| Ignácio
de Loyola Brandão
um escritor urbano
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Augusto
de Campos: “a poesia que faço é a do artesão”
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Alceu
Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um otimista incurável
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Jose
Aloise Bahia - colecionando arte e promovendo cultura
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Leo
Gilson Ribeiro – acreditando na inteligência do homem
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Joaquim
Brasil Fontes: traduzindo o mundo grego e falando de metamorfoses
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No
caminho com Neuza Pinheiro
Bárbara
Lia
__________________
Jiddu
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Entrevista
com Renata Pallottini
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Entrevista com Jorge Pinheiro*
Omar de L. Barros Filho*
__________________
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Ignácio de Loyola Brandão um escritor urbano
Ana
Lúcia Vasconcelos
Conheci o Loyola nas redações da Editora Abril em São
Paulo - ele trabalhou na Claudia, Realidade, Setenta
e depois nos revíamos em outras editoras - foi editor da revista
Planeta, e na Editora Três das
sofisticadas Vogue, Homem Vogue e Lui. Mas a gente se
encontrava muito no Shopping da Avenida Paulista chamado Center Três
que fica defronte do Conjunto Nacional onde está a famosa Livraria
Cultura, e na própria livraria, que é um dos points
prediletos de jornalistas, escritores, intelectuais em geral, e diversas
vezes, nos metrôs. Ele pelo que me consta, não dirigia -
sempre preferiu andar a pé, de ônibus, táxi ou metrô
para curtir a cidade. Fiz esta entrevista em 1987 quando ele escrevia
livros e colaborava com crônicas para um jornal que só circula
na cidade de São Paulo e que é ótimo: Shopping
News.
ALV
Paulista de Araraquara, onde já atuava como critico de cinema desde
os 16 anos, Loyola foi para São Paulo, cidade por quem era apaixonado-pelo
menos era (até a data desta entrevista ) em 1957 onde começou
trabalhando no jornal Ultima Hora como repórter.
Seu primeiro livro foi Depois do Sol-contos, lançado
em 1965, o segundo foi Bebel que a Cidade Comeu, que
saiu em 1968. Em 1974, foi lançado na Itália o romance Zero,
sua obra mais conhecida. O livro saiu no Brasil em 1975, mas foi proibido
em 1976 pelo Ministério da Justiça do governo Geisel. Em
1977 publica Dentes ao Sol (romance), Cadeiras Proibidas
(contos) e o infanto juvenil Cães Danados. Em julho de 1976 Zero
recebe o prêmio de Melhor Ficção,
concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal. Em
novembro o livro é censurado pelo Ministério da Justiça
e sua venda é proibida.
Em 1978 viaja a Cuba e escreve o livro-reportagem Cuba de Fidel
- viagem à ilha proibida, após
participar, em 1978, do júri do Prêmio Casa de Las Américas.
Em 1979 Zero é liberado no Brasil e neste mesmo ano Loyola deixa
o jornalismo para se dedicar exclusivamente à literatura. Em 1980
ele viaja por várias cidades dos Estados Unidos fazendo conferencias
em universidades de Nova York, Flórida, Georgetown, Albuquerque,
Tucson, San Diego a convite da Fundação Fullbright, dos
EUA.
Na seqüência continua viajando e escrevendo: em 1981 sai Não
verás país algum, uma visão surreal
da realidade brasileira e considerado por um critico do New York Times
como uma das quatro distopias mais importantes da literatura mundial juntamente
com Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984
de George Orwell, e Nós do russo Yevgeny Ivanovich Zamyatin. É
Gol sai em 1982 e em março deste ano, viaja, a convite
da Fundação Alemã de Intercâmbio Cultural para
Berlim, onde fica por dezesseis meses. Lá, publica Oh-ja-ja-já,
uma seleta de seu diário berlinense, ainda inédito em português.
Em 1983 Voltando ao Brasil, publica Cabeças de segunda-feira
(contos). Em 1984, lança O verde violentou o muro,
onde narra sua experiência alemã. O senador italiano Amintore
Fanfani lhe entrega o Prêmio IILA, do Instituto Ítalo-Latino-Americano,
pelo romance Não verás país nenhum,
publicado na Itália no ano anterior. Assume a vice-presidência
da União Brasileira de Escritores, onde permanecerá até
1986.
Em 1986, volta a Berlim, como convidado especial, para participar dos
festejos dos 750 anos da cidade. Participa de Encontro sobre Literatura
Brasileira promovido pela Universidade de Colônia, na Alemanha,
ao lado de João Ubaldo Ribeiro e Haroldo de Campos. Escreve em
1987 O ganhador (romance) e O homem do furo na
boca (contos) que obtém o Premio Pedro Nava da Academia
Brasileira de Letras e de Melhor Romance da APCA. Participa das Jornadas
Literárias na cidade de Passo Fundo (RS), em 1985. Desde então,
lá comparece a cada dois anos para participar do evento. Lança
o romance O beijo não vem da boca.
Em 1987 Não verás país nenhum é
encenado no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, sob a direção
de Júlio Maciel. Em 1988 publica A Rua de Nomes no ar -
Manifesto Verde que havia sido publicado em 1985, como brinde
da editora Circulo do Livro e lança o livro infanto
juvenil O homem que espalhou o deserto. Em 1990 voltou
ao jornalismo assumindo a direção da revista Vogue e passa
a escrever crônicas para o jornal Folha da Tarde.
Zero, um espetáculo de dança realizado pelo Balé
da Cidade, inspirado em seu romance homônimo, é apresentado
no Teatro Municipal de São Paulo no ano de 1992. Vai à Zurique,
na Suíça, onde participa de leituras de sua obra.
Em 1993, começa a escrever crônicas no Caderno Cidades de
O Estado de São Paulo que, a partir de 2000, seria
transferida para o Caderno 2, onde está até
hoje.
No ano de 1995 realiza três lançamentos: O anjo do
adeus (romance), Strip-tease de Gilda (crônicas)
e O menino que não teve medo do medo (infanto-juvenil).
Em 15 de abril inaugura, no Instituto Moreira Salles de São Paulo,
a série O escritor por ele mesmo. Em 1996, viu
a morte de perto, segundo conta, quando foi surpreendido por um aneurisma
cerebral e teve que passar por uma cirurgia que durou onze longas horas.
Mas como tudo é tema para jornalistas e escritores o evento virou
um livro: A Veia Bailarina publicada em 1997.
Em 2000, recebeu o prêmio Jabuti por O homem que odiava
a Segunda-feira. Atualmente publica crônicas no Caderno
2 de O Estado de São Paulo e faz parte do Conselho Editorial
da Revista Vogue sendo que sua obra soma vinte e três
livros: sete romances, seis livros de contos, dois relatos autobiográficos,
dois infanto juvenis, dois livros de viagem e três de crônicas,
três biografias.Algumas dessas obras estão traduzidas para
o alemão, húngaro, coreano, espanhol, inglês, italiano
além de terem sido adaptadas para o cinema e teatro.
Nesta entrevista ele fala da sua trajetória entre o jornalismo
e a literatura, seu processo criativo, como constrói seus livros
a partir sempre de uma imagem que trai sua antiga paixão: o cinema.
ALV-
Você veio de Araraquara para São Paulo com vinte anos? Porque
São Paulo?
Ignácio
de Loyola Brandão - Porque São Paulo era o grande
sonho da gente. São Paulo era onde estavam os jornais, as editoras,
era onde estava principalmente o cinema.
ALV
-De que você gostava...
Loyola - Adoro cinema. Na verdade meu primeiro sonho
era ser diretor de cinema e também fazer roteiros.
ALV-Em
Araraquara já tinha feito alguma coisa?
Loyola - Lá o grupo do qual eu participava tinha
feito teatro, tinha um teatro de Arena muito bom.
ALV
- Você era ator ou diretor?
Loyola - Não nunca fui ator, eu trabalhava na
assistência de direção, na assessoria de imprensa,
na produção, na mecânica por trás.
ALV
- Nos bastidores...
Loyola-Nos bastidores... E este grupo de teatro se uniu
a uma turma de Foto Cine Clube que tinha duas câmaras de 16 mm e
fizemos um filme quer era uma mistura de ficção e documentário:
A Aurora de Uma cidade sobre a fundação de Araraquara.
ALV-
Mas já escrevia na época?
Loyola-Eu escrevia para jornal. Vim para São Paulo
e comecei a trabalhar na Ultima Hora onde fiquei de 1957 a 1965. Depois
fui para a Editora Abril onde fiz Claudia, Realidade, Setenta.
Depois fui para a Editora Três onde fiz Vogue e Homem Vogue.
ALV
- Você fez a adaptação brasileira da
Planète não é?
Loyola - É eu fiz a Planeta.
ALV- Quando deixou o jornalismo e partiu para a literatura?
Loyola - Na Editora Três fazendo Lui. Acontece
que os franceses não gostaram da edição que a gente
fez. Enquanto seguíamos a fórmula francesa a revista foi
um fracasso. Ela começou a melhorar quando fizemos uma fórmula
nossa, brasileira, mas antes eles romperam o contrato alegando não
ser esse o espirito da Lui. E a Editora Três não sabia o
que fazer comigo e me demitiu. Foi uma coisa muito engraçada-a
primeira e única demissão da minha vida.
ALV-
Qual foi a sensação?
Loyola - Muita insegurança, mas ai eu pensei-é
agora a chance de eu tentar a carreira de escritor e ver o que dá,
ou ser funcionário de editora até o fim da vida.
ALV
- A esta altura você já tinha publicado vários
livros?
Loyola - Meu primeiro livro foi Dentes ao Sol, contos
em 1965. Deste livro saíram dois filmes o Anuska, Manequim e Mulher
de Francisco Ramalho baseado num conto do livro e o outro foi um episódio
que está dentro do filme Memórias do medo baseado no conto
que se chama Um Retrato de um Jovem Brigador. O segundo livro foi Bebel
que a Cidade Comeu. Enquanto eu fazia o livro o Maurice Capovilla leu
o original e fez um primeiro roteiro. Quando o livro saiu, eu e o Mário
Chamie trabalhamos neste roteiro e o filme saiu quase junto com a primeira
edição que foi dentro de uma antologia organizada pela Bloch
Editora e atualmente (em 1987) está na 15º. Edição
e depois É Gol que é um livro objeto, um grande conto ilustrado.
Ai veio Cabeças de Segunda Feira em 1983, O Verde que Violentou
o Muro em 1984 que está na 13º. edição e O Beijo
não Vem da Boca em 1985. E em agosto de 1987 O Perdedor.
ALV
- Mas você já sonhava ficar só na literatura?
Loyola - Sim eu já sonhava com isso, acontece
que não tinha esquema, não vendia o suficiente. Mas ai de
repente em 1979 o Cuba estava vendendo muito bem. Então eu me agarrei
nisso. Fora isso eu fazia free lances e descobri que podia ganhar por
palestra que eu e o Antonio Torres e João Antonio fazíamos
desde 1975. A gente descobriu uma coisa interessante nas cidades onde
íamos falar, os livros aumentavam as vendas ou passavam a vender.
A gente fazia isso profissionalmente, íamos a editoras conferir
mesmo. Vimos então que este era um caminho para formar um publico
e começamos a receber cartas de professores, um recomendava o outro
e a coisa ia crescendo.
ALV-
Um rastilho...
Loyola- Um rastilho mesmo, a ponto de a gente ter que
recusar porque àquela altura tínhamos emprego e só
podíamos fazer palestras aos sábados e domingos. Quando
me libertei do emprego passei a fazer palestras quase que diariamente
dependendo dos convites e ai não importava se era quarta ou segunda-feira.
ALV-
Ficou livre...
Loyola-
A primeira conquista que eu fiz foi a completa indiferença sobre
o dia da semana. As pessoas diziam: ah terça é feriado,
vamos fazer ponte. Faço ponte o ano inteiro. Esta foi a grande
conquista. As pessoas perguntavam se eu estava ganhando dinheiro. Estava
para sobreviver, mas a liberdade, a disponibilidade de andar nas ruas,
ir ao cinema, ou ficar em casa escrevendo, isso era maravilhoso.
ALV
- Além do Shopping News você escreve crônicas
para outros jornais?
Loyola - Fico só no Shopping News, mas eventualmente
faço coisas para determinadas fascículos, certos house organs.
ALV
- O Shopping News e o City News e o Jornal da Semana, enfim este
um conglomerado, enfim vende 500 mil exemplares que significa que você
é lido por milhões de pessoas em São Paulo.Como é
isso?Você sente a repercussão?
Loyola
- Sim é um publico muito engraçado: o porteiro
le, o zelador, a empregada, o advogado, o engenheiro, o dono da casa,
domingo o jornal à mão. É um publico super eclético.
ALV - Bom, a gente sempre se encontra na Livraria Cultura,
no Conjunto Nacional, em plena Avenida Paulista. Primeiro você vive
na Cultura? E depois, deve gostar muito da Paulista, não?
Loyola
- Vivo la, a Cultura é meu quartel general, as pessoas deixam bilhetes,
recados. Eu gosto da Paulista, eu vejo a Paulista daqui (mostra a paisagem
la fora.De onde estamos sentados fazendo a entrevista, defronte da janela
do seu apartamento, vê-se lá embaixo a avenida Paulista).
Eu moro a uma quadra da Paulista. Eu fico vendo a fonte do Banespa em
dias de calor, fico vendo a água jorrando.
ALV
- Voce gosta de São Paulo? Por que afinal você é
um típico escritor da cidade, urbano, fala sobre o homem massacrado,
massificado, um numero perdido na multidão. Apesar de tudo diria
que a cidade tem seus encantos?
Loyola - Eu gosto de São Paulo. Estou um pouco
espantado com o mal que fizeram à cidade. A cidade não em
culpa. Ela agora está respondendo na mesma medida, ou seja, está
agredindo o homem. Cortaram as árvores, cortaram tudo e agora ela
está respondendo.
ALV
- Pois é, virou a famosa selva de pedra. Olha a paisagem que você
tem daqui - só prédios.
Loyola - Por sorte se a gente for ver la do terraço, do outro lado,
a paisagem já é diferente, porque eu vejo o Parque Trianon.
Mas veja é muito pouco verde para a quantidade de prédios
que há na região. Mas de qualquer forma eu tenho uma grande
paixão por esta cidade. Você vê, eu vim para cá
São Paulo era um mito. Quando adolescente em Araraquara e era fascinado
por cinema: aqui estava a Vera Cruz, que foram os anos 51,52, 53,54 anos
importantes para minha cabeça. Então eu queria fazer cinema
na Vera Cruz. E as outras razões: porque a gente tinha que vir
estudar porque no interior não havia faculdades
ALV-
E você fez o que?Quero dizer escola?
Loyola- Não fiz nada, fui direto para o jornalismo.
Eu já fazia critica de cinema, reportagem. Quando cheguei aqui,
dez dias depois estava trabalhando na Ultima Hora. Pensei que seria por
pouco tempo, mas de repente vi que o jornal era uma maravilha. E através
do jornal comecei a descobrir a cidade porque eu tinha que andar muito,
a Ultima Hora na época era um jornal incrível.Eu ia para
tudo que é bairro, ninguém queria ir fazer determinada matéria,
eu queria e andando eu conhecia a cidade.E fui me apaixonando, peguei
esta paixão que te leva a gostar da cidade independente dos defeitos
dela. E na reportagem eu fiz muito isso, andando de ônibus, a pé,
porque é assim que você conhece uma cidade. Aí foi
nascendo um relacionamento com a cidade e eu me interessei muito pelas
pessoas que vinham como eu e não tinham estrutura e que acabavam
destruídas.
ALV-
Vencidos pela cidade...
Loyola- Vencidos pela cidade... Bebel que a cidade comeu.
No fundo este livro representa todos. A cidade é personagem. Eu
sou super urbano, super paulista.
ALV-
Voltando ao nosso encontro na Cultura, andando ali pelo Conjunto Nacional
você foi assediado por três senhores que falavam de uma crônica
sua. Isso é comum, quer dizer você ser reconhecido na rua?
Loyola- As pessoas me reconheciam na rua através
de um desenho que saia no Shopping News onde só tinha uns traços.
Isso acontece muito. E as velhinhas param... Umas bonequinhas. Mas isso
é uma coisa que acontece agora com o Shopping porque já
escrevi em outros jornais-Folha de São Paulo, Jornal da Tarde,
Caderno Dois do Estadão e isso não acontecia.
ALV-
Por que era outro publico?
Loyola- Outro publico e por preconceito. E também
porque acho que sou um cronista muito engraçado-lógico que
isso vai desaparecer-mas eu falo do cotidiano, falo da prateleira do super
mercado... Eu não sou cronista do tipo do Sabino, não conto
estórias, lógico às vezes eu conto estórias.
ALV-
Você usa na sua literatura uma linguagem cinematográfica:
foca num ponto, depois abre e faz um zoom, depois um travelling. Fala
das minúcias e do geral.
Loyola- Você definiu bem. As colunas do shopping
inclusive foram a base para o Verde que violentou o Muro.
ALV-
Então me conta um pouco sobre o teu processo. Cada louco com sua
mania, qual é a tua? A Clarice Lispector escrevia em pequenos papéis
e depois juntava tudo, a Lygia Fagundes Telles anda quilômetros
pensando e toma notas no caderninho. E você?
Loyola- Eu escrevo nos caderninhos, cadernões.
Eu leio um jornal, recorto colo, falo desenhos, esboços, rabiscos.
Anoto o tempo inteiro coisas que eu ouço, que me impressionam,
olhando a janela, isso tudo vai para o caderninho, até que uma
imagem qualquer- e isso é uma constante-me impressiona mais. Depois
veja, eu passei anos indo ao cinema desde a infância, então
tudo é imagem para mim.
ALV-A
linguagem está incorporada em você, a linguagem do cinema?
Loyola- Esta incorporada a imagem... Então de
repente é o olhar de uma pessoa que eu conheço no qual começo
a pensar em cima, tento construir um personagem com aquele olhar e ai
a viagem começa. O Zero nasceu de um olhar. Bebel nasceu de um
suicídio - uma mulher que se atirou de um prédio, eu não
vi, mas ficava imaginando.
ALV-
Ela caindo...
Loyola- Ela caindo, batida de sol. Dentes ao Sol é
um livro que nasceu de uma pessoa que se escondia atrás de uma
arvore e eu ficava olhando aquele movimento de cabeça e comecei
a trabalhar em cima. Isso se passava em Araraquara, porque Dentes ao Sol
se passa em Araraquara e é meu favorito.
ALV-
Você já falou isso. Por quê?
Loyola- Não sei por quê. Talvez porque é
a estória-base real- de um amigo meu que era o mais talentoso da
turma e que se acabou se entregou, não teve coragem, não
tentou fazer as coisas, não tentou fazer o sonho. Esta coisa das
pessoas não tentarem realizar o sonho me impressiona muito. Não
Verás País Nenhum nasceu de uma imagem de um ipê que
enchia o chão de flor e este ipê foi morto justamente por
que, entre aspas, sujava o chão. Uma mulher assassinou, jogou veneno,
etc. Ai eu fiquei pensando na falta de consciência das pessoas em
relação à natureza, à beleza e ai comecei
a pensar que não eram só as pessoas, mas a sociedade, o
governo.E começou a aparecer na minha cabeça a hipótese:
e se não apenas aquela mas se todas as arvores daquela rua forem
mortas, se as arvores daquela cidade,ou daquele pais.Então é
sempre uma imagem e ai começo a ter o livro. A partir desta imagem
eu trabalho vou a todas as anotações em laudas e vou consultando
e retirando coisas que podem ser encaixadas. E evidente que na medida
em que vou tendo a idéia, que eu chamo de situação
e vou desenvolvendo esta situação, de que maneira ela vai
entrar no livro, desde o elevador, frases soltas, a rua, tudo...
ALV-
Ai você já está no clima, tomado pela idéia
do livro...
Loyola- Ai já estou dentro do trem e o trem sai
a toda a velocidade. Nem sempre a idéia inicial que a imagem me
leva é a idéia final. Muitas vezes você desvia a termina
noutro ponto. Isso é muito relativo.
ALV-
E como surgiu a idéia de ir para a Alemanha?Você escolheu
ou foi escolhido?
Loyola- Fui escolhido. O Zero foi publicado na Alemanha
com grande sucesso de critica, não foi sucesso de vendas. A minha
agente literária- ela é apaixonada por literatura latina
americana, ela dirige as coleções latinas americanas na
Zurkamp que é a principal editora alemã, ela fala português,
me mandou uma carta dizendo se que queria passar seis meses em Berlim
- nunca tinha passado pela minha cabeça ir para a Alemanha, mas
também se me convidam de Cotia a Hong Kong eu estou sempre pronto
(risos). Eu vou depois eu vejo.
ALV-
Aliás, você escreveu seguindo até o conselho que o
Cohn Bendit deu ao jornalista amigo dele do New York times que ia escrever
sobre a Alemanha: que ele fizesse uma colagem, escrevendo só o
que percebesse o que sabia de verdade. Você mesmo cita isso no livro.
Você fez uma colagem?
Loyola - Não sei se é uma colagem. É
um painel de onde tirei as coisas que achei mais importantes. Teve muita
gente que criticou o Verde dizendo: ah não é um estudo das
duas Alemanhas, está faltando o livro político. Mas não
fui fazer isso, não sou cientista político. O que me interessa
é o homem dentro do sistema e isso está lá. Agora
hoje a Alemanha é um pais que eu gosto, que eu via com muito preconceito
e que hoje não tenho. Muitos dos meus melhores amigos são
alemães e quando eles são amigos são para valer.
ALV-
Você fala uma coisa interessante no Verde que é justamente
a identificação que de repente encontrou em Berlim e Araraquara-
a luminosidade, alguma coisa que te remetia a um passado, ao teu pátio
interno. Fale sobre isso.
Loyola- Não me peça para explicar isso.
De repente uma luz que só tem em Araraquara e em Berlim tinha isso
e eu perguntava por que em Berlim?Sabe mesmo um dos episódios que
acionaram a feitura do Verde - são vários, mas foi especialmente
a sandália vermelha que está lá relatado que é
o seguinte. Uma tarde eu fui ao cinema em Berlim, à cinemateca-fim
de tarde, tudo muito tranqüilo, muito quieto. Berlim é muito
provinciana quando quer ser e estou olhando os cartazes e vem uma alemãzinha
morena com uma sandália de tirar vermelhas. Ai pronto, eu fui lá
longe e bateu numa época que eu tinha 16 anos, em 1952 e eu estava
vendo uns cartazes, num fim de tarde em Araraquara e eu gostava de uma
menina e ela chegou usando uma sandália de tiras vermelhas. E este
episódio acionou toda a feitura do livro. Ai escrevi para esta
moça que hoje é minha amiga e em cima de quem escrevi a
personagem Ana que considero um dos bons personagens meus, que é
uma mulher de 40 anos que resolve jogar tudo para cima e sair em busca
do amor dela.Enfim eu tenho uma relação muito estranha com
Berlim.
ALV-
Você acredita no acaso?
Loyola- Não acho que haja qualquer coisa gratuita.
Às vezes há acasos provocados. Mas acho que tudo neste planeta
está meio amarrado. Pensando em minha carreira, mesmo em palestras
quando me perguntam se eu sempre quis ser escritor - acho que não,
cai por acaso. Eu fazia jornal, me divertia muito e esqueci aquela estória
de ser diretor de cinema e no final foi o jornalismo que me deu a base
para a escritura - toda aquela vivencia com a cidade, com o país,
com as pessoas, fui tendo um conhecimento da realidade que não
teria se fosse um bancário. Então às vezes penso
porque me transformei num escritor.
ALV-Esse
estilo rápido, sintético, com intertitulos dividindo os
textos, as vezes curtos, as vezes mais longos, sem critério de
espaço causa um efeito fulminante.A sensação é
como se fosse uma bomba explodindo dentro de você e se espalhando
em mil estilhaços. O teu texto é real e surreal ao mesmo
tempo. Você diria que isso vem um pouco do jornalismo?
Loyola - Isso só ocorre no Verde e no Zero. E
vem um pouco do meu aprendizado gráfico, do jornalismo, mas o Zero
é uma reconstituição do caos que era o Brasil na
década do horror e eu via mesmo o Brasil explodir. Agora o Verde,
a minha intenção foi outra: é como se você
pegasse um trem numa estação qualquer e passasse a atravessar
o país e descesse onde bem entendesse. Já o Zero é
mesmo estilhaços porque era o quadro que a gente tinha. Agora lógico
que esta coisa sintética vem do jornalismo, porque a gente chegava
da rua e o editor dizia: dez linhas. Você argumentava: dez? Mas
eu tenho uma matéria incrível! E ele: é dez se quiser
que saia... e ai você escrevia dez, aquele esforço de síntese.Claro
que eu trabalhei isso literariamente.Agora é muito interessante
que o Zero é um livro lido até hoje.Muita gente diz: é
porque foi proibido esta coisa toda.Acho que não, porque dos livros
proibidos o Zero é o único livro que ainda tem presença
em livrarias e já se passaram oito anos.E é muito lido por
jovens de 15, 16 anos.
ALV-
Jovens que não viveram aquela época...
Loyola - E que não estão acostumados com
aquele tipo de literatura. E os garotos me dizem: puxa este livro é
incrível. Eu digo: mas o livro é difícil e tal. Um
dia, um garoto em Porto Alegre me disse: não é difícil.
O livro parece um videoclipe. Eu achei a melhor definição
para o Zero.
ALV-
Você introduziu o vídeo clipe na literatura brasileira?
Loyola-(rindo) Introduzi o vídeo clipe... Porque
o vídeo clipe tem uma musica no fundo e uma série de imagens.
Aqui no livro é uma idéia como pano de fundo e uma série
de imagens.
ALV-
Fale um pouco sobre o teu romance O Ganhador (à época o
ultimo dele). Qual seria a novidade dele em relação aos
outros. Você continua falando da vida urbana, da falta de perspectivas
do homem, agora não mais nas grandes cidades, mas numa pequena
cidade.
Loyola-
Acho que ele tem alguma novidade na linguagem, é um pouco um livro
de suspense, pretende mostrar um Brasil paralelo. Meus personagens estão
sempre à margem, só que exatamente agora neste numa pequena
cidade do interior. Então você vê aquele pequeno mundo,
aquela mitologia interiorana, as loucuras, o misticismo, a maioria das
personagens é inusitada, todos meio loucos. Tem uma mulher que
vira chefe de igreja depois que vê cair cubos de gelo cheios de
peixe dentro.
ALV-Voce
mistura o real e o surreal. Interessante os críticos não
apontarem isso, quer dizer, este parentesco com George Orwell de 1984,
a escritura de Cortazar e outro latino- americanos conhecidos lá
fora.
Loyola-Mas o Brasil é tudo isso. Agora os críticos
não relacionarem isso já é preconceito que existe.
Eles citaram todos os autores nesta linha e nunca citaram Não Verás
País Nenhum. Já um crítico do New York Times quando
fez uma resenha do livro disse que havia quatro livros fundamentais sobre
o que ele chamava de distopia (que é o oposto da utopia). O primeiro
seria: Nós do russo Yevgeny Ivanovich Zamyatin, depois vinha Admirável
Mundo Novo do Aldous Huxley, 1984 do Orwell e o meu Não Verás
País Nenhum. Então a critica estrangeira fala e a nacional
não. Acho que é preconceito mesmo, porque você acha
que vão julgar um autor nacional com a mesma estatura desta gente?

Retrato de Yevgeny Zamyatin pintado por Boris Kustodiev
ALV-
Os seus personagens, me parece, não vislumbram uma luz no fim do
túnel. Você vislumbra?
Loyola- Não acho que não. (lembrar que
estávamos em 1987). Eu mesmo não vejo. Eu vivo uma desesperança
ainda mais com essas pessoas que estão agora no governo.
ALV-
qual é a sensação que você tem lendo jornal
hoje?Política nacional?
Loyola- Apocalipse. É aquilo que o Paulo Francis
falou: o Brasil passou da pré-história para a história
sem ter atingido a civilização. E não vai atingir
porque- ai você diz- mas não é culpa é do povo,
é culpa do governo .É culpa do povo sim, e é culpa
do governo.Nós somos culpados pelo fracasso das coisas que acontecem
aqui.
ALV-
Você viveria fora do Brasil de novo?
Loyola- Se continuar essa coisa que está viveria
até para sempre porque eu não agüento mais. Você
fala: é acabou a ditadura, começou a democracia, mas não
é nada disso. São as mesmas pessoas, mentira em cima de
mentira, os homens não tem mais responsabilidade. Não sei
se estou ficando moralista, mas estou começando a exigir meus direitos
mínimos. Não tenho mais paciência para atravessar
a rua e o cara vir em cima de mim e estou atravessando na faixa. Chegamos
a um ponto em que não existe mais lei, nem ordem, mais nada. Quer
dizer as pessoas entraram nessa paranóia.
ALV-
Qual seria a sociedade ideal para você?
Loyola- Bom para começar sem essas pessoas que
estão no poder. Mas enfim, aquela sociedade onde eu tivesse certa
paz, certa tranqüilidade, onde as pessoas pudessem comer e beber
tivessem trabalho.
Obras do autor
Contos
Depois
do sol, Brasiliense, 1965
Pega ele, Silêncio, Símbolo, 1976
Cadeiras proibidas, Símbolo, 1976
Cabeças de segunda-feira, Codecri, 1983
O homem do furo na mão, Ática, 1987
O homem que odiava segunda-feira, Global, 1999
Romances
Bebel
que a cidade comeu, Brasiliense, 1968
Zero, Brasília/Rio, 1975
Dentes ao sol, Brasília/Rio, 1976
Não verás país nenhum, Codecri, 1981
O beijo não vem da boca, Global, 1985
O ganhador, Global, 1987
O anjo do adeus, Global, 1995
Infanto-juvenis
Cães
danados, Belo Horizonte Comunicações, 1977. Reescrito e
publicado com o título "O menino que não teve medo
do medo", Global, 1995.
O
homem que espalhou o deserto, Ground, 1989
Viagens
Cuba
de Fidel: viagem à ilha proibida, Livraria Cultura, 1978
O verde violentou o muro, Global, 1984
Relatos autobiográficos
Oh-ja-ja-ja
(Diário de Berlim, inédito em português). Tradução
de Henry Thoreau. LCB, 1982
Veia
bailarina, Global, 1997
Cartilha
Manifesto
verde, Círculo do Livro, 1985 e Ground, 1989
Crônicas
A
rua de nomes no ar, Círculo do Livro, 1988
Strip-tease de Gilda, Fundação Memorial da América
Latina, 1995
Sonhando com o demônio, Mercado Aberto, 1998
Teatro
A última viagem de Borges (2005)
Biografias
Fleming,
descobridor da penicilina, Ed. Três, 1973
Edison, o inventor da lâmpada, Ed. Três 1973•Ignácio
de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, Ed. Três 1974
Antologia
Os
melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão, organização
de Deonísio da Silva, Global, 1994
Traduções
Para
o alemão
Null
(Zero), Suhrkamp, 1979
Kein land wie dieses (Não verás país nenhum), Suhrkamp,
1984
Para o coreano
Zero,
Seto, 1990
Para o espanhol
Cero
(Zero), Galba, 1976
El
hombre que espandió el desierto (O homem que espalhou o deserto),
Global - México, 2000
Para o húngaro
(Zero),
JAK, 1990
Para o inglês
Zero,
Avon Books, 1983
And still the earth (Não verás país nenhum), Avon
Books, 1984
Para o italiano
Zero,
Feltrinelli, 1974
Non vedrai paese alcuno (Não verás país nenhum),
Mondadori, 1983
Vietat le sedie (Cadeiras proibidas), Marietti, 1983
Adaptações
Para
o teatro
Não
verás país nenhum. Direção de Júlio
Maciel, Fortaleza, Teatro José de Alencar, 1987, baseado no romance
homônimo
Para o cinema
Bebel,
a garota-propaganda. Direção de Maurice Capovilla, 1986
-baseado no romance Bebel que a cidade comeu
Anuska,
manequim e mulher. Direção de Francisco Ramalho, 1969 -baseado
no conto Ascensão ao mundo de Annuska
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