Home Literatura Livros Musica Artes Plasticas Dança Teatro Ópera
Cinema Fotografia Saúde Integral Cultura Espiritualidade Aparições Revelações Contato

 

Augusto de Campos: “a poesia que faço é a do artesão”

__________________

Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um otimista incurável

__________________

Jose Aloise Bahia - colecionando arte e promovendo cultura

__________________

Leo Gilson Ribeiro – acreditando na inteligência do homem

__________________

Joaquim Brasil Fontes: traduzindo o mundo grego e falando de metamorfoses

__________________

No caminho com Neuza Pinheiro

Bárbara Lia
__________________

Jiddu

__________________

Entrevista com Renata Pallottini

__________________

Voltar


 

 

 

Um gesto em direção à poética do fluir

Sergio Rodríguez Saavedra*


Um verso é uma busca em qualquer idioma, em qualquer lugar do mundo, ainda mais se tem poesia e som de escritura no papel aberto ao destino que vem. E esse som é a estrela e sua luz. Assim, com os sentidos atentos, vem Cristiane Grando com seus Caminhantes atravessando a metade do mundo para depositar suas palavras nas línguas de Rimbaud, de Cervantes e do amado Jorge. Um gesto em direção à poética do fluir, do trançado no qual resvala o tempo. O que importa se aconteceu ou se ela vem hoje a cantar? Importa o movimento – de dentro para fora, do exterior ao interior, do pai à filha, da neve ao fogo. Digo isso porque os elementos têm sido sensíveis à sua escritura e é provável que a estadia em CAMAC apresentou para seus olhos territórios onde os pensamentos entraram em contato com o espaço – e desse arrepio tomou experiências que se refletiram no nível da escritura.
Cristiane sabe do arriscar-se a experimentar, o que demonstra não somente em seu amplo saber, mas também nas diversas estações percorridas até chegar à nossa publicação. O caminho tem sido avançado com passos sensíveis, como nos versos “vejo-te no céu, meu pai/ anjo de asas frágeis// vejo-te no rio, meu pai/ água-vento que me banha num sonho mágico”, que nos permitem estabelecer a relação entre homem e vôo. Diria o crítico – do pensar ao sentir. Por isso, num prólogo que deseja fazer justiça à companhia e à dedicação, manifesto o agradecimento pela poesia que hoje nos deixa entrar em seu som de página mexida por mão de mulher e pela ponte que, nos idiomas nascidos do verbo latino, hoje se entrelaçam. Esse mesmo espaço em que se mesclam as línguas antes ditas traz outro encontro: a sensibilidade de duas áreas físicas que buscam sua saída através dos textos – o ritmo do sol equatorial e o rigor que o frio deposita nas construções do velho mundo. Nesse sentido me vêm à memória algumas palavras de Philippe Sollers definindo esse espaço intertextual como “o lugar onde se estruturam [as] diferenças”. E anunciamos então que as distintas influências confluem para entregar-nos uma dupla sedução: o dever sagrado e a lucidez. Nas palavras da autora: “o silêncio da solidão e das portas/ da imaginação”. Entremos com todos os sentidos abertos.

* In: GRANDO, Cristiane. “Caminantes”. Santiago do Chile: Ediciones Gato de papel, 2003, p.9.

 

Jiddu Entrevista Cristiane Grando

Cristiane Grando é de Cerquilho, interior de São Paulo, fez doutorado em Letras na USP e especializou-se na obra de Hilda Hilst. Cristiane Grando, além disso, é uma poeta rigorosa e não deixa sombra de dúvida sobre suas escolhas. Jovem ainda parece caminhar adiante de sua geração. Nesta entrevista, você vai saber mais sobre o brilho intenso de seu olhar e a agudez de sua criação.

La Estrada- Algumas pessoas dizem que estudar, estudar e estudar pode ser uma vocação ou até mesmo um impulso em direção a algo misterioso que nunca se encontra. Você, sendo muito jovem, tem tido uma dedicação plena à leitura e à busca do conhecimento, o que te coloca num patamar de menos de 5% da população brasileira. Você se sente só? É uma forma de fugir da morte? É um senso de compromisso?

Cristiane Grando - Ler me proporciona, muitas vezes, o prazer da descoberta. É uma forma de desvendar um pouco mais o mundo. Assim como viajar. A leitura de textos literários mexe muito com a imaginação; você lê e imagina os personagens, os cenários que eles freqüentam... A literatura trabalha com a imagem acústica: os escritores descrevem cenas, pessoas, relacionamentos, mas boa parte do que o leitor enxerga mentalmente ao realizar uma leitura depende de seu próprio imaginário. No meu caso, a leitura tem um senso de compromisso pois sou educadora e escritora, o que me torna duplamente responsável por tudo o que falo e escrevo. A leitura funciona como um meio de busca de conhecimentos mais profundos dos assuntos que abordo em aulas e livros.
Muitas vezes também leio para me sentir só. A solidão necessária para ler me faz bem; sinto-me em paz, sinto-me instigada a criar... É maravilhoso ler, especialmente quando estou num ambiente de silêncio.

LE - Uma tese de doutorado sobre a escritora, poeta e dramaturga brasileira Hilda Hilst (1930-2004). A escolha foi uma provocação?

CG - Quando decidi estudar Hilda Hilst, em 1995, não tinha muita idéia do compromisso que estava assumindo. A Hilda merece ser estudada, aliás, se me permitem uma sugestão, diria que todos os poetas jovens deveriam conhecer profundamente a obra da Hilda, pois é uma experiência de crescimento enquanto ser humano e enquanto ser que utiliza a linguagem de forma inovadora e em função de questionar o mundo, as atitudes e pensamentos dos seres humanos.


LE - Como se deu seu primeiro contato com Hilda Hilst?

CG - Lendo seus poemas, graças à recomendação de Flávia Leão, coordenadora do CEDAE-IEL-UNICAMP, Centro de Documentação onde se conservam os manuscritos de Hilda Hilst. Foi uma experiência tocante! Amava tudo o que lia e não compreendia bem o porquê. A Hilda consegue transmitir todo um universo da mulher, amante e poeta, que assume seu espaço em igualdade com o homem, num mundo dominado geralmente pela visão masculina. A Hilda foi longe com seu trabalho literário e suas atitudes na vida em sociedade, contribuindo muito certamente para a conquista de um espaço feminino de direitos iguais entre homens e mulheres. Sempre lutarei por isso e vejo na Hilda uma inspiração nesse sentido. A Hilda enquanto pessoa foi extremamente generosa. Mas, num primeiro contato, provocava medo, estranhamento e encantamento. Ela foi muito diferente da mulher e do homem convencionais; inteligentíssima, uma pessoa com uma profunda sensibilidade. Foi alguém que leu muito e refletiu sobre a vida, o mundo, os relacionamentos humanos. Seu conhecimento tão amplo provocava medo em algumas pessoas, o que a deixava triste. Ela não compreendia que era vista e valorizada por muitos como se fosse uma cordilheira, por sua grandeza e imensidão, o que algumas vezes pode provocar certo “frisson”.

Manuscritos de Cristiane Grando fotografados pela autora, 2002.

 

LE - Emanuel Kant, dizem, nunca saiu de sua cidade natal, e escreveu a "Crítica da Razão Pura". Dizem também que o máximo que Machado de Assis fez foi ir até Paquetá para passear, a convite de amigos, e foi, no entanto, um dos maiores tradutores de seu contemporâneo francês, Victor Hugo. Você, da pequena Cerquilho-SP, conquistou o título de doutora na USP, viveu na França e ainda tem esta movimentação rápida de estar circulando todo o tempo pelo imenso Brasil. O mundo é hoje uma grande Cerquilho ou Cerquilho é o mundo?

CG - As duas coisas. Minha proposta é atuar na região estando sempre conectada ao mundo, o que influencia certamente a forma de pensar e agir, tornando-a mais adequada à realidade e à expressão cultural e científica da atualidade. Tento conectar Cerquilho ao mundo através de minhas viagens, levando às pessoas que não saem experiências por que passo. O projeto “Jardim das Artes: espaço cultural e residência internacional de artistas” tem esse objetivo. Nesse momento, estou trabalhando com o arquiteto e professor Jorge Bercht. Estamos criando duas trilogias de audiovisuais – “Fluimagens: poemas em coreocromia” e “Poemagens: poemas de amor de Pablo Neruda, Hilda Hilst e Cristiane Grando” – num total de seis peças. É uma experiência incrível, uma oportunidade nova de desenvolver mais a sensibilidade imagética e musical, pois integra diversas linguagens criativas, como a poesia, a fotografia e a música. A trilogia “Fluimagens” é um dos primeiros projetos do “Jardim das Artes”, assim como vários outros, que venho desenvolvendo com o poeta chileno Leo Lobos e a estudante de Letras da UNESP-Assis Aline Sales. Leo Lobos é o primeiro artista residente do “Jardim”; ele está desenvolvendo vários projetos artísticos, escrevendo um livro e iniciando uma nova fase criativa na produção de desenhos e pinturas, uma interessante obra que pretendo difundir a princípio no Brasil, Chile e França.
Com o “Jardim das Artes”, Cerquilho deixará de ser uma cidade praticamente desconhecida para ser um ponto de referência cultural e de educação, um espaço de troca de experiências entre todos os interessados em participar das propostas. Esse é meu desejo.


LE – Gostaria que você falasse um pouco mais sobre o “Jardim das Artes”.

CG - O “Jardim das Artes” é formado basicamente por dois ramos: um espaço cultural; e uma residência internacional de artistas. Enquanto espaço cultural pretende suprir as necessidades culturais – artísticas e educacionais – de Cerquilho e região. Enquanto residência internacional de artistas queremos receber artistas brasileiros e estrangeiros para realizarem trabalhos de criação e de divulgação artística do que criam. A princípio, estamos realizando uma troca cultural muito intensa com artistas e intelectuais chilenos: em especial poetas, escritores, jornalistas, professores universitários, escultores, artistas plásticos e visuais. O projeto é amplo e pretende receber todas as propostas culturais que tenham alto nível artístico e educacional. Já estamos trabalhando em equipes pequenas desde agosto de 2003. A inauguração oficial do “Jardim das Artes” será na semana de 10 a 18 de julho de 2004 e contará certamente com eventos relacionados à obra da poeta brasileira Hilda Hilst (Jaú, 1930 – Campinas, 2004), ao centenário do nascimento do poeta chileno Pablo Neruda (Parral, 1904 – Santiago do Chile, 1973) e à multiplicidade do trabalho artístico do arquiteto Jorge Bercht (Porto Alegre, 1922), que mostrará exposições de fotografia e de desenhos arquitetônicos, apresentações de audiovisuais e de músicas tocadas em distintas gaitas... Leituras de poemas, palestras, exposições, bate-papos... o “Jardim das Artes” é um espaço de diálogos.
LE - A mulher doutora era algo “impensável” durante o modernismo, razão pela qual os demóticos e ultra atuais acreditam que esse modelo de contemporaneidade herdado da visão modernista tem de ser ressignificado em modos mais inclusivos, considerando a realidade brasileira e as novas demandas populares da arte, da política, da vida social como um todo. Que aspecto de mudança é possível trilharmos para um mundo mais demótico?

CG - A proposta dos demóticos, de sorteio ou ordem de chegada para obter espaços públicos para exposição, é louvável e deveria ser incentivada em várias cidades como uma das formas de combater o academicismo extremo e petulante, a máfia artística e cultural, os grupos de poder que excluem artistas que têm uma obra maravilhosa, mas que não têm poder econômico e/ou político. Minha proposta, especialmente para cidades pequenas, onde os artistas têm em geral pouco acesso a livros e museus, antes de aplicar a sugestão dos demóticos, seria mais interessante levar ateliês com artistas-professores vários, de cidades e até de países distintos. Apesar de estarmos na era digital, a maior parte dos artistas de cidades interioranas que conheço infelizmente não utiliza ainda a internet como forma de aprofundar conhecimentos. Antes de realizar concurso e exposição, sou a favor da organização de palestras, cursos, ateliês. É uma necessidade das cidades que estão fora dos grandes centros. Depois de ampliar a visão de mundo e de praticar muito a própria expressão artística, aí sim a apresentação ao público é fundamental como uma das fases da criação artística.

LE - Você tem traduzido para o português poemas do artista chileno Leo Lobos, que faz instigantes experimentos sonoros, inclusive um experimento preenchido com o silêncio dentro de uma estratégia de sonoridade impressionante em seu idioma, o espanhol, criando elementos quase onomatopaicos e percepções lingüísticas de outras culturas, enfim, a riqueza sonora que impressionou os brasileiros quando ele esteve no “Congresso Brasileiro de Poesia” no ano de 2003, na cidade de Bento Gonçalves-RS.
O Brasil conhece pouco a poesia chilena, ainda que aquele país tenha conquistado dois prêmios “Nobel de Literatura”. É possível dizer que aqui conhecemos mais a poesia européia, excluindo inexplicavelmente a poética em língua espanhola, com exceção evidentemente de medalhões como Neruda, que a poesia latino-americana? Como você lida com este fenômeno, esta solidão? O Brasil está, de fato, de costas viradas para os países vizinhos?

Paz Carvajal e Leo Lobos por Cristiane Grando, CAMAC, Marnay-sur-Seine, França, 2003

 

CG - Conheci o poeta e criador Leo Lobos e a artista visual chilena Paz Carvajal no Centre d´Art Marnay Art Center (CAMAC), onde moramos quatro meses, em 2002, realizando uma residência artística graças à bolsa UNESCO-Aschberg. CAMAC, instituição francesa patrocinada pela Fundação Frank Ténot e pelo Ministério da Cultura da República Francesa, está localizada em Marnay-sur-Seine e é dirigida pela arquiteta e escultora canadense Alexandra Keim e pelo francês Jean Yves Coffre.
Traduzir a poesia de Leo Lobos está sendo uma experiência impressionante. Temos compartilhado experiências criativas no campo da literatura, fotografia, desenho e pintura, tanto na França quanto no Chile e no Brasil. O Leo traduz meus poemas para o espanhol e eu traduzo os seus para o português e o francês. Além de estimular o estudo do espanhol, Leo Lobos apresentou-me muitos aspectos das obras de grandes autores chilenos, muitos desconhecidos para os brasileiros, inclusive para estudantes de letras: os prêmios Nobel de Literatura de 1945 e 1971, respectivamente Gabriela Mistral e Pablo Neruda, além de muitos outros escritores, como Gonzalo Rojas, Armando Uribe, Jorge Teillier, Enrique Lihn, Nicanor Parra, Raúl Zurita, Paz Molina, Pedro Lemebel, Andrés Velasco, Volodia Teitelboim, Jaime Huenún, Bernardo Colipán e vários poetas mapuches Francisco Véjar, Armando Roa Vial, Bruno Serrano, Jorge Montealegre, Eduardo Llanos Melussa, Sergio Rodríguez Saavedra e o poeta da ilha de Chiloé, Mario Garcia. Conheci a obra de vários artistas plásticos como do famoso surrealista Roberto Matta e dos contemporâneos Rafael Insunza, Paulina Jarpa, Alex Chellew, Jorge Cerezo, Sandra Accatino e José Balmés, do escultor Marco Suitt, dos arquitetos Ramiro Insunza e Cristian Olea, a trabalho cultural de Ana María Dias, diretora da casa-museu “La Chascona” (Fundación Neruda), o trabalho de jornalismo cultural de Cristián Warnken, Francisco Véjar, Sergio Ojeda e Elisa Cárdenas, dos cantores Victor Jara, Violeta Parra e do grupo Los Jaivas. Leo Lobos também me apresentou poeta norte-americano Stephanos Papadopoulos em Santiago, os poetas Ram Devineni, Edwin Torres e Flávia Rocha em São Paulo, editores da revista “Rattapallax” (EUA), que organizaram em 2003 duas noites de leitura com a participação de vários poetas brasileiros e norte-americanos, entre eles o Prêmio Pulitzer Yusef Komunyaaka e os brasileiros Ademir Assunção, editor da revista Coyote, Fábio Weintraub, editor da revista Rodapé, e o poeta Ruy Proença. É verdade que nós, brasileiros, conhecemos muito pouco da cultura e da história dos países da América. Os chilenos também conhecem muito pouco da cultura brasileira, com exceção de cantores de MPB. Cabe a nós, artistas, mudar essa situação através de intercâmbios culturais, troca de informação via internet, viagens pela América e pelo mundo, divulgando nosso trabalho e de nossos conterrâneos, e estando sempre abertos, é claro, a conhecer, a estudar e a valorizar outras culturas.

LE - Você acaba de lançar no Chile o seu livro “Caminantes”. Fale um pouco sobre ele. O que, de fato, esse livro inaugura no seu processo criativo e em seu fazer poético?

CG - “Caminantes” é um livro que escrevi na França em 2002. Alguns poemas foram escritos em francês, outros em português. Foi um processo bem interessante, pois assim que terminava de criar um poema, eu mesma realizava a tradução para o português, quando estava escrito originalmente em francês, e vice-versa. Quando se escreve e se traduz ao mesmo tempo, o processo criativo é bem mais amplo: é preciso reler o poema muitas vezes mais que o processo mais comum, o de escrever numa única língua, até encontrar a expressão exata para as duas línguas. Tive o privilégio de conhecer na França o poeta chileno Leo Lobos, que traduziu “Caminantes” para o espanhol. Em outras palavras, “Caminantes” está publicado em três línguas. O livro também conta com fotos que realizei na França durante um estágio criativo no CAMAC, com uma excelente apresentação na 4ª capa, escrita pelo Prof. Dr. Philippe Willemart, titular de Literatura Francesa da Faculdade de Letras da USP, com um belíssimo prólogo escrito pelo poeta chileno Sergio Rodríguez Saavedra e com uma cronologia realizada com muita seriedade e rigor acadêmico pela estudante de Letras da UNESP-Assis, Aline Sales. A criação e publicação de “Caminantes” foi possível graças ao apoio da bolsa UNESCO-Aschberg de Literatura, do Ministério da Cultura da República Francesa, da Fundação Frank Ténot, do CAMAC, e contou também com o apoio incondicional de meus amigos Jorge Bercht e Leo Lobos. Aqui em Santiago, “Caminantes” tem feito sucesso entre poetas e artistas em geral. O formato do livro e a capa têm sido muito elogiados, a diagramação, as fotos, os poemas, as traduções. Estou muito feliz, pois vários poetas que leram o livro têm me escrito e-mails com belos comentários. Outros me encontram pessoalmente e elogiam sem cessar. Está sendo um verdadeiro sucesso. O poema "Os amores de Edgar Allan Poe", inspirado na "Quadrilha" do Drummond e na biografia de vários poetas franceses, tem gerado um “frisson” em praticamente todos os leitores.

 

JS – Quem é Cristiane Grando por Cristiane Grando?
CG - Essa é uma pergunta de resposta difícil. Difícil porque é sempre duvidosa a imagem que se cria de si mesmo. É claro que a tendência é a de aumentar as qualidades e minimizar os defeitos. Isso é uma catástrofe nos relacionamentos amorosos, sobretudo quando somos adolescentes. Quando se quer conhecer o outro da forma que ele realmente é, mais interessante é observar suas ações que suas palavras... As pessoas são o que fazem e não o que falam e dizem que são... muitas vezes, um indivíduo é completamente diferente do que diz ser. Falar sobre si mesmo é a maior mentira que alguém pode contar... (risos) por isso as autobiografias são ficções, a meu ver, apesar de conterem muitos episódios que retratam a realidade. É que o ser humano sempre fala ou escreve de acordo com seu próprio ponto de vista; e vale lembrar que tudo na vida pode ser olhado de diversas maneiras... Para mim, são sempre relativos os conceitos de verdade e realidade, inclusive quando se trata de temas religiosos. Por isso, prefiro me definir por meio da palavra poética, que é muito menos traiçoeira que a palavra usada no dia-a-dia, porque a palavra poética consegue captar sentimentos e sensações muito fortes, como se fosse um dever do poeta registrar com imagens tudo o que sente e vê, experiências próprias e alheias:


auto-retrato

metade de mim é gato
e a outra, ágata

de um lado firme
dura como a rocha

do outro
um gato negro
místico
deslumbrado

com a música
das palavras

auto-retrato II

às vezes sou galo;
acordo às cinco
e canto

muitas outras, sol;
às sete me desperto
escrevo e choro

LE - Que mensagem você gostaria de deixar para os leitores do “La Estrada”?
CG - Para todos os leitores do “La Estrada”, minha mensagem dos últimos tempos: amor e poesia. Sonhar e trabalhar para alcançar os sonhos, o que na maioria das vezes significa ler muito.
o poeta tem um único dever sagrado:
partir


partir em busca de lucidez e de luz
e flores do bem e do mal
e cantigas sem palavras
e anjos sem asas
e

Do livro “Caminantes” de Cristiane Grando, que foi lançado no Brasil em 2004. Para entrar em contato com a escritora: crisgrando@yahoo.com.br

Fotos de Leo Lobos e Cristiane Grando em Santiago do Chile - 2003. Ao fundo, a Cordilheira dos Andes.

Entrevista Concluída em Janeiro de 2004

jidduks@uol.com.br