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Tão Longe, Tão Perto __________________ Moda
e Cinema __________________ Pousada 14: Glauber Rocha Ainda Vive!
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Moda
e Cinema Ana Lúcia Vasconcelos
O Diabo Veste Prada
Só para recordar alguns filmes que arrebentaram neste quesito podemos
citar Evita, superprodução da mega star Madonna que se diga
não levou o Oscar de melhor figurino, aliás, não
levou Oscar algum. Mas em compensação o look Evita esteve
nas vitrines sofisticadas da Quinta Avenida de Nova York e foi, durante
todo o ano de 1996, copiado e recriado pelos estilistas de todo o planeta. Isso
aconteceu também com Out of África (Entre dois Amores)
na década de 1980, produção do americano Sidney Poitier
com Meryl Streep e Robert Redford: o figurino em tons cáqui estilo
safári, criado pela figurinista Milena Canonero invadiu as vitrines
do mundo inteiro. Era o look África imperando como havia sido um
pouco antes, o estilo barroco lançado por Amadeus
e como foi um pouco depois, o estilo marinheiro deslanchado por Querelle
de Fasbinder. E está acontecendo agora recentemente com o filme
brasileiro que está arrasando nas bilheterias do país: Tropa
de Elite, que ganhou o Urso de Ouro em Berlim, já que
a mídia tem anotado pedidos cada vez mais constantes de roupas
militarizadas Amadeus
Tudo começou na fase áurea dos musicais de Holywood, fase
das melosas love stories quando o cinema foi não
apenas o lançador, mas o ditador da moda mundial. Especialistas
atribuem isso ao fato de ser o cinema a arte que, literalmente fazia parte
da vida das pessoas. Havia para ele um grande público, como hoje
há para a televisão. E mais: havia uma grande quantidade
de revistas de cinema que além de divulgar os filmes, promoviam
os modelos usados por atrizes e atores, ou seja, um prato cheio para as
mulheres copiarem e tentarem imitar com tecidos semelhantes, os modelos
usados por sua estrela preferida.
Lana Turner
O efeito tão avassalador que depois que a foto da publicidade do
filme apareceu, o suéter ficou definitivamente celebrizado e Lana
vai entrar para a história do cinema como a garota do suéter.
Na verdade Lana preferia os sapatos e chegou a ter uma casa com um quarto
cheio deles. Mas isso é uma outra estória. O fato é
que daí para frente proliferaram nos Estados Unidos os concursos
de Miss Suéter, cujas vencedoras eram meninas parecidas com a atriz.
Veronika Lake
E Greta Garbo, nascida em Estocolmo, vai tornar-se a imagem da mulher
perfeita não por suas roupas, ainda que qualquer coisa que vestisse
a tornasse maravilhosa, mas com a maquiagem que a partir dela ficou popularizada.
E que dizer de Marlene Dietrich que vai entrar para a história
do cinema mundial, depois de aparecer no filme Marrocos cantando e mostrando
suas lindas pernas com um traje que a tornaria célebre: casaca
e cartola. O evento foi um escândalo para muitos puritanos e ela
aproveitou para radicalizar: passou a andar pelas ruas de Holywood de
terno cinza, talhado pelo melhor alfaiate da cidade, de gravata e boina
cobrindo seus belos cabelos louros. E não parou por aí:
foi a uma premiére no Teatro Baltimore de smoking e chapéu
de feltro negro de aba molde. Era uma mulher exótica, livre para
fazer o que quisesse. E
por falar nisso não foi apenas Marlene Dietrich a transgredir a
ordem da moda: Greta Garbo, Joan Crawford, Katherine Hepburn e até
mesmo Lauren Bacall optaram durante um tempo por um look masculino. O
que, aliás, aumentava o charme dessas atrizes famosas.
Mas nem só de trajes masculinos Marlene Dietrich se vestia: na verdade sua imagem diáfana em robes esvoaçantes e leves plumas ficou indelevelmente marcada nos corações dos seus fãs. Aliás, a lista de mulheres fatais da época dos grandes filmes de Holywood é extensa: Rita Rayworth, por exemplo, manteve durante toda a sua carreira uma aparência estudada para passar a imagem de mulher liberal. Marilyn Monroe encarnou a geração sexy do pós guerra, Brigitte Bardot foi um símbolo que se transformou em fenômeno social. Tudo o que vestia ou fazia virava moda.
Greta Garbo
Brigitte Bardot
E quem não se lembra de Ginger Rogers e Fred Astaire? Pois o começo da carreira de Ginger Rogers não foi fácil: ela não queria ser conhecida só como dançarina, pretendia provar seu talento dramático. E sua chance surgiu com o filme Kitty Foyle que lhe deu o Oscar de interpretação e que lançou a moda dos vestidos de bolinha branca. Mas apesar de ter sido durante anos, nas telas do mundo inteiro, um dos principais sex simbols do cinema norte americano, Ginger Rogers nunca forneceu material para fofocas: na verdade um sensualismo contido foi sempre a sua marca que, no entanto nunca aceitou se despir ou atuar em papéis de vamp. E especialmente ela foi responsável pelo lançamento de uma gíria que ficaria célebre na época: a frase acompanhada do gesto respectivo no filme Young Man of Manhattan: cigarrete me, big boy que deixava as platéias masculinas eletrizadas.
Ginger Rogers e Fred Astaire
Atente-se que a moda lançada pelo cinema por atores e atrizes não era fruto do acaso ou de idéias geniais inspiradas pelo andar ou belas formas. Ao longo de cinco décadas, a assinatura de Edith Head, com certeza a mais famosa figurinista do cinema americano, foi sinônimo de modismo: a senhorita Head, como era chamada, ganhou oito Oscars pelas roupas que criou para as mais importantes estrelas do cinema como Bette Davis, Elisabeth Taylor, Audrey Hepburn. Através do cinema suas criações influenciaram o guarda roupa feminino especialmente nos anos 40 e 50. Ela dizia: “A moda é uma linguagem. Alguns sabem aprendê-la, outros jamais conseguirão mexer com ela”.
Edith Head Edith
conta que nos primeiros anos, ela e o pessoal da Paramount vestiam os
artistas sem pensar em qualquer coisa de humano: a época era de
extravagâncias. “Só mais tarde, dirá, descobrimos
que os figurinos usados pelos artistas tinham parte importante no êxito
dos filmes”. Foi ela quem inventou os famosos sarongs
da atriz Dorothy Lamour para o filme A Princesa da Selva
de 1936 e foi responsável pela moda das grandes e coloridas estamparias
tropicais nas roupas femininas. Além disso, Edith foi mestra na
arte de camuflar ou realçar imperfeições de algumas
atrizes.
Audrey Hepburn
Na verdade o prestígio de Edith cresceu junto com a Paramount, mas a pedido de Bette Davis ela foi para a Fox para criar especialmente o guarda roupa da atriz para a A Malvada. Dizem os críticos que além da competência de Edith e a beleza das roupas que criava, o Oscar que ela ganhou por este filme se deve grande parte a um acidente. O vestido que Bette deveria vestir numa festa ficou pronto na última hora e, portanto foi para a cena sem uma única prova. Quando La Davis o vestiu a alça caía sobre os ombros. Não havia tempo para reparos e a atriz resolveu que iria usá-lo do jeito que estava. “O resultado foi uma seqüência inesquecível que definitivamente determinou o Oscar daquele ano para Edith”, lembra Rubens Ewald Filho.
Bette Davis em A Malvada
Mas o público não copiava apenas os vestidos, sapatos, boinas
e decotes, imitavam também os trejeitos dos atores e atrizes. Durante
anos a atriz Bette Davis foi imitada no jeito de fumar da sua personagem
no filme A Estranha Passageira por mulheres e travestis
em shows de teatro ou boates nos Estados Unidos. Ela mesma fez uma sátira
da cena num programa de televisão, fumando dois cigarros ao mesmo
tempo e exagerando seu inconfundível tom de voz.
Clark Gable O
mito da beleza E por falar em homens, não há como esquecer o belo Rodolfo Valentino admirado pela beleza e galanteria com as mulheres. E Marlon Brando e James Dean que lançaram a moda do casaco de couro, dos jeans, das motos e da rebeldia, sem falar naturalmente do charme insuperável? Foi num filme dirigido por John Paxton, baseado num fato real em que Brando fazia o líder de um bando de motoqueiros que espalhava o terror numa cidadezinha americana, que o ator cria o tipo do anti-herói, no que é seguido mais tarde por James Dean. Brando explora ao máximo as carências, o cinismo e a rebeldia brutal do personagem quase ao nível da caricatura. E seu Johnny vira modelo, símbolo de rebeldia. O filme produziu tamanho impacto que chegou a ser proibido na Inglaterra até 1968.
Mas foi com o angelical James Dean que o mito do adolescente rebelde vai
ser definitivamente incorporado. O célebre ator de apenas três
filmes: Vidas Amargas, Juventude Transviada e
Assim Caminha a Humanidade, este último inacabado por
ele, já que morreu durante as filmagens, é considerado por
Paulo Veríssimo, estudioso do mito, como o último deus de
Holywood. Segundo Veríssimo o verdadeiro filme de James Dean foi
Juventude Transviada, cujo personagem ele domina, incorporando
seus dados pessoais, sua dinâmica corporal. Em Juventude
Transviada ele interpreta a si mesmo a ponto de ter dito “Jim
Stark sou eu”. James Dean ficou para sempre como símbolo
da juventude rebelde, inadaptada, inconformada com a sociedade e no rastro
de sua morte nasceu, segundo o crítico de cinema Sérgio
Augusto a “mais duradoura idolatria que a sociedade de massa manipulou”.
James Dean Com James Dean, dizem os estudiosos do mito, o jovem atinge a maioridade. Ser um jovem na década de 50 era ser diferente dos pais, do blue jeans à cabeça. Data daquela época a expressão conflito de gerações que Holywood explorou ao máximo. Nas telas uma torrente de crises de identidade, ansiedades sexuais reprimidas, lares desfeitos, pais castradores e filhos carentes soterrou por uns tempos as questões sociais. Foi James Dean quem lançou a moda do blusão de couro que virou náilon no Brasil para os jovens adoradores do ídolo que imitavam também olhares de esguelha, sorrisos espasmódicos e outros tiques que James Dean por sua vez copiava de Marlon Brando. Nova
estética
O cabelo está sempre solto. Mesmo quando preso, foge de qualquer molde bem comportado. A roupa de Diane Keaton é dinâmica, cercada de todas as neuroses as quais reage. Diane Keaton não é apenas o símbolo, mas o novo mito de transformação dos anos 80. Oscar de melhor atriz em Annie Hall, de Woodie Allen, ela influenciou milhares de fãs que começaram a usar óculos Annie Hall, capuz, calças largas, jaquetas e camisas, gravatas de bolinhas e de repente um estilo de moda foi consagrado.
Tentando
uma análise da influência do cinema brasileiro no modo de
vida das pessoas, o cineasta João Batista de Andrade (autor de
vários filmes de sucesso entre outros O País dos
Tenentes) lembra de algumas atrizes brasileiras que lançaram
moda, ou seja, criaram um tipo que virou moda. Sonia Braga, especialmente
no A Dama do Lotação teria criado, segundo
o cineasta, um estilo com seu tipo, seu cabelo abundante. Na década
de 50 as atrizes Ítala Nandi e Norma Benguell, a primeira no teatro
e a segunda no cinema (O Rei da Vela e Os Cafajestes,
respectivamente) foram as primeiras a aparecer nuas e ainda: foram modelos
de mulheres independentes, liberais. É lógico, a mais famosa
de todas elas virou musa: a lindíssima Leila Diniz que morreu precocemente,
mas que foi, de fato a grande responsável pela introdução
de importantes mudanças no comportamento da mulher grávida
de biquíni.
Leila Diniz
Compartilhando a opinião de João Batista, a cineasta Suzana
Amaral diretora do premiado A Hora da Estrela e autora
de mais de 50 documentários para a televisão, acredita que
hoje o cinema tenha perdido para a televisão, o monopólio
que exercia nas décadas de 30, 40 e 50 em relação
à imposição de moda e comportamento. “Eu mesma
na minha adolescência pedia para minha mãe fazer o vestido
da atriz dos filmes que via. Lembro-me que a gente recortava as fotos
das revistas e usava como modelo”. Aliás, Suzana Amaral acredita que nesta área ninguém igualou Charles Chaplin que conseguiu criar uma roupa que ficou para sempre como parte integrante da sua personalidade. Hoje, ela tem certeza, o cinema perdeu o lugar de mito catalisador de padrões de comportamento. “Morei em Nova York e constatei que o cinema só influencia quando deliberadamente se faz, através de um filme, a promoção de um produto, de uma roupa. Por exemplo, com o ET, o Spielberg decidiu fazer um marketing do boneco. Já com Out of Africa houve um marketing das roupas. Antigamente acontecia porque acontecia, a coisa era mais pura. É preciso não esquecer que naquela época o cinema queria passar o american way of life era a época da Recessão". Carisma e Merchandising
O crítico e poeta Décio Pignatari reafirma as opiniões
dos dois cineastas. Para ele hoje o cinema não dita mais moda,
em primeiro lugar porque o seu público é composto por uma
minoria de massa, isto é por pessoas com certo nível de
cultura que têm outros interesses. E depois porque os modelos lançados
hoje não podem ser seguidos como é o caso de Rambo.
Mas ainda em menor medida ele vê alguns filmes lançando moda:
“Spielberg, por exemplo, lança moda infantil, ainda que seja
parte de uma campanha de marketing dirigida”. Mas na verdade não
só Spielberg hoje lança moda através do cinema. O crítico Edgar Pereira, tentando uma aproximação dos áureos tempos de Holywood com a atualidade diz que lá tudo dependia do carisma de cada um daqueles super stars. Era uma coisa mais de individualidade, de sensibilidade de determinado ator ou atriz. "Hoje a coisa está dirigida, tudo na base do merchandising. Quando o diretor pensa numa cara nova ele a imagina com a roupa junto. Antes tudo acontecia muito naturalmente: a capa do Humphrey Bogart fazia parte de sua personalidade, batia no público de um jeito muito puro. Não havia atravessadores da magia. Na mesma linha Edmar lembra os cabelos de Greta Garbo, os cachinhos de Shirley Temple e até a sensualidade de Marlon Brando: tudo era mais direto.
Shirley Temple
Hoje quando o filme sai do forno holywoodiano já sai todo planejado
para vender a flecha do Rambo, o blusão de couro,
a luva de boxe. No caso de Querelle e Out of África o
que ocorreu especialmente no caso do primeiro foi uma reverberação
ou seja, a produção do filme não lucrou em cima do
sucesso das roupas que lançou ou inspirou. “As roupas do
filme inspiraram estilistas que criaram moda em cima. Isso pode acontecer,
mas em geral tudo já vem planejado e o público participa
de certa forma do jogo: ele se deixa manipular como se fosse regra deste
mesmo jogo. E hoje as coisas são muito rápidas, descartáveis.
Naquele tempo parece que a coisa não era proposital, as coisas
duravam mais. Basta dizer que até hoje lembramos das roupas e cabelos
dos atores e atrizes que nos impressionaram. Eles ficaram clássicos
”. Tema de desfiles e mostras na mostra Filme Fashion também em São Paulo que está ocorrendo Shopping Iguatemi (Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232) e vai até dia 30 de março de 2008 cujos detalhes você le aqui
que tem por tem a o Cinema e a Moda.
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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