavações
escatológicas (...), uma pegada, um menir... O déficit de
magia nos reduz a pele e osso. Agora eu te digo que lá tem uns
ninhos de altos maffagafos e altas maffagafas que, sem ter seus inventos
badalados pela grande mídia grafam e galopam, grasnam e garimpam.
Sim senhora, vertem sua luz por ali nos seus guetos; destripados e vampirizados
pela mãe permanecem com a mãe. Porque mãe é
mãe. E quem cai no mundo vira expatriado, fica sem raiz. Às
vezes acordo na noite me debulhando em lágrimas: eu quero a minha
mãe... Soube que Itamar Assumpção, pouco tempo antes
de partir, foi a Londrina e, anônimo, andou vagarosamente pelo calçadão,
sozinho, em silêncio. Arrigo Barnabé fica sombrio quando
fala de Londrina. Fez Londrina, grande valsa; fez Tamarana, falando de
jaguatirica, cana e banana; falando do tio Mário. Reminiscências.
Estamos tão cansados de ser marmanjões, temos saudade do
berço... Eu fiz Araponga, nasci lá onde as arapongas estão
extintas. Nascemos aqui, onde a Terra está quase extinta. E ficaremos
assim, sem Mãe... Ficaremos assim, sem mãe?
2.
um tigre
quando caminha pelas pedras
vai
como pisando pétalas
B.L. Há muitos anos li esta poesia tua, em fevereiro
de 2.002 quando a revista Caros Amigos publicou a entrevista – Henfil,
O Orfeu das Gerais – uma linda entrevista que você fez com
o Henfil. Li que a poesia você escreveu quando o viu caminhando
lento – Um tigre. A entrevista é poesia pura, bela e instigante.
Nunca pensou o jornalismo como profissão? O que a levou a optar
pela música e outros caminhos?
Neuza- Henfil era tão suave e tão refinado.
Tinha o joelho inchado pela doença, a hemofilia. E caminhava devagar,
com dificuldade. Paulinho da Viola também é. Augusto de
Campos. Tem pessoas assim... Marcelo Sandmann, Ulisses, a Élida-professora-
minha amiga, o “seo” Albino, pedreiro que trabalha na escola
onde leciono. Esses caras viajam pelo mundo, vão deixando um rastro
forte sem que ninguém saiba no fundo quem eles são. Eu acho
que eles nem se preocupam com isso. Vão fazendo e vão acontecendo
Então aquele poema é isso, uma pequena ode aos homens e
mulheres tigre, uma dor pelos tigres-tigres, capturados, exibidos nos
circos do mundo, abandonados ou abatidos sem piedade no seu anonimato
de nobreza, delicadeza e desaparecimento. Eu enlouqueço a cada
segundo, como se nascesse sessenta vezes por minuto. Vejo a mesma árvore
da minha janela e isso me assusta porque ela vira nave, vira luz, vira
mãe. E queriam cortar minha seringueira secular há alguns
dias, um grupo TFP do lugar, dizendo ser ela um “antro de pecado”
só porque uns adolescentes do outro prédio vizinho vinham
vez em quando no começo da noite trocar uns beijos com suas meninas,
incensar o ar e rir bem alto sob os galhos daquela imensidão...
Você entende? Era insuportável assistir pela janela o relax,
a alegria, o amor. Então decidiram cortar a árvore! Daí
transtornei, corri ao poder decisório -a síndica com seu
séqüito, a cruzada babando de raiva no corredor e naquela
de vamos cortar amanhã mesmo- e fui desfiando as palavras: -sabiam
que árvores assim grandes, mantém o equilíbrio da
região, oxigenam e purificam o ambiente?(indiferença...)-E
sabiam que essa árvore acolhe muitas espécies de pássaros,
que eles acabam ficando por aqui, já ouviram pela manhã
como cantam? (nem te ligo...) – Ah, e já perceberam como
por aqui é calmo, não ocorrem assaltos nestes prédios,
não rolam brigas nem agressões? Árvores como essa
contribuem para limpar o astral (reação mínima, olhares
de soslaio...)
E,
vou contar uma história meio trágica, mas, por favor, não
comentem com os outros pra não assustar (indisfarçável
preocupação) Lá na minha terra, há uns 50
anos atrás, aconteceu um fato estranho e terrível, nunca
mais cortaram as grandes árvores do lugar por conta disso. As seringueiras,
inclusive, foram tombadas como patrimônio histórico (olhares
meio aterrorizados e curiosos. Eu procurando inspiração
pra continuar e convencer). – Dizem os antigos moradores que alguns
imigrantes ingleses decidiram derrubar umas seringueiras próximas
das suas casas dizendo não suportar o barulho dos pássaros
pela manhã. Foram avisados por nativos (havia sobrado alguns índios
por ali, pasmem!) que aquelas eram árvores sagradas, que as grandes
árvores são morada de espíritos protetores e curadores,
elas são a pele do mundo; ao serem cortadas tudo em volta endurece
e resseca. Portanto eles não deveriam derrubar as árvores.
No dia seguinte pela manhã se ouvia o ranger da queda. Foi um dia
triste, sombrio. Na semana seguinte pássaros desapareceram dali,
animais começaram a morrer e, o que é mais terrível,
as mulheres do lugar foram acometidas por sintomas esquisitíssimos,
secaram, os cabelos caíram, a pele escureceu e as unhas sangravam.
Algumas não resistiram... (terror absoluto...) -- Salvei a árvore,
Bárbara. - Tenho essa alma multifacetada, as coisas acabam não
cabendo. - Música... Eu não escolhi a música. Fui
abduzida (lembrando meu querido e grande Jairo Batista Pereira)
3.
B.L. - Banda Sabor de Veneno. É possível
nos narrar esta vivência: cantar ao lado de Itamar Assumpção
e outras vozes femininas tão potentes e belas como a tua?
Neuza- Aos 14 anos eu cantava na banda de J. PINHEIRO,
meu pai, um dos maiores músicos que conheci. Ele morreu muito jovem
sem saber o quanto era genial. E foi esquecido muito rápido. Itamar
também será esquecido. A velocidade dos eventos é
alucinante, a morte também virou produto de marketing: flores clonadas,
caixões estratosféricos, biografias, DVDs, curtas-metragens
(aos mortos ilustres, alternativos e não reconhecidos em vida).
Quanto ao morto, esgotadas todas as possibilidades de rendimento, ninguém
se lembrará... Com exceção de uns malucos beleza
colecionadores de excentricidades. Voz? Voz é mistério.
Mais que o timbre, a textura, afinação, potência enfim,
é o poder de mobilizar, de arrebatar multidões. Toda mulher
artista deseja lá no fundo ser diva. Uma Billie Holiday nunca será
esquecida. Mas, ela não soube disso. Entrava pela porta dos fundos
por ser negra, cantava para os brancos. Sofisticadíssima. Poderosa.
E frágil como uma libélula. Divas são tão
frágeis. Marilyn Monroe... Falo e isso me comove. Foi-se o tempo
das divas. Por quê? Era raro o talento nu e cru, ali, ao vivo. Eram
raras também as mulheres que se atreviam a sair da penumbra. Divas
eram concebidas sob sedosos véus de magia, de mistério.
Em torno delas se criava uma aura beirando o divino. Elizete Cardoso...
Edith Piaf... Hoje, dezenas de cantoras medíocres e saradas entram
num estúdio de alta tecnologia e saem dali em poucos dias com um
CD cheio de efeitos, de firula. Tem o lance de parentesco também,
filha do fulano, prima do beltrano. Tem o lance do visual, da gostosura.
Ah, e a vocação para o escândalo, a fofoca; a disposição
de escrever asneiras em blogs imbecis... Muitas atrizes e cantoras estão
aí. Enfim... é preciso manter o interesse aceso nem que
seja pra pintar os pentelhos de rosa choque em praça pública.
Diva? Nunca mais. Tem gente pagando pra ser aberração.
Bom, e quem poderia ocupar o status de diva contemporânea, Madonna?
No Brasil. quem poderia? Eu votaria em Rita Ribeiro e sua tecnomacumba,
como reencarnação contemporânea de Carmem Miranda.
Antes que me esqueça: admiro Madonna e me impressionou muito o
seu papel no cinema como Evita Perón. Sobre Sabor de Veneno
ganhar o prêmio de melhor intérprete em nível nacional
foi mesmo a glória. Mas entrei em pânico. Eu era jovem demais,
sertaneja demais e carregava um arsenal de culpa. Me lembro que o Arrigo
dizia “você não pode voltar agora pro Paraná,
não pode mesmo”. Mas eu voltei. E essa é uma longa
história. Inclusive, o livro de Fábio Giorgio no seu Na
boca do bode-Entidades Musicais em Trânsito”, lançado
no final de 2006 pela Atritoart, conta histórias impressionantes
sobre esse povo todo que saiu do Paraná. É um dos livros
mais completos sobre a saga de artistas paranaenses saídos de Londrina
em busca de reconhecimento.
4.
Mulheres Amarílis
Acenam
açucenam
suas raízes
Já foram mais felizes
a céu aberto
Mulheres Amarílis
Milhões de anos
e este deserto.
B.L.
- A poesia? Li poemas esparsos teus em alguns sites, na antologia Other
Shores, na Coyote nº1. Por favor, não
diga que você nunca tentou mandar um livro para um editor? Em nome
de tanta gente que ama a tua poesia conte aí - quando vai acontecer
o teu livro?
Neuza-
Você sabe que anos depois de ter escrito esse poema fui descobrir
que amarílis e açucena eram a mesma flor? Eu nunca pensei
que pudesse publicar um livro. Quando ficava pronto desmontava tudo pra
começar com outro título, numa outra ordem, em outro século,
num outro mundo. Ou pensava: não é nada disso... Aí
ficava questionando até meu nome, já não me soava
bem, não reconhecia meus versos, era um tal destempero...Às
vezes penso que sou só uma caipira em busca de si mesma, num mergulho
sem fim, sem fundo. E que de nada me vale a poesia que faço a voz
que me veio de herança, as canções que já
criei. Comprei uma viola neste ano de 2007. Se soubesse antes, teria tocado
viola a vida inteira. Meus primeiros poemas foram publicados graças
ao Ademir Assunção e ao Rodrigo Garcia Lopes (em 1988, na
Folha de Londrina). Foi Ademir Assunção quem me avisou sobre
o Premio Lucio Lins. Bom, juntei toda a coragem que tinha nesse final
de 2007, montei um projeto, “PELE & OSSO e um punhado
de trégua” (uma idéia que tem mais de década)
e enviei pra João Pessoa, concorrendo ao Primeiro Prêmio
Lúcio Lins de Literatura. Lúcio Lins, poeta paraibano
que se foi em 2005, um poeta que quero conhecer melhor, quero saber tudo
sobre Lúcio Lins. Esse prêmio foi instituído pela
Fundação Cultural de J Pessoa, cujo diretor
executivo é o poeta Lau Siqueira E. Venci! Soube
pela internet na noite de Natal. Portanto, vou publicar meu primeiro livro.
Gostei muitíssimo que tenha sido lá no Nordeste, onde sou
quase uma ilustre desconhecida. E mais: tem uma alma minha que andou por
lá, que já viveu naquela terra. Se você leu a entrevista
que fiz com o orfeu Henfil vai perceber que logo na abertura, comentando
personagens dele(Graúna, Bode Orelana, etc.),eu já vou tomando
as dores e as coisas de lá, a sede, a fome e a arte de lá,
como se fossem minhas, como se eu fosse filha dali.Nos jornais de escola
meus textos sempre vinham ilustrados com a graúna, eu sonhava ser
ela, chorava e ria por ela, sempre foi minha musa, terapeuta, amiga, mãe.
Tinha que ser lá, ainda bem.
5.
B.L. -*Voz absurdamente original, carregada de um pathos que comove e
assusta, a exigir ouvidos dispostos a romper com hábitos de escuta
e a lançar-se na vertigem. Há anos esperamos um disco de
Neuza Pinheiro, para termos bem perto sua voz, sua música, sua
poesia. Olodango, longamente gestado, põe termo a tal expectativa.
O CD surpreende pela concepção musical e pelo repertório,
pela variedade dos gêneros praticados, pelas parcerias. Neuza, felizmente,
evita a tentação de tantas cantoras, a de revisitar alguns
clássicos de sempre, por vezes com nova intenção
e roupagem, freqüentemente com o apelo fácil à memória
e aos afetos imediatos do ouvinte. É que Neuza, além de
cantora, é também inspirada autora, e o caráter autoral
do trabalho vem logo para o primeiro plano...* (Marcelo Sandmann)
Neuza- Marcelo Sandmann é um artista de rara sensibilidade
e um cara muito generoso. Foi o primeiro a comentar sobre o Olodango
e fez essa leitura holística, amorosa, repleta de vida e cor que
você citou aí. Ele não pode avaliar o quanto fiquei
feliz. Eu sei que o querido Ulisses Galetto falou e tocou
Olodango num programa da Rádio Educativa aí
em Curitiba e não consegui ouvir. Mas ele vai me enviar a cópia
pelo correio. Jairo Batista Pereira, poeta dos bons aí
do Paraná, fez um longo e impressionante comentário sobre
o Olodango. Daniel Brazil também, editor da Revista
Brasileira de Música (virtual) aqui em Sampa, que me surpreendeu
da maneira como falou sobre o meu primeiro trabalho solo. A Rádio
Universidade FM de Londrina tocou o CD inteiro, intercalado com
comentários meus, no Dia Internacional da Mulher. Patrícia
Zanin, jornalista sensibilíssima e novidadeira propôs
isso e foi bom. E você, Bárbara Lia, abrindo espaço,
abrindo alas/asas pra que eu borbulhe e borboleteie. Mas, olha só,
ainda não fui convidada a lançar o Olodango em
Londrina nem em Arapongas, onde nasci. Recebi convite do Espaço
Cultural Cidadão do Mundo em S. Caetano, do projeto
Caixa de Som no SESC Vila Mariana, lancei o Olodango
no 21º Salão Nacional Psiu Poético em Montes
Claros-MG, tudo isso em 2007. E atenção:
procuro patrocínio pra registrar em CD o trabalho PROFISSÃO
DE FEBRE, poemas de Paulo Leminski que venho musicando há mais
de vinte anos. O projeto foi inscrito na Petrobrás em
2007, mas infelizmente...
6.
B.L.-Olodango.
Li que foi uma palavra que você ouviu em sonhos. Conte passo a passo,
desde a idéia do CD – ele não ia se chamar Vermelhô?
– Mas, enfim, conte desde a idéia de lançar o Cd até
o lançamento.
Neuza- Vermelhô é um projeto que eu alimento
e um dia vou realizar. É o meu ser tribal, de avós índios
e negros. Ritmo, percussão de voz e tambores, transe. Olodango
foi palavra ouvida em sonho há uns 15 anos ou mais. Não
encontrei significado, não encontrei a palavra. E guardei pra usar
em algum acontecimento importante. Fui convidada por dois músicos
mato-grossenses, Luciano e Ângelo Galbiati, que já conheciam
meu trabalho e haviam tocado comigo. Eles inscreveram um projeto no PROMIC
(Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina), o projeto
Sonora, contemplando alguns compositores de Londrina como o grande instrumentista
André Siqueira, o compositor Marquinhos Diet, o pianista e compositor
Mário Loureiro... Foi um processo difícil, vários
partos mal acabados, abortos até chegar ao filho inteiro, Olodango.
É um trabalho autoral, com exceção de duas faixas:
Londrina, do Arrigo; e Aranha Mecânica, dos irmãos Galbiati.
Selecionei o que mais parecia eu e meu. Havia recursos materiais minguados
e talento demais das pessoas que participaram desse trabalho: os irmãos
Galbiati, Marcos Santos, Marco Scolari, André Siqueira, André
Vercelino, Felipe Bharten, Roberto Souza, músicos de Londrina,
inventores da mais alta estirpe. Foi laboratório, dois anos experimentando,
os irmãos Galbiati e eu totalmente entregues, fechados num estúdio.
A gente desenhou junto, coloriu, temperou. E destemperou também...
Toquei violão em algumas faixas, fiz até baixo no meu violão
em 2 canções pq não havia grana pra pagar baixista.
Os arranjos de backing, também fiz e executei. A gente fez loucuras,
fez magia, fez milagre. É uma longa história, daria um livro.O
resultado ficou surpreendente. Às vezes não me reconheço
ali, estranho a voz, os efeitos, o instrumental... Tenho certeza de que
um dia o Olodango será reconhecido como deveria.
Tem algumas parcerias fortes: duas com Arnaldo Antunes (Pensamento 2 e
Dúvida 3) e uma com Paulo Leminski(Cabeça Cortada) que é
atávica, veio dos confins das cavernas dos meus mais longínquos
ancestrais. Termina com um ritual xamânico fabuloso, os galbiati
e eu em transe a ponto de, no final, haver uma fala, um dialeto, sabe-se
lá, que não sei de onde tirei. Jamais vou conseguir de novo
articular aqueles sons, aqueles grunhidos... Eu gostaria muito de relatar
cada momento, cada flash dessa história. Quem sabe...
7.
Se eu pudesse me inventar de novo, meu amor
virava bálsamo pra tua dor
Agora vê, meu amor, os astros como estão nus.
Vênus me deixa tão leve
lá no azul..
Agora vê os astros, meu amor, como estão nus,
Vênus te deixe bem leve,
lá no azul...
B.L-Esta
poesia você dedica aos filhos Pedro, Lia e Mariana. Como é
ser mulher e mãe neste tempo onde nós preferimos a emoção
ao silicone, uma lágrima verdadeira em lugar dos cremes? A solidão
abraçada à nossa poesia por não concebermos uma era
de poetas pop-stars? Como é ser mãe/mulher/cantora/poeta
neste milênio de securas?
Neuza-- Ah, eu me vejo dançando, literalmente,
sob uma chuva de napalm, e as feridas e queimaduras já se fechando
como em Matrix, mas em seguida um míssil balístico já
me atinge pela retaguarda, detona a minha aldeia aí saio eu e os
meus, mal costurados, uns monstros... Mas saimos assim, criaturas bioluminescentes,
tipo um peixe-dragão-do-mar-profundo ou uma medusa periphilla,
meus filhos ouriços e lírios do mar, numa visão espetaculosa
de luz e cor, num movimento estranho de radares e antenas, ligados às
coisas do mundo, arrancando tudo que possa de música e poesia,
fazendo bálsamo e colocando nas feridas de quem venha. Porque é
preciso compaixão. Além de paixão. E no dia-a-dia
vamos reciclando o nosso lixo, economizando nossa água, tentar
salvar a nossa casa. Do meu lado, quisera ter alguns bichos. Mas sou uma
mulher sem cão, sem pássaro. Moro em apartamento... E uso
sombrinha no verão pra proteger a pele.
8.
B.L.
- Você é socióloga e detonou pensamentos cristalinos
em sua arte e nas coisas todas que li. Considerando que Neuza Pinheiro
por Neuza Pinheiro (que é sempre um tópico que coloco nas
entrevistas) já está dissecado no item acima. Como você
narraria este tempo de luta tardia pela preservação do meio
ambiente e a total ausência de grandeza nas hostes políticas.
No mundo globalizado, alguma luz?
Neuza- Eu respondi de alguma forma, lá em cima?
A gente precisa se adequar à idéia de que tudo pode ir pelos
ares a qualquer momento. E de que nós não somos o Superman
nem o Batman e não se inventou ainda o tele transporte. Ninguém
poderá migrar para outra galáxia, para outra dimensão.
Fada também não existe. E os deuses... Sem comentários.
Nós criamos e alimentamos o caos, fomos sempre permissivos, alienados,
predadores cruéis e umas criaturinhas arrogantes, megalomaníacas.
Sabe, eu ando paranóica com sacos plásticos, esses sacos
de supermercados que todo mundo usa. Tenho pesadelos sobre um mundo terrível,
todos enterrados em montanhas de sacos de lixo de supermercado, sob o
domínio de uma horda brutal e armada até os dentes, procurando
uma gota dágua... Exagerei? Olha, nas profundezas abissais dos
oceanos, aquele breu total, os animais foram se adaptando e conseguem
sobreviver. Foi preciso milhares... milhões de anos. No deserto
do Atacama (Chile) onde fica 50 anos sem chover, há vida, sim senhor!
As serpentes do deserto, pra manter o corpo resfriado, pra não
explodir, mergulham na profundeza da areia procurando algum ponto mais
suportável. Mas nós não somos serpentes, não
somos anêmonas. Somos fragilíssimos, isso sim!É preciso
acordar, olhar pra dentro, abandonar o apego a esse invólucro,
aos adereços, penduricalhos, batata frita refrigerante e hot-dog.
A questão transcende o político. Não se trata mais
de adivinhar quem vai levar vantagem em tudo, quem vai ficar com o pedaço
maior. A pergunta é: como vamos nos manter vivos? E os nossos filhos,
netos, bisnetos? O que vão encontrar por aqui?A globalização
é um meio poderoso de reunir, discutir, criar alternativas de sobrevivência,
de salvação. Mas nós preferimos ver reality shows,
espiar os blogs egocentrados e recheados de baboseiras, as vidas alheias
dos que contam o que comem no almoço, com quem transam no jantar,
qual a preferência de cor, religião, se roncam e soltam pum
quando dormem coisas do gênero. Será que essa espécie
que se autodenomina Homo Sapiens merece ser salva? Pior: nós queremos
ser salvos? E, por favor, não me venham com citações
do Apocalipse, não me venham fazer apologia dessa ou daquela religião.
Na semana passada vi uma mulher jovem com sua filhinha (a criança
devia ter uns três anos) andando pela avenida repleta de carros
em pleno meio-dia, um sol de rachar, praticamente arrastando a criança
pela mão, sem sombrinha, enfim... Perguntei a ela se não
poderia ao menos andar na sombra ou proteger a criança, carregá-la...
A mãe me olhou com grande rancor e respondeu: “não
precisa nada disso; Deus cuida.” Era uma fanática religiosa,
dogmática. Não há nada tão letal quanto isso.
Milhões de pessoas estão nesse barco, nessa ignorância,
acreditando piamente poder alcançar a salvação, salvar
a própria pele... Ou melhor, salvar a própria alma. E dane-se
o resto, é assim que “raciocinam”. Eu sinto muito por
todos nós, pelo devir. Que devir?
Neuza Pinheiro, é cantora, compositora, poeta,
participou de revistas como Coyote, Babel, Et cetera, Medusa.Trabalhou
com Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. Seu texto
O metaformoso consta no livro A linha que nunca
termina (ed. Lamparina, 2005), homenagem a Leminski. É
socióloga, paranaense, vive no grande ABC (Santo André).
Breve vai lançar seu primeiro livro solo de poesias: “PELE
& OSSO e um punhado de trégua” vencedor do Primeiro
Prêmio Lúcio Lins de Literatura.
Para saber mais sobre ela veja o link criado pelo psicólogo paulistano
Luiz Couto (do Nhocuné Soul) criador desta página sobre
o Olodango:
E
ainda em:
Poesias no Pop Box e Zunái
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