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O que é, Cultura?
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I
love Rio ou
Ai de ti Copacabana
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Gramsci e Tillich:
o intelectual e a democracia
Prof. Dr. Jorge Pinheiro*
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A
Crítica de Schopenhauer à arte medieval
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I
love Rio ou
Ai de ti Copacabana
Ana Lúcia Vasconcelos
Eu estava lendo Para Sair do Século XX, do Edgar Morin, filosofo
francês, ex-militante do Partido Comunista Francês, ex-combatente
da Resistência Francesa e ferrenho contestador do estalinismo,
intelectual lúcido e vivendo na época, acredito que continue,
em Paris onde nasceu em 1921 onde era (também na ocasião)
diretor do Centre National de la Recherche Scientifique, para escrever
uma matéria sobre o livro, quando, no final da noite de segunda
feira de um dia de 1994, vi o programa Roda Viva da TV Cultura-infelizmente
não consegui a informação sobre o dia exato porque
a emissora não fornece este tipo de informação
por telefone e via email eles não respondem.
Fiquei estarrecida com o que ocorreu ali e decidi escrever sobre o Rio
de Janeiro, cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, coração
do meu Brasil e sobre - na época a atualíssima, intervenção
do Exército, não exatamente para ajudar a policia carioca
na luta contra o crime organizado, mas para tirá-la de cena,
já que contaminada, amalgamada, cúmplice dos criminosos.
Este era o tema da entrevista com o cientista político Hélio
Jaguaribe militante das esquerdas mais esclarecidas brasileiras, filho
de pais exilados pela ditadura Vargas e, portanto com experiência
de luta política na família desde os cinco anos, quando
os pais foram para o exterior. Carioca Jaguaribe viveu 14 anos fora
do Brasil e cinqüenta no Rio, (até aquela época)
autor de vários livros importantes, e um dos mais atuantes intelectuais
naqueles anos de chumbo pós 64, de terror e tortura. Na época
Hélio Jaguaribe estava na crista da onda da imprensa nacional,
patrulhado por seus pares, quase trucidado por ter aceitado um ministério
no governo Collor.
Aliás,
esta história ele contou, já no final do programa, quando
os jornalistas aproveitaram o gancho da pergunta sobre a aceitação
de possíveis cargos no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Jaguaribe disse que não ia aceitar cargos por estar comprometido
com uma pesquisa importante que ia realizar nos próximos anos,
mais exatamente um estudo crítico sobre a História do
Brasil. E sobre o ministério Collor a história foi a seguinte:
foi chamado pelo então presidente para ser notificado que as
pessoas que ele criticara (em artigos na imprensa carioca) haviam sido
retiradas e ele (Jaguaribe) devia auxiliá-lo (Collor) no seu
governo.Ele aceitou, mas assim que o barco começou a fazer água,
saiu. Ficou arrependido, patrulhou um jornalista? Não, respondeu
Jaguaribe, mas deixou registrado, não exatamente na seqüência,
que considerava o Brasil ingovernável sem uma reforma do Legislativo.
Ver?
veremos...
Voltando a Morin, mais exatamente para o primeiro capítulo deste
livro que é um balanço dos últimos 70 anos do século
XX e que tem este título: Ver? Veremos... onde
ele faz um breve relato de um acontecimento banal de sua vida cotidiana,
para provar como podemos ver e não ver, de como nossos olhos,
nossa percepção pode nos enganar.
Um dia, atravessando uma rua de Paris, viu um carro pequeno avançar
o sinal e atropelar um motociclista que atravessava tranqüilamente
o sinal verde. Quando se aproximou para dar testemunho em favor da vítima
ficou sabendo que na verdade fora o motoqueiro que avançara o
sinal e batera na traseira do carro, chegando a ver o amassado. Ou seja,
comprovou um fato conhecido seu e que já demonstrara em obra
anterior: o componente alucinatório da percepção
que pode ser provocado ou orientado por nossa afetividade, mas pode
resultar simultânea ou principalmente das estratégias ou
das estruturas de racionalização que utilizamos em toda
a percepção.
Por isso ele acredita que “o risco da ilusão” não
provëm apenas das perturbações afetivas ou/ e das
estruturas mágicas/arcaicas do espírito humano, mas da
racionalidade própria de toda a operação de conhecimento.
Isso significa que devemos desconfiar do testemunho dos “nossos
olhos” pois não são eles que vêm, mas é
o nosso espírito, por intermédio dos nossos olhos.
Daí Morin dizer que é preciso ser prudente não
apenas em relação ao depoimento de outrem, mas daquele
que parece mais digno de confiança: o nosso próprio. Por
isso ele propõe uma estratégia de conhecimento, onde “como
sabem os historiadores e policiais, nada tem valor absoluto isoladamente,
nem mesmo a mais sincera das percepções”. E Morin
reflete sobre a necessidade de se saber ver e explica como se fazer.

Para
saber ver, ele diz, é preciso saber pensar o que se vê.
Saber ver implica, pois, saber pensar, como saber pensar implica saber
ver. Mas saber pensar não é alguma coisa que se obtém
pela técnica, receita, método. Saber pensar não
é só aplicar a lógica e a verificação
aos dados da experiência.
É preciso, segundo ele, “compreender as regras, os princípios
que regem o pensamento e que nos faz organizar o real, isto é
selecionar, privilegiar certos dados e eliminar, subalternizar outros.
Precisamos adivinhar a que impulsos obscuros, a que necessidades de
nosso ser, a que idiossincrasias de nosso espírito obedece ou
responde aquilo que consideramos como verdade.”
Numa palavra, precisamos saber pensar o nosso próprio pensamento.
“Precisamos pensar-nos ao pensar, conhecer-nos ao conhecer. E
essa a exigência fundamental que não é apenas do
filósofo profissional e não deve estender-se só
aos homens de ciência, mas deve ser a de cada um e de todos.”
Verdades
e mentiras
Muito bem e o que isso tem a ver com a entrevista do Hélio Jaguaribe
sobre a intervenção do Exército no Rio de Janeiro,
para combater os traficantes que tomaram os morros e mantém a
população como reféns, enquanto lhe oferece guloseimas
sob a forma de proteção que é afinal opressão,
domínio?
Pois pasmem: o Roda Viva de 1994 foi exemplar no sentido de demonstrar
o conteúdo alucinatório das percepções das
pessoas ali presentes, a ponto do âncora do programa, o jornalista
Heródoto Barbeiro, a certa altura perguntar aos jornalistas cariocas
que eram maioria ( Eduardo da Silva, coordenador da reportagem da sucursal
do jornal O Estado de São Paulo, Ricardo Boechat, editor de O
Globo, outro que lamentavelmente não anotei o nome, de O Dia
e Luis Weiss, paulistano sem especificação de veículo,
se eles estavam falando da mesma cidade.
Ou seja, parece que eles estavam vendo uma cidade diferente da descrita
pela mídia em geral e pelo cientista político Hélio
Jaguaribe em particular. Aliás, uma das primeiras perguntas do
Boechat foi esta: o senhor mora no Rio de Janeiro? A que Jaguaribe respondeu
contando aquela historinha que narrei no inicio, ou seja, fora os 14
anos que passou exilado com os pais, ou exilado por ele mesmo, vivia
ha exatos cinqüenta anos no Rio.
Digamos que cinqüenta é um bom número para uma pessoa
medianamente inteligente saber “duas ou tres coisas” a respeito
de qualquer coisa. Mas no caso especial do entrevistado-pessoa culta,
inteligente, civilizada, um intelectual no verdadeiro sentido do termo,
engajado com as causas mais justas da Nação, um estudioso
das ciências políticas e sociais, com livros publicados
e uma vida dedicada ao país, é suficiente para ter idéias
claras sobre qualquer coisa, especialmente sobre sua, digamos, cidade
natal.
Pois o Eduardo da Silva chegou insinuar se “tudo que estava sendo
veiculado sobre o Rio de Janeiro não era um pouco coisa da mídia,
manobra das elites (elites) porque veja só: o Rio de Janeiro
era o único Estado que tinha prendido todos (todos? quais?) os
bicheiros que tinha prendido um juiz que tinha detectado fraude nas
eleições, etc. Enfim, se esta coisa de crime organizado
que se dizia não seria exagero da oposição? Afinal
porque só o Rio estava sendo escolhido se havia corrupção
em todo o Brasil?
O jornalista de O Dia, na mesma linha dizia que sinceramente
ele que também era carioca não sentia isso que o professor
Jaguaribe sentia (daí ter perguntado se ele morava no Rio) essa
coisa opressiva, com assaltos e coisa e tal, na cidade do Rio de Janeiro
que ele que não considerava que lá houvesse “crime
organizado”.
Perplexa, não acreditando no que estava acontecendo ouvi o fleumático
Jaguaribe responder, dizendo não conhecer uma única pessoa
que não tivesse sido assaltada pelo menos uma vez no Rio, e que
sua mulher escapara da morte por milagre, já que estivera sob
a mira de um revolver durante duas horas na casa dos pais. E quanto
à “organização” do crime no Rio, ele
também não acreditava que fosse nos moldes da organização
do Exercito, por exemplo, ou da Igreja Católica, pois afinal
neste particular os chefões do tráfico se matam com tanta
eficiência que não dá para manter uma hierarquia,
ou seja, a hierarquia até existe, mas com alta rotatividade dos
mandantes.
E a coisa foi nesta linha, à exceção das perguntas
dos jornalistas paulistas que tentavam uma reflexão mais profunda
sobre a problemática. Os cariocas do começo ao fim do
programa insistiam que as coisas não eram bem assim, como se
fosse um complô armado pelo resto do país contra o rio
e eles como advogados do diabo-aqui o sentido é literal-defendiam
sua cidadela com unhas e dentes.
No começo fiquei irritada, mas na seqüência entrei
na onda da condescendência do cordial Jaguaribe e viajei no passado
me lembrando da minha estadia (morei alguns meses no Rio em 86), quando
a cidade ainda era nas palavras do escritor e jornalista carioca Eduardo
Novaes “um inferno relativo” e de como eu quase enlouqueci
com a mistificação dos cariocas”, com o conteúdo
alucinatório das suas percepções onde verdades
viram mentiras e mentiras, verdades.
Inferno
ou paraíso?
Até então o Rio para mim, como turista, eram bons hotéis,
maravilhoso astral, leveza para contrastar com o peso de São
Paulo, praias, Cabo Frio, Búzios, Angra dos Reis, Paraty, enfim
era o paraíso. Bem diferente é morar no Rio, trabalhar
lá. Começa que ninguém entende como, porque, se
troca o Eldorado (São Paulo) por aquele balneário (é
assim que os cariocas chamam o Rio). Era isso que os jornalistas da
Bloch me perguntavam. Eu dizia apontando para a paisagem deslumbrante
que se tem do prédio da Manchete no Flamengo defronte ao mar:
para olhar isso aí.
Eldorado, a palavra, confesso ter lido nos relatos dos viajantes estrangeiros
quando se referiam ao Brasil, a terra onde se plantando tudo dá.
Aqui eles se referiam a São Paulo, terra onde você tropeça
em pepitas de ouro e onde todos são magnatas. Esta, aliás,
foi outra palavra que ouví, ressuscitada pelos cariocas. Paulista
para carioca é magnata.
Então ficava no ar a pergunta: o que uma magnata paulista está
fazendo aqui perdida no Rio de Janeiro? E eu que só queria descansar
um pouco da selva de pedra, tinha que ficar justificando. Porque, item
dois: a paisagem é deles, o balneário é deles.
O diretor de uma editora de livros de arte quando soube que eu era paulista
nem disfarçou, recostou na poltrona do seu gabinete refrigerado,
respirou fundo e disse: paulista, eu já confio mais. Em seguida
me expôs o plano: eu devia fazer um texto sobre Paraty - como,
aliás, todos os redatores que ali estavam-de graça, tipo
teste, porque eles pretendiam lançar um livro de arte sobre a
bela cidadezinha colonial. Certo? Um teste de redação
para pessoas de experiência de mais de vinte anos de jornalismo
e centenas de matérias publicadas até internacionalmente.
Enquanto eu me levantava da poltrona pensava: é carioca, não
confio nada, com as devidas desculpas aos cariocas que não tem
exatamente este perfil.
Mas iso era apenas o começo da quebra da imagem paradisíaca
que eu tinha do Rio. Fiquei muito abalada com a miséria que grassa
naquelas bandas, especialmente em Copacabana e adjacências que
era onde eu estava morando. E o mais terrível é que a
miséria convivendo com o luxo mais acintoso dos hotéis
e prédios e lojas, etc. É a democracia brasileira. Mas
fiquei especialmente tocada com um rapaz negro que andava com uma turma
de homens feitos que viviam bêbados dia e noite. Na seqüência
praticamente adotei o menino (ele tinha 19, mas um leve retardo o que
devia dar uma idade mental de 14) dando comida, dinheiro, ele tinha
uma ferida na perna, e vivia com uma faixa. Cheguei a levá-lo
a um hospital para fazer curativo até que resolvi fazer uma coisa
mais definitiva e liguei para a família dele (não acreditava
que ele tivesse uma) que veio buscá-lo de carro. Pasmem, os primos,
com quem ele morava, tinham uma joalheria de objetos de prata no morro
não sei das quantas, já não me lembro apesar de
ter ido visitá-lo conforme prometera.
Vocês sabem o que é subir um morro carioca naquele calor
infernal: é o calvário. No Rio você não desce
aos infernos, você sobe. Mas o eu quero contar é o seguinte:
a avó do garoto-Marcelo-perguntou lá pelas tantas se nós-eu
branca, magnata paulista, 42, ele negro, com 19, mas idade mental de
14, eu morando em Copacabana, bem vestida, com dois perfumes franceses
- inventei isso no Rio para suportar o cheiro das calçadas, ele
vestido de molambos, (caído na sarjeta) nos tínhamos conhecido
na praia.
Sabe que apesar do problema mental o garoto olhou para a avó
com uma cara de “meu Deus o que eu tenho que suportar”,
e eu pensei: na praia? Bom se você quiser foi na praia de Copacabana-eu
na calçada e ele na sarjeta. Ai de ti Copacabana, ai de ti Rio
de Janeiro, ai de nós Brasil com este contingente de negros,
outra cultura, convivendo com brancos inteligentes e cultos ou ignorantes
e canalhas e/ou inteligentes e canalhas, negros ignorantes ou cultos
idem, ou ignorantes, mas maravilhosamente afetivos, vivendo alucinados
(será o sol na cabeça?), seria preciso um estudo sério
sobre essa miscigenação para entender o que se passa.
Só para resumir (a história é longa) o problema
do garoto era mais embaixo-fora bem sucedido - daí a classe na
sarjeta-mas a mammy o rejeitava (vi com meus próprios olhos)
e o papy era viciado em drogas (que droga, hein!). Só restava
o auto-exílio nas sarjetas de Copacabana, um inferno relativo.
Ou seja, uma ovelha branca no meio das ovelhas negras, mas todo mundo
dizendo o contrário.
Não
vi e não gostei
E finalmente vou encerrar (tem muito mais) com o último episódio
desta matéria que se poderia chamar: Subsídios
para se entender a alma carioca. Fiz uma matéria para
a revista Manchete, sobre a ópera O Navio Fantasma,
de Richard Wagner dirigida pelo Gerald Thomas com elenco internacional
que foi um refresco no meio de tanta loucura. Depois de várias
peripécias - o fotógrafo não foi no dia marcado
para a imprensa fotografar (que o Gerald também não é
fácil, aliás, acho que tem razão porque senão
fica uma balbúrdia com fotógrafos invadindo a cena e atrapalhando
o ensaio, etc) do chefe de reportagem (numa crise alucinatória)
ter cogitado de um possível romance entre eu e o protagonista
da ópera (o maravilhoso barítono Carmo Barbosa) digamos,
se fosse ele não tinha nada com isso, mas não era, eu
estava just fazendo uma matéria e ele estava confundindo alhos
com bugalhos, a minha matéria, séria, não foi publicada.
Em seu lugar saiu uma debochada, bem ao gosto dos cariocas com este
título: Senta que o Gerald é manso. Para
quem não sabe, Senta é o nome da protagonista feminino
da ópera. E a minha cara com o elenco, com o Gerald, comigo mesma
no espelho?Sentiram o drama? Mas o pior foi o título da matéria
(uma das) que saiu no jornal O Dia, aquele cujo editor
agora no Roda Viva dissera que “as coisas no
Rio não eram bem assim (essa violência, este crime organizado,
alguém viu isso por aí?): Não vi e não
gostei. Digamos, parafraseando De Gaulle: não é
um jornalismo sério”.
Ouví gente repetindo a frase nos elevadores, porque de fato o
Rio é uma província, um balneário como eles dizem,
e aqui não falo como pejorativo apenas constatando o fato, todo
mundo fica sabendo de tudo na mesma hora. Assim, quando saí do
Rio, de volta para São Paulo, sem olhar o mar, estava com uma
conjuntivite que não cedia apesar dos remédios. Na verdade,
até uma criança de cinco anos sabe disso, era apenas a
minha vontade de não ver mais aquela loucura, aquela mistificação,
aquela miséria do Rio de Janeiro, ao lado da riqueza, e da beleza
indescritível da cidade,
Mas foi sair do estado, entrar em São Paulo e a conjuntivite
milagrosamente desapareceu. Caí doente tres dias delirando sem
febre. Foi o balanço trágico a minha estadia na cidade,
na maravilhosa São Sebastião do Rio de Janeiro, aquela
que nos seduz. Não queria por um bom tempo, ver o Rio pintado
de ouro, numa gravura na parede.
Mas olha como é a vida: em maio de 92 tive que voltar lá
para fazer uma entrevista com o Leandro Konder, filósofo e professor
de filosofia da educação de duas universidades cariocas,
especialista em marxismo, para minha tese de mestrado. Preparei-me durante
dois meses para voltar ao Rio. Finalmente comprei e fui. Já na
Rodoviária de Mogi Mirim, onde morava na época, encontrei
uma jornalista da sucursal carioca da Veja e fomos juntas já
enturmadas. Detalhe importante: morando há cinco anos em Mogi
Mirim nunca encontrara um ou uma jornalista na Rodoviária, nem
mesmo colegas da cidade, quanto menos uma que trabalhava no Rio. Lá,
ela me fez esperar com ela, carona do namorado, contatado pelo celular.
E eu estava novamente naquele Rio com pessoas afáveis, maravilhosas,
amigas, e aquela antiga sensação de leveza e solidariedade
dos cariocas. Eles me deixaram na porta do prédio onde eu fiquei
hospedada.
No dia seguinte, desci para tomar café e entrei ao acaso no primeiro
café que encontrei. Estava novamente em Copacabana e com vontade
de curtir o Rio como nos velhos tempos. Dois minutos depois eu estava
conversando com a moça que tomava café ao meu lado, amiga
do português, dono do bar. Ela era gerente de um restaurante que
ficava ali perto, onde fui almoçar depois. Enfim, foram tres
dias maravilhosos, era o Rio que eu amava, com pessoas solidárias,
afetivas, comunicativas, como só la eu vi. No dia em que fui
embora, desta vez querendo ficar-parada no semáforo da avenida
Nossa Senhora de Copacabana esperando o táxi, ou aqueles famosos
ônibus cariocas com ar condicionado, para ir para a Rodoviária,
não me lembro, enquanto fazia o movimento de colocar a mala no
chão para esperar o sinal verde, ouví uma voz de mulher
me dizer: adorei suas unhas.
Nesta
fração de segundos, em que endireitei o corpo, o que fiz
olhando para as minhas unhas que diga-se estavam realmente bonitas,
“ a realidade plausível” como disse Fernando Pessoa
no seu poema A Tabacaria, “caiu de repente em
cima de mim”. Imagina-te na multidão, em plena avenida,
ser escolhida por alguém que diz que adorou suas unhas. Primeiro
quem quer que fosse, não poderia ter visto minhas unhas. Este
movimento que durou uma eternidade me deixou chocada, emocionada, reconciliada
com o gênero humano. Era Rio puro, era o Brasil dos velhos tempos,
que maravilha!
Só então me voltei para olhar, esperando o quê?
Era uma voz bonita, forte, esperei ver uma mulher bem vestida, carioca
típica, cheia de bijuterias, não sei porque me veio esta
imagem. Surpresa: era uma mulher mulata, simpática, pobremente
vestida, mas com grande classe. Perguntou se eu era médica (eu
estava de azul e branco) porque ela tinha sido enfermeira. Sinceramente
não me lembro mais o que ela disse na seqüência porque
eu viajei no lance, mas me recordo de algumas frases desconexas, e o
sinal abriu. Nos despedimos, ela me desejou boa viagem-a mala não
deixava dúvidas-e eu saí do Rio de Janeiro em estado de
graça, desta vez olhando o mar.
Vocês podem perguntar: em estado de graça só porque
alguém falou com você na rua? Não, porque em várias
cidades daqui e do exterior isso me aconteceu e acontece. Apenas no
Rio eu tenho a sensação-tinha porque faz tempo que não
vou lá-de estar no lugar que tem as pessoas mais comunicativas
e simpáticas do mundo. Daí que dá para entender
as perturbações de percepção dos jornalistas
cariocas, no caso especifico que estou relatando-quando eles insinuam
que “não era bem aquilo que acontecia lá”.
Acontece que acontecem coisas terríveis ao lado de coisas maravilhosas-é
um povo muito aberto o que às vezes dá samba. Merece um
estudo sério.
De qualquer forma dá para perceber que o morro é só
a ponta do iceberg: a parte submersa que é 90% está na
planície e não apenas no Rio, está no Brasil todo,
como Medellín é a parte visível do iceberg do narcotráfico
boliviano. Enfim a pergunta é: por que o Rio, mais exatamente
os morros cariocas foram os escolhidos, ou melhor, por que eles se deixaram
escolher?

Pensando, como pede Edgar Morin, eu tenho algumas hipóteses:
primeiro o Rio, ao contrário de São Paulo-que tem uma
tradição de trabalho-tem uma tradição de
lazer e isso por vários motivos. Por ser a cidade maravilhosa-é
difícil tirar os olhos dela.Depois por ter sido sede, desde os
seus inícios do governo federal-primeiro da Corte de Dom João
VI, depois capital federal, terra onde grassava fácil a corrupção,
os favores, as propinas. Terceiro, é um dos mais famosos balneários
do mundo, com turismo internacional correndo o ano todo, com gente em
trânsito, em viagem e você sabe como é estar em trânsito?
É estar descompromissado, é estar desligado da realidade,
é estar curtindo uma, é estar em transe. Daí as
perturbações de percepção dos cariocas e
a impressão “que as coisas não são bem assim”.
A abertura do Rio é o seu calcanhar de Aquiles, seu ponto fraco,
a brecha por onde entram todas as coisas-boas e ruins.
Mas aguardemos os próximos capítulos da novela. Enquanto
isso fico com a frase, citada por Edgar Morin sobre esta problemática
toda de saber ver e saber pensar o que se vê de Ortega y Gasset:
“No sabemos lo que nos pasa, y eso es lo que pasa”.
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