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Um
gesto em direção à poética do fluir
Sergio Rodríguez Saavedra*
* In: GRANDO, Cristiane. “Caminantes”. Santiago do Chile: Ediciones Gato de papel, 2003, p.9.
Jiddu Entrevista Cristiane Grando
Cristiane Grando é de Cerquilho, interior de São Paulo,
fez doutorado em Letras na USP e especializou-se na obra de Hilda Hilst.
Cristiane Grando, além disso, é uma poeta rigorosa e não
deixa sombra de dúvida sobre suas escolhas. Jovem ainda parece
caminhar adiante de sua geração. Nesta entrevista, você
vai saber mais sobre o brilho intenso de seu olhar e a agudez de sua criação. La Estrada- Algumas pessoas dizem que estudar, estudar e estudar pode ser uma vocação ou até mesmo um impulso em direção a algo misterioso que nunca se encontra. Você, sendo muito jovem, tem tido uma dedicação plena à leitura e à busca do conhecimento, o que te coloca num patamar de menos de 5% da população brasileira. Você se sente só? É uma forma de fugir da morte? É um senso de compromisso? Cristiane
Grando - Ler me proporciona, muitas vezes, o prazer da descoberta.
É uma forma de desvendar um pouco mais o mundo. Assim como viajar.
A leitura de textos literários mexe muito com a imaginação;
você lê e imagina os personagens, os cenários que eles
freqüentam... A literatura trabalha com a imagem acústica:
os escritores descrevem cenas, pessoas, relacionamentos, mas boa parte
do que o leitor enxerga mentalmente ao realizar uma leitura depende de
seu próprio imaginário. No meu caso, a leitura tem um senso
de compromisso pois sou educadora e escritora, o que me torna duplamente
responsável por tudo o que falo e escrevo. A leitura funciona como
um meio de busca de conhecimentos mais profundos dos assuntos que abordo
em aulas e livros. LE - Uma tese de doutorado sobre a escritora, poeta e dramaturga brasileira Hilda Hilst (1930-2004). A escolha foi uma provocação? CG - Quando decidi estudar Hilda Hilst, em 1995, não tinha muita idéia do compromisso que estava assumindo. A Hilda merece ser estudada, aliás, se me permitem uma sugestão, diria que todos os poetas jovens deveriam conhecer profundamente a obra da Hilda, pois é uma experiência de crescimento enquanto ser humano e enquanto ser que utiliza a linguagem de forma inovadora e em função de questionar o mundo, as atitudes e pensamentos dos seres humanos.
CG
- Lendo seus poemas, graças à recomendação
de Flávia Leão, coordenadora do CEDAE-IEL-UNICAMP, Centro
de Documentação onde se conservam os manuscritos de Hilda
Hilst. Foi uma experiência tocante! Amava tudo o que lia e não
compreendia bem o porquê. A Hilda consegue transmitir todo um universo
da mulher, amante e poeta, que assume seu espaço em igualdade com
o homem, num mundo dominado geralmente pela visão masculina. A
Hilda foi longe com seu trabalho literário e suas atitudes na vida
em sociedade, contribuindo muito certamente para a conquista de um espaço
feminino de direitos iguais entre homens e mulheres. Sempre lutarei por
isso e vejo na Hilda uma inspiração nesse sentido. A Hilda
enquanto pessoa foi extremamente generosa. Mas, num primeiro contato,
provocava medo, estranhamento e encantamento. Ela foi muito diferente
da mulher e do homem convencionais; inteligentíssima, uma pessoa
com uma profunda sensibilidade. Foi alguém que leu muito e refletiu
sobre a vida, o mundo, os relacionamentos humanos. Seu conhecimento tão
amplo provocava medo em algumas pessoas, o que a deixava triste. Ela não
compreendia que era vista e valorizada por muitos como se fosse uma cordilheira,
por sua grandeza e imensidão, o que algumas vezes pode provocar
certo “frisson”. Manuscritos de Cristiane Grando fotografados pela autora, 2002.
LE - Emanuel Kant, dizem, nunca saiu de sua cidade natal, e escreveu a "Crítica da Razão Pura". Dizem também que o máximo que Machado de Assis fez foi ir até Paquetá para passear, a convite de amigos, e foi, no entanto, um dos maiores tradutores de seu contemporâneo francês, Victor Hugo. Você, da pequena Cerquilho-SP, conquistou o título de doutora na USP, viveu na França e ainda tem esta movimentação rápida de estar circulando todo o tempo pelo imenso Brasil. O mundo é hoje uma grande Cerquilho ou Cerquilho é o mundo? CG
- As duas coisas. Minha proposta é atuar na região estando
sempre conectada ao mundo, o que influencia certamente a forma de pensar
e agir, tornando-a mais adequada à realidade e à expressão
cultural e científica da atualidade. Tento conectar Cerquilho ao
mundo através de minhas viagens, levando às pessoas que
não saem experiências por que passo. O projeto “Jardim
das Artes: espaço cultural e residência internacional de
artistas” tem esse objetivo. Nesse momento, estou trabalhando com
o arquiteto e professor Jorge Bercht. Estamos criando duas trilogias de
audiovisuais – “Fluimagens: poemas em coreocromia” e
“Poemagens: poemas de amor de Pablo Neruda, Hilda Hilst e Cristiane
Grando” – num total de seis peças. É uma experiência
incrível, uma oportunidade nova de desenvolver mais a sensibilidade
imagética e musical, pois integra diversas linguagens criativas,
como a poesia, a fotografia e a música. A trilogia “Fluimagens”
é um dos primeiros projetos do “Jardim das Artes”,
assim como vários outros, que venho desenvolvendo com o poeta chileno
Leo Lobos e a estudante de Letras da UNESP-Assis Aline Sales. Leo Lobos
é o primeiro artista residente do “Jardim”; ele está
desenvolvendo vários projetos artísticos, escrevendo um
livro e iniciando uma nova fase criativa na produção de
desenhos e pinturas, uma interessante obra que pretendo difundir a princípio
no Brasil, Chile e França.
CG - A proposta dos demóticos, de sorteio ou ordem de chegada para obter espaços públicos para exposição, é louvável e deveria ser incentivada em várias cidades como uma das formas de combater o academicismo extremo e petulante, a máfia artística e cultural, os grupos de poder que excluem artistas que têm uma obra maravilhosa, mas que não têm poder econômico e/ou político. Minha proposta, especialmente para cidades pequenas, onde os artistas têm em geral pouco acesso a livros e museus, antes de aplicar a sugestão dos demóticos, seria mais interessante levar ateliês com artistas-professores vários, de cidades e até de países distintos. Apesar de estarmos na era digital, a maior parte dos artistas de cidades interioranas que conheço infelizmente não utiliza ainda a internet como forma de aprofundar conhecimentos. Antes de realizar concurso e exposição, sou a favor da organização de palestras, cursos, ateliês. É uma necessidade das cidades que estão fora dos grandes centros. Depois de ampliar a visão de mundo e de praticar muito a própria expressão artística, aí sim a apresentação ao público é fundamental como uma das fases da criação artística. LE
- Você tem traduzido para o português poemas do artista chileno
Leo Lobos, que faz instigantes experimentos sonoros, inclusive um experimento
preenchido com o silêncio dentro de uma estratégia de sonoridade
impressionante em seu idioma, o espanhol, criando elementos quase onomatopaicos
e percepções lingüísticas de outras culturas,
enfim, a riqueza sonora que impressionou os brasileiros quando ele esteve
no “Congresso Brasileiro de Poesia” no ano de 2003, na cidade
de Bento Gonçalves-RS.
Paz
Carvajal e Leo Lobos por Cristiane Grando, CAMAC, Marnay-sur-Seine, França,
2003
CG
- Conheci o poeta e criador Leo Lobos e a artista visual chilena Paz Carvajal
no Centre d´Art Marnay Art Center (CAMAC), onde
moramos quatro meses, em 2002, realizando uma residência artística
graças à bolsa UNESCO-Aschberg. CAMAC, instituição
francesa patrocinada pela Fundação Frank Ténot e
pelo Ministério da Cultura da República Francesa, está
localizada em Marnay-sur-Seine e é dirigida pela arquiteta e escultora
canadense Alexandra Keim e pelo francês Jean Yves Coffre. CG
- “Caminantes” é um livro que escrevi na França
em 2002. Alguns poemas foram escritos em francês, outros em português.
Foi um processo bem interessante, pois assim que terminava de criar um
poema, eu mesma realizava a tradução para o português,
quando estava escrito originalmente em francês, e vice-versa. Quando
se escreve e se traduz ao mesmo tempo, o processo criativo é bem
mais amplo: é preciso reler o poema muitas vezes mais que o processo
mais comum, o de escrever numa única língua, até
encontrar a expressão exata para as duas línguas. Tive o
privilégio de conhecer na França o poeta chileno Leo Lobos,
que traduziu “Caminantes” para o espanhol. Em outras palavras,
“Caminantes” está publicado em três línguas.
O livro também conta com fotos que realizei na França durante
um estágio criativo no CAMAC, com uma excelente apresentação
na 4ª capa, escrita pelo Prof. Dr. Philippe Willemart, titular de
Literatura Francesa da Faculdade de Letras da USP, com um belíssimo
prólogo escrito pelo poeta chileno Sergio Rodríguez Saavedra
e com uma cronologia realizada com muita seriedade e rigor acadêmico
pela estudante de Letras da UNESP-Assis, Aline Sales. A criação
e publicação de “Caminantes” foi possível
graças ao apoio da bolsa UNESCO-Aschberg de Literatura, do Ministério
da Cultura da República Francesa, da Fundação Frank
Ténot, do CAMAC, e contou também com o apoio incondicional
de meus amigos Jorge Bercht e Leo Lobos. Aqui em Santiago, “Caminantes”
tem feito sucesso entre poetas e artistas em geral. O formato do livro
e a capa têm sido muito elogiados, a diagramação,
as fotos, os poemas, as traduções. Estou muito feliz, pois
vários poetas que leram o livro têm me escrito e-mails com
belos comentários. Outros me encontram pessoalmente e elogiam sem
cessar. Está sendo um verdadeiro sucesso. O poema "Os amores
de Edgar Allan Poe", inspirado na "Quadrilha" do Drummond
e na biografia de vários poetas franceses, tem gerado um “frisson”
em praticamente todos os leitores.
JS
– Quem é Cristiane Grando por Cristiane Grando?
metade
de mim é gato de
um lado firme do
outro com
a música auto-retrato II às
vezes sou galo; muitas
outras, sol; LE
- Que mensagem você gostaria de deixar para os leitores do “La
Estrada”?
Do livro “Caminantes” de Cristiane Grando, que foi lançado no Brasil em 2004. Para entrar em contato com a escritora: crisgrando@yahoo.com.br Fotos de Leo Lobos e Cristiane Grando em Santiago do Chile - 2003. Ao fundo, a Cordilheira dos Andes. Entrevista Concluída em Janeiro de 2004 jidduks@uol.com.br
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