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Modigliani
escultor
Igor
Bezerra
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Marcel
Duchamp: atividade e intranscendência
Igor Bezerra
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Vitralista
holandês de alma brasileira:
é o Ton Geuer
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Modigliani
escultor
Igor
Bezerra

Modigliani foi o pintor trágico por excelência da Paris
efervescente do início do século passado. E talvez essa
tragicidade, ao mesmo tempo que gera mais aproximação
em relação ao artista, pode contribuir para obscurecer
aspectos de sua obra: é o que se passa no filme estrelado por
Andy Garcia. Deixe-se então de lado o mito, uma vez que ao
se trata de ética, e parta-se para a sua obra. As primeiras
pinturas de Modigliani pouco têm que ver com as quais o consagrará.
Contudo, toda a sua produção, por mais que se divirja,
cabe dentro do universo pictórico pós-impressionista.
E fato é que o artista italiano não se enquadra em nenhum
dos movimentos que esbanjavam naquela época; como ele, muitos
outros, a exemplo de Soutine e Utrilo, amigos seus, bem como Chagall
e Van Dogen, para citar alguns do que é conhecido como Escola
de Paris: como esses artistas expatriados não aderiram a movimento
algum, mas todos viviam em Paris, deu-se essa denominação.
E, por lá viver, Modigliani acaba por sofrer algumas influências
comuns entre os artistas da época, como é o caso da
absorção da escultura africana recém-descoberta,
a qual contribui necessariamente para o cubismo sintético.
Contudo, como se verá, as demais influências do artista
diferem das dos demais.
Modigliani carrega sempre consigo grande influência da arte
italiana, uma vez que fora educado na Itália, e mais precisamente,
na fruição das obras da antiga sede das belas artes.
Entretanto, nas primeiras pinturas pouco se percebe isso, mas, antes,
muito de pós-impressionismo, dado o ciclo no qual conviveu
em seu país de origem. A guinada artística decisiva
para o italiano se dá pelo conhecimento de Brancusi e sua escultura.
Ao tomar contato com este, aquela abandona a pintura e passa a se
dedicar à escultura, e aí se inserem os estudos das
cariátides, as quais representam a primeira vinculação
de Modigliani à tradição da antiguidade. Ademais,
os seus desenhos de cariátides já revelam a dívida
com Brancusi e com a escultura africana.
No entanto, devido a problemas de saúde, Modigliani consegue
suportar o pó extraído das pedras que esculpia, e, assim,
tem que abandonar a escultura. E, uma vez deixada de lado essa forma
artística, ele irá se dedicar novamente à pintura.
Pode-se estranhar tratar de um Modigliani escultor quando o artista
tão pouco produziu nesta ceara; e mesmo se tratará mais
aqui de pintura. Acontece que apenas pelo contato com a escultura
é que se dará o futuro Modigliani e toda a sua contribuição
para a pintura.
O contato do artista italiano com Brancusi e a escultura negra, o
que direcionava o seu próprio esculpir, é fundamental
no tratamento do rosto na pintura, o qual advirá de suas cabeças
de pedra.
E, desta maneira, ter-se-ão os rostos alongados, os olhos em
elipses, os narizes e bocas bem marcados. Contudo, isso é pouco
para diferenciar Modigliani do cubismo ou do expressionismo, onde,
por vezes, têm-se disposições faciais semelhantes;
aqui entram em cena mais influências do artista as quais não
foram aproveitadas pelos demais pintores na representação
humana. Sim, pois, para “o nosso aristocrata” tratava-se
quase que exclusivamente de pintar figuras humanas; e, neste sentido,
ainda pode ser percebida outra diferença entre os “membros”
da Escola de Paris em relação a seus contemporâneos.
Assim, ainda se tem outra marca do esculpir na pintura de Modigliani,
qual seja a noção de volume, a qual será fundamental
para os seus nus, os quais diferem bastante das representações
de nus de seus contemporâneos justamente pelo volume que o artista
italiano consegue imprimir a ele, sem mencionar na carnalidade que
ele exala, do que se falará mais tarde.
No percurso de seus estudos e influências italianas, Botticelli
se estabelece como marca fundamental na concepção e
estilização das figuras humanas daquele artista trágico.
Notadamente “O nascimento da Vênus”, do pintor proto-renascentista
é capital para a suavidade e sensualidade que Modigliani colocará
em seus quadros. Não por acaso que ele era tratado como um
“Botticelli moderno”. E o próprio Botticelli tem
o seu que de modernidade ao alongar o pescoço e abaixar os
ombros de sua Vênus para poder suavizá-la. E, assim,
percebe-se de onde Modigliani extrai como seu estilo os pescoços
longos e os ombros caídos, bem como o rosto ovalado e esticado,
advindos tanto do pintor da Vênus como da escultura negra.
Ademais, o diálogo de Modigliani com a tradição
pictórica não pára aí, não se restringindo
a arte italiana; têm-se ainda leituras de Goya, Ingres e Manet.
Ou seja, a sua educação para o tratamento do corpo depende
mais da tradição do que da efervescência das vanguardas.
Por fim, a última e decisiva influência de Modigliani
é a escultura greco-romana, ou pelo menos o que se ficou dela,
mais precisamente no que se refere ao olho. Exatamente o tratamento
dispensado aos olhos pela escultura clássica antiga, ou seja,
a representação dos olhos sem pupila, mas como único
contínuo, onde não se expressa nada, será decisivo
utilizado pelo artista italiano. É bem verdade que, pelo menos
na escultura grega tinha-se o uso de pedras coloridas para a representação
do globo ocular. Conduto, essas peças se perderam e o que restou
foram aquelas nas quais a superfície do olhar é tratada
como uma única, contínua e vazia superfície,
a qual não se sabe para onde olha.
Excetuado-se a mudança da cor do rosto e do olho, é
isso o que faz Modigliani ao pintar tudo aquilo que poderia ser considerado
“olhar” com uma única cor, retomando aquela tradição
escultórica na qual se dá o instante kierkegaardiano.
Este, a saber, consiste na possibilidade de eternidade na temporalidade,
e o filósofo dinamarquês encontra uma representação
do instante naquele tipo de escultura, como se vê no “Conceito
de angústia”.
Assim, Modigliani devolve à arte a noção de instante,
quiçá não pregnante, como fala Aumont a respeito
da pintura clássica, mas, quem sabe, um instante de vazio,
como se pode perceber em Hopper de maneira diferente. A própria
condição de eternidade é quase que inerente a
arte; e aí, pode-se falar com Kierkegaard: é uma eternidade
no temporal, ou, um efêmero eternizado.
A partir de tudo o que foi posto, Modigliani consegue resgatar duas
noções para a arte de vanguarda as quais pareciam estarem
perdidas. A primeira vem em negação a Ortega y Gasset
e sua desumanização da arte: se cubistas e expressionistas
contribuíram para o tratamento da figura humana de maneira
não humana, Modigliani, assim como alguns dos “membros”
da Escola de Paris, começam por reconstituir as características
humanas na pintura, por mais que ainda façam uso de algumas
mesmas influências que aqueles artistas. A segunda terá
que ver com o volume, suavidade e sensualidade que o artista italiano
imprime em suas peças: Modigliani resgata a carnalidade perdida
na pintura, e, aqui, tem-se que ser extremamente camusiano na exigência
de um “suporte de carne” para a criação
artística ou filosófica. Assim sendo, não se
tem mais aqueles “criadores de irrealidades” dos quais
falava Ortega y Gasset a despeito do cubismo e do expressionismo.
E, se esses para o filósofo espanhol são artistas intranscendentes,
com Modigliani desce-se um nível a mais na escala da imanência
e chega-se a própria carnalidade, mais das vezes sensual. Ora,
toda essa guinada pictórica feita por Modigliani só
é possível quando da guinada do Modigliani escultor.
Igor
Bezerra, 22 anos, natural de João Pessoa, bacharel em Filosofia
pela UFPB artista plástico e escritor atualmente vivendo em
Salamanca, Espanha, escreve no seu blog
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