| Ignácio
de Loyola Brandão
um escritor urbano
__________________
Augusto
de Campos: “a poesia que faço é a do artesão”
__________________
Alceu
Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um otimista incurável
__________________
Jose
Aloise Bahia - colecionando arte e promovendo cultura
__________________
Leo
Gilson Ribeiro – acreditando na inteligência do homem
__________________
Joaquim
Brasil Fontes: traduzindo o mundo grego e falando de metamorfoses
__________________
No
caminho com Neuza Pinheiro
Bárbara
Lia
__________________
Jiddu
__________________
Entrevista
com Renata Pallottini
__________________
Entrevista com Jorge Pinheiro*
Omar de L. Barros Filho*
__________________
Voltar
|
Augusto
de Campos: “a poesia que faço é a do artesão”
Por
Ana Lúcia Vasconcelos

Augusto
de Campos, 75 anos, foi — juntamente com seu irmão Haroldo
de Campos e Décio Pignatari — um dos fundadores do chamado
Movimento Internacional de Poesia Concreta, que nasceu em São Paulo,
nos primeiros anos da década de 50. Os três pretendiam criar
uma nova linguagem poética, e suas primeiras experiências
foram publicadas na revista Noigandres, fundada pelo grupo em 1952. Noigandres
teve vida curta — apenas cinco números — e foi sucedida
por outra: Invenção, na década de 60. Mas o que afinal
pretendiam os concretistas paulistanos?
Em primeiro lugar uma retomada crítica da evolução
da linguagem poética, diluída no após-Guerra, e,
para tanto, partiram para o estudo dos autores que haviam contribuído
para a transformação das formas poéticas. Segundo:
constataram a morte do verso convencional. Para eles havia uma crise do
verso, como acontecera uma crise do artesanato na era pré-Revolução
Industrial. Era preciso criar uma nova forma de expressão, mais
objetiva, mais direta que exprimisse a nova realidade.
Poetas como Mallarmé, Ezra Pound, Cummings, Apollinaire, escritores
revolucionários como James Joyce, os futuristas e os dadaístas
foram os mentores do grupo. Mas Augusto, Décio e Haroldo não
pararam sua pesquisa nos autores estrangeiros: garimparam a poesia brasileira
e descobriram alguns poetas e escritores marginalizados pela crítica
literária em função do caráter inovador do
seu trabalho, como Sousândrade (1832-1902) e Kilkerry (1885-1917).
Em 1953 Augusto de Campos produziu a série Poetamenos, onde os
elementos semânticos eram assinalados por cores diferentes, poemas
inspirados na “melodia de timbres” (melodia fragmentada por
vários instrumentos) do compositor de vanguarda austríaco
Anton Webern. Em 1955 o trabalho foi apresentado no Teatro de Arena de
São Paulo. Em 1956 o grupo de concretistas participou da organização
da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta (Artes Plásticas
e Poesia) no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), sendo que
a esta altura novos poetas juntavam-se aos pioneiros: Ferreira Gullar,
Ronaldo Azeredo e Wladimir Dias Pinto. A partir de então o movimento
explodiu internacionalmente, chegando a ganhar espaço no Suplemento
Literário do Times de Londres nos anos 60.
Em 1958 os concretistas lançavam o Plano Piloto para a Poesia Concreta,
que proclamava em vários idiomas o “advento de uma nova ordem
poética” e o “ fim do verso como unidade rítmica
formal”. Ficam evidenciadas as relações com a nova
música eletrônica e com a pintura, a cibernética,
a Teoria da Informação, o cinema e as técnicas de
comunicação. A partir de 1962 novos colaboradores surgem:
José Lino Grünewald, Pedro Xisto, Edgar Braga e José
Paulo Paes.
Tocar
o gênio da língua
Palavras soltas no espaço, superpostas, poemas coloridos, interação
das artes, visão planetária da criação, a
“sagrada liberdade”, o mergulho dentro da materialidade da
palavra, eis algumas palavras de ordem da poesia concreta. “A tarefa
essencial do poeta,” diz Augusto de Campos, “é tocar
o gênio da língua”. E, citando John Cage: “A
arte é um ato criminoso. Não se submete às regras,
nem as próprias.”.
Exatamente por não ter regras fixas, novas experiências foram
incorporadas posteriormente à poesia concreta, como o poema código
ou semiótico, de Pignatari, e os símbolos da comunicação
em massa — recortes de jornais, fotomontagens —, nos poemas
“popcretos”. A fronteira entre a poesia e a pintura estava
sendo derrubada. Surgem o poema-livre, os poemas
permutacionais e os poemas-objeto.
Se considerarmos a exposição do MAM como ato fundador do
movimento, o concretismo comemorou, no ano de 1986 (data desta entrevista),
quase três décadas de existência, e neste ano completará
cinco décadas. Mas como todo movimento que se pretendia de vanguarda,
também o concretismo teve suas dissidências. Ferreira Gullar,
que aderira ao grupo em 1956, rompeu no ano seguinte, juntamente com o
poeta Reinaldo Jardim, que então editava o Suplemento Literário
do Jornal do Brasil, rebelando-se contra o “racionalismo”
e a “matemática da composição” dos paulistas.
A partir de 1961, inspirando-se na célebre afirmação
de Maiakóvski — “sem forma revolucionaria não
pode haver poesia revolucionária” —, o grupo concretista
se volta para uma temática participante, sem abrir mão do
experimentalismo formal, fazendo com que se aproxime do movimento o poeta
José Paulo Paes.
A poesia concretista interagiu fortemente com as artes visuais e a música,
sendo evidentes, no movimento, influências de pintores como Mondrian
e Malevitch, e de músicos como Webern e Cage. Por sua vez, o concretismo
teria um desdobramento nas artes visuais com artistas como Fiaminghi,
Sacilotto e Júlio Plaza, e influenciaria, além da música
erudita de vanguarda brasileira, também a música popular,
via Tropicalismo (principalmente Caetano Veloso) e compositores mais jovens
na época, como Arrigo Barnabé.
Nos anos 80, sempre atentos a novas mídias e às modernas
tecnologias, os concretistas investiram no casamento aberto da poesia
com a informática e a holografia, sendo que ao longo de sua polêmica
trajetória o concretismo recebeu críticas de várias
procedências, em especial contra a sua tendência formalizante.
Processo criativo e sistema de edição dos textos
À época desta entrevista, realizada na sua casa em São
Paulo, e publicada na revista Artes (SP) em junho de 1986, Augusto de
Campos, com 55 anos, trabalhava na tradução de dois poemas:
Herodias, de Mallarmé, e A Jovem Parca, de Valéry. Pretendia
publicar seu álbum EXPOEMAS em edição comum para
que pudesse ser consumido pelo grande público. Aqui ele fala especialmente
do seu processo criativo, das suas traduções e do sempre
trabalhoso sistema de edição dos textos dos poemas. Afirma,
entre outras coisas, como cultiva uma espécie de aversão
pela poesia espontânea, que ele chama de “arranca-toco sentimental”.
Sua poesia, milimetricamente construída, mantém um nítido
compromisso com o rigor formal.
Pergunta: Gostaria que você falasse do seu processo
criativo: como o poema acontece? Você, que trabalha com o visual-conceitual,
vê o poema no espaço, escuta o poema?
Augusto de Campos: A princípio há algum
dado intuitivo, uma combinatória de palavras e imagens que se liga.
A partir desse “acidente feliz” entra a fabricação
do poema. Ao lado da poesia espontânea, do arranca-toco sentimental,
existe uma poesia-arte, como existe o futebol-arte. É esta a poesia
que eu pratico. Poesia de “faber”, operário, artesão.
E como minha concepção de poesia está profundamente
vinculada às artes visuais e à musica, é claro que
quando surge a idéia-instigação, tento logo “ver”
o poema projetado no espaço, materializá-lo graficamente,
e armar a sua constelação sonora. Em suma, como dizia Valéry,
os deuses nos dão de graça o primeiro verso, mas cabe a
nós construir o segundo.
P.: Onde escreve? Como é sua mesa? Usa algum tipo
de papel especial, caneta, lápis, letraset, tintas? Enfim, conte
tudo... Seu escritório é na sua casa? Só escreve
nele ou não importa o lugar, desde que tenha a idéia da
coisa?
Augusto: Como todo mundo, posso tomar nota de uma palavra
em qualquer lugar. Mas trabalho basicamente no meu escritório,
em mesa comum, em minha casa. De início passava as primeiras anotações
para a máquina de escrever, uma pequena Continental alemã,
mas de teclas sólidas de metal que me possibilitava grande precisão
datilográfica. Em 1953, quando fiz o POETAMENOS, comecei a usar
tintas coloridas e carbonos de cor, com os quais, utilizando papel almaço,
fiz as primeiras versões — com até seis cores —,
que distribuía entre os amigos. A partir da década de 60,
comecei a recorrer a outros métodos, passando das colagens de letras
a imagens dos jornais e revistas (série dos POPCRETOS), aos fototipos
(LUXO) e, finalmente, a letraset. Em alguns casos desenho as letras (VIVA
VAIA, TUDO ESTÁ DITO) ou projeto o “layout”, ou executo
um “rough” (caso dos PROFILOGRAMAS ou das capas-poemas de
vários dos meus livros). Uso também hidrográficas
coloridas para os estudos de cor. Desde os anos 50 tive muito contato
com os artistas visuais do grupo concretista: Cordeiro, Fiaminghi, Sacilotto,
Maurício Nogueira Lima, Geraldo de Barros, e aprendi muito com
eles. A partir de 1968 conheci Julio Plaza, pioneiro dos intermídia,
e com ele pude realizar muitos projetos envolvendo os mais variados veículos.
Desde POEMÓBILES (objetos-poemas tridimensionais que se moviam
à manipulação) até CAIXA PRETA (com poemas
e objetos-poemas), em formas não convencionais, até as experiências
com videotexto e o recente holograma executado por Moisés Baumstein
a partir de projeto de Plaza sobre um dos “poemóbiles”.
Trabalhei ainda em um computador gráfico na versão do poema
PULSAR, de que resultou o vídeo-clip produzido pelo Olhar Eletrônico.
Meu último poema, ANTICÉU, exigiu uma impressão especial
em Braille, feita na Fundação do Livro do Cego. A primeira
impressão foi feita em máquina de escrever. O Braille eu
executei batendo os pontos no verso do papel com o marcador em branco
entre o azul e o vermelho, de modo a obter o relevo no anverso. Fiz uma
pequena edição tipográfica. Finalmente surgiu o contato
com o Omar Guedes, jovem mestre da serigrafia, que me permitiu realizar
a impressão em cores do poema, numa versão mais requintada
para a qual reexecutei em cores o texto em letraset.
Pedras de toque
P.: Você disse em outras entrevistas que só
traduz autores pelos quais se apaixona, quando tem afinidades com eles.
Isso significa que lê muitos idiomas? Tem preferência por
algum?
Augusto: O que quis dizer é que não traduzo
por encomenda, nem tenho interesse em projetos de obras completas —
mania de alguns editores. Está fora da minha ideologia, que é
— como costuma dizer o Haroldo, que comunga das mesmas idéias
— a tradução intensiva e não extensiva. Traduzo
só os que julgo conseguir recriar com análoga intensidade
poética em português. Assim, não faz sentido para
mim traduzir todo o Finnegans Wake (Joyce) ou toda A
Divina Comédia (Dante). Me interessam as pedras-de-toque..
Os momentos mágicos, as leituras privilegiadas. A única
exceção no meu trabalho de tradutor são as canções
de Arnaut Daniel. Mas são apenas dezoito e levei muitos anos para
traduzi-las sem a predeterminação de completar o conjunto:
quando vi, tinha chegado ao fim. Traduzo do espanhol, italiano, francês,
provençal, latim, inglês, alemão e russo. Parece muito
mas não é. O português e o latim, que estudei sete
anos desde o ginásio, facilitam muito o aprendizado dos quatro
primeiros idiomas. Sou do tempo em que se estudava francês e até
espanhol no colégio. Aprimorei o meu inglês por conta própria
indo a cinema, decorando letras de canções populares (Frank
Sinatra, Billie Holiday, etc.) e monólogos de Shakespeare, estudando
aqui e ali e lendo muito. Aprendi um pouco de alemão com um professor
particular, um pastor protestante, e russo com o Boris Schnaiderman, quando
o curso ainda não estava institucionalizado, era um curso livre,
entre 1962-1964. De todas, o russo é a língua mais difícil
e eu não ousaria dizer que a domino. Graças ao bom Acaso,
Boris está aí para conferir. Gosto muito de línguas
e tenho facilidade para assimilá-las. Mas acho que não tenho
preferência por nenhum idioma. Cada um me fascina de algum modo.
O que sinto mais distante é o alemão, que sempre me soou
um tanto áspero. A plasticidade e a funcionalidade molecular do
inglês me assombram até hoje. Como a mobilidade das palavras
na frase latina. Ou a música provençal. As línguas
são também matéria de poesia. Poesia fóssil
— diria Emerson.
Desobediente Civil
P.: A tradução de E.E. Cummings —
40 Poem(a)s, editado pela Brasiliense, é seu ultimo
trabalho, não? No prefácio você diz que começou
a traduzir Cummings em 1954 e só em 1960 sairia a primeira edição
dos dez primeiros poemas, e fala das idas e vindas das provas para o autor
em Nova York, da impressão (pelo Serviço de Documentação
do Ministério da Educação e Cultura com o apoio de
Simeão Leal e Oliveira Bastos), que ficou conhecida como o pesadelo
dos tipógrafos. Conte esta história e fale da importância
de E. E. Cummings no cenário da poesia mundial.
Augusto: Escrevi a Cummings em 1956 e ele exigiu rever
as provas do texto original, alegando que até em sua edição
de poemas completos, apesar do cuidado dele, da mulher e de um revisor
especializado, tinha havido muitos erros. A apresentação
gráfica dos poemas de Cummings é de alta precisão.
É um artesão extremamente rigoroso e sutil. Cada letra tem
uma posição determinada no espaço, e há diferenças
entre o “datilografês”, o “tipografês”
e o “linotipês”, que exigem adaptações.
Os poemas eram compostos no Rio, na Imprensa Nacional, em tipografia manual.
Eu pedi duas provas de cada página. Vertia as correções
de Cummings para a prova-gêmea e guardava as corrigidas pelo poeta.
Os tipógrafos corrigiam aqui e descorrigiam ali. Houve ao todo
oito provas e a batalha só terminou quando eu tirei férias
e fui à Imprensa Nacional no Rio trabalhar pessoalmente com o tipógrafo.
Afinal, a edição saiu quase sem erros (descobriu-se depois
um parêntese fora do lugar na última linha do poema “i
will be”). Foi trabalhoso, mas em compensação fiquei
com uma documentação valiosíssima — as correções
do próprio punho de Cummings, das quais selecionei algumas páginas
para a edição da Brasiliense, pela primeira vez publicadas
com as cores originais. Cummings fazia correções e comentários
à máquina, usando fita preta e vermelha, e à mão,
com lápis de cor azul e vermelho. Que eu saiba, nenhuma das edições
dedicadas ao poeta apresentou documentos como esses agora. Cummings pertence
ao elenco dos inventores da linguagem poética do nosso tempo, na
base da qual está Mallarmé. A contribuição
de Cummings — um autor que é contemporâneo dos nossos
modernistas, já que seu primeiro livro de poemas, Tulips
and Chimneys, é de 1923 — está no radicalismo,
desconvencionalizando a sintaxe e a própria ortografia. Esse recomeçar
a zero de sua poesia deu um extraordinário impulso aos desenvolvimentos
poéticos que por volta dos anos 50 — quando Cummings estava
vivo e atuante — procuraram reestruturar a linguagem poética,
com vistas a uma organização não–sintática
ou para-sintática e à exploração dos novos
“mídia” visuais e auditivos. Por outro lado, Cummings
é um poeta-crítico, de um lirismo explosivo e moderno, tingido
de humor, que satiriza a sociedade de consumo e o progresso norte-americano,
da perspectiva do anárquico individualismo do artista, esse “homem
sem profissão”, como diria o seu contemporâneo Oswald
de Andrade. Ele é um autêntico “desobediente civil”
da linhagem que vai de Thoreau a John Cage. Quem definiu muito bem o impacto
de sua obra foi William Carlos Williams quando disse que, diante dele,
sentia-se como Robinson Crusoe ao defrontar-se com a impressão
de uma pegada humana na areia. Cummings é imprescindível.
Quem não conhece sua poesia ainda não pisou direito no século
XX.
Projetos
visuais
P.: EXPOEMAS é seu ultimo livro de poesia? Quanto tempo
demorou para ser produzido?
Augusto: Sim, aí estão 13 poemas produzidos
entre 1980 e 1985. Trata-se de um livro especial. Um álbum com
folhas soltas, de 32 por 45 cm., impressas em serigrafias manuais em cores
por Omar Guedes. Executei eu mesmo todos esses poemas em letraset. Alguns
haviam sido publicados no Folhetim [Suplemento de Cultura
da Folha de São Paulo na época], em grandes tiragens —
caso de AFAZER, SOS e PÓS-TUDO. A idéia do álbum
ocorreu depois que Omar fez as serigrafias de dois pôsteres de minhas
INTRADUÇÕES para a exposição TRANSCRIAR, organizada
por Julio Plaza. Um desses trabalhos, sobre um poema de Cummings, está
na capa da edição dos 40 POEM(A)S, em duas tonalidades de
verde. Eu trabalho com projetos visuais que funcionam muito bem em grandes
dimensões e em cores. Você pode colocar na parede. Acontece
que os editores opõem os maiores obstáculos ao uso da cor,
alegando que encarece a produção. Daí a idéia
de fazermos, eu e o Omar, um trabalho com plena liberdade com os meus
poemas. Resolvemos assim, nós dois, bancar a edição.
A técnica da serigrafia não permite grandes tiragens. Assim
a edição teve que ser limitada a 300 exemplares. Em compensação
pudemos fazer uma edição-padrão de alto nível
de design, com as cores mais incríveis —verde sobre fundo
vermelho, preta sobre preta, ouro sobre preto — já que o
Omar tem um domínio absoluto da técnica serigráfica:
ele “grava perfume”. Na impressão de ANTICÉU,
usamos um “dégradé” de azuis até o branco
sobre branco na área em que entra o Braille. Este último
poema foi o que deu mais trabalho. Perdemos trezentas cópias devido
a um problema com o fotolito, que reduzira ligeiramente as letras. Na
minha programação o ajuste entre os tipos-Braille e as letras
tem que ser muito preciso para que se estabeleça o espelho icônico
entre as letras “l” e “p” e os signos correspondentes
em Braille. Originalmente o projeto tinha cerca de 20 poemas, incluindo
algumas “intraduções” [traduções
criativas de poesia, com reprogramação visual independente
do original]: para evitar que a edição ficasse demasiadamente
cara, acabamos reduzindo os textos. Os que sobraram vão para o
segundo álbum, que terá esse nome: INTRADUÇÕES.
Espero também, no futuro, fazer uma edição mais cursiva
e simplificada, em off-set, desses poemas. Claro, não será
tão bonita, nem terá a mesma qualidade que o Omar consegue.
Ele está produzindo também pôsteres serigráficos
com meus poemas. O problema é como distribuir esse material não
convencional. Estamos criando um público que por enquanto é
mais virtual que real.
P.: Você escreve rápido? Diria que ele está
vendendo mais que os outros?
Augusto: Eu não escrevo rápido. Escrevo
muito pouca poesia, embora quase que só poesia. Na minha concepção,
a quantidade da produção é o que menos importa. Acredito,
com Valéry, que um poema vale pela quantidade e pela qualidade
de suas recusas. Recusa à facilidade, recusa à repetição,
recusa à banalidade. Tenho como uma responsabilidade social minha
levar a público aquilo que considero digno de publicação.
E sou um crítico muito exigente. Quanto à venda do livro,
você já viu por tudo que eu disse que é um livro especial
— não há como compará-lo com outros. Vendeu-se
já pouco mais de um terço da edição, o que
significa que ela se pagou. No mais, o álbum se situa em algum
lugar entre o mercado das artes plásticas, onde ele seria ridiculamente
barato — custa CZ$ 600,00 [era a época do cruzado], o que
quer dizer menos de CZ$40,00 por uma serigrafia manual, fora a capa —,
e o do livro convencional, cujos consumidores estão pouco habituados
a comprar livros com alto nível de impressão, não
se permitindo gastar com beleza gráfica o que esbanjam com outras
formas banais de lazer. Temos que jogar na esperança da re-sensibilização
do ser humano. De minha parte entendo que o que me cabe é o fazer
o melhor possível.
P.: Você diz em outras entrevistas que seus livros
de poemas vendem menos que as traduções. A que atribui a
menor demanda para a poesia concreta de parte do público ledor?
Seria aquela velha estória de que brasileiro não lê?
Augusto: É uma coisa lógica. As traduções
sempre têm como referências nomes já institucionalizados,
mesmo na área da vanguarda, como a poesia russa moderna, Maiakóvski,
Mallarmé, Joyce, Pound, Valéry. A poesia concreta é
mais recente e ainda muito contestada pela crítica e pelos próprios
poetas militantes, muitos dos quais se sentem atingidos por ela, na medida
em que ela pôs em xeque a produção convencional de
poesia, que constitui a prática generalizada. É necessário
uma assimilação. E esta é sempre lenta no caso da
poesia de vanguarda, experimental ou de invenção. Acho,
no entanto, que a demanda por essa poesia tem crescido entre nós.
No que me diz respeito, a edição do meu livro VIVA VAIA
(Poesia 1949-1979) esgotou-se este ano. POEMÓBILES reeditado ano
passado — 1.000 exemplares — também está praticamente
esgotado. O principal problema é a timidez dos editores e a sua
dificuldade em acolher recursos gráficos não-ortodoxos (que
incluem cores, no meu caso). O público se mostra interessado. O
fascículo da Abril (Literatura Comentada) sobre
POESIA CONCRETA teve mais de uma tiragem e cerca de 30 mil exemplares
vendidos. E o poema PULSAR, incluído no LP de Caetano, VELÔ,
teve uma edição de mais de 100 mil exemplares, em couchê
no encarte. Numa danceteria ouvi um público cantando junto com
Caetano. Quem sabe as coisas não estão assim tão
mal paradas?
Os trabalhos publicados
Autor de vasta obra, Augusto de Campos publicou dezenas de volumes de
poemas, ensaios e traduções. Suas obras foram incluídas
em muitas mostras, bem como em antologias internacionais como as históricas
publicações Concrete Poetry: an International Anthology,
organizada por Stephen Bann (London, 1967), Concrete Poetry: a World View,
por Mary Ellen Solt (University of Bloomington, Indiana, 1968), Anthology
of Concrete Poetry, por Emmet Williams (NY, 1968).
A maioria dos seus poemas acha-se reunida em VIVA VAIA, 1979, DESPOESIA
(1994) e NÃO (com um CD de seus Clip-Poemas), 2003. Outras obras
importantes são POEMÓBILES (1974) e CAIXA PRETA (1975),
coleções de poemas-objetos em colaboração
com o artista plástico e designer Julio Plaza.
Como tradutor de poesia, Augusto especializou-se em recriar a obra de
autores de vanguarda como Pound (Mauberley, The Cantos), Joyce (Finnegans
Wake), Gertrude Stein e Cummings, ou os russos Maiakóvski e Khliébnikov.
Traduziu também Arnaut Daniel e os trovadores provençais,
Donne e os "poetas metafísicos", Mallarmé e os
Simbolistas franceses, sendo que uma primeira antologia de sua obra tradutória
é VERSO REVERSO CONTROVERSO (1978). Algumas de suas últimas
publicações são: RIMBAUD LIVRE (1992), HOPKINS: A
BELEZA DIFÍCIL (1997) e COISAS E ANJOS DE RILKE (2001).
Como ensaísta é co-autor de TEORIA DA POESIA CONCRETA, com
Haroldo de Campos e Décio Pignatari, 1965, e autor de outros livros
tratando de poesia de vanguarda e de invenção, como POESIA
ANTIPOESIA ANTROPOFAGIA, 1978, O ANTICRÍTICO, 1986, LINGUAVIAGEM,
1987, À MARGEM DA MARGEM, 1989. Com Haroldo e Pignatari escreveu
REVISÃO DE SOUSÂNDRADE, 1964). BALANÇO DA BOSSA (E
OUTRAS BOSSAS), 1968-1974, reuniu seus estudos pioneiros sobre o Tropicalismo
e a MPB, assim como as suas intervenções no campo da música
contemporânea tratando de Charles Ives, Webern, Schoenberg e os
compositores brasileiros do Grupo Música Nova. Ensaios posteriores
enfocando a música e a poesia de Cage e as obras radicais de Varèse,
Antheil, Cowell, Nancarrow, Scelsi, Nono, Ustvólskaia, entre outros,
foram recolhidos no livro MÚSICA DE INVENÇÃO (1998).
A partir de 1980, intensificou os experimentos com as novas mídias,
apresentando seus poemas em luminosos, videotextos, néon, hologramas
e laser, animações computadorizadas e eventos multimídia,
abrangendo som e música, como a leitura plurivocal de CIDADECITYCITÉ
(com Cid Campos), 1987/ 1991. Seus poemas holográficos (em cooperação
com Moyses Baumstein) foram incluídos nas exposições
TRILUZ (1986) e IDEHOLOGIA (1987). Um videoclipe do poema PULSAR, com
música de Caetano Veloso, foi produzido por ele em 1984, numa estação
Intergraph, com a colaboração do grupo Olhar Eletrônico.
POEMA BOMBA e SOS, feitas com música de seu filho, Cid Campos,
foram animados numa estação computadorizada, Silicon Graphics,
da Universidade de São Paulo, 1992-1993. Sua cooperação
com Cid, iniciada em 1987, ficou registrada em POESIA É RISCO (CD
editado em 1995 pela Polygram) e se desenvolveu no espetáculo de
mesmo nome, uma performance verbivocovisual de poesia/música/imagem
com edição de vídeo de Walter Silveira, apresentada
em diversas cidades do Brasil e no exterior. Suas animações
digitais — os CLIP-POEMAS — foram exibidas em 1997 numa instalação
que fez parte da exposição Arte Suporte Computador, na Casa
das Rosas, em São Paulo. Alguns dos seus poemas visuais podem ser
vistos/ouvidos também no site oficial do autor:
|