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A partida do Igor
Ana Lúcia Vasconcelos 

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A partida do Igor


Ana Lúcia Vasconcelos 

 

       No mês de maio de 2009 recebi uma noticia trágica: a morte do nosso colaborador e amigo virtual Igor Bezerra em Salamanca, Espanha onde estava estudando por uma amiga comum- Ana Carla Ribeiro. Ele era de João Pessoa, Paraíba e apesar de te-lo conhecido pouco e só nos termos falado pelo Messenger e emails sentia claramente que ele era um rapaz inteligente, culto e maduro para a idade: 22 anos-faria 23 no dia 8 de junho de 2009. Formado em filosofia escrevia no seu blog:

 http://estroinaesuperfluo.blogspot.com/

artigos sobre artes plásticas, cinema: reflexões sobre assuntos que o interessavam e que demonstravam já sua cultura precoce. Era um jovem culto que amava filosofia e que particularmente curtia o genial escritor argelino que morreu jovem e de forma trágica em Paris: Albert Camus.

     O choque foi grande e na sequencia a Ana Carla me colocou em contato com a mãe dele que no final de maio me mandou um email emocionante:
“Cara Ana Lúcia: sou a mãe de Igor Bezerra. Estou escrevendo para informar que ele morreu no dia 16.05.2009, em Salamanca-Espanha. Seu corpo chegará a João Pessoa amanhã, 31.05.2009 e o sepultamento ocorrerá às 10hs do dia 1 de junho de 2009. Escrevo porque vi uns artigos dele no site Sal da Terra Luz do Mundo. Kátia”

     Minha resposta foi uma longa carta onde eu tentava consolá-la já que conheço a dor de uma mãe que perde um filho- já que perdi um com 23 anos. E mesmo acreditando na vida eterna e tendo certeza que um dia nos encontraremos isso não significa que eu não fique chocada e sentindo profundamente a perda. Na verdade o que perdemos é a presença física: ficam as lembranças e a presença espiritual e a dor que, é muito intensa no começo, também passa graças a Deus.
     Mas como não posso nem quero impor minhas idéias acerca da morte que para mim não existe: acredito que a vida é eterna inclusive porque justamente depois da passagem do meu filho tive uma experiência com isso que é muito difícil de explicar.Sei apenas que eles estão vivos de outra forma, são agora de uma matéria mais sutil e estão num outro plano do imenso Cosmos, com certeza livres de muitos sofrimentos, angustias e coisas do tipo que nos assolam neste vale de lágrimas.Cada um na verdade tem que elaborar suas perdas e isso é individual e impossível de ser partilhado na essência.O que podemos fazer é apenas ajudar- nos uns aos outros a carregar o fardo nesta hora mais aguda.
     Agora para escrever esta nota entrei em contato com a Kátia novamente para saber como ela estava e pedindo uma foto do Igor e ela me respondeu agradecendo. “Ainda não posso dizer que estou bem, apenas vou tocando a vida e fazendo o que deve ser feito. Estive em Salamanca para conhecer os colegas de Igor e os professores dele. Realmente ele deixou uma boa imagem por onde passou. Conseguiu terminar o trabalho de final de Master cuja defesa seria agora no dia 3 de julho de 2009. Mesmo assim, a Universidade publicou e entregou-me.”
    E me remeteu o email de um amigo do Igor que conhecera em Salamanca: Hiram.

Señora Kátia:
 
Le escribo esta carta, la cual Fabio me ha hecho el favor de traducir, para dirigirme hacia usted con un profundo afecto y con el respeto por la memoria de su hijo, mi amigo Igor, quien no solo me enseño el valor que se necesita para estar en un país extraño en que, como él decía, “no somos mas que extranjeros” refiriéndose a Albert Camus, sino sobre todo la nobleza que se necesita para abrirse con las personas y conocer en ellas, un nuevo horizonte desde donde ver el mundo.  Por eso le digo que su hijo me hizo reflexionar cuando constantemente me hablaba de usted y de los sacrificios que mas de una generación de su familia había hecho, todo para que Igor, y su maravillosa forma de ver la vida, pudiese tener una oportunidad en este mundo de indiferencia. Por eso señora Katia,  le estoy muy agradecido, por haber educado a un hijo maravilloso que en unos pocos meses se convirtió en un amigo sincero, genuino y sobre todo, capaz de triunfar. Inmediatamente cuando la vi, vino a mí la viva imagen de su hijo y todo el recuerdo que tenia de él. Por ello le estoy muy agradecido yo a usted señora Katia, gracias por venir a Salamanca.Por ultimo doña Katia le recuerdo que tiene en mi un amigo y una ayuda en todo lo que se le ofrezca, y le aseguro que estaremos en contacto. Ha sido un placer conocer a una mujer con tanta fortaleza. Siempre llevare el recuerdo de su hijo el cual ahora vive en su madre. Muchas gracias por sus palabras, recuerde que en México tiene usted su casa. Sinceramente. Hiram Padilla Mayer

Sua resposta ao Hiram:
“Estimado Hiram

      Foi muito grato para mim ter conhecido você, e saber que por um breve tempo meu filho conviveu com uma pessoa tão boa, tão refinada, tão educado, enfim um gentleman.Eu e minha família seremos eternamente gratos a você pelos momentos que foram vividos ao lado do meu amado Igor.Aqui em João Pessoa, onde moro, estou à sua inteira disposição, esperando que a amizade que existia entre você e Igor, continue. Estarei torcendo para que tenha êxito no seu doutorado e possa dentro de alguns anos, transmitir seus conhecimentos para outras pessoas em seu país. Um abraço afetuoso. Kátia ”.

    Katia me contou que o Igor estava fazendo doutorado sobre “A intranscendência da arte nas vanguardas européias”. Conseguiu terminar o trabalho do Master sendo que começaria em novembro a investigação para o doutorado. Sobre este trabalho me explicou que foi encadernado pela Universidade de Salamanca e que pretende tirar cópias e mandar para alguns professores dele da Universidade Federal da Paraíba. “Foi escrito em espanhol e segundo o Decano da Faculdade, está num espanhol perfeito”. E sobre o Hiram colega do Igor que estuda na Universidade de Salamanca, “um mexicano gente muito fina. Aliás, as amizades dele lá eram com pessoas de primeira linha.”
     Parece que a inteligencia dele era unanimidade entre os amigos: Ana Carla o considerava um rapaz inteligente, de um humor refinado e que amava a arte e vivia de arte como ninguém. “Teria um futuro brilhante. Pena que se foi tão cedo. Apenas gostaria que ele estivesse bem.”
    “Percebe-se que o nível dele era muito alto para a maioria dos mortais, inclusive eu” me disse Katia. “Estive com todos os professores dele em Salamanca e todos foram unânimes em ressaltar a inteligência dele. A perda de uma pessoa como Igor, não é tarefa fácil para superar.”
     Na sequencia leia um artigo que Igor escreveu sobre Salamanca cidade onde a escritora, poeta e dramaturga Renata Pallottini também viveu e estudou e sobre a qual fez um poema lindo intitulado Plaza Maior (Madrid) que está no livro Arcos da Memória pag.22 do qual cito dois versos que amo especialmente. “Ah Salamanca! O sal com que amo Espanha!”
    Adeus Igor, até um dia em que nos encontraremos todos. Gracias pela convivência virtual!

 

Impressões de Salamanca

Igor Bezerra

 

    Camus e Benjamim falavam que a melhor maneira de se conhecer uma cidade é se perdendo nela. Isso desvela muito mais do que um romantismo em relação a cidade; antes de tudo marca uma diferença entre o estrangeiro, por assim dizer, e o turista. Este último, muito comodamente trabalha com o guia, seja uma pessoa, seja um papel. E, mais que uma orientação, o guia fornece um a priori, e este é o capital. Isto se dá ao se indicar para visitação os lugares propriamente turísticos, o que também mostra   outra faceta do guiar-se predeterminado: a incapacidade de se conhecer a própria vida do lugar, cambiando estes para a contemplação dos costumes feitos para turistas, “macumbas para turista”.
     Assim, não se experiencia a própria vivência do lugar. Além de se perder é necessário ir aos lugares que os habitantes da cidade costumeiramente vão, para que, destarte, saiba-se o que se passa cotidianamente naquele lugar, escamoteando as possibilidades de deslumbramento, o qual pode funcionar como escape da realidade que se apresenta.
      A questão é perder-se, como acontece quando se tenta encontrar um bar ao qual já se tenha ido, mas ao qual não se sabe voltar, e, então, percorrem-se todas as direções que a Plaza Mayor permite, para que assim se chegue ao lugar desejado sem que se pergunte nada a ninguém. E parte-se da Plaza Mayor porque sempre se faz necessário que se estabeleça um ponto donde começar a considerar as demais coisas. Pode-se pensar que seja subjetivismo ou solipsismo, mas antes, seja questão de perspectiva. Fato é que não se pode reflexionar nada se não se tem um cais. Caso contrário fica-se no devir eterno, e, embora a realidade se dê mesmo dessa maneira, só se consegue trabalhá-la ao se fixar algo, mínimo que seja. Contudo, estabelecer a fixidez e apoditicidade de tudo acaba por negar por quase completamente o que se passe; é a tarefa do turista guiado, que trabalha segundo um a priori.
     Ora, por que um a priori? Ver-se-á quão perto da epistemologia tudo isso está. O turista guiado tem um a priori porque o seu processo de conhecimento da realidade depende de algo que já está fora desta, embora tenha sido haurido daí. O que acontece é que tudo se passa como sem tivesse uma meta privilegiada e idealizada a qual se deve chegar enquanto fim-em-si. E pensar que a realidade tem uma meta para tingir é demasiado: eis o que Nietzsche é contra: eis o que a teoria de eterno retorno nega. O que se passa com o turista guiado é um falseamento da realidade, uma vez que este parte da idealização daquela.
     Por mais que o movimento possa ser dialético, ao cabo pretende-se a realização de uma idealização, embora, para que se fixe esta dada idealização seja necessário um contato prematuro com a realidade. Não pode haver qualquer idéia que não seja um mínimo de extrato do real. A questão se coloca no grau de idealização que se faz da realidade e a seguinte graduação de balizamento que aquela influi sobre esta. Trata-se, como diria Quine, de “compromisso ontológico”.
       E, desta maneira, fique-se com o mínimo. Portanto, em detrimento do turista guiado fique-se com o estrangeiro. Este tampouco conhece a cidade, assim como o turista; quer dizer, conhece menos ainda, uma vez que o turista parte do pressuposto de um algo dado, de um a priori. Para o estrangeiro a experiência se dá unicamente a partir da realidade radical, isto é, o seu primeiro dado é a própria realidade enquanto ato que vai se executando, assim como ele.
     Ou seja, o real é a pedra de toque donde o estrangeiro irá construir o seu conhecimento acerca do incógnito. A situação é completamente oposta: de um lado se tem a construção do real a partir da idéia; do outro, tem-se a formulação de idéias a partir do real. Jogo de palavras a parte, a questão vai mais além, ou, antes, mantém-se mais aquém.
     Não se trata necessariamente de formulação de idéias a partir do real o que faz o estrangeiro. Pode-se e deve-se permanecer mais aquém. O que se faz necessário, e não poderia ser de outra forma, é a reflexão acerca do que se passa para que se fixe um dado preciso a partir do qual se mantenha a vida. Basta o simples forjar de um conceito, o que é, em sua raiz, possibilidade de manutenção da vida, com o que Nietzsche concorda.
     Mais do mesmo é a aceitação do mínimo de compromisso ontológico para que se possa lidar com a vida de modo satisfatório, pois, mais cedo ou mais tarde se tratará de fixar algo da realidade, o pouco que seja não necessariamente um conceito bem acabado, mas, fim das contas, dado o logos, é do que não se pode escapar. Primórdios de tudo, pode se pensar que o único que está é a realidade efetiva, a realidade em ato. Apenas depois da reflexão da experiência é que se torna possível a criação de um conceito, uma idéia, mediante a linguagem. Bom, esse tempo imemoriável já se foi e não se pode recuar. Já se nasce com conceitos formados esperando pra ser aprendidos. E faz-se isso sem que se sinta até o espanto.
      Uma vez dado esse, é questão de honestidade ôntico-epistemológica que se estabeleça a realidade como paridora de tudo que advém, e não o contrário, isto é pensar a idéia como grávida. Trata-se do instante pregnante, como fala Aumont acerca da pintura. Mais: acontece que todo instante é pregnante, a depender da perspectiva. A noção de um instante pregnante só se deve ao fato da condição de possibilidade da reflexão, que é a fixidez do fluxo. E, se a necessidade de fixidez é uma necessidade moral para a manutenção da vida, ater-se à realidade prioritariamente e o máximo possível é questão de honestidade ontológica.Dado todo esse qüiproquó epistemológico, apreende-se que o posicionamento ético-ontológico que se mantém nos limites mais baixos, portanto, mais próximos da realidade efetiva, da realidade enquanto ato, é o deixar-se perder-se do estrangeiro.

Segunda feira, 8 de dezembro de 2008

 

Igor Bezerra natural da Paraíba era artista plástico e ensaísta. Formou-se em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba. Morreu no dia 16 de maio de 2009, aos 22 anos em Salamanca, Espanha onde estava estudando.
 

 

 

 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

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