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Terças Poéticas - __________________
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Moda/Memória A
Dialética da Moda
Para comemorar o centenário do paulista Flávio de Carvalho,
arquiteto, engenheiro, cenógrafo, artista plástico, desenhista,
antropólogo amador, dos mais criativos do cenário nacional
(1899-1973) o Centro de Documentação Cultural “Alexandre
Eulálio” (CEDAE) do Instituto de Estudos da Linguagem
(IEL) da Unicamp, apresentou de 10 de agosto a 10 de outubro de 1999,
a exposição Dialética da Moda. A mostra teve como
ponto de partida a primeira exposição do conjunto de desenhos
do controvertido artista plástico, arquiteto e inventor realizada
no mesmo local em 1996.
Na verdade o arquiteto e artista plástico publicou, de março
a outubro de 1956 uma coluna ilustrada com desenhos no Diário
de São Paulo, sob o título A Moda e o Novo
Homem. Mas o Centro de Documentação “Alexandre
Eulálio” que dispõe dos originais desses artigos,assim
como todo o arquivo do artista, optou por este título, que considerou
mais preciso: Dialética da Moda.
Enfim para Flávio de Carvalho na análise de Luiz Carlos, os trajes na sua variedade prodigiosa seguem outras e inesperadas leis, havendo uma poética das formas: a predominância das linhas retas e paralelas nas roupas. Mudanças na linha da cintura exprimiriam o luto e a tristeza, seriam em suma antifecundantes na sua bizarra expressão. Já as formas curvilíneas traduziriam a fecundação prolixa e a euforia, enquanto o domínio das linhas retas em particular revelaria a indistinção entre formas do vestuário masculino e feminino, assinalando épocas históricas denominadas púberes. Ou seja, épocas de recomeço para a sociedade em geral guiada por um espirito iconoclasta
A moda do séc. XIV do ventre saltando (imitando por necessidade talvez, magicamente, a gravidez) aparece numa época de grandes distúrbios sociais. A cauda, as mangas compridas (iniciadas no séc. XI, aproximadamente) e o comprido véu do chapéu cônico indicam um período de luto. A cauda e a manga comprida são provenientes do povo e daqueles que, em Roma, eram taxados de infâmia. Na época de Luiz XIV, a cauda da rainha tinha comprimento de 13 metros. Durante o Terror em 1790, aparece a moda dos ventres postiços, imitando a gravidez, usada por casadas e solteiras. Esta moda logo tomou conta do mundo elegante e desapareceu logo após os efeitos do Terror. A moda sugere uma compensação pelos resultados do Terror. *
“E aqui Dantas lembra que o traje masculino imaginado por Flávio de Carvalho naquele mesmo ano de 1955: o saiote do escândalo nas ruas de São Paulo exemplificaria o fenômeno”.
Segundo Flavio, explicado por Luis Carlos Dantas “o movimento da moda-mais um paradoxo-é ascendente, vem de baixo. Só posteriormente as classes altas tornam-se o foco de disseminação. “Ela nasce no sofrimento e na dor, e seus inventores-o homem em farrapos ou ainda a loucura vagando pela rua, são representantes da revolta e da anti-hierarquia”.
De tempos imemoráveis, o homem em farrapos é um desclassificado, um posto de lado pela sociedade. Ele é o totalmente sem classe e sem hierarquia, por ser o último, é o homem para o qual todas as portas se fecham. É ele um ser submetido, permanentemente, à dor, à miséria e ao desprezo. O homem em farrapos é o contrário do homem investido de autoridade, o contrário do homem uniformizado e o oposto do homem endurecido pela disciplina. A sua situação, de último dos últimos, lhe concede uma forma de libertação da disciplina hierárquica e, por ser o último, está ele em estado semelhante a um estado anti-hierárquico de começo. DSP, 20/05/1956.* Memória dos primórdios
Para Flávio de Carvalho podemos encontrar nas formas do vestuário
usadas pelo homem ao longo da história a memória dos primórdios.
Assim, nas épocas em que as mulheres arrastam longas caudas em
seus vestidos, ou as abas das casacas masculinas se alongam, são
momentos em que se carece do sentimento de segurança. E as razões
longínquas do fenômeno são o desaparecimento do rabo
primitivo nos ancestrais pitecóides do homem.
Cauda associada à forma Reta Paralela, forma anti-fecundante de mulher do século XV, o século que precedeu ao aparecimento dos primeiros tipos de verdugadas. O todo é marcado pela tristeza de linhas e pela recusa à fecundação. É o século do luto proveniente das gigantescas comoções sociais.* “Toda vez que os abalos profundos dos acontecimentos produzem um desejo de regressão e apaziguamento, o apêndice extinto, conservado difusamente na memória coletiva, surge sob a forma dessa tendência particular da moda.” Sobre a questão veja o desenho representando a imperatriz Josefina durante a sagração de Napoleão, com seu vestido de aparato e longuíssima cauda, cercada de sáurios e antropóides. Mesmo em nossas vidas, os vestidos de soirée com uma ligeira cauda, traduziriam um idêntico desejo de resguardar-se numa ocasião em que a mulher está mais exposta ao assédio.
A Imperatriz Josefina, com sua longa cauda, ajudava a equilibrar a sensação de insegurança de Napoleão. DSP, 22/04/1956.* Os chapéus seriam outro elemento forte da mitologia onírica de Flávio de Carvalho, segundo Dantas. “A sua conformação derivaria, num primeiro tempo, dos animais marinhos arquetípicos: conchas, moluscos, assim como foi a marinha a origem da vida. A cabeça, a parte mais importante do corpo e sede dos sonhos, busca revestir-se com essas formas ancestrais.A seguir , tornando-se progressivamente mais complexos, os chapéus ganhariam abas, isto é, passariam então a assimilar as formas aéreas dos pássaros.”
Chapéu do ano de 1690, onde a forma da asa do pássaro se encontra já bem definida. É um chapéu intermediário que aponta para o desejo de ter alma. Trata-se de uma sobrevivência do início de um período primitivo, momento em que começava a grande agitação anímica.*
Por tudo isso Luiz Carlos Dantas conclui que esta Dialética da Moda, na medida em que nos remete a “esses meandros de raciocínio puro nonsense em alguns casos”, é de fato mais poesia que história de moda. “Os dados precisos da história da moda estão subvertidos pelo devaneio, pelo humor persistente, pelo gozo da liberdade de fabular. Entretanto, para além da inteligencia dessas páginas, há uma qualidade misteriosa no todo, um estranho rigor ou justeza que independe da estrita probidade com que uma matéria é articulada e desenvolvida”.
Essas e outras fotos da exposição estão disponíveis no site do Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio” e podem ser visualizadas neste link
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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