|
É
quando bate o amor
Leonardo
Fernandes Paiva
__________________
Nome
do Pai
Por
Ana Guimarães
__________________
Curiosa-Idade
Amanda Bigonha
Salomão
__________________
DEPOIS DA
MORTE
Ana Guimarães
__________________
Em estado bruto
Tere Tavares
__________________
Voltar
|
DEPOIS
DA MORTE
Ana Guimarães
Hoje é a terceira vez que venho ao apartamento depois da morte
de meus pais, há quinze dias. Nas duas primeiras não tive
tempo sequer de olhar com atenção ao redor, preocupada que
estava em pegar documentos com urgência para procedimentos burocráticos
da ocasião. Agora também venho atrás de mais alguns,
só que vou procurá-los com calma, não tenho idéia
de onde estejam nem estou afogada na pressa de encontrá-los. Na
verdade, aproveito para saborear ecos do passado. À luz de um abajur
(a de cima, do lustre, queimou), tomo fôlego para embarcar nesse
túnel do tempo, suportar as vertigens que me esperam ao me deparar
com lembranças e reminiscências que povoam tal espaço,
hora solitária que não posso nem quero dividir com mais
ninguém.
Da sala arrumada como se esperasse visitas, um inebriante e familiar cheiro
de comida caseira sendo refogada na vizinhança quase me faz perguntar:
o que é que vai ter pro jantar? Na cozinha, o silêncio. Tampa
de fogão arriada. Tudo limpo como a faxineira deixou, só
um pó fino que teima em penetrar pelas frestas das janelas e em
tudo se depositar. O insistente e delicioso aroma que me invade as narinas
transporta-me às delícias culinárias de minha mãe,
nosso único ponto de identificação, mesmo assim tardio
e com atritos: ela nunca se conformou com a invasão, senão
superação de seus domínios pela filha mais afeita
aos livros do que a qualquer outra coisa, que quando se casou nada sabia
dessa prática e em pouco tempo a dominava, entregando-se de corpo
e alma à gastronomia, fora os outros interesses que permaneceram.
Perco-me em memórias olfativas e gustativas que logo carreiam as
visuais: o peixe frito da feira de quarta-feira, até hoje no mesmo
lugar e no mesmo dia. Os incomparáveis bifes acebolados. O pernil
de porco assado no Natal. O bacalhau da Páscoa. Sonhos polvilhados
com açúcar e canela do lanche no meio da tarde. O imbatível
bobó de camarão das festas de aniversário. Era uma
cozinheira de mão cheia, daquelas que só sabem cozinhar
com fartura, embora gostasse de alardear que era econômica porque
considerava isso uma virtude, e gostava de ser – ou de se pensar,
ou ainda de ser vista como – virtuosa. E só usava ingredientes
de qualidade, ficava doente quando dava sua receita a alguém e
via esse alguém modificá-la, adulterá-la, visando
um menor gasto.
Volto pelo corredor, com todo o barulho interno contrastando com o silêncio
exterior, e no meu antigo quarto de solteira abro a escrivaninha com a
fechadura emperrada, detendo-me em papéis que há muito não
são mexidos. A poeira me faz espirrar sem parar. Um gaiato, de
algum lugar, grita saúde. Respondo amém, rindo, em meio
a mais espirros. De uma grande caixa amassada de papelão saem reclames
os mais diversos, guardados não sei pra que, os números
de telefone ainda com sete algarismos. Meu convite de formatura, um santinho
da primeira (e quase última) comunhão, uma tela desbotada,
pintada por mim na aula de arte, uma tapeçaria não terminada,
retratos em preto e branco. Na estante, a coleção de Monteiro
Lobato.
Empurrando com o dedo, sorrateira, a porta apenas encostada, sinto-me
criança invadindo o quarto dos pais na ausência deles, violando
sua intimidade. Quase posso me ver menina, brincando de mulher adulta,
sapatos de salto alto, colares, batom vermelho borrado na boca infantil,
bolsa maior do que eu, de couro de cobra morta na fazenda do vovô,
uma echarpe de plumas ainda não ecologicamente incorreta. Tudo
isso está aqui, na minha frente, quieto, mudo, mas falando tanto...
remetem a um tempo até anterior a mim, quando só se ia ao
centro – à cidade, como se dizia – de chapéu,
luvas e meias finas. E de bonde. Era chic.
No armário de mamãe, entre cabides de soutache, velhos óculos
de grau e uma pesada bola de marfim para cerzir meias, descubro um baú
cheio de cartas de amor. Jamais soube de sua existência, e minhas
mãos se revestem de um respeito inimaginável ao tocá-las.
Tamanho, que depois de ler o primeiro parágrafo da primeira, resolvo
fechá-la e ficar apenas – por enquanto – contemplando
os envelopes sobrescritados. Aqui se trata da correspondência entre
duas pessoas distintas, um homem e uma mulher, e não mais de meus
pais. Recoloco com reverência o baú, como se fosse uma urna
mortuária com cinzas dentro, no fundo da gaveta onde estava, como
um tesouro escondido. Mais pra frente virei redescobri-lo. Não
se pode viajar por vários países de uma só vez, a
cabeça rodopia e você confunde tudo. Muita informação
ao mesmo tempo.
Na cômoda de papai, apetrechos masculinos largados com displicência,
como se o dono fosse ali e já voltasse: um barbeador prateado no
estojo original, com nota fiscal, garantia e instruções
de uso. Um pente de osso. Uma velha câmera kodac, em excelente estado.
Moedas as mais diversas num saquinho de feltro. Uma calçadeira
e uma piteira. Dessa me lembro bem: um amigo a presenteara, recomendando
que a usasse com freqüência para reduzir a assimilação
das substâncias nocivas contidas no cigarro. E junto com elas o
gosto, o prazer de fumar, brincava papai. E o que ele fazia? Era só
esse amigo chegar de surpresa (é, isso acontecia antigamente),
e ele pegar a bendita piteira e aparecer na sala como quem não
quer nada, assim, casual, fumando seu cigarrinho encamisado, quer dizer,
protegido. Impostura? Fraude? Não. Mentira que dizia a verdade.
Um agrado, um mimo ao amigo que ficava superfeliz e agradecido, crente
que fizera uma boa ação. Que o presente emplacara. Que fora
de muita utilidade. E fora mesmo, só que de outro jeito, para diverti-lo.
Não, ele não queria, em absoluto, ser poupado dos estragos
do fumo. Do prazer da pulsão de morte agindo, desse gozo. Que acabara,
inclusive, conduzindo-o a um enfisema pulmonar progressivo que o faria
passar, mesmo sem mais fumar, os últimos meses de sua vida dependente
de uma bala de oxigênio instalada à cabeceira da cama. E
quando ficava algum tempo sem, era horrível. A boca aberta como
um peixe fora d’água, se debatendo, tentando respirar, com
a gente impotente à sua volta. Abrindo o emperrado gavetão
inferior, no meio de tantos postais por ele recebidos, sinto, agora, rodopiar
a cabeça e um grande arrepio a percorrer o meu corpo, precisando
me sentar para ler um amarelado cartão, datado de priscas eras.
Na frente, um desenho de uma criança com um bebê de proveta
nas mãos. Dentro, os seguintes dizeres, com minha letra miúda:
pai, já sei realmente como se faz um filho. É só
criá-lo com o mesmo amor com que você me criou. Feliz dia
dos Pais, sua filha querida!
Ana
Guimarães é Carioca, psicanalista e publica nos seguintes
sites além do seu blog:
|